O show final

12 Uma noite para recordar.


P.O.V: Shelby


Acordei com o som da chuva batendo nas janelas. Era domingo e a manhã parecia ter sido engolida pela escuridão de um céu sem graça. Com certeza já passava das duas da tarde, mas eu ainda mal conseguia abrir os olhos sem sentir a dor pulsando em minha cabeça. O peso da ressaca me dominava, mas sabia que meu sofrimento não se comparava ao da minha prima.

Ontem, dei o primeiro passo da minha vingança. Não sei em que ponto me transformei nessa pessoa, alguém capaz de sentir prazer ao ver alguém que eu amava e admirava tanto se despedaçar.

Eu a observava de longe, como sempre, com aquele sorriso perfeito no rosto, dançando e se divertindo. As luzes coloridas do baile refletiam nos cabelos dela, criando um brilho artificial que me fazia sentir ainda mais raiva. Eu não conseguia desviar os olhos. Eu sabia que, para ela, aquela noite era apenas mais uma festa, mais um momento de diversão com seus amigos. Mas para mim, era mais do que isso. Eu estava ali para vê-la cair.

Era difícil não sentir uma pontada de dor ao vê-la tão...feliz, como eu nunca mais fui capaz de ser.

Tori nunca soube o que era sofrer. Ela nunca soube o que era perder tudo. Perder algo que não se pode recuperar. Enquanto todos ao redor estavam envolvidos na festa, minha mente estava em outro lugar. Eu observava Tori e o que mais me incomodava era o fato de ela ser tão…leve. Como se nada tivesse acontecido, como se eu fosse apenas uma sombra do passado que ela não precisava mais se lembrar. O que me cortava era que ela não parecia se importar com o que fez comigo. Ela tinha tudo – a banda, os amigos, o palco a sua espera, o amor de todos. E eu? Eu estava ali, observando tudo o que ela conquistou e me perguntando o que eu ainda tinha.

Odiava aquele sorriso dela. Odiava o fato de ela continuar sorrindo sem o menor arrependimento. Odiava mais ainda o jeito como ela tratava tudo isso com naturalidade, como se fosse merecedora de cada pedaço da vida perfeita que ela estava vivendo. Como se nada do que acontecera tivesse algum peso.

Ela destruiu a minha vida. E eu…eu passei meses tentando reconstruir a minha. Eu tinha uma carreira, sonhos, alguém que eu amava. Eu era uma pessoa tão completa e brilhante.

Quando descobri que estava grávida de Matthew — meu ex namorado — foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Mesmo sendo muito nova na época, queria aquele bebê, queria ser mãe, queria dar ao meu filho ou filha tudo o que nunca tive. Eu estava empolgada, me sentia viva de novo. Mas tudo isso foi arrancado de mim, num piscar de olhos. Porque em um dia qualquer, a uns três anos atrás, quando eu o encontrei, ela estava lá, Tori Vega, beijando o meu namorado. E eu…eu não conseguia respirar. Quando vi aquela cena, tudo ao meu redor desabou.

Fiquei em choque, desesperada, incapaz de lidar com a dor que aquilo me causou. Não só a dor emocional como a dor que veio no meu ventre. Naquele momento, eu estava quebrada, vazia. Literalmente. Talvez junto com aquele sangue e com o meu bebê, também se foi um pedaço da minha alma.

Eu perdi o que deveria ser o meu futuro, o único propósito que eu tinha na vida até então. E a Tori? Ela simplesmente continuou sua vida como se nada tivesse mudado, como se aquele beijo não fosse a coisa mais cruel que uma pessoa poderia fazer com outra. Eu sabia que, de alguma forma, eu precisava fazer ela sentir o que eu sentia. Eu precisava que ela soubesse o que era perder tudo, o que era ter a vida arruinada por causa de uma única decisão egoísta.

