Que caralhos ele pensa que tá fazendo?

Tem tanta coisa mais importante pra resolver agora: cumprir o castigo depois de ter brigado com o Deku, a prova de recuperação do exame de licença provisória, as aulas que ele tá perdendo, a velha doida que é a mãe dele enchendo o saco por causa disso tudo… nem o All Might garantindo que nada do que aconteceu em Kamino foi culpa dele diminuiu essa merda de angústia que ele tá sentindo, e o pior é que não tem nada a ver com essas coisas, tem a ver com ela.

Katsuki já tava esperando, e acabou acontecendo: os rumores sobre o tal Jogo da Garrafa diminuíram quando o dia da prova chegou. Mas mesmo assim, Uraraka continua fugindo dele como se ele tivesse uma doença contagiosa. A diferença é que ela não parece mais tão pistola, as poucas vezes que os olhares dele cruzaram com os dela nas horas das refeições, ela só ficou vermelha e puxou assunto com quem quer que estivesse por perto pra disfarçar.

Porque o imbecil aqui falou demais e acabou admitindo que ele queria beijá-la. Ele sabe que na hora da raiva, algumas coisas que nunca deveriam ser ditas acabam escapando dele, mas o problema é que admitir pra ela significa admitir pra ele mesmo algo que não tinha pensado muito a fundo. Ele não queria que os sete minutos tivessem acabado naquela hora, Katsuki queria mais tempo, ele queria beijá-la.

E tá bom, talvez até fosse um pouquinho pra ser cuzão com o Deku, que não queria de jeito nenhum que os dois fossem pro armário juntos, mas a real é que quando ela caiu em cima dele e deu aquela risadinha, quando ele sentiu qual parte do braço dela é macia e qual parte é músculo, quando aquele cheiro de shampoo impregnou suas narinas, a última coisa passando pela cabeça dele era o nerd. Era só ela, e em como seria beijá-la.

Ela teria tentado impedi-lo? Ficaria tensa e o empurraria? Ou ela devolveria o beijo? Chegaria mais perto e apoiaria as mãos no peito dele? Ou o abraçaria, puxando de leve o cabelo dele? Será que ela usaria língua?

Como é que se beija de língua, pra começo de conversa?

Katsuki sacode a cabeça, tentando afastar esses pensamentos que não só são inúteis, como dão uma sensação estranha, deixando-no com mais calor do que o normal. Esquece isso, os rumores praticamente pararam, tá na hora de voltar pra aula e se preparar pra aguentar o Meio a Meio nas aulas de recuperação.

Só que tem uma coisa: “praticamente” não é a mesma coisa que “totalmente”, então é quase um déjà-vu quando ele sai do chuveiro e ouve os outros idiotas conversando.

— Por quantos dias você vai ficar sem vir, Kirishima?

— Não sei ainda, mas não deve ser muito. O Midoriya e a Tsuyu tão de boa, a Uraraka que tava meio preocupada de perder matéria e tal, mas depois a gente recupera, né?

— Ah, você é sortudo mesmo! Vai numa missão secreta e depois ainda vai ter reforço com a Uraraka… — Tá, Fita Crepe, você é a fim dela, já deu pra entender.

— Mas vem cá… — e essa voz… ugh, Cabeça de Uva. Nada de bom pode vir quando ele fala nesse tom — o Bakugou tá sabendo disso? Talarico morre cedo, hein, Kiri?

— Que mané talarico! Se liga, cara! E ó, chega de falar nisso daí que nem o Bakugou nem a Uraraka gostam, ainda mais porque nem é verdade!

— Aham, claro que não é. — o pervertidozinho fala com muita ironia pro gosto dele — Não gosta, não gosta do quê? Foi só uma mordidinha, não foi? Se fosse eu com ela no escuro, eu tinha era- UURGH!

Ele nem vê o que tá fazendo, só se move. Pega o taradinho pelo pescoço e o prensa contra um dos armários, fazendo-no bater a parte de trás da cabeça com força.

— Ba...ku... gou, aargh — o Cabeça de Uva se contorce, engasgando.

— Fala o que você ia terminar de falar, se tiver coragem, seu bosta! — ele nem precisa gritar dessa distância, murmurando entre os dentes.

— Bakugou, calma aí, cara… — o Fita Crepe e o Cabelo de Ouriço erguem as mãos como se tivessem se rendendo, o Kirishima põe a mão no ombro dele.

— Já faz tempo que eu tô querendo pegar esse merdinha de boca grande! Escuta aqui, moleque: se você falar mais um “a” sobre ela, se você pensar em falar alguma coisa sobre ela, eu te quebro na porrada, tá entendendo? Eu vou te meter o dente tão forte que vai arrancar um naco e não tem Recovery Girl que conserte de volta, ouviu?

— O… dente…? — o otário arregala os olhos em pânico.

— É, não é você que tá querendo uma mordidinha? Então fica esperto, otário! — Bakugo o larga com tudo, afastando-se. Os punhos ainda cerrados. — Agora vê se faz alguma coisa de útil e pede desculpa pra Cara de Lua por toda a merda que você saiu espalhando!

— Mas… não… fui… eu… que… —Katsuki ergue uma das mãos, pronto pra soltar uma explosão — Ahhh! Tá bom! Tá bom! Eu vou pedir desculpa!

— É bom mesmo! Agora vaza! — e o Cabeça de Uva sai correndo.

