O sonho de Will

2 Águas imaginárias


Notas iniciais
Bem cá estou novamente com mais um cap dessa hic que estou gostando muito de escrever hehehe.. bem sem mais delongas boa leitura PS: O soneto que contem nesse cap é meu :)

Fazer compras com uma pessoa que é uma vegetariana radical não é lá uma coisa muito legal. Especialmente quando você passa umas três horas andando de um lado para outro no mercado lendo rótulos de produtos industrializados para ver se não contêm nada derivado da carne ou coisas do gênero e você não sabe o que é ter um dicionário com nomes estranhos na cabeça. Tia Hip tinha um grande desses, disso você pode ter certeza.

Dei graças quando passamos as compras, as guardamos em nosso fusca roxo e partimos novamente para casa.

– Agora é só cozinhar. – Falou tia Hip colocando duas caixas repletas de comida.

– E eu vou para o meu quarto. – Falei largando duas caixas de leite de soja.

– Está bom. Qualquer coisa eu te chamo. – Falou ela colocando seu avental florido para cozinhar enquanto eu ia para meu quarto.

Subi as escadas correndo e me joguei na cama. Tirei os tênis, puxei a colcha, me aconcheguei no colchão de água, que parecia se moldar totalmente ao meu magro corpo, e então fechei os meus olhos.

Eu precisava disso – do silêncio – onde tudo simplesmente se aquieta, onde uma névoa cobre tudo ao seu redor e da uma nova forma, uma nova cor, uma nova sensação. Eu gosto disso, é como se sua mente se abrisse para ver o mundo com outros olhos e não como todos dizem ser ou por aquela verdade que dizem para nos desde pequenos, que é a certa, pois afinal de contas o verdadeiro conhecimento da vida vem com os dias que passamos e não nos artigos, cálculos ou meramente ciência. Por isso prefiro minha imaginação, meu mundo, o meu sonho. Lá tudo é o que nunca quis ser...

Meus olhos se abriram lentamente. Podia sentir a brisa do mar pelo meu corpo, deixando o úmido, sabia que não estava em meu colchão de água, mas mesmo assim ficar ali deitado era algo bom e confortável. Sabia que não estava mais em meu quarto e sim em algum lugar perdido pela névoa do silêncio.

Levantei-me e olhei e encarei o horizonte. Um mar de águas negras que parecia nunca ter fim se formava a minha frente e bem lá no fundo, onde céu parecia se fundir com aquela água, uma lua crescente se estendia como se tivesse nascida daquela união e agora partia rumo a um céu estrelado.

Caminhei pela praia, atrás de mim um enorme paredão de rochas se erguia como se quisesse privar aquele lugar de todos e tudo, como se aquele pequeno e estreito espaço de areia molhada fosse proibido para qualquer um.

Suspirei e voltei meu olhar para o mar novamente, meus olhos começaram a estudar mais atentamente aquelas águas tão densa e por milésimos de segundos que fosse, consegui ver pequenas imagens, rostos, olhares e como um cochicho o vento soprou trazendo consigo um som, na verdade uma nota, que logo reconheci e então veio mais uma e outra.

Procurei de onde elas vinham, meus olhos percorreram a linha do horizonte até se fixarem em um pequeno ponto, um vulto que parecia flutuar por aquelas águas era de lá que estava vindo às notas que agora já haviam se unidos e formavam uma música que lá dentro, no canto esquecido de minha mente eu a conhecia.

Com um simples piscar de olhos, aquele vulto flutuante estava parando na minha frente. Era um pequeno barco a vela, extremamente arcaico, do que estava acostumado a ver nos programas da TV. Dentro dele havia um piano preto, em um estado impecável, era como se fosse novo e um homem, na verdade parecia mais um rapaz.

– Oras... Oras... O que os ventos trouxeram a esse mar perdido? – Falou o rapaz pulando para fora do barco. Ele não era muito mais alto do que eu e também era até mais magro que eu, se isso realmente era possível.

– O que? – Me limitei a falar enquanto analisava ele, suas roupas pareciam ter saído de um filme da época da Europa imperial. Onde os homens usavam aquelas camisa que tinham um tipo de babado nas mangas e por cima o que parecia ser um junção de terno e sobretudo em um tom amarelo claro, assim como suas calças e cartola.

– O que, o que? – Falou ele com uma expressão de confusão.

– O que é você? – Perguntei me afastando um pouco.

– O que eu sou...?- O modo que ele falou não soou como uma pergunta para mim, mas sim para ele. – Eu sou... Como se diz? – Ele colocou a mão no queixo e olhou para cima como se pensasse seriamente no assunto – É... eu sou...

– Como se diz o que? – Perguntei na tentativa de ajudá-lo.

– O que eu sou? – Ele falou com um tom de indignação.