Foi por isso que eu decidi ir atrás dela. Quando fui para Hollywood Arts, ninguém sabia o que realmente acontecera comigo, e eu também não queria contar. Eu só queria uma coisa: vingança. Eu ia fazer Tori pagar por tudo o que ela me fez sofrer e a melhor parte era que ela sequer sabia o que estava acontecendo. A morena estava vivendo em sua bolha, enquanto eu…eu estava com fome de justiça. Missy, Brad e Steven prometeram me ajudar.

Eu sabia que ela não poderia pagar por isso só com palavras duras. Ela precisava sentir o mesmo tipo de dor. E o que eu planejei foi bem simples, quase um jogo. Tori nunca saberia que estava sendo manipulada, mas eu sabia que ela ia cair na minha armadilha. Ela sempre foi tão confiante, tão ingênua…

E foi assim que eu a peguei.

Aquela noite no baile seria a minha chance. Eu a observei de longe, com seus amigos ao redor, como sempre. Mas eu sabia o que fazer. Tori estava tão vulnerável, distraída. E ela sempre confiou em mim, sempre foi gentil e acreditou que tudo aquilo tinha sido superado.


Na noite anterior:


Me aproximei dela com um sorriso doce, como se eu fosse a amiga de sempre. Tentei não demonstrar nada além de simpatia, de apoio. Eu a puxei para um canto, longe dos outros, e a convidei para uma conversa tranquila, como se fosse algo casual.

— Tori, que surpresa te ver aqui. — Eu disse, tentando soar genuína, mas dentro de mim, estava apenas me divertindo com a ideia de manipular a prima.

— Bom, eu estudo aqui e…adoro bailes. — Ela me olhou com uma expressão confusa.

Eu continuei, minha voz suavemente veneno, como uma lâmina afiada disfarçada de amizade.

— E sua bandinha, vai tocar mesmo? — Dei um sorriso de canto. — O que você vai fazer? Cantar? Já te vi cantando, Tori. Não é nada demais. — Fui me aproximando e cruzei os braços. — Você até que tem uma voz legalzinha…mas te falta presença, carisma, autenticidade.

— Shelby, você sabe que não sou você, certo? Eu não preciso competir. Só quero me divertir e cantar com os meus amigos.

Ela me olhou e por um segundo, vi algo como dúvida nos olhos dela. Foi aí que percebi que estava fazendo efeito. Era o momento perfeito.

— Não me venha com essa. — Semicerrei os olhos. — Sua banda vai ser um fracasso, algo sem futuro, porque você destrói tudo que chega perto. — Meus olhos ficaram marejados e eu pude ver a culpa presente no semblante dela. — Aqui nunca foi o seu lugar e você já deveria ter aceitado isso a muito tempo...nunca será boa o suficiente para se tornar o que quer, e eu farei de tudo para ser sempre assim.

A morena estava distraída com as minhas palavras, parecia que tinha levado um soco na cara de tão desorientada que ficou. Eu sabia que naquele momento ela estava presente de corpo e não mentalmente. Então, aproveitei um breve desvio de olhar da minha prima para colocar droga na taça de vinho que estava no balcão do bar, sem que ela percebesse. Só o suficiente para deixá-la fora de si, sem controle, até que ela começasse a perder a razão.

Eu sabia que assim que ela tomasse aquele drinque, tudo começaria a desmoronar. E foi o que aconteceu. Tori começou a agir de maneira estranha, como se o mundo ao seu redor estivesse girando. Eu a observei de longe após me afastar e reparei em seu sorriso desaparecendo, os olhos dela se perdendo. A diversão virou desespero. Ela estava fora de si, incapaz de controlar o que acontecia com seu corpo e mente.

Era só o começo. Eu sabia que Tori merecia muito mais. E eu estava apenas começando a tomar o que ela tinha. A diversão dela, o controle, a felicidade. Eu ia tirar tudo.


