O show final
11 Entre o desejo e o silêncio.
Notas iniciais
P.O.V: Beck
Eu estava a caminho do carro com Tori nos meus braços, tentando ignorar o peso das mãos dela no meu pescoço e a respiração ofegante. Tudo que eu conseguia pensar era em tirá-la daquela situação, mas agora, enquanto ela se agarrava a mim de forma tão… errada, eu mal conseguia pensar direito.
Quando coloquei a Tori no banco do carona, ela parecia ainda mais desorientada, olhando para mim com um sorriso travesso e um olhar que não combinava com a situação. Eu não sabia o que a morena tinha bebido ou o que estava acontecendo com ela, mas de qualquer forma, essa não era a Tori que eu conhecia.
— Beck, você é tão…gostoso. — Ela sussurrou, se aproximando de mim com os olhos pesados, ainda com aquele sorriso malicioso nos lábios.
Eu me afastei instintivamente, sentindo a pressão crescer no peito. Tori nunca tinha sido assim, nunca tinha olhado para mim dessa maneira.
— Tori, você precisa descansar, está totalmente fora de si. — Eu me concentrei no volante, tentando manter o foco na direção. — Como foi que ficou bêbada tão rápido?
Ela riu baixinho, ignorando minha pergunta, a risada um pouco mais alta do que o normal e então colocou a mão em meu ombro, tentando puxar meu rosto para mais perto.
— Ah, eu sei que você está querendo. Não adianta disfarçar, gatinho. — Ela se inclinou para mim, e eu senti o calor do seu corpo perto demais. A pressão de querer dar atenção à situação e ao mesmo tempo resistir ao que ela estava tentando fazer foi intensa.
Eu desviei para o outro lado e engoli em seco. Isso não era certo, eu me dizia. Não com Tori, não comigo. E definitivamente, não com Jade, minha namorada, que confiava em mim.
— Não, Tori. — Tirei suas mãos do meu ombro. — Eu tenho namorada…lembra, a Jade…sua amiga…— Eu soltei a respiração, tentando manter a calma.
Mas, apesar da minha resistência, não conseguia deixar de notar o jeito como ela mordia o lábio inferior, como seus cabelos levemente bagunçados a deixavam sexy e como a morena me olhava com uma expressão que eu não sabia como interpretar.
O silêncio entre nós foi pesado e a tensão se acumulou a cada segundo. Quando chegamos ao meu trailer, eu não conseguia parar de pensar em como aquilo tudo estava errado, mas também em como aquela tensão entre eu e a morena estava se tornando impossível de ignorar. Eu puxei ela de volta para a realidade o melhor que pude. Só estava ajudando uma amiga, que também era amiga da minha namorada. Nada de errado iria acontecer. Quando ela recobrar a consciência total, tudo voltará ao normal. Pensei.
— Vamos sair do carro, Tori. Você precisa se deitar. — A segurei pela cintura novamente, a ajudando a sair do veículo. Ela tropeçou um pouco, mas se apoiou em mim com a confiança de quem não tinha mais controle sobre o próprio corpo.
Ela colocou os braços em volta do meu pescoço e me fitou mordendo os lábios inferiores antes de dar um sorriso travesso.
— Você fica tão sexy quando é pego de surpresa e arregala os olhos. — Disse sem nenhum pudor.
Dentro do trailer, as coisas ficaram mais calmas, mas a tensão ainda estava no ar. Coloquei a morena na cama e peguei uma garrafa de água. Ela ainda estava meio fora de si e eu não sabia se estava ficando mais desesperado ou apenas frustrado com a situação.
— Como você chegou a esse ponto? — Perguntei, tentando entender o que havia acontecido.
Ela se deitou e me encarou com um olhar de desejo misturado com algo mais vulnerável.
— Eu só….só bebi uma taça de…de vinho….ju-juro…Nossa você é tão…quente. — Ela tinha uma voz fraca e um riso frouxo.
