Impulsionado pelo vento, um navio singrava a vastidão do mar azul do Novo Mundo. O navio, com detalhes coloridos e escultura de proa chamativa em forma de um leão, deslizava sem problemas por aquelas águas, enquanto suas bandeiras tremulavam. Eram uma bandeira inconfundível. Sobre o fundo preto, a tradicional caveira com dois ossos cruzados, por si só, já denunciava o fato de o navio pertencer a um bando pirata. Entretanto, o chapéu de palha acrescentado indicava que a Jolly Roger não era de um bando pirata qualquer... Ninguém menos que o famoso bando do Chapéu de Palha, alcunha dada a seu capitão, Monkey D. Luffy.

Por falar no capitão, este estava sentado como de costume sobre a figura de proa do navio Thousand Sunny. Tal hábito era adotado por ele desde o primeiro navio, Going Merry, com sua característica figura de proa em forma de cabeça de carneiro. Luffy colocou a mão direita por sobre os olhos, na tentativa de enxergar melhor o que estava ainda distante. Mas alguém se antecipou e anunciou:

— Terra à vista!

Era a voz de Usopp, que descia rapidamente do alto e se aproximava de Nami, que pegou a luneta e buscou ver melhor a porção de terra da qual o navio se aproximava. Com o vento favorável, a velocidade aumentava e ficava mais fácil perceber que se tratava de uma ilha e era possível ver algumas construções à beira-mar, junto a um cais. Sob a orientação da navegadora, Jinbe manobrou o Sunny para longe de tal área, contornando a ilha para encontrar uma praia na qual atracariam sem serem notados. Com mais alguns minutos navegando pela costa, o experiente timoneiro levou a embarcação para uma praia deserta, na qual ancorou.

Os dez ocupantes do navio se reuniram no convés forrado de grama assim que ouviram o chamado de Nami. Decidiram tirar nos palitinhos quem ficaria tomando conta do Sunny e quem desceria para explorar o local e comprar tudo o que fosse necessário para prosseguir com a viagem para o próximo destino. Quem tirasse o palitinho mais curto, ficaria. E os demais sairiam em trios para poder conhecer o lugar.

Desta vez, Brook ficaria encarregado de cuidar do navio. Não via nenhum problema nisso, uma vez que seria um momento oportuno para ele fazer suas composições musicais e aumentar ainda mais seu repertório.

Com um novo sorteio, os trios foram definidos a cada três palitinhos semelhantes, formando os seguintes grupos: o primeiro trio era composto por Luffy, Nami e Usopp; o segundo, por Sanji, Robin e Chopper; o terceiro, por Franky, Zoro e Jinbe.

— Agora que estamos divididos – a navegadora disse. – podemos cobrir toda a área e encontrar o que precisamos. Assim que a gente terminar, voltamos para o navio.

Luffy já começava a marchar para a frente, tentando farejar no ar algum cheiro de comida, por mínimo que fosse.

— Onde é que tem um restaurante aqui, hein? Já tô com fome!

— Vamos logo, Nami! – Usopp já corria atrás do capitão esfomeado. – Senão ele vai deixar a gente pra trás!

— Já tô indo!

Os três seguiram em linha reta por uma trilha aparentemente pouco frequentada em meio a um bosque tropical, com uma vegetação bastante colorida e vibrante. Luffy seguia em frente sem a menor preocupação com nada, enquanto Nami rezava aos céus para não dar de cara com nenhum inseto ou qualquer outra coisa do tipo. Logo atrás, Usopp empunhava seu estilingue Kuro Kabuto, atento a qualquer barulho ou movimento suspeito. Por fora, o atirador tentava manter uma postura impassível, mas na verdade cada barulho de arbusto se mexendo o fazia se lembrar de que seria bom comprar umas cuecas extras, além do material para fazer suas munições.

Contrastando com o medo dele e da ruiva, a voz esganiçada do Chapéu de Palha começou a entoar “Aaaah, minha chinela vai cantaaaaar...!”, enquanto seguia sua caminhada.

— Como é que o Luffy pode ser tão despreocupado, hein...?

— Não faz pergunta difícil, Usopp... – Nami suspirou conformada. – A gente nunca vai entender!

— Pois é, né... – ele também assumiu um ar conformado. – Paciência.

Luffy parou de repente, os outros dois trombando logo atrás.

— Será que a gente tá muito longe de algum restaurante? Até agora não senti nenhum cheiro de comida.