Katsuki se vira pros outros caras, pronto pra perguntar se mais alguém tem alguma coisa pra falar. O Kirishima tá de braços cruzados, olhando pra ele como se fosse o pai dele.

— Cara, você é doido! Acabou de voltar do castigo e já tá arrumando briga de novo… — o Fita Crepe fala.

— Ah, mas até que foi por uma boa causa… gostei da atitude de macho, mano! — Kirishima sorri daquele jeito idiota dele. — Agora vê se põe uma roupa.

Ele congela ao entrar no elevador e dar de cara com a Uraraka. Ela também parece surpresa, olhos arregalados e ombros tensos quando ele entra e pára do lado dela. Porra, os dois tão descendo pra área comum. Katsuki torce pra entrar mais alguém, de preferência uma menina pra puxar assunto com ela e fazê-la esquecer da presença dele, mas o elevador começa a mexer, e mais ninguém entra.

— Indo tomar café da manhã? — ela pergunta, sem olhá-lo — A Jirou me disse que hoje tem arroz frito…

Ele não responde, vai responder o quê? E por que caralhos ela tá tentando jogar conversa fora?

— Cê vai ficar uns dias fora? O Kirishima tava falando… — ele sente a necessidade de explicar de onde ouviu isso pra ela não achar que ele tá se metendo na vida dela.

— Uhum, eu, a Tsuyu, o Deku e ele, é coisa do nosso estágio… como tá a recuperação do exame?

— Uma bosta! Tem uma menina doida lá que não fala nada com nada e um grandão imbecil, sem falar naquele metido do Meio a Meio! Dá vontade de mandar tudo à merda!

— Mas você não vai, né?

— Não… — ele resmunga — E você vê se não faz nada de idiota também nesse teu estágio aí!

— Claro, claro… — ela responde de um jeito amistoso, mas ele vê pelo reflexo da parede que ela tá revirando os olhos pra ele.

O elevador pára, e Katsuki quase suspira de alívio. Mas antes que ele possa sair, ela aperta um dos botões e a porta fecha de novo. Porra, que diabos ela quer? Ficou fingindo que não o conhece por quase um mês e agora vem com uma dessa?

— Então… o Mineta veio me pedir desculpa ontem… pelo que andaram falando sobre… a gente e o Jogo da Garrafa…

— E eu com isso? — ele fica na defensiva, evitando olhá-la diretamente.

— Nada, eu só queria te contar mesmo. Tipo, a escola toda ficou falando nisso, mas… eu fiquei bem feliz que pelo menos alguém veio me pedir desculpa diretamente… ainda mais alguém que eu não tava esperando…

— Aquele moleque é um idiota que não fez mais que a obrigação! — ele finalmente a encara — Enfim…

— Enfim?

— Nada, só… eu só acho que tenho que te pedir desculpa também. Então… foi mal por ser um babaca. — ele praticamente resmunga.

Ela balança a cabeça positivamente e, é impossível não perceber, morde o lábio inferior de leve.

— Ok, eu te desculpo. As pessoas já tão quase esquecendo disso mesmo… eu tô quase fazendo o Iida mudar de ideia, sabia?

— Pode mandar ele vir falar comigo se ele ainda tiver problema com isso! Aliás, qualquer figurante que tiver te enchendo o saco, pode mandar pra mim que eu me entendo com eles! — ela dá uma risadinha, e ele não sabe porque, mas fica muito… sem-graça, é quase como se ele tivesse ficando vermelho — Só até você voltar desse teu estágio ou sei lá o quê, depois você se vira, Cara de Lua!

Ele sente vontade de falar “Ou então a gente quebra a cara deles juntos…” mas seria uma coisa muito esquisita de se falar.

— Claro. Enfim… até mais, Bakugou! Boa sorte pra você! — ela aperta o botão e a porta se abre, o cheiro doce que tava perfumando o elevador sai com ela.

E volta um segundo depois, quando ela volta correndo e pára na frente dele.

— S-só mais… só mais uma coisa… porque… e-eu tô com um pouquinho de pressa. — as bochechas rosa dela parecem ainda mais escuras enquanto Uraraka passa uma mecha de cabelo por detrás da orelha.

— Que caralhos você quer ag- — e antes que ele possa terminar, ela se estica, e ele sente algo absurdamente macio pairar sobre seu rosto, e um “smack” suave perto da orelha.

Um beijo na bochecha, inocente e quase infantil quando ela se afasta e sai correndo. Mas é o suficiente pra fazer o coração dele martelar dentro do peito e o rosto pegar fogo como se ele tivesse explodido a própria cara. O que… que porra foi essa? Ela… ela também queria aquele beijo no armário? E… se ela não tivesse com pressa, será que ela….? O que teria rolado se eles tivessem mais tempo?

Bom, ele vai ter tempo suficiente pra pensar nisso até que ela volte desse estágio, e provavelmente vai parecer uma eternidade do caralho! Mas vai valer a pena, então talvez passe bem rápido. Esse negócio de tempo é bem relativo.

Notas finais
E é isso hauahsushuss Eu sei que não é o final mais empolgante ou interessante do mundo, é que foi minha primeira fic kacchako ever, então ainda tava testando e tal. Não é meu melhor trabalho, mas eu tenho um certo carinho por ela e tinha que repostar, pretendo mandar algumas fanfics kacchako melhores em breve. Obrigada por ter lido
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!