Eu me agachei perto dela, sentando na cama e pegando a garrafa de água e colocando-o em sua mão. Ela não parecia se importar com isso, logo se livrou da garrafa. Sua mão, ainda quente, tocou meu braço. Era como se ela estivesse dizendo, sem palavras, que não queria mais nada além de estar comigo. A proximidade dela me fez sentir uma reação no meu corpo que eu não queria ter.
Ela colocou uma de suas pernas em cima de mim, encurtando ainda mais nossa distância. Eu já conseguia sentir seu hálito invadir minhas narinas e por incrível que pareça, não senti nenhum cheiro de álcool, só um aroma de morango que provavelmente vinha de seu batom — que já estava consideravelmente borrado.
— Você não está pensando direito, Tori. — Minha voz saiu baixa, mais tensa do que eu pretendia. Mas ela apenas sorriu e puxou minha mão, colocando-a em sua cintura.
— Mas eu estou pensando, Beck… — Ela sussurrou, seus lábios se aproximando dos meus. — Acho que nunca estive tão lúcida em toda minha vida. — A força do desejo e da tensão entre nós se tornou insuportável, e por um segundo, eu me perdi.
Então, foi como se algo tivesse se quebrado dentro de mim. Eu cedi.
Em um movimento rápido, sem mais hesitações, eu a beijei. Ela me puxou para mais perto, como se quisesse acabar com qualquer distância que existia entre nós. Suas mãos nos meus cabelos, seus lábios demandando o meu. Eu não sabia mais o que estava acontecendo. A única coisa que eu conseguia perceber era o jeito como ela estava se entregando, e eu, sem conseguir evitar, retribuí o beijo com a mesma intensidade.
Foi um beijo desesperado, quente. Ela deslizava a mão por baixo da minha camisa e acariciava minhas costas e eu desci minha mão para as coxas dela, a morena deu um gemido entre meus lábios. Ela nos fez deitar na cama e começou a tirar a minha blusa. Quando ela enlaçou suas pernas no meu quadril, me veio um breve momento de consciência e me separei rapidamente dela. O ar entre nós estava pesado, e eu podia sentir o olhar da morena fixado em mim, esperando algo mais. Mas eu não podia fazer isso. Não assim, não com ela nesse estado. Não com ela.
— Tori, eu…— Fui interrompido pelo olhar dela, que parecia uma mistura de desejo e confusão.
Ela ainda se mantinha deitada na cama e com a respiração ofegante. Seus lábios estavam incrivelmente inchados e avermelhados.
— Não…não vai embora, Beck…Eu só queria…queria…vo-…— Ela falou com uma voz arrastada e antes de terminar a frase começou a fazer ânsia de vômito e correu para o banheiro.
Fui atrás da morena e segurei seu cabelo, enquanto ela quase perdia suas forças debruçada sobre aquele vaso. Decidi jogá-la debaixo do chuveiro para ver se o mal-estar passava. O corpo da garota se mantinha muito quente e ela mal se aguentava em pé. A coloquei dentro do chuveiro sem tirar sua roupa e mesmo sem força, gritou quando a água gelada caiu sobre seu corpo.
Tori não estava mais tão fraca e saiu rapidamente do box, ela se tremia de frio e me olhava um pouco irritada.
— Agora eu estou toda molhada e com frio. — Fez um biquinho de choro e retirou o vestido e a lingerie, que estavam ensopados.
Desviei meu olhar para não reparar em sua nudez e a enrolei em uma toalha para saíramos do banheiro.
— Vou te emprestar uma camisa minha, não se preocupe. — Disse enquanto abria meu guarda-roupa.
— Me empresta uma cueca também? — Ela veio caminhando suavemente até mim, não tinha certeza se eram meus pensamentos impuros ou se ela estava tentando me provocar.
