O sonho de Will
1 Minha vida
Notas iniciais
Sou aquele tipo de pessoa que quando passa ao seu lado na rua, você simplesmente não percebe, não vê. Como se eu não existisse diante de seu olhar. Sou aquela pessoa que não faria diferença nenhuma na sua vida mesmo se quisesse. Sou aquela pessoa fantasma que perambula pelas ruas em busca de um futuro, em busca de uma alma.
Forma dramática de descrever minha vida, não acha? Mas essa é minha vida, e de certa forma até gosto disso, nunca fui muito fã de atenção, isso torna as pessoas dependentes das outras e eu não me vejo assim pelo, por isso evito conversar com qualquer um. Contudo também não sou nem um louco que quer se matar, por ter problemas psicológicos ou sentimentais, na verdade acho que sou meio desprovido de sentimentos, sou apenas um garoto que prefere viver sozinho suas aventuras e seus sonhos.
- Will, você poderia vir resolver essa conta? – Falou minha querida e detestável professora de matemática. Uma mulher divorciada que tem o ego maior que seu salário.
- Claro. – Respondi terminando de rabiscar a última capa do meu caderno e forçando um sorriso amarelo.
Levantei-me e fui rumo ao quadro. Era apenas uma pequena expressão numérica de quarto grau, sem grandes mistérios para resolver, pelo menos para mim. Já que não tinha amigos para sair nas noitadas, tinha tempo de sobra para estudar esse tipo de coisa. Resolvi a conta com calma, não tinha pressa. Olhei de canto para a professora que analisava o meu desenvolvimento detalhe por detalhe, com aqueles olhos duros de tanta maquiagem. O resto da turma estava nem ai para aula, isso era óbvio, já que a galera do fundão estava já no seu décimo sono, apenas suspirei e terminei a conta.
- Pronto. – Falei largando o giz e indo lentamente para minha carteira.
- Muito bem, um excelente desenvolvimento. – Falou a professora com um tom de voz irritante como se dissesse que eu tinha que servir para alguma coisa. Se eu fosse uma pessoa que é sociável responderia o comentário sádico dela, mas como não sou, apenas a ignorei, indo para minha carteira no fundo da sala, na fileira perto das janelas, que serviam como um ótimo plano de fuga para não dormir nas aulas de história ou literatura, nas quais os professores criavam seus grandes monólogos.
Sentei e me desliguei do resto da aula, agora só queria que o resto do dia terminasse bem, somente isso.
Estou no terceiro ano do ensino médio, ou seja, o vulgo Terceirão, onde estão os melhores, aqueles que vão para as universidades para ser tornarem grandes médicos, advogados ou engenheiros. Bem pelo menos, é assim que a maioria pensa, mas como dizem o sonho é totalmente diferente quando se trata de realidade, pois tinha quase certeza que um pouco menos da metade minha turma realmente seguiria a profissão que desejava, já o resto iria se perder pelo caminho, encontrar outra forma de viver e ter sua família.
Já eu estou fora desse tipo de plano, bem até posso fazer uma faculdade, mas não seguiria uma grande profissão, pois como já disse, sou aquele fantasma que vaga pelas ruas em busca de algo para se entreter, onde poucos realmente se importam. Pois em um mundo como esse, quem realmente tem tempo para ler poesia.
O sinal soou avisando o termino de aula como também o final do dia letivo. Olhei todos da minha turma saírem feitos loucos pela porta como se as casas deles fossem ganhar pernas e saírem correndo. Ainda irei entender como tantos adolescentes passam de uma única vez em uma porta tão apertada? Não demorou muito e a sala ficou quase vazia, exceto por mim e pela professora que terminava de arrumar suas coisas. Peguei minha mochila e saí como um vulto esquecido. Perambulei pelos corredores, apenas observando as coisas até chegar ao portão de saída. Onde sempre fica aquele bolinho humano de jovens esperando seus pais para vir buscar ou alguém. Já no meu caso nunca tem ninguém me esperando da escola, na verdade, jamais terá. Digamos que sou órfão de pais não mortos ou pelo menos acho que eles não estão mortos.
Meus pais biológicos me abandonaram na frente da casa de uma mulher hippie que hoje eu chamo de tia Hip, mas o nome dela é Milena Gonçalves. Na época que ocorreu o pequeno fato em minha vida, eu era apenas um bebê de poucos meses.
Segundo a tia Hip, foi como qualquer outra noite. Céu estrelado, uma lua quase cheia e ela com uma tentativa de mais um namorado, eles assistiam vários filmes, dos mais diferentes gêneros, até que três batidas nas portas acabarem com o pequeno cineminha.
A princípio eles pensaram que era coisa das cabeças deles, porém quando eu chorei a tia Hip, saiu do conforto de seus filmes, seguida por seu namorado e quando eles abriram a porta se depararam com uma surpresa – eu – chorando, envolto em uma fina manta e trajado com um pijama verde escuro. Tia Hip disse que me pegou no colo e me aninhou enquanto seu namorado pegou um pequeno pedaço de papel que estava escrito com uma letra de quem tinha pressa:
Cuide dessa criança por mim.
