O que o tempo não pode apagar
5 Um bar irlandês
— Eu já disse a você que eu não quero ficar aqui.
— Ok, mas temos que esperar a Kitty voltar. Maggie, para.
Jeremy estava passando pelo casal estranho. A garota de cabelos ruivos esvoaçantes corria do rapaz atlético e de cabelos loiros. O que era uma situação engraçada. Jeremy nunca viu um homem correr tanto atrás de uma mulher na vida.
Então, sentiu a estranha sensação de que estava fazendo a mesma coisa na torre. Mas, era uma circunstância bem diferente. Ele somente queria ajudar a garota. Queria ajudar Catherine. O nome dela era comum, mas não para uma mulher tão bonita como ela. Tinha os cabelos pretos, cor de azeviche e olhos azuis vibrantes. O que contrastava era suas sobrancelhas claras. Com certeza, ela tingia os cabelos de preto. Como será que deveria ser os cabelos dela em uma cor mais clara?
Ele sacudiu a cabeça, tentando esquecer-se dela. Afinal, Catherine deixou bem claro para ele que não queria sua companhia. Então, rumou para o estacionamento, ainda ouvindo o rapaz gritando para que a tal de Maggie parasse de correr. Jeremy conteve o sorriso. Aqueles dois ainda iriam ficar juntos, com toda certeza. Foi assim com seus pais. A mãe de Jeremy disse que odiava seu pai, quando estavam no colegial, mas que na verdade, tudo era uma paixão reprimida. Jeremy pediu aos céus que nunca passasse por isso. Detestava joguinhos e flertes. Era direto em tomar decisões. E sempre seria. Deixava bem clara suas intenções e o que desejava. Esperava o mesmo da mulher que fosse se apaixonar. Se é que um dia iria.
Ele chegou em frente a seu carro. Um Mustang 1967, na cor preta. Foi seu primeiro carro que comprou com seu trabalho. A família de Jeremy era dona de um bar, pelas redondezas e ele assumiu o lugar, reformando e deixando mais moderno.
Ao entrar no carro, pode ver que a ruiva que estava fugindo do rapaz perto da torre estava passando com Catherine.
— Então esses são seus amigos — ele disse, para ninguém em particular, enquanto via Catherine passar, indo direto para um ônibus de viagem, parando há alguns metros do carro dele. Ela não o viu, o que deixou Jeremy um pouco decepcionado.
Ele sacudiu a cabeça e ligou o rádio, tentando dissipar os pensamentos. Rumou direto para o bar. Tinha muito trabalho a fazer.
*
Catherine decidiu que aquela noite iria ao pub perto do hotel que estava hospedada com seus amigos. Maggie, é claro, alegou estar com uma profunda dor de cabeça e Brian a acompanhou. Logo na entrada do bar, ele se afastou, dizendo ter visto a mulher mais linda do mundo, uma gata com cabelos loiros, até a cintura e olhos expressivos.
Ela balançou a cabeça em reprovação para o amigo e rumou direito para as cadeiras altas em frente ao balcão de mogno, enquanto Brian foi para os fundos do bar, se sentar ao lado da garota que havia gostado.
Catherine olhou ao redor, vendo um bartender trabalhar, lavando copos de forma rápida e precisa na pia de inox, com uma ducha de água quente. E percebeu que haviam outras pessoas sentadas ao lado dela. Ninguém parecia se incomodar com sua presença. Uma música folk tocava nas caixas de alto falante e ela sentiu-se em casa imediatamente. O bartender se virou para ela, com um pano de prato nas mãos, secando um pint. Tinha os braços cobertos de tatuagens e olhos negros. Os cabelos batiam na altura do queixo.
— O que vai querer? — ele perguntou em tom seco.
— Eu quero uma cerveja — ela respondeu, tentando não se intimidar com o olhar dele.
— Tenho várias na torneira — ele disse, como se fosse óbvio e então, apontou o dedo indicador para um quadro negro, acima dele, na parede, com nomes de cervejas escritos a giz — Essas sãos as opções. Qual você vai querer?
Ela olhou para o quadro, confusa. Tinha tantas opções. Chopp stout, chopp weiss, chopp ipa...eram tantos tipos de chopp que ela ficou atordoada. Só tomou cerveja em lata a vida toda, ou whisky.
— Tem cerveja em garrafa? — ela perguntou, mas ele a fitou com um olhar decepcionado.
— Pare de amolar ela, Josh — uma voz conhecida soprou atrás dela. Era macia, e muito cativante. Ela virou a cabeça por cima do ombro e se surpreendeu ao ver o cara da torre. Jeremy — Pegue um chopp de Guinness. Eu tenho certeza de que você vai gostar Catherine.