Entreguei rapidamente as peças de roupa e a morena jogou a toalha no chão e rumou para o banheiro. Tentei ignorar tudo que se passava pela minha cabeça. Tori estava totalmente fora de si. Amanhã ela nem vai se lembrar de nada que fez e eu pretendia fazer o mesmo.
[…]
Hollywood Arts — 10:23 PM
P.O.V : Carly
A noite estava mágica, tínhamos inaugurado a volta oficial do Icarly fazendo a primeira apresentação da nossa banda. Foi mais do que um show: foi a celebração de tudo o que passamos juntos, um marco que todos estavam esperando. A banda havia arrasado e a pista de dança estava em êxtase. Mas a alegria se acabou após a queda da Sam, ficamos muito preocupados. Freddie rapidamente se ofereceu para levar a loira até em casa, já que ela estava visivelmente mal. Isso nos deixou com uma mistura de emoções.
Confesso que achei muito estranho o jeito que o moreno cuidou da Sam, principalmente a maneira como ela deixou ser cuidada por ele. A loira nunca gostou que alguém achasse que ela estava frágil ou vulnerável, mas naquele momento, parecia que tudo que ela mais queria era ser cuidada por ele.
Jade estava de cara fechada desde que se deu conta do sumiço do namorado, como se tivessem jogado uma sombra sobre a noite dela. Mesmo assim, André tentou acalmá-la, ligou para o Beck e ele avisou que tinha deixado Tori na casa dela e ido para sua descansar. Isso acalmou levemente a gótica surtada.
Também tínhamos decidido ficar porque os Red Sharks fariam uma apresentação com a sua banda e queríamos ver como eles se sairiam e se eram realmente bons. Quando as luzes se apagaram novamente, a batida pesada de Come As You Are, tomou conta do ambiente. Shelby agarrou o microfone com atitude, enquanto meninos se mantinham com aquele estilo rebelde característico, com suas jaquetas de couro e o ritmo das guitarras distorcidas. O som era imbatível e destemido. Até Robbie, que sempre tinha algo a dizer sobre música, ficou em silêncio, aparentemente absorvendo cada acorde — e também abraçando Cat, que tinha os olhos arregalados e seu corpo tremia junto com o chão da pista. Eu não conseguia desviar os olhos deles: era uma energia suja e cheia de atitude.
….Come as you are, as you were
as I want you to be
As a friend, as a friend
as an old enemy
Take your time, hurry up, the choice is yours
don't be late…
Brad fez um solo que parecia que iria quebrar as cordas da guitarra e Missy tirou todo o ar de seus pulmões gritando o refrão.
…Memoria
Memoria
Memoria
Come doused in mud, soaked in bleach
As I want you to be….
Eu senti algo no fundo da garganta – uma mistura de admiração e, confesso, um toque de insegurança. Porque, apesar de nossa apresentação ter sido ótima, aquele momento deles estava em outro nível. Quando a música terminou, uma onda de aplausos tomou conta do ambiente e nós, do nosso grupo, nos entreolhamos. Jade parecia ter mudado sua raiva de ciúmes para sua raiva competitiva.
Mas antes que pudéssemos digerir tudo isso, Missy caminhou até nós. Eu soube o que estava por vir antes mesmo dela abrir a boca.
— Então, Carly…— ela disse, com aquele sorriso de canto — o que achou da nossa performance? Aposto que a gente mandou muito melhor do que a sua bandinha, né? Aliás…eu esperava muito mais da Jade e da Sam…musiquinha patética aquela de vocês.
— Garota…— Jade respirou fundo — melhor você ir provocar outro antes que eu perca o pouco da paciência que ainda me resta. — A morena travou o maxilar e encarou a ruiva que sorria provocativa.
Missy sempre foi assim, principalmente comigo. Desde aquele reencontro tenso que tivemos a anos atrás, eu sabia que ela adorava mexer onde sabia que podia causar impacto. Mesmo assim, eu dei de ombros e tentei manter a postura para que Jade não perdesse o controle.
