O que o tempo não pode apagar

3 O segredo da torre parte 2


Notas iniciais
Gente, eu escrevi mais um capítulo e dessa vez vai avançar um pouco no tempo. Considere séculos hahahaha. Enfim, os capítulos vão ser postados de forma aleatória, sem uma ordem cronológica. Não é uma história narrada de forma linear. Eu tenho o começo e o fim dela, mas vou postando de forma aleatória por aqui. Não estou seguindo uma ordem especifica de acontecimentos. Mas, tudo girara em torno do casal: da dama de companhia e o soldado.

Catherine olha para uma torre, afastada da construção de um castelo. Deveria ser bonita e majestosa há séculos atrás. Talvez, suas paredes escondessem um amor trágico. Ela sabe que sim, pois o guia, quando estava levando um grupo para visitar o castelo, disse que um jovem casal havia se apaixonado, perto dali e que nunca puderam ficar juntos. Ele era um soldado e a jovem dama uma serva do rei e dama de companhia da princesa Hyacinth. Até mesmo informou que a torre fora destruída, assim como o castelo. O local sofreu um ataque do exército inglês. Então, os amantes nunca puderam ficar juntos, pois a dama de companhia havia morrido dentro do castelo, atacada por ingleses.

É claro que Catherine não deu muita atenção a história de amor impossível entre o soldado irlandês e a dama de companhia. Ela só queria ver a torre. Gostava de castelos, torres e tudo que remetesse ao passado. Mesmo não desejando de maneira alguma voltar no tempo. Afinal, viver nos séculos passados era morrer jovem, ter doenças que não teriam cura alguma ou ter uma espada enfiada na barriga. Não, não era uma ideia atraente. De modo algum.

— Não vai me dizer que quer entrar lá, Kitty – Maggie, sua melhor amiga, diz, em tom apavorado. Os olhos verdes sempre calmos dela refletiam todo o medo que sentia de torres e castelos abandonados. Ou quase abandonados – Não quero entrar de jeito nenhum nesse lugar. E se tiver morcegos? Aranhas? Aranhas enormes e peludas...ahh...me dá tanto medo que parece que elas estão andando em minha pele agorinha mesmo!

Catherine dá risada do absurdo que sua amiga acabou de dizer. Como Maggie poderia ser tão medrosa e com mente tão fértil?

— Maggie, se acalme – ela pede, colocando a mão no ombro da amiga – Veja, esse lugar está aberto à visitação. Acha mesmo que vai ter tudo isso que você falou?

Maggie sacode a cabeça, balanço seus cachos ruivos, de forma veemente e morde os lábios de forma apreensiva. Catherine solta um suspiro. Sair com sua melhor amiga era um problema. Até mesmo para ver um filme de terror. Maggie entrava em pânico toda vez que precisava ver um. Isso limitava muito as coisas para Catherine, afinal, ela era aventureira e curiosa sobre tudo. Já sua amiga sempre fora retraída.

— Tudo bem. Fique aqui. Brian deve voltar daqui a pouco – Catherine sugere. Mas, Maggie a fita com os olhos grandes e amedrontados.

— Não pode me deixar aqui...sozinha – ela diz, com a voz mortificada, olhando ao redor – E se eu for assaltada?

Brian se aproxima com sua câmera pendura no pescoço. Catherine segura o riso. Seu amigo então, bem próximo de Maggie, coloca a mão sobre o ombro dela, que solta um grito assustado.

— Com certeza ninguém vai conseguir tirar nada de você, Maggie. Você nem celular trouxe – ele diz, em tom brincalhão.

— Seu idiota – Maggie se afasta dele, irritada, com os olhos acusatórios. Mira o rosto de Catherine como se estivesse prestes a cometer assassinato – Por que não disse que esse idiota tinha voltado?

— Olha como fala, moça – Brian adverte, mas não parece nem um pouco irritado. Passa a mão pelos cabelos loiros, cor de areia, com um olhar zombador para Maggie.

— Eu nem percebi, Maggie – Catherine dissimula, segurando o riso – E agora, fique aqui com Brian. Eu vou dar uma olhada na torre. Empresta a câmera?

Brian passa a câmera para Catherine. Maggie fita a amiga desolada.