Ouvir o nome dela pronunciado pelos lábios dele deixou-a abalada. Com as pernas bambas. Ainda bem que estava sentada.
Jeremy veio para o lado dela, sentado no banco vazio.
— O que faz aqui? — ela perguntou, enquanto o bartender chamado Josh pegava um pint e foi até a torneira de chopp da Guinness, retirando uma cerveja escura, com bastante espuma.
— Eu trabalho aqui — ele respondeu, com um sorriso enviesado — E você?
— Eu vim tomar uma cerveja com meu amigo. Mas, parece que ele está ocupado — ela olhou para trás, para onde estava Brian, que parecia muito ocupado com uma certa loira — E fui trocada por aquela moça ali.
Jeremy riu.
— Não fique chateada. Moira sempre acaba fisgando os turistas — ele disse.
— O nome dela é Moira? — Catherine perguntou, olhando para ela. Brian estava falando algo no ouvido de Moira e ela riu de forma estrondosa.
— Sim. Ela vem aqui no final de semana e isso dá muito lucro pro bar. Atraí clientes — ele piscou para Catherine, que riu.
— Então, Moira é a atração dor bar é?
— Eu não diria exatamente isso. Mas sim.
Eles riram juntos e Josh colocou o copo sobre a mesa.
— Está aqui moça — ele disse a Catherine, que puxou o copo com a mão direita.
— Obrigada — ela respondeu.
Ele deu um leve aceno e foi atender outro cliente que havia se aproximado do balcão pedindo duas doses de tequila.
— Então, você está fugindo dos seus deveres? — ela perguntou. E depois, começou a tomar a cerveja, sentindo um sabor amargo na boca, mas era tão bom. Parecia café. Ela gemeu de prazer, pois nada era igual aquela cerveja. Ela nunca tinha tomado uma tão boa assim — Isso aqui é divino.
Ele sorriu, parecendo contente pela reação dela.
— Sempre é, Catherine. É o que fazemos de melhor na Irlanda — ele se gabou — Mas, respondendo sua pergunta, eu não estou fugindo dos meus deveres. Eu sou dono desse lugar, então, eu acho que mereço uma hora de folga, não acha?
Ela o fitou surpreendida.
— Você é dono disso aqui? — ele assentiu — Uau. Você parece tão jovem para ter um negócio.
— Obrigado — ele disse, parecendo lisonjeado — Mas, eu não sou tão novo assim. Tenho quase trinta. E isso aqui é negócio de família. Eu só tenho o mérito de manter o lugar aberto e funcionando bem. Com lucros, é claro.
— Uau, meus parabéns, Jeremy — ela o elogiou de forma sincera, tomando mais um gole da cerveja escura. Era tão bom, que ela não conseguia se contentar com só um gole — Então, você vive aqui?
— Nasci, cresci e vou morrer em terras irlandesas — ele respondeu, com orgulho.
— E você nunca quis conhecer o mundo? Sair para viajar, sei lá, fazer um mochilão? — ela colocou o copo de pint sobre o balcão, de repente muito interessada na história dele.
— Eu já pensei nisso, mas há coisas que não me permitem sair. Meu pai morreu muito cedo, quando eu tinha dezoito anos. O que limitou muito as coisas para mim — ele respondeu, sem parecer abalado.
— Eu sinto muito, Jeremy.
— Já passou — ele garantiu, sem perder o bom humor — Ele com certeza deve estar se divertindo, aonde quer que tenha ido.
— Eu também perdi meu pai cedo — ela disse, com um tom melancólico. Não gostava de lembrar da morte do seu pai, mas era algo inevitável. Fazia pelo menos três anos que ele havia partido.
— Ei, não fique triste — Jeremy pediu, colocando a mão no ombro dela. O contato foi tão intimo, que a deixou desconsertada, mas ela relaxou. Estava começando a gostar dele e do seu jeito simples — Não gosto de ninguém triste por aqui. Por isso vou colocar uma música animada para você.
Ele se levantou da cadeira e foi para as portas do fundo, ao lado do balcão. Ela continuou tomando sua cerveja e sorrindo de forma boba. Como aquele cara poderia ser tão atencioso, sendo que se conhecia há poucas horas?
Logo os alto falantes começaram a tocar uma música que ela conhecia. Era circles around the sun, dos Dispatch. A música era animada e isso realmente ajudou a desviar a atenção dela sobre a morte do seu pai.
Jeremy voltou e se aproximou dela no balcão.
— Sinta-se em casa, Catherine. Eu vou ajudar aqui no bar, antes que me demitam. Se precisar de algo, é só me chamar — ele piscou para ela e foi atender alguns clientes.