À medida que iam avançando para fora do bosque, o trio se aproximava de uma espécie de estrada aparentemente pouco movimentada. Alguns tufos de capim brotavam aqui e ali, por entre os paralelepípedos, denunciando o pouco ou nenhum movimento naquele trecho. Luffy continuava a caminhar despreocupadamente pela estrada, seguido por Usopp e Nami.

O trio alcançou uma das entradas do que parecia ser uma cidade pequena e a adentrou pela rua que dava continuidade àquela estrada que seguiam desde que saíram do bosque próximo à praia deserta em que o Sunny estava atracado. A expectativa que tinham era a de encontrarem algumas pessoas circulando por aquela região, mas encontraram um lugar estranhamente silencioso e deserto.

— Aqui tá meio quieto demais, não acham? — Usopp indagou.

— Tá bem vazio... — Nami concordou. — Será que aqui é uma área desabitada?

— Poxa... Não tem um lugarzinho pra eu comer... — Luffy lamentou. — Será que não tem ninguém aqui?

Luffy encontrou uma porta fechada de um estabelecimento e bateu.

— Ô DE CASA! — gritou. — ABRE AÍ!

Imediatamente, veio sobre o Chapéu de Palha um cascudo duplo e uma reprimenda uníssona:

— CALA A BOCA, IMBECIL!

Luffy passou a mão pela cabeça, que fora quase ao chão com o impacto do golpe e voltara graças ao pescoço elástico.

— Pra que isso? Eu só quero comer!

— DEIXA DE SER TAPADO! ASSIM VAI CHAMAR A ATENÇÃO! — Nami berrou, prestes a dar outro cascudo no capitão.

— ESQUECEU QUE A GENTE É PIRATA, SEU TOUPEIRA? — Usopp também berrou.

— CÊS É QUE TÃO CHAMANDO A ATENÇÃO BERRANDO DESSE JEITO! — Luffy protestou no mesmo tom.

Neste momento, os três ouviram um rangido. Era a porta daquele estabelecimento se abrindo e, no mesmo instante, a navegadora e o atirador pularam para trás do capitão, que ficou frente a frente com o cano de uma espingarda.

*

O grupo formado por Sanji, Robin e Chopper seguiu à direita, em relação ao grupo de Luffy. Na forma Walk Point, Chopper passou a caminhar um pouco à frente dos outros dois, embora com certa cautela. Seguindo a faixa de areia da praia deserta na qual atracaram o navio, caminharam atentamente até chegar às proximidades da cidade, com uma periferia bastante deserta.

— Tá tudo bem quieto por aqui. — Sanji comentou ao acaso, apenas para quebrar o ruído monótono dos cascos de Chopper. — Quieto até demais, na verdade.

Robin, com sua típica expressão casual, lançou um questionamento no ar:

— Será que os moradores foram dizimados por algum invasor?

Chopper estacou, um leve tremor passou por seu corpo de rena.

— E-eu espero que não... — murmurou, tentando não deixar os dentes baterem e evidenciarem ainda mais o temor que sentia.

— Não faz muito sentido, Robinzita. — o cozinheiro discordou. — Apesar de tudo estar quieto demais, não há nenhum sinal de abandono.

— Acho que você tem razão. — a arqueóloga disse, pensativa. — Não há nenhum cheiro de sangue ou de cadáver.

"P-Por que v-você t-tem q-que ser tão macabra, Robin?", o médico do bando pensou, mas viu lógica em sua fala. Com seu nariz azul, procurou farejar algum cheiro atípico, mas nada encontrou. Talvez, por estar longe de lugares que concentrariam mais pessoas em uma cidade comum.

Prosseguiram na caminhada até chegarem ao cais que haviam visto de longe quando ainda estavam no mar. Estranhamente, estava completamente vazio e, até onde sabiam, não era fim de semana ou algo do gênero... A menos que fosse algum feriado local. Era esquisito demais não haver nem mesmo uma viva alma em um lugar que sempre significava movimento, agitação, barulho e coisas semelhantes.

Geralmente, as áreas portuárias eram tão movimentadas quanto a área central de qualquer vila ou cidade, mas... Quanto mais se pensava naquela estranha quietude, mais interrogações brotavam sobre as cabeças dos três. Até que essa quietude foi quebrada por um barulho de algo correndo e derrubando, assustado, uma lata de lixo. Esse barulho inesperado fez com que Chopper abandonasse a forma Walk Point e retomasse a sua costumeira forma Brain Point, correndo para se "esconder" por trás das pernas de Robin.