Obrigada!
Bilhete comovente esse ai, não acha? Contudo a tia Hip com seu namorado foram na policia e explicaram o ocorrido, fui para no orfanato onde fiquei por algum tempo, até minha querida tia voltar e me adotar. Uma vez, quando ainda era criança, perguntei o porquê ela tinha feito aquilo, de me adotar? Porque não deixou, eu lá no orfanato para ser adotado por outra família, já que ela ainda estava começando viver a dela? Naquela época tia Hip tinha apenas vinte anos, tinha uma vida inteira ainda para frente. A resposta dela fez com que ela fosse à única pessoa com a qual mantenho algum laço afetivo. Às vezes as palavras dela ainda ressoam em minha mente como se eu ainda vivenciasse aquele momento.
Ela disse aquele dia, que cada pessoa carrega um tipo de amor, cada um tem o seu e é único, como o dela era um amor incondicional, sempre acabava sufocando os namorados que tentava ter e naquele dia, ela havia terminado com mais um e foi então que ela percebeu tudo isso, que o destino tinha me posto em sua vida, pois eu era a pessoa que ela deveria amar não como um namorado, noivo ou marido, mas sim, como um filho, o amor que ela carregava era amor de mãe, por isso tinha me adotado.
Bem e assim, eu me tornei Will Gonçalves, um garoto que prefere viver sem amigos a um bando de gente se metendo em sua vida. Só me pergunto uma coisa ainda – aonde foi parar a maldita coruja com a minha carta de Hogwarts? – Um dia eu ainda descubro.
Desci mais uma rua e então abrir um pequeno portão de ferro enferrujado preso a um muro de pedras, domado por musgo e liquens, que protegia uma simplória casinha de dois andares que tem um jardim que parece mais uma floresta com tantas plantas, arbustos e árvores. Tia Hip era um Hippie como tanto outros, fissurada pela natureza e uma vegetariana radical, assim como eu quando estou sobre o olhar dela, caso contrario eu escapo um pouco da dieta.
- Voltei! – Gritei abrindo a porta da cozinha.
- Will! – Gritou tia Hip como retribuição e largou as panelas e veio me abraçar. – Como foi à aula?
- Foi boa. – Falei enquanto tentava respirar no abraço de urso de tia Hip.
- Que bom! O almoço está quase pronto. — Falou ela me soltando de seu pequeno abraço e voltou a cuidar de suas panelas. Mesmo tendo quase quarenta anos, ela ainda mantinha aquela disposição que tinha há dezoito anos.
- Está bem, vou só levar minha mochila para meu quarto. – Falei e fui para um pequeno corredor sinuoso que levava a várias portas.
Entrei por um pequeno arco que dava a um cômodo pequeno onde de um lado ficava uma pequena estante com copos de cristais e no outro uma escada que leva ao sótão que atualmente eu chamo de quarto.
Uns dois anos trás fiz tia Hip me deixar dormir lá por dois motivos, era mais espaçoso e tinha algo lá em cima que tinha se tornado um vício para mim desde pequeno, — um piano – eu podia ter me viciado em qualquer outro instrumento, como a guitarra, que é geralmente normal para garotos da minha idade, mas eu preferi a elegância sinuosa do velho piano de cauda que uma vez fora branco e agora mantinha um tom amarelado por viver escondido naquele velho sótão.
Joguei minha mochila perto da minha estante repleta de livros que partiam desde romances antigos a artigos científicos que raramente lia, pois minha outra grande paixão, além do piano, era a poesia. Uma paixão um tanto difícil de explicar, pois não gosto dela por ser sentimental, mas sim, por me surpreender de manipular as palavras e dar elas um significado totalmente diferente do que seu sentido verdadeiro.
Deitei um pouco em minha cama sentido todo meu corpo relaxar, meus olhos dançavam pelas folhas penduradas por um mero barbante, algumas são estavam começando a ficar um tanto amarelas, pois eram minhas poesias mais antigas, que eu tinha escrito quando ainda dormia no quarto lá embaixo. A última vez que tinha contado eram quase cem daquelas folhas, penduradas contendo minhas poesias, e de certa forma o pouco que tinha dos meus sentimentos, para quem entrasse em meu quarto pudesse ler, fora isso que tia Hip disse quando deu a ideia, mas só tinha um problema quem iria visitar o meu quarto?
- Querido, o almoço está pronto. – Falou tia Hip, colocando a cabeça pela abertura no chão que ligava o sótão a escada.
- To indo. – Falei sentando na cama.
- Depois preciso que você me ajude a fazer compras. – Falou ela começando a descer as escadas.
- Por quê? – Perguntei seguindo-a.
- Convidei a nova vizinha para jantar aqui hoje. – Falou tia Hip com um tom de animação.
Fale com o autor