André interferiu quando notou o clima pesado.
— Acho que as duas apresentações foram legais de formas diferentes. — Respondeu tentando ser educado.
Ela riu, mais como uma ironia. Antes que eu pudesse responder, Missy avançou mais um passo, com aquele olhar afiado, como se tivesse um truque na manga.
— Aí gatinho…— a ruiva lançou uma voz sedutora e irônica para André — a apresentação de vocês estava faltando algo…ou melhor…alguém…mais de um alguém, na verdade. — Deu um sorriso travesso.
— GAROTA, ESCUTA AQUI! — Jade aumentou seu tom de voz e pareceu perder a pouca compostura que ainda a restava.
André a conduziu rapidamente a morena — sobre protesto da mesma — para longe de Missy. Eu já estava me distanciando dali junto com meus amigos, mas a ruiva prendeu a minha atenção.
— Está com presa? Ah, claro…deve estar preocupada com a Sam, não é? Mas fica tranquila…a loira deve estar sendo muito bem cuidada pelo Freddie. — Sorriu maliciosamente.
Eu congelei por um instante. Não sabia se estava mais surpresa com o rumo da conversa ou se ela tinha falado aquilo propositalmente.
— O Freddie é um ótimo amigo…tenho certeza que a Sam já deve está melhor. — Respondi forçando a voz a soar firme.
Missy ergueu uma sobrancelha.
— Amigo? Sério? Porque…pelo que vi, ele estava cuidando dela de um jeito...diferente. — Ela se aproximou mais ainda de mim. — Não me pareceu coisa de amigo não…— Cochichou.
Fui tomada por um instante de silêncio. Era impossível não lembrar da forma como o Freddie havia se mostrado tão protetor com a Sam mais cedo e da maneira como ela aceitou a ajuda dele, algo que nunca tinha feito antes. Era como se fosse natural, como se fosse algo que ela realmente desejava.
— Não que seja da sua conta, mas...eles são só amigos agora. — Falei tentando não demonstrar a dúvida que estava começando a crescer dentro de mim.
Missy balançou a cabeça, com um sorriso de quem sabia mais do que estava dizendo.
— Ah, Carly, sua ingenuidade me comove. — Sorriu irônica. — Se acha que não está rolando mais do que amizade entre os dois, você está enganada. — Me fitou com um semblante sério. — Pode me chamar do que quiser, mas quem vai perder nessa história toda é você…como sempre. Sempre passada para trás, não é, amiga?!
Ela se afastou, me deixando com um gosto amargo na boca. Era como se, de repente, as peças do quebra-cabeça que eu achava ter montado na minha cabeça, estivessem se desconstruindo uma por uma.
Será que a Missy tinha razão? Será que eu estava sendo cega para o que estava acontecendo bem diante dos meus olhos? Será que eles estavam se apaixonando novamente? E porque eles não me contariam sobre? E pior, negariam sobre…
Seria um novo capítulo em nossas vidas? De novo?
[…]
P.O.V: Missy
A música ainda ecoava pela festa quando eu finalmente consegui me afastar da Carly. Eu estava com um sorriso vitorioso no rosto, como se tivesse cumprido mais uma missão. A tensão que se formou entre nós foi deliciosa – e a dúvida que plantei na cabeça da morena sobre o que estava acontecendo entre o Freddie e a Sam...ah, essa era a cereja do bolo.
Eu sabia que a noite estava apenas começando e que cada passo que eu dava na direção certa iria desmoronar aquele grupo insuportável de uma vez por todas. E para isso, eu precisava dos meus parceiros de sempre. Ou melhor, da minha banda. Os Red Sharks eram meus aliados nessa guerra e em todas as outras. Confesso que eu que fiz a rebeldia deles chegar nesse nível. Brad e Steven estavam sempre dispostos a fazer o que fosse preciso para me ajudar, custe o que custar. E a Shelby, bom, essa já tinha sua própria sede de vingança. Tínhamos uma missão: destruir o icarly e todo o grupinho de amigos deles.
