O que me falta

3 Capítulo 3 - Henn


Céus, esse cabelo está me dando dor de cabeça. Não importa o que eu pense, não consigo encontrar nenhuma explicação cabível, sem falar que aquela garota não me disse nada que pudesse ser útil. Só consegui chegar à conclusão de que ela é um zumbi.

— Boa noite alteza.

Dei um pulo com o guarda me cumprimentando. Esfrego os olhos e percebo que estou nos portões do castelo e que fiz todo o percurso sem me dar conta.

— Boa noite.

Atravesso o jardim e vejo minha avó conversando com um general do exército e mais rápido do que nunca dou a volta para entrar pela cozinha. Abro a porta e dou de cara com minha mãe sentada em uma cadeira conversando com uma criada, até que nota minha presença.

— Henn, meu amado filho, deve estar exausto. Por favor tome um banho às pressas e venha para o jantar. Você tem 10 minutos, vá, vá, sua avó não irá permitir um atraso.

— Não se preocupe mãe, não irei jantar essa noite.

— Está tudo bem querido?

— Está sim, obrigado pela preocupação. Apenas estou me sentindo um pouco indisposto. – no momento eu só pensava em comida com sujeira e restos do corpo de alguém.

— Então pedirei a Antonelle para levar-lhe algo em seu quarto. – ela mal terminou de falar e a criada já estava montando uma bandeja com pães e frutas.

— Não se deem ao trabalho, tomarei meu banho, descansarei e com certeza amanhã estarei mais disposto. – seus rostos aparentavam ter entendido. – Até amanhã minha mãe. – Direciono meu olhar para Antonelle. – Obrigado por tudo Antonelle.

Saí sem esperar a resposta das duas. Cumprimentei alguns guardas nas escadas e no corredor e finalmente cheguei no meu quarto. Rapidamente tirei minhas roupas, que a meu ver estavam fedendo a carne estragada, me dirigi ao banheiro, liguei o chuveiro e ao passar o sabão senti a cicatriz no meu abdômen, um aviso de que o Império de Helen esmaga os fracos.

Saí do banho e fui me deitar. Não sei nem como pude dormir mas apaguei sem me dar conta.

Pela manhã me vesti rapidamente e fui até a cozinha tomar meu café da manhã por lá, estou fazendo qualquer coisa para não ter que dar um relatório detalhado sobre os motivos de não ter comparecido ao jantar. Pedi a discrição das criadas e esperei Helena terminar o café, para então uma criada que trazê-la até mim. Por fim saí correndo para não entrar no radar da Imperatriz e me dirigi ao meu grandioso dia.

— Você pode parar com isso? – Helena disse com tom impaciente.

— Isso o quê?

Ela olha irritada para nossas mãos.

— Pare de ficar segurando minha mão, idiota.

Vendo que ela apenas reclamaria mais, acabei soltando.

— Helena, se você prestasse mais atenção à sua volta talvez não houvesse necessidade disso tudo.

— Não importa a situação, você não tem que ficar andando por aí como se eu fosse uma criança.

Ela apressou o passo, em seguida olhou para mim bufando, mostrou a língua e entrou no colégio.

Parece que cheguei um pouco tarde, a primeira aula começa em 5 minutos, o melhor é ir para a sala. Qual é mesmo a primeira aula? Ah não. Linguagens. Provavelmente ela só está esperando os alunos chegarem. Vou até a sala e entro.

— Bom dia Henn. – Ela diz com um grande sorriso.

— Bom dia mãe. – Ela me encara com olhar de reprovação. – Bom dia Lady Susane.

— Bem acho que todos estão aqui certo, então vamos começar. Garanto que todos aqui já ouviram falar de A Princesa Traiçoeira certo?

Todos deram um longo suspiro desanimado, inclusive eu. Não importa quem você seja, dentro desse império todos conhecem essa história, apesar de ser recente. O exemplo da princesa é contado para impedir revoltas, já que ela traiu todo seu povo por puro egoísmo e foi duramente castigada.

Minha mãe passou o tempo todo fazendo um resumo da história, como se apenas mencionar o livro já não fosse chato o suficiente.

— Nosso tempo acabou, ao saírem peguem em minha mesa uma das cópias do livro e façam um relatório detalhado sobre o desenvolvimento dos personagens.

Peguei o livro e fui indo em direção às escadas.

— Henn, Castian quer falar com você. – Disse Lorde Moretus, meu primo.

— Lor meu amigo, você não acha mesmo que vou ver aquele demônio, não é?

— Ás vezes realmente acho que você não sabe meu nome. – Fomos subindo ás escadas enquanto falávamos.

— Seu nome é horrível.

— Então por que não criou um apelido?

— Eu fiz isso, não fiz?

— Lor é um apelido para Lorde.

