— Mas, mãe! Eu não quero me casar com ele!— Taiti gritou quase que como um gemido alto. Ela apoiava-se na cômoda do quarto enquanto um espartilho era apertado firme no seu torso contra sua vontade.

— Cala a boca!— Tina riu dela puxando as cordas para trás. Ela já estava vestida, tudo graças às mãos habilidosas de Will, ele teve que fazer aquilo muitas vezes para sua mãe, já que não tinham dinheiro para contratar criadas, então ajudá-las não seria esforço nenhum. Não mentiria, achava que não havia vestidos mais feios que aqueles fora do bolsão. A saia vermelho escuro cobria até os pés que estavam caçados com uma bota de couro com fivelas feitas de um metal banhado a ouro. Em sua cintura pendia um cinto também de couro escuro, justo para acentuar suas curvas e o torso daquele vestido horrível… a camisa de gola-alta de linho branco espesso que usava por baixo do vestido realmente dito estava à mostra, mostrando todos aqueles bordados que sua avó usaria. As abas eram uma coisa horrível, estavam presas ao seu busto por botões também banhado à ouro, cravados com o brasão de sua suposta família. Por um motivo que Tina não conseguia entender, tinha que sair toda coberta, não podendo nem mesmo mostrar as mãos.

O único motivo pelo qual não era Will que estava apertando o espartilho de Taiti era por causa de sua rebeldia. Ela recusou-se a usar as calças largas por baixo de mais duas saias de algodão. O coitado já estava desconfortável vendo a Dynamo em sua lingerie completa, então foi poupado de ter que ver Taiti sem parte da dela.

— Não tem coisa mais feia que isso?

— O seu e o da Amy são até que bonitinhos.— Tina de um puxão final, dando um nó forte com os dedos vermelhos.— o meu parece uma cortina.

— O meu parece camisa de lenhador.

— Precisa de ajuda com o resto?

— Já que você ofereceu…— Taiti fez a cara mais infantil e inocente que conseguia, mesmo que fosse desnecessário.

Tina bufou, indo até o armário pegar o resto das peças. Sabia que se não a ajudasse, só deixariam a cabana no amanhecer do mês seguinte, não que aquele fosse um problema dela, detestava a companhia de Amy, mas já que trazê-la de volta era o único jeito de fazer com que Taiti sossegasse… Ela estava sentada na cama do quarto, vestida somente com seu recém colocado espartilho vermelho, um par de meias altas e uma regata branca transparente por baixo, além de, claro, suas calcinhas. Seria mais que imprudência usar saias, por mais que fossem, sem uma.

Tina a entregou um salto rosa claro enquanto pegava a primeira camada de saias. Ela fez com que Taiti ficasse de pé para que pudesse amarrar as cordas que a colocariam no lugar nas suas costas.

— Ele nem é tão rico quanto você e papai querem…

— E a sua língua é maior do que qualquer um quereria…

— Como você se atreve a falar assim com sua patroa!?

— Taiti, por favor…— Tina riu vestindo-a com mais uma camada de saias, essa feita para moldar as outras para que ficassem ligeiramente mais finas perto dos pés e também para esquentá-la um pouco, já que fora de casa o vento soprava forte.

— É só uma piada…

— Sei… levanta os braços.— ela passou uma camisa branca pequena por sua cabeça, amarrando-a em seu pescoço e cintura.

— Acho que moribundos tem algum tipo de fetiche com nós…

— Não posso discordar. Acabou a parte complicada. Te espero na cozinha com os meninos, não se atrase.

Para Taiti, poderia sair como estava, já estava coberta e aquecida, mas mesmo assim teve que concordar que parecia um fantasma, ou uma noiva, vestida somente de branco. Seu espartilho vermelho vivo havia desaparecido embaixo de tantas camadas de roupa moribunda. Ela passou mais uma camada de saia por sua cabeça, dessa vez a última. Tinha que admitir que não era feia, tinha uma estampa similar a da roupa de um lenhador, mas com tons mais quentes, talvez até mais bonitos do que as cores de suas roupas normais. Ela sentiu-se tão agradecida quando chegou na última camada de roupa, vestiu com rapidez algo parecido com um casaco justo nas costas, bordado com arabescos dourados no mesmo lugar. Como não tinha cabelo para prender, colocou um chapéu fornecido pelo reformatório que tinha uma peruca. Assim seu corte estrangeiro não seria notado.

— Aqui desce a rainha Vitória, pebleus!

— Taiti, isso é um vestido casual.— Mathias riu dela.

— Certo, Tina, me empresta sua maquiagem?

— Quer ser tachada de mulher de beco? Mostrar os braços é vulgar, imagina ressaltar os lábios!

— Onde está a minha carruagem?