— Você não pode simplesmente ir – Maggie diz com a voz repleta de agonia – Eu não gosto de Brian. Ele nem deveria ter vindo com a gente.

— Estou surpreso por ser tão rejeitado por você Maggie. Parte meu coração – Ele fala com um tom irônico e leva a mão ao peito, de forma teatral e trágica. Maggie o fulmina com o olhar.

Catherine balança a cabeça, soltando um suspiro e deixa os amigos. Ela tem certeza de que eles vão ficar bem. Maggie, na verdade, está com os sentimentos reprimidos em relação a Brian. Catherine tem certeza de ela gosta dele, pela forma com Maggie sempre olha para ele, durante o tempo que se conhecem. Contudo, Brian não é um jovem calmo e pacifico. Sempre que vê uma garota que acha atraente, pede seu telefone, ou a beija. O que tem deixado Maggie furiosa.

Catherine riu dos dois, pensando neles e na viagem maluca que empreendeu até a Irlanda. Deveria estar aproveitando suas férias de verão, mas está sempre de olho em Maggie e Brian. Brian tem a incrível mania de se colocar em problemas e quase foi preso alguns dias atrás, por brigar em pub irlandês. E Maggie, bom, ela tem um jeito histérico de enfrentar os problemas. O que deixa Catherine exausta.

Caminhando até a torre, Catherine tira algumas fotos da paisagem e do castelo ao longe. Pega o bilhete dentro do bolso, assim que chega a entrada da torre, entregando a um rapaz de camiseta verde, que está no local cuidando para que ninguém entre sem pagar. Ela nota que é a única pessoa que esta no local. Mas, parece ótimo, pois deseja tirar mais fotos do lugar.

Subindo as escadas, ela sente algo familiar no local. Passa a mão pelas pedras ásperas, sentindo-as sobre seus dedos. É como voltar para casa, mas sua casa é na Inglaterra. Não ali, na Irlanda. Ela nem ao menos usa a câmera, enquanto sobe cada degrau, com certa euforia e entusiasmo. Quando chega ao final da torre, no topo, onde tem uma janela para fora, percebe que não está sozinha. Há um rapaz de costas, com uma camisa preta e cabelos longos e escuros, amarrados em um rabo de cavalo baixo. Ela fica desconsertada, mas sente-se estranha. É como se já estivesse ali antes e como se o conhecesse.

Ele se vira para ela, a fitando surpreso. E Catherine de repente sente uma vertigem, tendo a dupla visão de um carvalho, um lago e um casal correndo por uma campina. Logo sua visão volta e ela se sente tonta. Está prestes a cair, mas o rapaz se aproxima a segurando pelos ombros.

— Você está bem? – ele pergunta com um sotaque estranho.

Seus olhos tem um tom de whisky. Um bom e velho whisky. Isso a faz lembrar-se dos tempos em que seu pai era vivo e ele servia as escondidas para ela, em um copo pequeno, apenas uma dose, sem que sua mãe visse.

— Eu...me desculpe – Catherine sai dos seus devaneios e se afaste dele, mas está com as pernas bambas. Ele nota que ela está instável e a puxa de volta para que ela possa ficar de pé. O toque das mãos nuas dele em seus cotovelos a deixa muito desconsertada e inebriada.

— Está tudo bem – ele dirige a ela um sorriso enviesado – Deve ter cansado pelos lances de escada até aqui. É melhor se sentar um pouco.

Catherine o fita com indignação. Ora, ela não está mal por meros lances de escada. Ela simplesmente ficou tonta, com a pressão baixa. Mas, não ofegou nem um instante para chegar até ali.

Mas, o rapaz não parece ter notado sua indignação. Ele a guia até a parede, perto da janela e diz:

— Sente-se, vai se sentir melhor.

Ela faz o que ele aconselhou, se apoiando na parede. Senta-se no chão de pedra fria, cruzando as pernas e respira fundo. Está confusa pela forma como ficou perto dele e por sua tontura. Nunca foi de se deixar abalar. Sempre teve boa saúde e boa forma. Mas, a espécie de vertigem que teve ao adentrar a torre não fora algo normal para ela. Era curioso ter a visão de um casal correndo por uma campina. Nada daquilo fazia o menor sentido.