— Sim, agora pare de encher o saco, não tenho culpa de você ter nascido com essa aberração que você chama de ...- Fui jogado dentro de uma sala e antes de entender o que estava acontecendo Castian já segurava a chave da porta e estava prestes a fechá-la.

— Lorde Moretus vá para sala e dê minhas desculpas ao professor pela ausência do príncipe Henn, hoje ele deve ter uma boa conversa comigo.

Ele fechou a porta deixando nós dois cara a cara.

— Professor Castian! É tão bom revê-lo, já faz tanto tempo.

Ele me encara como se eu fosse um cínico e em seguida suspira sem paciência.

— Por favor, cresça.

— Tudo bem, irei admitir meus erros. Sinto muito por não estar frequentando suas aulas, o senhor pode reportar isso à minha mãe se quiser.

— Mesmo que eu faça isso Henn, você não irá começar a aparecer. – Ele está totalmente certo. – Mas não te convoquei para falarmos sobre isso.

—Não? – Falo erguendo uma sobrancelha.

— Como ela está?

— Você a vê todos os dias, pergunte diretamente.

— Não estou falando de sua mãe. Me refiro a Erza.

— Quem? Olha você mais louco que o normal, me deixe em paz.

— A garota do reino do gelo. – Arregalo os olhos com o susto. – Sei que foi vê-la ontem.

— E como diabos você sabe disso? Anda me vigiando?

— Ela precisa sair de lá. E você precisa ajudar.

Dou uma gargalhada.

— Não imagine coisas estúpidas. Ela é inimiga do meu povo, não tenho que ajudar aquela imunda.

— Seu povo? O que o "seu" povo já fez por você Henn? – Sua voz está carregada de raiva. – E o que você já fez por esse povo? Vive agindo como o príncipe mimado, é só isso que faz. Além de ser uma das pessoas mais ingênuas desse império. Mais ingênuo do que os alunos desse colégio ou o povo que desconhece as torturas que sua avó faz.

— O que é isso? Um sermão? Já é bem tarde para isso. E de que infernos você acha que está falando? Não fale de mim como se soubesse de alguma coisa. E abra essa maldita porta.

— Sua mãe foi corajosa um dia. – Assim que ele fala minha raiva apenas cresce.

— Traição não é ser corajosa.

— Você não conhece a história toda e nem sabe o preço que ela pagou por isso.

— Ela perdeu o direito ao trono e aceitou sua punição.

— Acha que essa é a punição que ela recebe? Não seja tolo Henn, se algum dia sua mãe fosse herdar o trono, o nome dela deveria ser parecido com o seu, não acha? Ela nunca foi a herdeira, a punição de Susane é outra.

— Não fale o nome de minha mãe, você perdeu esse direito, seja na história verdadeira ou nessa falsa que está tentando me dizer, o culpado ainda é você.

— Não tem jeito, mas eu ainda acredito em você. – Castian destranca a porta e tira um pequeno saco dos bolsos. – Aqui tem dois frascos, um faz o cabelo dela ficar preto e o outro apaga a presença dos poderes. Faça ela beber, caso mude de ideia.

Eu o ignoro e vou saindo, mas ele coloca o saquinho no meu bolso.

Como aquele cara se acha no direito no dizer alguma coisa sobre mim e minha mãe. Só quero que ele vá para o inferno. Mas que droga! Quer saber, não quero olhar para a cara desse imbecil, o melhor é ir para casa. Desci as escadas rumo ao salão principal que estava totalmente vazio, a ideia era sair pela área de serviço, mas não tem um único guarda ou monitor. Foi bem fácil.

O difícil era andar pela cidade sem ser notado. Mas mesmo assim consegui ir por ruas menos movimentadas e fui me escondendo atrás dos carros até finalmente chegar no castelo. Eu não podia entrar pela cozinha, as criadas já me esconderam ontem, portanto a melhor opção é ficar no depósito e aguardar.

Era bem afastado da área de circulação do castelo, então estava ótimo. No caminho tive que dar a volta no antigo salão de reuniões que era usado há duas gerações atrás. Mas aparentemente tinha alguém lá, duas pessoas. Uma delas é minha mãe. Por que está aqui tão cedo? O melhor é ir abaixado para ela não me ver pela janela.

— Sente-se de uma vez sua imunda. – Uma voz gritando. Minha avó.

— Sim, senhora. – A voz de minha mãe estava amedrontada e muito fraca.

Fiquei congelado com aquilo e não dei mais nenhum passo. Pude ouvir o barulho de ferro e um leve som de fogo crepitando. Olhei pela janela. Por um momento acredito que um coração tenha parado. Minha mãe estava nua, com o corpo cheio de cicatrizes, e vindo em sua direção estava minha avó com o ferro quente na mão, cada vez mais perto. Eu queria gritar e impedir aquilo, mas minha voz não saía. Porém um outro som fez-se ouvir:

— PERDÃOOOOOOOOO. – Um urro de sofrimento.