[…]


P.O.V: Sam


O sol estava fraco, filtrando-se pelas cortinas. Era uma manhã bem chuvosa e fria e eu acordei com a sensação de ter dormido mais do que precisava. Estava confortável, mas algo parecia um pouco fora do lugar. Me mexi na cama, tentando lembrar onde estava, quando percebi que o cheiro do ambiente era diferente — mais...masculino.

Fui abrindo os olhos aos poucos e a realidade começou a se formar em minha mente. Eu estava na cama do Freddie. O quarto dele, com o cheiro de café e alguma coisa que me parecia com um leve toque de desinfetante. Não estava mal, de verdade. Mas, isso me trouxe à tona uma série de sentimentos que eu não estava pronta para processar.

A dor na perna ainda estava lá, mas agora menos intensa, embora eu sentisse uma leve rigidez em meu tornozelo. E, enquanto eu tentava me espreguiçar, notei que havia algo mais. O nerd não estava na cama, mas sua jaqueta estava jogada sobre a cadeira ao lado, como se ele tivesse saído rapidamente, talvez para me deixar descansar. Era estranho, mas me fez pensar em como ele cuidou de mim ontem à noite.

Tudo havia acontecido tão rápido e quando ele me pegou nos braços, me ajudou a sair da festa, algo dentro de mim quebrou, não no sentido literal, mas emocional. Eu não era do tipo que pedia ajuda, nem gostava de parecer frágil. Mas aquele momento...não sei. Ele foi diferente. Algo no jeito que ele olhou para mim, no cuidado com que me tratou, mexeu comigo de uma forma que eu nunca tinha sentido.

Eu não sabia o que fazer com isso.

E, agora, acordar na cama dele só reforçava o fato de que, depois daquela noite, as coisas entre nós poderiam nunca mais ser as mesmas. Eu sentia uma mistura de gratidão, confusão e algo mais, algo que eu não queria admitir. Não de novo.

A noite parecia tão distante agora, como se tivesse sido um sonho. Mas, quando eu pensei sobre tudo o que aconteceu depois que saímos da festa, ainda podia sentir o peso de cada momento.

Depois de me machucar, Freddie foi mais rápido do que eu imaginava, cuidando de mim, sem hesitar. Ele me pegou nos braços e ao contrário do que eu esperava de qualquer outro, ele não parecia incomodado, não parecia querer me largar. Como se, de alguma forma, ele quisesse garantir que eu estivesse bem, que tudo fosse mais tranquilo.

O nerd insistiu para que fôssemos até a casa dele. Eu sabia que ele estava preocupado, e eu também estava — mas não só com a dor. Havia algo mais, uma sensação estranha entre nós que não conseguia ignorar. A tensão estava crescendo, inchando o ar à nossa volta, como se cada passo em direção à casa dele fosse uma marcha lenta para algo que eu não sabia exatamente o que era. E, de alguma forma, aquilo me deixava desconfortável, como se tivéssemos voltado dois anos no tempo, quando ainda éramos namorados. Algo ali parecia familiar e ao mesmo tempo totalmente novo.


Na noite anterior:


— Na minha casa tem um kit de primeiros socorros, e a minha mãe pode dar uma olhada pra ver se você não quebrou nada.

— Já disse que amanhã eu vou ao médico, freddnerd.

— E eu já disse que você vai pra minha casa. — Ele estava irredutível, o olhar fixo na estrada, como se aquilo fosse a única opção.

— Se a sua mãe vier me encher o saco, nerd, você vai se arrepender!

— Minha mãe não é um monstro, Puckett! — Ele riu sem graça, tentando desarmar a situação. — Ela vai ficar toda preocupada quando ver o estado desse seu pé.

— Que exagero… — Bufei e virei os olhos, distraída pela vista da janela. A verdade é que eu estava mais incomodada com a proximidade entre nós dois do que com o meu tornozelo.

Quando chegamos, o Freddie me carregou no colo até o apartamento dele, mesmo com meus protestos. O nerd não me deu chance de argumentar e me colocou no sofá com uma delicadeza que era difícil de ignorar. Quando ele rumava até a cozinha para pegar gelo para mim, a Senhora Benson surgiu do nada, como uma tempestade.