Catherine não queria que ele saísse. Estava ótimo conversar com ele e conhece-lo. Mas, nem tudo na vida ela poderia ter, é claro. O que era uma pena. Ela observou ele atender de forma atenciosa seus clientes, servindo chopp ou cerveja em garrafa. E pedindo na cozinha porções de comida, como batatas fritas e frango frito. Ela observava cada movimento dele e notou que havia mais alguns empregados que auxiliavam a servir as mesas. O bar começou a encher e ficar movimentado. E não havia lugar mais no balcão, nem nas mesas. Catherine pediu mais dois pints de Guinness, como Jeremy havia explicado que deveria ser pedido. Ela já estava ficando tonta e sentia-se cansada de ficar ali, sozinha. Brian não estava em parte alguma e a tal de Moira havia sumido. Então, ela percebeu que já estava na hora de ir também.
Pagou a cerveja no caixa, do outro lado do bar. A garota no caixa estava com blusa vermelha, decotada no busto. E tinha cabelos pretos, com os olhos marcados por uma maquiagem forte. Ela fora simpática com Catherine, mas fechou a cara quando viu Jeremy se aproximando.
— Você já vai? — ele perguntou a Catherine, enquanto ela passava o cartão de crédito na máquina.
— Sim, eu acho que bebi além da conta — ela respondeu, ficando um pouco incomodada com olhar feroz que a morena peituda dirigiu a ela.
— Todos os clientes falam isso — a garota do caixa disse — Não é Jemmy?
Catherine sentiu a raiva tomar conta dela. Por que estava tão irritada com aquela garota? Deu graças quando o cartão passou e a garota entregou o comprovante para ela.
— Volte sempre querida — ela disse com a voz enjoada.
Catherine se afastou dela e de Jeremy, que parecia estranhamente calado. Quando estava passando pelas portas duplas, de vidro, sentiu a presença de alguém atrás dela. Ela se virou, se deparando com ele atrás dela. Parecia constrangido por ter sido pego no flagra.
— Você vai ficar por aqui, na cidade? — ele perguntou.
— Só por mais dois dias. Por quê?
— Eu...- ele parecia indeciso em responder a indagação dela. Passou a mão pela nuca, respirando profusamente — Eu te vejo por ai então.
— Ah, sim — ela concordou um pouco decepcionada — Boa noite Jeremy.
— Boa noite Catherine.
Ela atravessou a rua, indo para o seu hotel. Estava com um gosto amargo na boca, que nada tinha haver com a cerveja que tomou aquela noite. Era uma sensação de perda. Não fazia o menor sentido para ela, pois mal conhecia Jeremy. Mas, se pegou desejando que ele pedisse seu número ou que pedisse para que ela viesse visita-lo, ou até mesmo esperar que ele fechasse o bar para saírem juntos. Ou apenas conversarem. Apesar da sua vontade, achou tudo aquilo uma grande bobagem. Quando tirou aquelas férias de verão, depois de concluir sua graduação em História, não pensava em encontrar ninguém. Queria apenas relaxar e se divertir, ao seu modo. Com isso em mente, ela passou pelo saguão do hotel, subindo as escadarias até o terceiro andar e abrindo a porta do seu quarto com a chave.
Tudo estava estranhamente silencioso ali. A luz estava apagada. Ela dividia um quarto com Maggie, enquanto que Brian havia alugado um quarto só para ele. E era lá que ele deveria estar com Moira. Catherine riu disso.
— O que? Hã? – a voz sonolenta de Maggie ressoou no ambiente.
— Sou eu, Maggie, volte a dormir – Catherine disse sentando na cama dela e tirando as botas de couro.
— Sim, mamãe – ela respondeu em tom sonambulo.
Catherine segurou a risada. Maggie tinha costume de falar a noite e até mesmo se mover para fora da cama. Era sonambula desde sempre. Então, isso acendeu um alerta em Catherine, para ver se havia trancado a porta do quarto. Levantou da cama e viu que a porta estava trancada. Resolveu tirar a chave e colocar na mesinha de cabeceira ao lado da sua cama de solteiro, afinal, Maggie poderia acordar no meio da noite e destrancar a porta. E sair sem rumo.
Quando deitou a cabeça no travesseiro, já despida de suas roupas, com uma camisola leve, Catherine olhou para o teto, vendo alguns pontinhos verdes, que pareciam dançar em seus olhos. No escuro, era assim que enxergava, quando focava de mais a visão em algo. Logo seus pensamentos voltaram para Jeremy e seus olhos cor de whisky. Por que seu coração estava tão opresso? Adormeceu lembrando-se do seu rosto e do seu olhar intenso. E sonhou com castelos e torres. Com uma jovem que chorava, olhando por uma janela e escrevia cartas de amor para seu amado.
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