Notas iniciais
Eu não achei que fosse continuar, mas aqui estou eu mais uma vez ahhaahhaha espero que gostem. Obs.: Hoje estou usando o narrador para contar a história deles.

Ela o amou no mesmo instante que o viu. E nunca mais o esqueceu. Sempre o amaria. Mas, os anos e o afastamento apagaram um pouco das lembranças, como um quadro que perde sua vivacidade e sofre com a ação do tempo. O mesmo quadro, quando pintado, depois de séculos, tem alterações nas paletas de cores usadas pelo artista. Perde o viço, o brilho. E foi assim que a lembrança do seu amado soldado foi esmaecendo na mente dela.

Quando o castelo foi atacado, tudo se perdeu. A guerra consumiu aquele lugar de forma tão devastadora. Mas, o amor deles ainda estaria gravado naquela árvore, perto do rio. Era lá que os dois amantes sempre se encontravam, escondidos dos olhos vistos.

Antes de conhecer seu eterno amado, a jovem dama ficava na torre, olhando da janela, vendo algumas pessoas passarem. Alguns cavaleiros, voltando de suas campanhas. E foi quando viu o seu eleito, seu amado. Aquele que a faria esquecer-se de toda sua reputação, apenas por um beijo roubado na campina. Ela desceu as escadas, sem pensar que era apenas uma dama de companhia da princesa. E que tudo que fizesse poderia vir a manchar a reputação da sua majestade e a dela como consequência. Mas, aquela jovem estava tão curiosa, que não se importou com nada mais, a não ser com o jovem cavaleiro montado em um cavalo de pelagem escura.

Ela o encontrou perto do rio, recostado a uma árvore, comendo uma maçã, enquanto o cavalo dele pastava. Ela observou de longe, escondida pela relva que ele parecia ter voltado de uma campanha militar. Tinha tirado seu elmo e seu escudo. A espada continuava em sua cintura e ele parecia tão relaxado naquela posição, que a dama de companhia apenas o observou de longe. Ela somente queria uma lembrança dele. Somente isso. Mas, infelizmente, o destino não permitiu que os dois amantes ficassem separados.

Quando ela estava dando meia volta, para voltar ao castelo, pisou em um graveto, chamando a atenção do cavaleiro.

— Quem está ai? — ele perguntou, em tom imperioso, se afastando da árvore e caminhando até ela.

Ele a tinha visto, com toda certeza, mas a dama simplesmente continuou a andar depressa. Até que ele a alcançou, antes que ela pudesse voltar para a estrada de terra. Segurou-a pela cintura, com muita facilidade e agilidade. Ela podia sentir a respiração dele tocar o topo da sua cabeça, enviando arrepios estranhos e desconhecidos para ela. Nunca em toda sua vida esteve tão próxima de alguém.

— Quem é a senhorita? — ele soprou a pergunta. Ela ficou atordoada pela sua voz. Um timbre macio. Mas, não devia se enganar, afinal, ele era um soldado do rei. E poderia fazer mal a ela, se desejasse.

— Eu...não sou ninguém — ela balbuciou — Por favor, não me machuque.

— Não irei machuca-la — ele prometeu, ainda a segurando, com o braço em volta da cintura dela, de forma inquietante e indecorosa — Eu apenas quero saber seu nome. E saber o motivo para estar sendo observado pela senhorita por tanto tempo.

Seu tom continuava calmo, sem qualquer tipo de ameaça.

— Sou apenas uma serva do rei, senhor — ela respondeu — Uma dama de companhia da princesa.

— Ah, sim — ele disse, em tom baixo — Eu a vi na torre, quando passei hoje pela manhã. Está desertando dos seus deveres, senhorita?

O tom da sua pergunta era zombeteiro, mas não julgador.

— Eu apenas gosto da torre. E a princesa estava tirando um cesta essa tarde, senhor.

— Entendo — ele disse, soltando-a.

Ela não se virou para ele, quando ele se afastou dela. Estava com as costas enrijecidas. Sentia medo dele, pois sabia da fama dos cavaleiros que serviam ao rei. Eles pilhavam aldeias, matavam qualquer pessoa que estivesse em seu caminho. E violavam as donzelas. Mas, ao que parecia, aquele dia era o dia de sorte daquela dama de companhia.

— Volte aqui amanhã, senhorita — ele pediu, com um tom persuasivo.

Ela não deveria, nem poderia pensar nele, nunca mais. Contudo, a solidão que tomava seu peito era muito maior do que sua força de vontade de permanecer longe de qualquer homem que entrasse em sua vida. Ainda mais um ao qual nunca foi apresentada.

— Sim, eu voltarei — ela confirmou.

E voltou para a estrada, caminhando sem olhar para trás. Ela não sabia, mas ele a observava de longe, cuidando para que nenhum mal sucedesse a ela.