— O que essa garota está fazendo aqui, Fredward?

— Mãe, ela machucou o pé no baile da escola. Estou indo pegar gelo para aliviar a dor.

— Deixa eu ver… — Antes que eu tivesse tempo de protestar, a Sr. Benson já estava agachada, examinando meu tornozelo. — Bom, quebrado não está. — Ela se levantou. — Deve ser só uma torção. Quer que eu te leve até em casa, mocinha?

— A Sam vai dormir aqui hoje. — A voz do Freddie soou firme, como se fosse uma decisão tomada.

— Não vai mesmo! — A mãe dele aumentou o tom de voz e o encarou com aquele olhar que só mãe tem.

— Mãe, já está tarde e a casa dela é longe. Deixa ela descansar aqui. Amanhã cedo eu a levo pra casa.

— E onde ela vai dormir? — A sr. Benson não o desafiava apenas com palavras, mas com o olhar afiado.

— No meu quarto.

— Não mesmo! — Eu me levantei, indignada. — Eu não vou dormir na sua cama, nerd. Vou ligar pra minha irmã e…

— Tem um colchão reserva. — Ele me interrompeu com uma calma irritante. — Você fica na cama e eu no colchão. Tudo bem…pras duas?

— Ah, faça o que quiser. — A Sr. Benson subiu as escadas, aparentemente não tendo mais o que argumentar.

Fomos para o quarto e o Freddie fez questão de me carregar no colo novamente, sempre tentando poupar meu pé. Ele me ofereceu uma camiseta e uma calça de moletom dele. A roupa ficou enorme em mim, mas era surpreendentemente confortável e tinha o cheiro dele, algo que me causou um nó na garganta. Eu queria dizer que poderia muito bem me ajeitar no sofá, mas o Benson insistiu, mais uma vez, que eu ficasse na cama dele enquanto ele pegava um cobertor e se acomodava no colchão ao lado.

— Freddie, — Chamei, minha voz um pouco hesitante, mas sincera. Ele estava quase deitado. — Você pode…— hesitei por uns segundos — dormir na cama…se quiser.

Ele ficou quieto por um segundo, virando-se para me olhar, surpreso. Mas a verdade era que eu não queria que ele ficasse ali, no chão, só porque era "o certo". Afinal, ele tinha cuidado, me ajudado e havia algo em mim que não conseguia deixar de querer sua companhia ali.

— Não é justo você dormir no chão, Freddie. A cama é grande o suficiente para nós dois, — Disse tentando disfarçar o nervosismo com uma leve brincadeira.

Ele me olhou, hesitante, e depois, com um sorriso suave, se levantou, puxando o cobertor para a cama. Eu dei um leve sorriso. Ele se deitou ao meu lado e logo senti a presença dele, seu calor e o cheiro familiar que parecia me envolver de forma reconfortante.

Ficamos em silêncio por um tempo. Eu queria falar, mas não conseguia. O simples fato de ele estar tão perto de mim, tão próximo fisicamente, me fazia pensar em tudo o que aconteceu entre nós, em cada momento da noite, no jeito como ele havia me olhado e como, naquele olhar, havia algo além da amizade. Algo que eu não via há muito tempo e não pensei que veria de novo.

Eu o sentia tão perto, mas ao mesmo tempo tão distante, como se houvesse uma linha tênue entre o que éramos e o que poderíamos ser e eu não sabia se queria cruzar essa linha. Eu sentia a tensão, o magnetismo entre nós, mas também havia a parte racional, a parte que dizia que éramos apenas amigos e era assim que deveria ser.

Mas, enquanto eu olhava para ele debaixo da luz suave da lâmpada, algo me disse que o que eu estava sentindo não era simples. Não era só amizade. E, talvez, ele estivesse sentindo o mesmo.