Rumei até um bar improvisado, onde meus amigos estavam tentando se distanciar do resto dos convidados. Shelby, com seu olhar astuto, estava segurando um copo, provavelmente cheio de algo mais forte do que deveria. Brad estava com os braços cruzados, parecendo satisfeito com o show e Steven dava risadinhas — provavelmente já estava bem animadinho — sem se importar muito com nada, mas com uma energia quase elétrica em seu corpo.
— Ei, pessoal! — Comecei, com um sorriso cínico, sentindo a satisfação crescer dentro de mim. — O plano está funcionando perfeitamente bem.
Eles me olharam, cada um com aquele sorriso perverso estampado no rosto. O plano estava mais do que bem executado. Shelby, com sua astúcia, fez a parte dela na noite. Foi tão cômico quando vimos o estado que estava Tori. O efeito daquilo era exatamente o que queríamos: confusão, desorientação, e mais uma desculpa para arruinar a noite da estrela da escola. Shelby sabia exatamente como manipular a situação a nosso favor.
— A Tori ficou tão louca…— Shelby riu, mexendo a bebida no copo, como se fosse algo prazeroso. — Uma pena o idiota do Beck não ter deixado a minha priminha continuar com o showzinho dela. Daria tudo para ela ficar pelada no meio da festa e dar o vexame do ano.
Brad balançou a cabeça, com um sorriso torto.
— Nossa, teria sido uma delícia ver essa cena. — O loiro já estava tão alterado que o cheiro de álcool vinha até minhas narinas. — Mas não esquenta gata, acho que ninguém vai se esquecer dessa noite tão cedo.
Eu sorri, satisfeita com a reação deles.
— Sim, exatamente. Mas não podemos parar por aí. Eu acabei de semear uma boa sementinha na cabeça da Carly. Ela está toda confusa agora. — Dei uma gargalhada. — O Freddie e a Sam? Eles são como dois…irmãos. — Disse em uma voz aveludada, mostrando sarcasmo.
Shelby, já beirando o nível de embriaguez, deu uma gargalhada alta, sua voz soando ainda mais falsa do que nunca.
— O mais engraçado é que Carly acha que tem tudo sob controle, mas essa amizade deles...está no fim. Pode até ser que eles ainda tentem se enganar por um tempo, mas o que realmente importa é que, mais cedo ou mais tarde, as coisas vão desmoronar. E a Carly vai ser a última a perceber.
Steven soltou uma gargalhada.
— Querem apostar que as duas ainda vão brigar pelo nerd?
— Bom, eu apostaria que ele vai ficar com a loirinha. — Disse Brad tirando uma nota de cinquenta da carteira. — Daí eu pego a morena. Pode crer. Já faz tempo que estou de olho nela.
— Vocês só pensam com a cabeça do pau, né?! — Eu falei, fazendo uma careta. Mas logo a expressão sumiu e o sorriso perverso voltou.
Shelby e eu rimos e Brad e Steven reviraram os olhos, mas ninguém se importava.
— Mas voltando ao que realmente importa…o Beck vai cair direitinho na nossa armadilha.
Brad deu uma piscadela.
— Isso também vai ser engraçadíssimo, ruiva. A gente vai derrubar todos eles e quando acabar, vamos ser as estrelas desse lugar e não eles.
Eu dei um sorriso satisfeito e olhei para os outros, com uma confiança arrogante que só nós podíamos ter.
— Exatamente. Isso é só o começo. Eles não sabem o que está por vir. E quando tudo desmoronar, vamos ver quem vai ficar de pé.
