O que o tempo não pode apagar
4 Uma noite mal dormida
Notas iniciais
Minha amada Cara,
Eu não tenho palavras para descrever o quanto você me faz falta. Nem como posso aplacar a solidão que sinto agora. Escrevo nesse diário, pois sei que algum dia vou poder dizer a você o que sinto. Eu sinto tanto por ter deixado você, minha querida. Eu precisei partir, é claro. Era meu dever servir ao rei. Mas, vejo que quanto mais lutamos contra nossos inimigos, mais parece que somos fracos. Vejo meus companheiros matarem pessoas, sem ao menor sentir o menor remorso. Eu não sei se quero levantar mais minha espada contra ninguém. Nem se fosse para salvar minha vida.
Será que sou tão covarde assim?
Trechos do diário de um soldado irlandês, entre o século XV e XVI.
*
P.O.V Jeremy
Jeremy acordou assustado naquela madrugada. Sentia o peito subir e descer. Suava tanto, que teria de trocar os lençóis no dia seguinte. Ele não gostava dos sonhos que tinha. Nem de como isso parecia tão real. Via uma torre em ruinas, depois de caminhar por tanto tempo. Seus pés doíam tanto. Seu amigo estava inconsciente, ao seu lado, enquanto ele o arrastava. Precisava chegar rápido aonde quer que fosse. O que Jeremy não sabia onde era. O mais engraçado era saber que a torre, em sua cidade, estava intacta. Era como se ela nunca tivesse sido destruída.
Em seu sonho, quase sempre tinha aquelas sonhos, a torre estava em ruínas. E seu peito estava dolorido, pela certeza da morte da sua amada. Mas, Jeremy não conhecia ninguém que pudesse amar. E apesar disso, ele sentia o peito dolorido, como se alguém tivesse sido arrancado da sua vida. Era ridículo, pois não conhecia ninguém que tivesse perdido. Nem por seu pai que havia falecido sentiu tanto dor.
Lembrou-se de Catherine e dos seus olhos azuis cor de safira. Aquela mulher era intrigante. Viu ela no bar e como ela se comportava em seu habitat. E ela era linda. Tão linda que o coração de Jeremy disparou ao vê-la passar pelas portas de entrada. E doeu quando ela foi embora. A dor que sentiu ao vê-la se afastar era a mesma que sentia toda noite que sonhava com aquela torre em ruínas. Devia ter pedido seu telefone, mas, ela logo voltaria para Inglaterra. Por que deveria se preocupar com isso, afinal? Ele nem a conhecia. Voltou a deitar a cabeça no travesseiro macio, sentindo os lençóis sobre seus dedos. Se ela pudesse estar ali com ele, seria muito mais interessante do que ouvir seu colega de quarto com sua namorada. Por que diabos foi morar com Josh?
Jeremy passou as mãos pelo rosto, sentindo-se tenso. E muito, muito idiota. Devia ter pedido o telefone de Catherine. Devia ter continuado a conversar com ela aquela noite. Mas, para que, afinal? Só teria duas noites com ela, até que ela fosse embora. E ele não queria uma relação de uma noite. Não era como se ele fosse romântico, pois teve algumas mulheres em sua vida. Contudo, sentia que com ela não iria conseguir que fosse somente uma noite e uma transa. Como ela, parecia ser algo muito mais profundo. Ele resmungou, irritado e se levantou.
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