O que me falta
4 Capítulo 4 - Fuerza
14:30 h.
Cada segundo soa na minha mente. É automático, mesmo com os cochilos que tiro ainda sei quanto tempo se passou, quanto tempo estou fora de casa.
Isso era interessante antes, uma habilidade que chamou a atenção. Eu podia dizer com exatidão quanto tempo havia passado em determinado espaço de tempo. Meu pai percebeu isso, informou ao rei que por sua vez fez com que explorassem isso. Minha mãe podia dizer que era uma má ideia, mas ela não quis. Não quis porque um poder a mais é muito bom e porque nenhum amor do mundo deve se impor à nossa sobrevivência. Em seguida o tempo passou a ser tão natural e chato, já que não me exigia esforço. Agora isso até cai bem, é uma distração saber que estou aqui há 25 dias, 4 horas e 25 minutos.
Saber do tempo é algo bom algumas vezes, porém em outras é um pesadelo e agora essa é uma delas.
— Boaaa tarde senhores! Como sempre vocês chegaram na hora certa. – Falo aos dois guardas que acabaram de abrir a porta.
Estão completamente sérios.
— Vamos, me respondam por favooooor. – Faço um bico com uma cara triste.
O que estão segurando? São facões. Não usaram nada assim até agora. Sempre foram chutes e pancadas, me lembro daquela senhora ter dito aos guardas para me manterem viva e sem ferimentos.
— Recebemos ordens novas. – Ele fala como se soubesse o que eu estava pensando.
O guarda mais alto abre minha sela, então os dois seguram o facão com uma mão e com a outra acendem uma chama que esquenta o metal do facão. Em vez de usar a força eles apenas encostam o facão na minha coxa. Isso queima, minhas pernas já não possuem força alguma. Seguro as lágrimas o máximo possível enquanto a lâmina quente rasga minha pele. Minha mente está zonza, só vejo sangue. Os guardas retiram o facão das minhas pernas e com dificuldade olho para cima, eles erguem o facão e atingem minha barriga e minhas costas.
— Erza! – Escuto uma voz fraca.
— Acorde de uma vez! Não tenho todo tempo do mundo. – Abro os olhos.
O príncipe está na minha frente, devo ter desmaiado. Estou ensopada de sangue e sem correntes me prendendo.
— O... O quê... – Minha voz falha.
— Não está tão ruim. – Ele olha para minha perna. – Acho que você consegue pelo menos me dar um leve impulso enquanto andamos. Venha. – Ele me ergue arruma meu braço em volta do seu pescoço.
Ele está certo, não foi tão profundo. Ainda tenho forças, poucas
— Você pode me dizer o que está acontecendo?
— Quando estivermos no carro eu te explico.
— Onde vocês estão me levando?
— Vocês quem?
— Espera, por que o príncipe está fazendo o trabalho de um guarda? Te obrigam a carregar corpos aqui?
— Estou te salvando garota.
— Aaa, está bem. Mas os guardas vão te ver e ainda é dia então não sei o que você vai fazer.
— Já passou das duas da manhã, Erza.
— Como sabe meu nome?
— Você faz perguntas demais. – Ele me encara irritado e em seguida suspira. – Foi um lásilus que me disse.
— Conheço vários.
— Depois você descobre quem é, estou te levando para lá.
Subimos as escadas com um pouco de dificuldade, mas ele conseguiu controlar bem a situação e me levar até o carro.
— Dois frascos, um apaga a presença dos seus poderes e o outro faz seu cabelo ficar preto.
Peguei os dois frascos da mão dele, abri um, bebi e fiz o mesmo com o outro. Minhas pálpebras começaram a ficar pesadas e antes de passarmos pelo portão eu apaguei.
Quando voltei a acordar o carro ainda estava em movimento, olhei para o lado e o lugar era deserto.
— Você mentiu. – Falei fervendo de raiva
— O quê? – Ele me olhou rapidamente.
— Me obrigou a beber aquilo e me fez desmaiar, estou num lugar mais afastado que o anterior. Vocês dessa terra são tão sujos.
Ele fica furioso e sem pensar duas vezes puxo o volante e suas mãos.
— Você enlouqueceu? – O príncipe grita, recupera o volante e para o carro. – Acha que dei aquilo para você desmaiar? O que eu ganharia com isso? Vamos aos fatos aqui: 1º eu disse que estava te tirando daquele lugar e você só disse “Aaa, está bem”, você nem sequer duvidou do que eu disse. 2º eu não te obriguei a beber nada, bebeu porque quis. Pegou da minha mão e fim. Não tenho culpa da sua estupidez, você está aqui porque quer, não se faça de sonsa. Você sempre viveu assim? Jogando a culpa dos seus problemas nos outros? – Isso me atingiu mais do que aqueles ferimentos. – Aguente sozinha as consequências do que você faz. 3º seu cabelo está completamente preto e não sinto mais sua presença, está tudo como deveria estar, eu apenas não sabia que você desmaiaria.
Ele ficou me olhando esperando que eu dissesse alguma coisa, mas não consegui dizer nada.
— Não estamos afastados, deixamos a cidade a pouco mais de 1 Km e a casa de Castian está logo ali.