Eu apenas o encarei, não sabia que tipo de louco ele era, na verdade não estava fazendo muito questão de saber, pois todo sonho tem aquela parte que ninguém entende aquele mistério que fica algumas vezes zunindo no nosso subconsciente do que aquilo era ou queria dizer.

Cada instante que se passava mais nervoso ele parecia estar em tentar falar o que ele era. Olhei para seu barco e novamente para ele e palavra correu por toda a minha mente, se tornando tão densa quanta pedra. – Barqueiro.

– Você é um barqueiro? – Falei tentando manter um tom ameno.

Ele olhou para mim com os olhos arregalados, eles tinham um tom de âmbar liquido, seu rosto era fino e comprido, com traços fortes e encoberto por uma barba rala e mal feita.

– Isso! Eu sou um barqueiro. – Ele estufou o peito e então bateu com o punho fechado bem onde fica o coração. – Eu sou o barqueiro do mar esquecido. – Sua voz soou forte pelo vento de forma que pareceu ecoar por toda praia.

– Barqueiro do mar esquecido?O que é isso? – Perguntei levantando uma das sobrancelhas.

– Isso sou eu. – Falou ele com uma expressão de bravo. – Não ouviu o que eu disse?

– O que é o mar esquecido? – Ignorei a pergunta tosca dele e fui direto ao ponto do que queria saber.

– Um mar de sonhos esquecidos O que mais poderia ser? Um pântano? – Falou ele debochado.

– Tanto faz. – Respondi entediado. Esse é mais uns dos motivos que não gosto de falar com pessoas, mesmo em sonho, algumas não sabem ser simpáticas com desconhecidos.

– E você o que está fazendo aqui? – Perguntou o barqueiro me encarando dos pés a cabeça.

– Eu acordei aqui, devo estar sonhando. Como sempre. – Respondi dando-lhe as costas e começando a caminhar pela praia novamente, não tinha motivos para ficar perdendo tempo com um sonho maluco como aquele cara.

– Um sonhador perdido! Interessante. – Sua voz trazia uma mistura de surpresa com curiosidade, o que me deixou ainda mais entediado e de mal humor.

Falar com pessoas sempre fora assim, me deixava de extremo mal humor, aguentar elas falando sobre suas vidas, sobre seus sonhos, se vangloriando por serem espertas ou por acharem que o conhecimento físico é tudo que precisamos, deve ser por isso que elas são tão vazias, tão ocas, tão desinteressantes. Deve ser por isso que um lugar desses existe – o mar perdido – sonhos esquecidos por mentes que foram costuradas na realidade e esqueceram a beleza de viver a mistura do fictício com o real.

– Ei garoto. – Falou o barqueiro me tirando do transe de meus pensamentos. Ele vinha correndo atrás de mim. – O que pretendes fazer agora?

– Tentar acordar. – Dei de ombros.

– Bem... Tenho uma proposta para te fazer. – Ele tirou a cartola da cabeça e sorriu. – Venha comigo navegar nessas águas? – Ele colocou a cartola em minha cabeça e fez um sinal de agradecimento. Bem isso provou que ele realmente é louco.

– Por qual motivo faria isso? – Perguntei tirando a cartola da minha cabeça.

– Pois você é um garoto que parece gostar de uma boa aventura e não vai dispensar a proposta de navegar por essas águas repletas de histórias já esquecidas. – Sua voz mantinha um tom calmo e misterioso, o que me fez pensar em sua proposta.

– Bem. Provavelmente irei acordar logo. O que tenho a perder. – Falei indo rumo ao pequeno barco à vela do barqueiro que estendeu um enorme e brilhante sorriso ao me ouvir.

– Incrível! – Falou ele feliz. – Nunca naveguei com sonhador perdido.

– Bem sempre tem a primeira vez. – Disse seco e sem olhar para ele. Acomodei-me na proa do barco, enquanto ele se arrumou em seu piano.

– Bem espero que goste de músicas tocadas no piano. – Disse antes de começar.

– Não me importo. – Respondi enquanto o barco começava a se mover, a música parecia ser o vento daquelas velas para aquele mar estranho. Bem, como todo sonho ai estava à parte que fugia da lógica, mas eu realmente não me importava, preferia assim, — o ilógico – aquilo que foge do comum, aquilo que você pode chamar de único ou maluco.

Navegamos por um bom tempo. Meus olhos haviam se prendido naquelas águas da cor do piche, agora as imagens não duravam apenas alguns segundos, mas sim pareciam filmes, às vezes via coisas sem pé ou cabeça, ou algo que parecia ser lembranças. Via alegria, tristeza, medo, coragem, amor, coisas que no meu caso nunca irei sentir assim tão vivido, tão marcante.

A música no piano era calma e desde que entramos no alto mar o barqueiro não pronunciara mais nenhuma palavra, apenas tocava enquanto as ondas embalavam o pequeno barco a vela.