Eu olhei para ele uma última vez, e, por um instante, nossos olhares se encontraram. Algo passou entre nós, uma faísca que não podia mais ser ignorada.

— Boa noite, Sam, — Ele disse suavemente, sua voz ainda carregando a preocupação, mas também algo mais, algo que eu não sabia identificar.

Eu apenas respirei fundo e sussurrei de volta:

— Boa noite, nerd.

E, então, adormecemos ali, na mesma cama, mais próximos do que nunca, enquanto o mundo ao nosso redor parecia ter parado de girar. Eu sabia que as coisas entre nós estavam mudando, e, embora eu não soubesse como ou quando, eu sabia que não seria possível voltar atrás.


[…]


P.O.V: Beck


Naquele domingo minha mente estava um caos. Depois que toda a adrenalina passou e os hormônios se acalmaram, me dei conta de como aquela noite poderia mudar o rumo da minha vida. Com certeza a coisa mais difícil de se aprender na adolescência é como arcar com as consequências dos seus atos impulsivos.

Fui me banhar para ver se a culpa se esvaia junto com a água. Ouvi vozes, a princípio, pensei que fosse Tori que tivesse acordado, mas logo a raiva na voz de Jade me congelou. Eu sabia que algo estava errado, mas não estava preparado para o que encontraria.

Ao abrir a porta do banheiro, vi Jade parada no meio do trailer, com os olhos marejados, encarando Tori, que ainda estava deitada na minha cama, vestindo minha camiseta. Uma onda de pânico me invadiu instantaneamente. O cenário era o último que eu queria para qualquer tipo de discussão.

— O que... — Jade disse com a voz trêmula, como se as palavras estivessem sendo arrancadas dela. A morena não tirava os olhos de Tori, e o silêncio era ensurdecedor. Eu me senti paralisado.

Jade finalmente me olhou, e a expressão dela era uma mistura de dor e raiva.

— Eu sabia…Eu sabia que você ainda queria a Tori. Sempre soube! — A voz tremia de frustração e decepção. Aquelas palavras me atingiram em cheio.

— Jade, calma...Não é o que você está pensando. — Eu me apressei em me aproximar dela, mas ela deu um passo atrás, como se quisesse se afastar de mim.

— Não é o que eu estou pensando? — Engoliu em seco. — Então, o que é, Beck? — Ela voltou seu olhar para Tori e a dor no rosto da minha morena era evidente. — Você a trouxe aqui…vestiu ela com a sua roupa…a deixou dormir na sua cama...e agora está me dizendo que não aconteceu nada?

Eu tentei falar, mas a voz dela estava mais forte, mais cheia de acusação. Ou talvez fosse a culpa martelando minha cabeça. Como eu poderia explicar tudo isso? Eu nem sabia ao certo o que realmente tinha acontecido na noite passada, ou porque aconteceu.

— Jade, eu te amo…Você sabe que... — Eu tentei, mas ela me interrompeu, com os olhos úmidos e um olhar de dor.

— Então olha no fundo dos meus olhos e me diz que você não ficou com ela…— O silêncio que se seguiu entre nós foi insuportável, e foi nele que a verdade se fez clara. Eu não conseguia responder. O que eu poderia dizer?

Eu olhei para ela, com as palavras presas na garganta, mas, no fundo, sabia que ela já tinha a resposta que queria ouvir.

— Eu sabia...— Jade disse, se virando com a voz cheia de amargor. Ela virou as costas para mim e caminhou em direção à porta. — Eu sabia...— ela repetiu, mais para si mesma.

Tori acordou com o barulho da gritaria. Ela sentou-se rapidamente, confusa, olhando ao redor com os olhos ainda pesados, mas logo percebeu o que estava acontecendo. Quando ela me viu, seus olhos se arregalaram, a morena até tentou se levantar, mas a cabeça parecia girar. Ela olhou para Jade, que já estava na porta, e seu rosto ficou visivelmente constrangido.