Ele liga o carro e vamos em direção a casa que estava a poucos metros dali. Então me dou conta do nome que ele diz.
— Castian?
— Sim. – Um grande alívio me invade.
Ele para o carro e vem do outro lado me ajudar a sair.
— Obrigada principezinho.
— Meu nome é Henn e você sabe disso.
— E eu sou Fuerza. Erza é meu apelido.
— Hum.
Antes de alcançarmos a porta ela se abriu e pude ver o rosto do meu guardião. Não pude evitar e deixei as lagrimas caírem.
— Erza querida, o que fizeram com você? – Castian me tirou de cima de Henn e me levou para dentro.
— É tão bom vê-lo. – Por fim pude dizer alguma coisa.
Ele me sentou no sofá e fui tomada por uma grande nostalgia, Castian estava me curando.
— O feiticeiro médico volta a exercer sua função.
— Nós lásilus somos encantadores, não feiticeiros e muito menos médicos. E não faça essa comparação Erza, essa situação é bem diferente de quando eu curava seus joelhos machucados porque você sempre caía de uma árvore.
— Bons tempos! – Falei enquanto observava a casa, me senti como se estivesse olhando para o próprio Castian, pois a sensação era a mesma. Aparentava ser bem mais velha do que era, a decoração era simples, porém traziam um sentimento de conforto e cada canto daquela casa parecia guardar grandes conhecimentos.
— Então você já esteve no reino do gelo? – Henn disse após ficar apenas observando.
— Sim. – Castian respondeu junto com um aceno de cabeça.
— Você poderia ser preso por traição.
— Nesse momento você também. – Henn abaixou os olhos, mas Castian continuou. – Por que trouxe Erza até aqui?
— Acredito que você sempre soube que eu iria buscá-la. Mas dessa vez você estava enganado, eu não ia. Até descobrir a punição de minha mãe. — Os olhos de Henn se tornaram sombrios.
— Você viu. – Castian parecia estar preso em um grande sofrimento.
— Me conte o resto, por favor.
— Está tarde e você está sujo de sangue. Tome um banho e durma aqui, amanhã não há aulas e por sorte sua avó está no congresso de Dota, então depois de um bom descanso responderei todas as suas perguntas. O banheiro é no fim do corredor.
Henn pensou em questionar mas olhou para suas próprias roupas e em seguida para mim, por fim ele se dirigiu ao banheiro.
Os ferimentos nas minhas costas e na barriga já haviam desaparecido enquanto Castian encerrava o processo de cura nas minhas pernas. A sensação era estranha e eu apenas observava minha pele se juntando aos poucos até que a ferida desaparecesse.
— Bem, acabamos. Você vai senti um desconforto nos ferimentos das costas e do abdômen e talvez suas pernas venham a fraquejar. Na segunda porta a direita está o antigo quarto da Lori, lá tem um banheiro então tome um banho e vista alguma de suas roupas.
Obedeci e fui para o quarto, que por sinal era bem diferente do reto da casa. Era bem alegre, assim como a irmã de Castian, me pergunto onde Lori está nesse momento.
Tomei um banho lento enquanto sentia a água escorrer pelo meu corpo, há tempos que não tomo banho. Estar limpa é revigorante. Saí do banheiro e escolhi um vestido branco florido, por sorte Lori tem um corpo parecido com o meu então serviu muito bem.
Deixei o quarto e fui até a sala para saber se havia mais alguma coisa a ser feita. No entanto apenas Henn estava lá.
— Onde está Castian?
— Foi dormir. Ele deixou essa torta aqui e disse para comermos.
Henn já estava comendo, então me sentei e olhei fixamente para aquela torta, meu estomago começou a roncar, parecia que tinha um monstro dentro de mim, afinal eu só estava comendo um pão sujo todos os dias. Me concentrei em pegar apenas um único pedaço e quando me dei conta estava sem me mover, com a boca aberta enquanto o garfo estava apenas a alguns centímetros de distância. Eu não parava de encarar Henn, ele estava sem camisa e gostaria de saber de onde vieram aqueles músculos pois quando está vestido ele parece ser bem franzino. Henn se deu conta de que eu estava olhando.
— A camisa que Castian me emprestou não serviu.
— Ah, perdão.
Bem, faz sentido já que Castian é bem magro, não acho que aqueles bíceps passariam pela manga de uma das blusas de Castian.
Tudo ficou quieto, afinal não tínhamos assunto. Henn terminou de comer e se levantou para ir dormir.
— Boa noite.
— Espera! – Me levantei bruscamente, o que fez com que minhas pernas fraquejassem enquanto Henn assistia eu cair de cara no chão. – Eu apenas queria agradecer. – Fiz um esforço e consegui me levantar. – Obrigada.
— Não agradeça ainda, não sei o que vai acontecer depois. Mas de toda forma, foi bom te conhecer.
Blá, blá, blá, mas que cara chato, ele foi até a porta do quarto e ficou parado por um tempo antes de abri-la, céus, ande logo estou tentando comer os outros pedaços, você não tem que ver uma garota esfomeada devorando uma forma inteira de torta, provavelmente amanhã você vai se dar conta, mas não é necessário ver.
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