A imagem que se formara era de um garoto louro com traços infantis sentado na rua coberto pela luz de um poste e ao seu redor era tudo era devorado por uma escuridão profunda como um buraco negro. O garoto não chorava, apenas fitava o nada como se pensasse em algo realmente importante para ele. Então uma mão surge daquele breu estendida como se convidasse para um grande aperto de mãos. O garoto a encarou.

De repente meus olhos pesaram e eu os fechei por alguns instantes e quando os abri havia mais um garoto na imagem aquele menino louro estava mais sozinho, havia mais um ali. Contudo não conseguia distinguir o outro, minha visão pareci tão cansada, embasada pelo sono que vinha se apoderando de meu corpo que não pude ver o resto daquela imagem.

– Bom retorno sonhador...

Acordei com tia Hip gritando no meu ouvido.

– Vamos acordar bela adormecida. – Ela batia de leve em meu rosto. – Daqui a pouco a visita chega e você está ai babando ainda.

– Já to acordado. – Falei um pouco alto demais.

– Então levante e se arrume já é quase seis horas da noite. – Falou ela descendo a escada.

Suspirei fundo. Não me sentia disposto para enfrentar um jantar com uma família que não conheço ainda mais se for uma família muito sociável, queria voltar a dormir e entrar naquele sonho novamente – eu preferiria assim- contudo se fizesse isso tia Hip voltaria aqui em cima e me jogaria do colchão a força, então para evitar grandes problemas. Levantei.

Fiquei em pé para ao lado de minha cama olhando para as folhas que ficavam penduras em meus quarto, vendo-as se moverem com o leve sopro de vento que vinha da janela oval com vidros coloridos. A imagem do barqueiro voltou para minha mente, com aquelas expressões malucas e sem sentido, porém eu preferi aturar ele do que aquele jantar.

– O jantar que espere um pouco – Falei para mim mesmo e fui na direção das minhas estantes, onde peguei um caderno verde escuro de capa dura e voltei para cama, me ajeitei e comecei a escrever.

Navegante de sonhos

Ensine-me, por favor,

Como se perder por essas águas imaginárias

Para afogar meus medos

Mostre-me como nascem as estrelas

Para que possa seguir um caminho

Por entre tantos devaneios

De uma alma sem rumo

Aponte-me onde é o farol

A torre que sustenta a luz

Que ilumina a escuridão vazia dos corações

Faça-me seu aprendiz

Para que possa viver por essas águas

Pois não quero mais a Terra da Realidade

E em baixo da poesia apenas escrevi:

TITULO: BARQUEIRO

Rasguei a folha do caderno e fui até meu criado mudo e vasculhei nas gavetas onde tinha largado o perfurador, barbante e uma taxinha. Demorei um pouco até encontra-los embaixo de algumas folhas e pastas.

E então fiz o que sempre faço quando tenho sonhos insanos como este. O pendurei perto da janela, o deixando ali como todos os outros, para quem sabe um dia alguém possa lê-lo e pense onde poderia achar o tal barqueiro e as tais águas imaginárias.

– Quase pronto?- Berrou Tia Hip na base da escada.

– To me trocando. – Menti na cara dura.

Corri para meu armário e procurei por algo que não fosse tão largado, como a maioria das minhas roupas, geralmente são dois números maiores que eu. Mas antes de qualquer coisa eu tenho roupa de bom moço também. Peguei uma camiseta de manga longa que era um tanto justa para mim e a vesti e coloquei uma de manga curta, no tom verde musgo por cima. Vesti uma calça jeans escura e coloquei meu all star vermelho.

– Assim está bom. – Falei enquanto me olhava no espelho que ficava na porta do armário.

– Will! Desça a visita chegou. – Falou tia Hip na escada.

– Já to indo. – Falei descendo a escada.

– Nem arrumou o cabelo direito. – Falou ela enquanto íamos para sala.

Não respondi. Apenas a olhei, não me importava com que ela achava do meu cabelo, se ele não me incomoda estava bom. O que me incomodava era ter que fingir ser sociável para não parecer tão grosseiro.

Ao entrar na sala me deparei com um casal e um menino que deveria ter minha idade.

– Bem esse é meu filho, Will Gonçalves. – Falou tia Hip toda orgulhosa.

A família me olhou sorridente e me cumprimentaram. Eu apenas forcei um sorriso enquanto os olhava.

– Tudo bem? – Disse por fim em um tom forçado.

O casal respondeu, porém o garoto veio em minha direção e parou alguns metros, estendeu a mão de forma amigável para um aperto e disse:

– Tudo bem e com você? Sou Alan Monterei.

Notas finais
Bem o que acharam?? Deixe sua critica ou comentário Abrass até a próxima