Eu olhei para os três, e vi o que eles estavam pensando. Eles estavam prontos para a batalha. O plano já estava em andamento, e só agora estávamos começando a colher os frutos. Não era só sobre a Tori, ou sobre a Carly. Era sobre todos eles, todos os amigos dela, que sempre se acharam superiores, sempre acharam que eram melhores do que nós. Mas eu estava aqui para mostrar que, no fim, o que importa é quem tem o controle, e sabe usá-lo. Mostrarei que posso fazer muito pior do que já fiz no passado. Estava só começando.
O som da festa ao nosso redor parecia mais distante agora, como se o mundo estivesse em pausa. Eu estava completamente imersa no controle que tinha sobre tudo aquilo. Era o meu momento, e ninguém, absolutamente ninguém, ia me parar. Não de novo.
[…]
P.O.V: André
Jade estava completamente fora de controle e o único instinto que me restava era tentar mantê-la longe do caos. A morena estava com a raiva estampada no rosto, os punhos cerrados, e o olhar feroz fixo em Missy e tudo o que ela havia provocado. Sabia que, se eu não interviesse, uma briga ia se formar e as consequências não seriam boas para ninguém — especialmente para Jade, que já estava no seu limite. Então, antes que ela fizesse algo estúpido, a segurei pelo braço e a arrastei para um canto mais isolado do baile, longe da confusão. Ela não estava nada feliz com isso.
— André, me solta! — Ela gritou, tentando puxar o braço de volta, mas eu não cedi.
— Jade, calma. Não vai resolver nada. Vamos sair daqui um segundo, ok? — Tentei falar com um tom calmo, mas sabia que ela não estava ouvindo. Eu podia ver o fogo nos olhos dela. Ela estava furiosa, mais do que o normal e qualquer palavra errada poderia ser a faísca para a explosão.
Arrastei ela até uma área mais silenciosa, atrás de uma parede onde a música já não chegava com tanta força. O som estava abafado, e só podíamos ouvir nossas respirações pesadas. Ela continuava tentando se soltar, mas agora estava ofegante, a fúria se transformando em algo mais profundo, algo que eu não sabia muito bem como lidar.
— Me solta agora! — Ela tentou de novo, mas seu tom já estava mais rouco, com uma emoção que não consegui identificar.
Eu soltei o braço dela, mas não dei espaço. Fiquei bem na sua frente, observando enquanto ela tentava controlar o próprio corpo. Eu sabia que ela estava prestes a quebrar. E, para ser sincero, eu queria que ela quebrasse. Eu queria que ela deixasse de lado toda essa fachada de indestrutível e mostrasse a fragilidade que estava por trás.
— Jade… — Falei, tentando acalmar. — Não faz sentido continuar assim. Só respira um pouco…por favor.
Ela me fitou com aqueles olhos azuis brilhantes, cheios de raiva e dor, a respiração ainda pesada. Eu podia ver o conflito dentro dela, a batalha entre o que ela queria fazer e o que estava sentindo. De repente, a morena pareceu sucumbir a algo muito maior do que a raiva. A expressão dela vacilou, os ombros caíram, e então, de repente, a máscara de dureza se quebrou. O que veio depois foi quase um choque para mim.
Ela desabou. Não uma explosão de gritos ou palavras raivosas, mas um choro profundo, desesperado. Eu não sabia o que fazer, mas a puxei para perto de mim, com os braços ao redor dela, sem hesitar. Ela se encostou em mim, com a cabeça contra meu peito, soluçando, o corpo tremendo de tanto chorar.
— Hey, hey… — Falei baixinho, acariciando o cabelo dela. — Está tudo bem, eu estou aqui.
Jade não respondeu, apenas continuou a chorar, como se finalmente tivesse permitido a dor sair. Eu a segurei com mais força, sentindo o calor do corpo dela contra o meu. Não era mais sobre a raiva, sobre o baile, sobre Missy, Beck ou Tori. Era sobre ela. A Jade que sempre foi tão dura e imperturbável, agora estava vulnerável, frágil. E eu sabia que a última coisa que ela queria era mostrar isso. Mesmo que eu gostasse dessa versão sentimental dela.