Ela também ouviu o tropel e, cruzando os braços por sobre o peito, invocou sua habilidade:

— Doce fleur!

Doze réplicas de suas mãos brotaram pelo chão e, por elas, um gato assustado passou correndo.

— Grab!

Uma das mãos agarrou o bichano, que ameaçou arranhá-la. Entretanto, não conseguiu, uma vez que Sanji se aproximou, tirando uma sardinha seca da bolsa que trazia consigo. O gato não resistiu ao cheiro da iguaria e abocanhou o que lhe era oferecido. Chopper tirou de sua mochila uma garrafa de água e, em uma latinha que havia encontrado, a despejou para o animalzinho beber. O gato, terminando de comer e beber, ficou mais calmo e passou a se esfregar nas pernas de Sanji, enquanto ronronava de maneira bastante audível.

Nisso, uma voz se fez ouvir, chamando o gatinho, que prontamente atendeu ao ouvir o "pspsps" da dona.

— Ah, você está aí... — a garota disse, enquanto o bichano subia em seu ombro. — LASCOU! SÃO PIRATAS!

A jovem, de cabelos roxos, sacou duas pistolas no susto e as apontou para o trio.

— PARADOS AÍ, PIRATAS... E VOCÊ TAMBÉM, GUAXINIM!

Chopper tomou um susto com as armas, mas isso foi logo substituído pela indignação.

— GUAXINIM, UMA OVA! EU SOU UMA RENA, PÔ!

Protesto ignorado, pois a garota acabou descarregando as duas pistolas contra Chopper, Robin e Sanji.

*

— Cidade esquisita... — Zoro resmungou. — Tem cara de feriado, mas não tem nem um boteco pra tomar um goró?

— Nisso eu tenho que concordar com você, Zoro. — Franky disse pensativo. — Até pra um feriado isso tá bem esquisito.

— O centro da cidade dá a impressão de que deve estar acontecendo algum toque de recolher. Talvez seja melhor nós retornarmos ao Sunny até amanhã de manhã, já que está anoitecendo. Não me surpreenderia se o restante do bando já tivesse voltado para lá.

Zoro passou rapidamente os olhos pelas ruas desertas ao redor da pequena praça onde estavam, no centro daquela estranha cidade. Para aquele local estar tão deserto...

— Sei não, Jinbe... Mas eu nunca vi um lugar tão quieto assim durante o dia.

Os três decidiram fazer o trajeto de volta ao navio. O sol já estava começando a se pôr e a noite chegava. Se quisessem comprar ferragens, ferramentas ou até mesmo tomar umas, só se fosse no dia seguinte. Ou pelo menos era o que pensavam, ao verem que as luzes das ruas começavam a se acender e pessoas começando a circular enquanto o comércio abria, iniciando suas atividades.

— Mas vejam só... — Franky disse enquanto coçava a cabeça, cujos cabelos azuis formavam o topete ao estilo Ace Ventura.

— Uma cidade cem por cento noturna? — Zoro estava encucado. — Nunca vi algo assim.

Jinbe sorriu divertido.

— A gente morre e não vê tudo ainda...

O trio decidiu andar mais um pouco, agora que a cidade resolvera ganhar vida com o cair da noite. Caminharam por um bom tempo por uma rua pouco movimentada, onde ouviram o som de tiros e o grito de um homem:

— PIRATAS! CHEGARAM PIRATAS! PROTEJAM-SE!

Franky observou o homem correndo para o centro da cidade enquanto dava o alerta; aparentemente ele não vira nem o ciborgue e nem seus companheiros. Disse:

— Ou ele tá avisando de outros piratas, porque não percebeu a gente...

— ... Ou ele viu alguém do nosso bando. — Jinbe completou.

— No mínimo, foi o Luffy! — Zoro resmungou. — Vocês sabem que nosso capitão é um idiota! Vamos lá ver!

O espadachim tomou a frente e seguiu para a direita, mas...

— Zoro, a gente tem que seguir a rua à frente! — Jinbe o alertou.

Imediatamente, Zoro deu meia-volta e seguiu o timoneiro e, logo atrás, dele, Franky se posicionou como medida de precaução.

— Eu acho que vou ter que projetar um aparelho de GPS para certas pessoas que se perdem com frequência.

— CALA A BOCA! Eu não me perco, só pego rotas alternativas!

— Me engana que eu gosto, amigão... Me engana que eu gosto!