— Está sozinha? – ele pergunta, de repente, quebrando o silêncio. Ela olha para ela, que ainda está de pé, alguns passos distantes dela. Ela percebe que ele tem uma beleza única. Mas, não quer se deixar deslumbrar apenas por um rosto bonito.

— Meus amigos estão lá embaixo – ela responde, em tom ríspido. Algum que não é muito comum dela. Ela sempre é tão simpática, mas não sabe o motivo para estar tão na defensiva com ele. Nem o conhece para isso.

— Entendi – ele diz.

Então, os dois caem em um profundo silencio.

— Quer que eu fique aqui com você, até que você melhore? – ele pergunta.

Ela sente uma vontade estranha de que ele fique ali com ela. Mas, ao mesmo tempo, não deseja isso. Estar com ele ali é tão estranho e desconcertante para ela.

— Não, não precisa. Pode ir – ela o dispensa, sem a menor cerimonia.

Ele comprime os lábios e a fita de forma desconsertada. Talvez, magoada. Passa a mão pela nuca e solta o ar pela boca.

— Está bem – ele diz, mas não se move para a saída – Vai mesmo ficar bem? Você parece branca, feito cera.

— É claro que vou – ela resmunga – Vá, siga seu caminho, bom samaritano.

Ele gargalha, de repente. O som da risada dele a pega de surpresa. Ela sente todo seu corpo se arrepiar, com se tivesse recebido um choque.

— Eu nunca ouvi ninguém usar esse termo, não comigo – ele diz, com um sorriso que a deixa sem folego – Sou Jeremy. E você?

Ele se apresentou, sem a menor cerimonia. E isso a deixou na defensiva. Mas, ela percebe que ele é muito simpático. O que de todo modo, não é ruim. E Catherine é sempre polida e cheia das boas maneiras. Então, ela se apresenta.

— Sou Catherine – ela responde.

— Só Catherine?

— Eu digo meu sobrenome se você disser também, Jeremy – ela diz como se estivesse saboreando o nome dele em sua boca.

Ele a fita de forma curiosa, com as mãos dentro dos bolsos da calça jeans.

— Mcavoy – ele responde de forma seca.

— Hum, você é irlandês? – ela pergunta, em tom brincalhão – Pois, sou sua maior inimiga.

— Eu sei que você é inglesa – ele diz em um tom irônico, mas não parece irritado. Parece ter entrado na brincadeira dela – E qual é seu sobrenome, Srta. Catherine?

Ela ri da forma como o sotaque dele mudou, como se ele forçasse a falar como ela. Ela nem tinha percebido que tinha sotaque.

— Sou Catherine Carter – ela responde, com um sorriso enorme. Nem percebe que esta começando a relaxar na presença de Jeremy.

— É um prazer conhecê-la, Catherine – ele diz, de forma sincera – Gostaria que eu a acompanhasse de volta?

É visível que ele está apenas brincando com ela, mas ela está gostando muito disso. Contudo, fica um pouco receosa. Ir com ele é dar liberdade para que a relação dos dois se intensifique. E ela mal o conhece.

— Não, Jeremy. Pode ir agora. Eu vou ficar mais um pouco aqui...e... – ela olhou para a câmera que esta envolta do seu pescoço por uma alça – Com a minha câmera. Tirar algumas fotos, sabe?

Ele parece um pouco decepcionado de repente. E ela se sente mal por isso. Quer ver de novo o sorriso dele, mas novamente segura seu ímpeto de aprofundar o que eles têm. Catherine é sociável, mas desconfiada por natureza. Já se decepcionou muito no passado, deixando que as pessoas entrassem em sua vida. As únicas em que confia são seus amigos Brian e Maggie. E mais ninguém.

— Sim, é claro. Nos vemos por ai, então – Brian diz, com um tom indiferente e dá as costas para ela.

Catherine observa a figura dele. Ele desce as escadas, desaparecendo de forma rápida. Ela tem vontade de ir atrás dele, mas fica sentada no chão. Levanta-se depois de um tempo, limpando a calça com as mãos e começa a tirar fotos do interior da torre e do lado de fora. Observa a estrada ao longe, asfaltada. E enquanto faz isso, não consegue esquecer Jeremy e seus olhos cor de whisky, principalmente, da forma como ele a olhou, decepcionado.