— Não precisa chorar, Jade… — Sussurrei, a voz suave e tranquila. — Você é mais forte do que isso. Eu sei.
Ela ergueu a cabeça, ainda com lágrimas nos olhos, e me fitou como se não soubesse o que estava acontecendo com ela.
— Eu não sei o que está acontecendo comigo, André…Eu não sei por que estou assim…tão emotiva. — A voz dela falhou e ela voltou a enterrar o rosto no meu peito. Eu a segurei mais firme, sem querer deixar ela ir.
Eu passei a mão suavemente pelo rosto da morena, afastando os fios de cabelo que haviam colado na pele molhada.
— Jade, você é a garota mais linda que eu já vi. Não tem ninguém nesse mundo que tenha coragem de te trair ou te deixar pra baixo. Não importa o que você esteja sentindo agora, você é tudo menos fraca, entende? — Falei com sinceridade, a mão ainda no rosto dela, acariciando suavemente. — O Beck te ama. Ele nunca faria isso com você, vê se entende…A Tori também nunca faria algo para te magoar…você sabe.
Ela fungou, tentando se recompor, mas estava evidente que as palavras dela não eram sobre Beck, Tori ou qualquer outra coisa. Eram sobre ela mesma, sobre a insegurança que ela provavelmente nunca deixou transparecer. Aquela garota que sempre exibia tanta força estava, na verdade, quebrando por dentro.
— Eu não sei… — Ela soluçou. — Eu só...eu só — hesitou por uns segundos — eu não sei se eu sou suficiente…Sabe, suficiente para ele não se apaixonar por outra. — Disse quase como um sussurro, com o rosto corado.
Eu fiquei quieto por um momento, antes de responder, minhas palavras saíram com mais carinho do que eu esperava.
— Você é mais do que suficiente, Jade. Eu vejo isso. E não precisa ter medo…porque você não está sozinha nisso. Eu sempre vou estar aqui para você, sempre…e o Beck também…claro.
Ela levantou a cabeça, seus olhos ainda marejados, mas algo em seu olhar havia mudado. Não havia mais raiva, apenas uma fragilidade crua, uma pessoa tentando entender seus próprios sentimentos.
Eu passei a mão por sua bochecha, enxugando uma lágrima que escorria.
— Você é incrível, Jade. Nenhum homem seria capaz de te deixar. Você é forte, linda, e ninguém pode mexer com isso…— As palavras saíram tão espontaneamente da minha boca que me deixaram corado quando me dei conta do que disse.
Ela olhou para mim e algo ali foi diferente. Eu podia sentir a tensão entre nós, o calor da proximidade. Eu estava vendo uma Jade completamente diferente, uma versão dela que eu nunca tinha visto antes e foi difícil desviar o olhar. Mas eu sabia que não era o momento. Eu só queria que ela estivesse bem. Ela precisava disso, mais do que qualquer outra coisa.
— Eu… — Ela não conseguiu terminar a frase. Simplesmente se calou, como se as palavras ficassem presas na garganta. E, por um instante, eu me senti completamente perdido. Como se não houvesse mais nada a dizer. Tudo estava ali, no ar, entre nós. O silêncio dizia mais do que qualquer palavra.
Eu a abracei novamente, apertando-a com carinho, sentindo o peso de tudo o que ela estava carregando. E, por um momento, eu realmente queria que ela soubesse o quanto ela significava para mim e para todos. Mas sabia que agora não era o momento certo.
O baile continuava lá fora, mas eu sabia que, por dentro, nós dois estávamos em um lugar totalmente diferente.
Eu não sabia o que estava acontecendo, mas algo naquele abraço parecia a coisa mais certa que já fiz. E por mais que eu tentasse entender o que estava começando a surgir entre nós, eu não poderia deixar de me importar.
Fale com o autor