O que me falta

2 Capítulo 2 - Fuerza


Alto, cabelos pretos e olhos bem espantados me observando. Talvez um guarda novo? Está claramente se perguntando sobre meu cabelo. Vamos querido, saia desses degraus e olhe mais de perto, venha. Parece que ele não vai vir olhar o bichinho novo.

— Ei! Você está meio adiantado.

Ele me olha com cara de interrogação.

— A comida só é trazida às 17 hrs, ainda faltam 5 minutos. — ergo a cabeça para olhá-lo nos olhos.

— Não sou um guarda.

— Ahh, e é o quê então?

— Acho que não é você quem deve fazer as perguntas aqui.

— Como se saber de alguma coisa sobre você ou sobre esse lugar fosse fazer alguma diferença.

Ele acena com a cabeça em confirmação

— Como você come com os braços presos dessa forma? Não, esqueça, como exatamente você sabe que faltam 5 minutos para as 17 hrs?

— Sou muito boa com o tempo.

— Ser boa com o tempo é uma coisa, agora estar presa a mais de três semanas e saber que horas são é algo totalmente diferente. E se considerarmos as horas que você dormiu e que eu duvido que saiba com exatidão quantas horas dormiu, isso é impossível.

— Eu não dormi, querido. — ele me olha sem acreditar no que estou dizendo.

Então ele começa a me encarar, de um jeito que não consigo sequer imaginar no que está pensando, isso dura três minutos, até que finalmente ele quebra o silêncio.

— Por que seu cabelo é vermelho?

Mantenho o silêncio, qualquer informação é um risco. Um risco que não posso correr. Ele suspira, parece ter entendido que não vou dizer nada, ma o quê me intriga é o por quê dele não insistir.

— 10 segundos.

— Para o quê?

Aponto para cima e encaro seu olhar perplexo. Dois segundos depois começamos a ouvir passos. Então, 3, 2, 1. O guarda surge na pequena porta e se surpreende com aquele cara, em seguida ele faz uma reverência um tanto quanto desajeitada.

— Príncipe Henn! Desculpe minha reação, não tinha conhecimento de que vossa alteza estaria presente.

— Não se preocupe, apenas continue com suas tarefas e não se incomode com minha presença.

Um príncipe... Acho que por essa eu não esperava. O guarda se curva e vem em minha direção com aquele magnifico prato com um tijolo que eles dizem ser pão. Ele para em frente da cela, a abre e joga a comida no chão, por sorte (ou não) ela para perto de mim, onde posso alcançar. E antes que eu pudesse olhar para cima eu sinto, sinto aquela presença agressiva. Minha mandíbula é acertada em cheio por um chute do guarda e com a força sou jogada contra a parede.

— Aproveite sua preciosa refeição.

Ele tranca a cela de novo, caminha até a escada, faz uma outra reverência ao príncipe e vai embora. Durante todo esse show vossa alteza não disse sequer uma palavra, não que ele devesse, afinal tudo se tratou de um show mesmo. Não me batem no horário da comida, as torturas são ás 9 e ás 15, portanto o que ele queria era mostrar ao príncipe que seu trabalho estava sendo bem feito.

— Então estou diante da nobreza. — falo com uma risada amarga.

Ele não responde.

— O príncipe desse maravilhoso império veio até minha humilde cela admirar-me, que honra! Devo fazer uma reverência também? Sinto muito, minhas mãos estão atadas á parede, o que impede meus movimentos, alteza. Queira desculpar minha insolência.

Mais uma vez o silêncio. Fiz um ótimo discurso e mesmo assim sou ignorada pelo principezinho de merda.

— Cansou de falar? Vamos, onde está sua curiosidade jovem príncipe? Deixe-me aproveitar seu descontentamento.

Ahh, eu desisto desse chato, não dá nem para passar o tempo. O melhor é ir comer. Abaixo e mordo o pão, sem usar as mãos, já que as mesmas sequer alcançam, mastigo, engulo e dou mais uma mordida, que acaba fazendo as migalhas se espalharem pelo meu rosto. O principezinho me encara pasmo. É provável que esteja surpreso com a cena, afinal uma garota com o rosto inchado e sujo de terra está abaixada como um cão, comendo um tijolo (pão) que foi jogado no mesmo chão onde membros de várias pessoas também estiveram ali.

Ele continua encarando meu rosto cheio de migalhas.

— Será que isso foi o suficiente para responder a primeira pergunta que me fez, alteza?

— Acho que sim. — ele responde de um jeito seco.

Por fim ele sobe as escadas, me olha uma última vez e fecha a porta, deixando a escuridão tomar conta novamente.