— Não, não... — Tori tentou explicar, se levantando desajeitadamente da cama. — É clichê, mas…— hesitou — não aconteceu nada, ok? — Ela olhou para mim, e depois para Jade, tentando se justificar.

Jade olhou para Tori com um sorriso forçado e sarcástico.

— Claro…Claro que não aconteceu nada…Você JAMAIS FARIA ISSO COM UMA AMIGA! Não foi isso que disse ano passado? — Ela deu uma risada amarga, antes de virar-se e sair do trailer, batendo a porta com força.

Eu fiquei parado ali, sem saber o que fazer. Tori estava agora visivelmente constrangida, mas também um pouco irritada com a situação. Eu queria correr atrás de Jade, explicar, fazer algo, mas eu estava preso naquela situação, incapaz de me mover.

— Beck…— Tori falou, com um tom mais calmo, mas ainda tenso. — Vai…vai atrás dela. — Desviou o olhar e abaixou a cabeça. Ela estava claramente envergonhada com toda a situação.

Eu sabia que eu tinha que ir atrás de Jade, mas não sabia nem por onde começar. Suspirei e passei a mão pelo rosto. A tensão estava insuportável. Eu queria gritar, explicar tudo, mas as palavras simplesmente não saíam.


[…]


P.O.V: Mel


Era um daqueles dias frios e chuvosos, do tipo de que te faz querer se enfiar debaixo das cobertas e esquecer do mundo lá fora. E eu tinha um loiro ao meu lado, o suficiente para me esquentar.

— Amor, você está chateada por não ter ido ao baile? — Ele perguntou, passando os dedos pelos meus cabelos de um jeito suave, como se a sua voz fosse o remédio perfeito para qualquer preocupação.

— Claro que não, bebê.

Mesmo que eu quisesse ter estado com minha irmã e os amigos dela, rindo e dançando até de madrugada, cedi ao charme irresistível dos olhos azuis dele e passei a noite inteira com o meu amor.

James era, sem dúvida, um ótimo namorado. Compreensivo, companheiro…Eu me sentia segura com ele, e às vezes isso fazia com que eu fosse um pouco mais flexível com as vontades do meu loiro. Mas, confesso que tenho uma leve impressão que ele me quer distante do pessoal da escola, não sei direito…Sinto que ele sempre quer me afastar deles de alguma maneira. Besteira da minha cabeça. Pensei.

Ele sempre foi mais quieto e na dele, um garoto de poucos amigos, mesmo sendo muito dócil.

— Minha irmã me ligou. Ela pediu para eu buscar ela. — Falei, me levantando da cama, mas logo fui puxada de volta por ele.

— Nada disso, princesa… — Ele me agarrou pela cintura, me puxando para o travesseiro de novo. — Fica descansando que eu busco ela. Aproveito e já volto para casa, meus pais estão me esperando.

Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ele já estava se levantando, começando a se vestir, quase apressado.

— Tudo bem. Ela está na casa do Freddie, vou te passar o endereço.

Ele parou por um segundo, com as sobrancelhas levantadas, me encarando de um jeito que eu não sabia muito bem como interpretar. Algo nele parecia...intrigado.

— Ela dormiu lá? — A voz dele agora tinha uma nota de desconfiança. — Eles estão ficando?

— Não…Quer dizer…não sei...A Sam só me disse que machucou o pé e o Freddie cuidou dela depois do baile. — Eu me senti meio estranha falando aquilo, porque eu deveria dar explicações da vida da minha irmã?

— Ah, claro. — Ele respondeu, mas o tom de indiferença não tinha convencido nem a mim mesma.

Meu loiro me deu um selinho rápido e, sem mais palavras, foi em direção à porta, como se tudo estivesse normal. Mas, no fundo, eu sabia que não estava.

