O que me falta
1 Capítulo 1 - Henn
Notas iniciais
O som da xícara sendo pega, do suco sendo bebido e de uma torrada sendo mordida eram as únicas coisas que eu podia ouvir, como todos os dias ninguém dizia uma só palavra, pelo menos não palavras que uma família normal diria, as únicas coisas que saíam eram coisas do tipo:
— Henn, quero que vá eu campo hoje. — Disse a incrível imperatriz Heleonor, mais conhecida como vovó.
— Certo. — falei e acenei com a cabeça.
— Eduque seu filho de maneira correta Susane. — é difícil dizer que minha avó falou, porque isso se pareceu bastante com um rosnado.
— Querido, por favor, diga de maneira correta. — é incrível como minha mãe "combate" minha avó.
— Estarei lá pontualmente, minha senhora.
Minha avó se levantou brutalmente e deixou a mesa.
— Uau! Devemos ser educados, mas e ela? Eduque sua mãe de maneira correta Susane. — Helena riu alto quando falei, e eu também não pude me conter.
— Quietos, querem que ela volte? — mamãe perguntou.
— Talvez ela dê umas risadas com a gente, mãezinha. Você não acha Henn?
— Acho que nós três temos que ir "trabalhar". — disse enquanto fazia o sinal de aspas com os dedos. — Antes que os corpos naquele campo se tornem os nossos.
O sorriso de Helena sumiu assim que falei, mas mamãe foi mais rápida em me repreender.
— Menos Henn, bem menos.
Vesti o casaco e fui em direção ao maravilhoso local que a imperatriz chama de escola. As leis do Império dizem que o treinamento do fogo é de suma importância para a nova geração e infelizmente, eu faço parte dela.
— Vamos Helena! — Apressei-a e saímos. A pé é claro porque, porque ... Ora, quem realmente sabe, a resposta mais cabível é que a nobreza gosta de se exibir, portanto somos obrigados a fazer esse desfile todos os dias.
Cheguei com a menor empolgação possível, afinal todo esse treinamento é uma piada. Aulas de defesa, ataque de longa e curta distância, criação de armadilhas, flexibilidade, força, estratégia, encantamentos externos, resistência, linguagens e a velha e boa (horrível pra ser mais sincero) história do Império de Helen, todas voltadas para um único propósito, o início de uma guerra com inimigos inexistentes. E o mais impressionante é que todos aqui dentro seguem tais ensinamentos de maneira assídua. Ou são loucos ou apenas tolos. Mas eu devo ser o pior, sinto repulsa em tudo isso mas mesmo assim sigo as ordens da imperatriz, sou monitor desse hospício e ainda faço casualmente a contabilidade de mortos.
Tentei seguir o dia da maneira mais normal possível, matando a aula de encantamento externos como sempre faço e evitando o professor da mesma. Ao fim de toda essa babaquice tive que atender o pedido de minha avó e ir para o campo.
Eu odiava aquele lugar, era surpreendente como os guardas suportavam aquilo, pode até ser coisa da minha cabeça, mas era só me aproximar dos portões que eu começava a sentir o cheiro de sangue e logo ficava com nojo de mim e de toda a minha família. Nós os grandiosos membros da família imperial de Helen, temos as mãos mais sujas do que o mais cruel dos assassinos. E tudo começou com ganância, não entendo qual era o grande problema em vivermos em paz com o povo do gelo, mas isso não agradava o povo do fogo naquela época. Começamos uma guerra, vencemos e fundamos o Império de Helen, nome dado em homenagem a nossa primeira imperatriz. A nação hoje pensa que todos do gelo foram mortos, mas nós, a família imperial e alguns guardas de confiança sabemos que alguns sobreviveram, se esconderam e continuam vivendo mesmo depois de 150 anos.
Fiz o que minha avó havia pedido, e somei o número de torturados naquele semestre, grande trabalho, eram três e havia um preso, um deles, um habitante do gelo. Isso me chamou a atenção, a última vez que vi um deles eu tinha dez anos e ele foi lentamente torturado para que dissesse onde seu povo estava, ele não disse, e foi morto. Desde então os únicos que foram torturados eram os Lasilus, por fazerem ilusões nos guardas e usar seus poderes contra o império.
Admito, fiquei tentado á dar uma olhada no morador do gelo que estava preso, mas a imagem de membros cortados e ossos de fora me fez imaginar a saída, guardei os documentos, tranquei a gaveta, fui até a porta e um espelho pendurado na parede me deteve, e ali estava eu, parecia que não me olhava no espelho há décadas, mas acho que o que eu não fazia era pensar sobre meu cabelo, um cabelo preto, os membros do gelo com mais habilidades nasciam com o cabelo branco, o mesmo com o fogo, os mais poderosos nasciam com cabelo vermelho, assim como minha avó, minha irmã e minha mãe, mas eu não, porém meus poderes com o fogo eram enormes e isso eu definitivamente não entendia, a imperatriz diz que isso é bom, pois quando eu assumir o trono poderei mostrar ao povo que um líder poderoso não precisa do cabelo vermelho para demonstrar sua força,o resto das pessoas ao meu redor pareciam pensar o mesmo. Mas não nego, isso me incomoda.
Sai do escritório e passei pelo "matadouro". Que droga, porque não posso ir em bora, o cara lá em baixo deve estar horrendo e eu gostaria muito de jantar hoje. Tudo bem, uma olhada e tudo acabaria. Abri as portas da câmara fria e lá estavam todas aquelas carnes de boi penduradas, pro caso de algum cidadão curioso invadir o lugar. Na metade do terceiro corredor de carnes a madeira em baixo dos meus pés rangeu, tirei algumas de lá e pude ver a porta de metal reluzindo, abri e desci as escadas com um pouco de pena e temor. Se o cheiro me incomodava no portão ali era cem vezes pior, a carnificina me invadia.
Decidi não acender as luzes. A única coisa que iluminava o local era a luz da câmara fria que passava pela pequena porta. Achei que assim seria melhor, não veria com tantos detalhes o tal cara, se minha vó soubesse que estou fraquejando por causa das "pequenas feridas" deles, ela me proporcionaria mais algumas sessões de tortura alheia. Olhei dentro de uma sela vazia e pude enxergar os restos de um Lasilus, então na próxima sela estava uma garota com o cabelo desgrenhado e acorrentada à parede com os braços abertos, todos os membros do corpo dela estavam lá, não havia sangue, estranho. Os olhos da garota me fuzilavam, o cheiro dos poderes dela me deixavam tonto, uma legítima usuária de gelo. Então no andar de cima uma lâmpada que aparentemente estava queimada voltou a funcionar deixando o andar de baixo mais iluminado. O que era aquilo? Só posso estar vendo mal, subi de pressa uma parte da escada e liguei o interruptor. Então senti o cheiro errado? Também não, ela com certeza era usuária de gelo, mas por quê? Aquele cabelo... Por que ... Vermelho?
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