Eu o observei sair e fechei a porta com um suspiro. Algo naquele jogo de perguntas e respostas me deixou com uma sensação estranha no estômago. Porque ele estava tão estranho e inquieto desde que chegamos em Los Angeles?


[…]


P.O.V : Sam


Eu sabia que deveria me levantar e dar um jeito naquela situação, mas a verdade é que, enquanto eu estava ali na cama — que tinha o cheiro dele — eu estava mais ocupada tentando entender meus sentimentos do que realmente pensar em como me levantaria dalí. Tentei me convencer de que o que tinha acontecido entre mim e o Freddie na noite passada não passava de uma ajuda entre amigos. Nada mais do que isso. Pensei.

Então, sem muito ânimo, me levantei da cama, tentando ignorar o incômodo no tornozelo. Cheguei silenciosamente até a porta da cozinha e fiquei ali, observando-o por alguns segundos. Ele estava tão... concentrado. Eu não podia negar, o nerd tinha algo de...hipnotizante, mesmo quando estava fazendo coisas simples como preparar um café.

Ele estava com o cabelo um pouco bagunçado, sem o seu topete diário, como se tivesse acabado de acordar, e o seu olhar atento enquanto mexia na cafeteira me fez perceber o óbvio: o Freddie nunca poderia saber o quanto ele estava me deixando desconfortável com sua presença. Era irritante como ele tinha esse efeito em mim.

Era só o Freddie. O nerd, que me irritava e me fazia rolar os olhos em todas as ocasiões possíveis. Mas, de alguma forma, parecia que o mundo tinha dado uma leve ajustada nas cores e na perspectiva quando eu o olhava. Parecia que o tempo tinha lhe feito muito bem. Estava mais musculoso, mais alto…Quando me despertei desses pensamentos nada puros, percebi que tinha me aproximado demais, mesmo que tão sutilmente ao ponto dele nem notar minha presença ali. Mas então, ele se virou de repente e eu, sem querer, dei um passo em falso. O movimento foi rápido demais para ele e, com um pulo assustado, ele derramou todo o café na blusa branca que eu usava.

— BENSON! — Eu murmurei, completamente irritada.

Ele ficou parado, olhando para o desastre na minha blusa — que na verdade era dele — e logo começou a gaguejar e falar coisas que não faziam conexão alguma.

— MEU DEUS…Desculpa sam…Eu…eu não te vi…Você se queimou? — Ele balbuciou, parecendo mais nervoso do que eu.

— Não queimou não. — Eu tentava segurar o riso enquanto tirava aquela blusa melada. — Eu estou tão horrível assim pra você levar um susto com a minha cara?

Eu cruzei os braços e tentei dar o maior ar de indiferença possível. Ele arregalou os olhos mas desviou rapidamente.

— Não é isso! Eu…você não está…horrível…eu só…— Ele respirou fundo, visivelmente perdido nas palavras, e eu comecei a ficar mais irritada. A confusão dele estava deixando a situação ainda mais desconfortável. — Sam, vai colocar logo uma camisa…não é muito legal você ficar andando por aqui só de sutiã.

Ele estava tão horrorizado assim com a cena que via? Só podia ser esse o motivo do desconforto, certo?

— Não é nada que você não tenha visto. — Disse quase como um sussurro, mas ele ouviu, e no mesmo instante voltou seu olhar para mim. — Tem algum pano aí para limpar toda essa melação que eu fiquei?

Ele me olhou completamente perdido, mas com um leve sorriso no rosto, e então se aproximou com um pano que achou dentro de um armário. O moreno passou o pano por toda a região do colo do pescoço e foi descendo até os meus seios, e mesmo que fosse de forma respeitosa eu ainda corei.

Ele provavelmente reparou na minha cara e deu um riso sem graça.

— Não é nada que eu não tenha visto antes. — Disse em um tom irônico enquanto me fitava com seus olhos cor de mel, que agora brilhavam.


Notas finais
Gostaram? Odiaram? Digam-me meus fantasminhas favoritos. XOXO ;)