— Que carruagem?— os meninos estavam vestidos com a mesma roupa que os irmãos.— nós vamos andando para o complexo.

— Vão deixar meu irmão sozinho?— Noah perguntou, a voz ainda trêmula pelo gosto de ter um talento em suas veias.

— Eu não tinha pensado nisso!— Alex bateu em sua testa, olhando sem jeito para Leandro.— a Taiti é a única guerreira que sobrou, precisamos de um Dynamo caso ocorra algum acidente, o Mathias é um médico, terá que cuidar de Noah depois dele colocar-nos para dentro e eu também não posso ficar, tenho que passar os talentos… que saudade do Nicolas. Você quer fazer alguma coisa lá?

— Visitar os pais…— ele falou aquilo baixo, como se fosse para sentir-se envergonhado por dizer uma besteira como aquelas. Em seus plenos dezessete, querer visitar os pais? Logo deu-se conta que aquelas pessoas eram as últimas que teriam alguma moral para falar de alguma coisa, sua família morava na mesma cidade, no mesmo lado do mundo. Podiam ir para lá sempre que quisessem, mas ele? Talvez aquela fosse sua última chance.

— Sem problema, só não chame muita atenção. Aja como um moribundo.

Taiti pegou algumas capas de metal, dando um pequeno pulo para colocá-las de baixo dos pés.

— Transporte altamente tecnológico para damas com roupa debilitante. Tina, quer um?

— Onde você vai colocar isso quando chegarmos?— Alex perguntou gastando o resto de sua paciência. Ela só deu-se ao trabalho de levantar a saia da fantasia, exibindo suas pernas.

— Não é muito, eles nem vão perceber.

— Os guardas perguntam se você não está levando nenhum tipo de metal.— Noah disse baixo, com medo de falar alguma coisa que não devia.

— Eles vão olhar de baixo da minha saia? Que tipo de cavalheiro faria isso? Vamos.

Ela fez com que o metal fosse para frente enquanto mantinha a coluna ereta como uma legítima Lady. Os outros não tiveram outra opção além de seguí-la, talvez segurando o riso. Aquela cena devia estar nos filmes, ou alguma propaganda, Taitiana Königskraft sobre uma chapa de metal, presa em um espartilho dirigindo-se para o covil dos leões enquanto mantinha o máximo de classe que sua criação estrangeira a deu.

Noah andava com as mãos nos bolsos tentando esquentá-las. Não conseguia sentir a ponta dos dedos e sua respiração não era quente o suficiente para livrá-lo daquele mal. A temperatura tinha caído tanto em tão pouco tempo que ele apostava que choveria logo. Ninguém poderia falar que ele não tentou olhar para o céu, mas as árvores não deixaram com que ele fizesse isso, talvez com inveja da sua capacidade de locomoção. Noah nunca imaginou-se rindo de uma floresta por ela estar confinada a passar toda sua existência em um lugar só, mas lá estava ele fazendo justamente aquilo. Seu peito estava pesado com a ânsia de receber um mínimo agradecimento por ter concordado em ajudá-los a resgatar sua gente, mas nada mostrava que eles o fariam tão cedo. Era burrice esperar aquilo. Ajudar pessoas era justamente seu trabalho. Talvez recebessem dinheiro por isso, mas esse não era o ponto. Estavam acostumados com isso, aquela era suas vidas. Não tinha razões para que agradecessem alguém por fazer aquilo uma única vez.

Leandro daria de tudo por uma lufada de ar quente, por uma lareira, por um cobertor pesado sobre seu corpo, talvez pudesse ter isso enquanto estava em casa. Enquanto estivesse lá? Não tinha certeza se queria ficar com aquele tipo de pessoa, pessoas tão voláteis. Não. Taiti era volátil. Alex parecia extremamente centrado, um homem focado em seus objetivos, por mais tênues que eles parecessem. Então não quereria ficar com ela, mas e quanto aos outros? Os outros que o esperavam para entregar trabalhos no dia seguinte, os outros que esperavam sua presença em festas, como ficariam? Começariam uma operação de busca ou dariam-no por morto? Esse pensamento gelou sua espinha. Estaria morto para uma nação inteira, vivo para outra, exatamente como imaginou-se no pós vida, mas, naquele caso, encontraria-se com pessoas que já o esperavam lá. Ninguém o esperava depois da floresta.

Foi horrível ter pensado aquilo, ninguém comemoraria sua chegada ou faria seu prato favorito para agradá-lo durante sua estadia como visita. Teria que fazer tudo de novo, do zero…

Pensamentos horríveis parecem ser tudo o que resta, parecem ser o ar que enchia aquele cubículo minúsculo.

Ar. Ela precisava de ar.

Por que se levantaria? A única abertura na cela estava logo abaixo do teto. Não era impossível de alcança-la, mas para isso Amy teria que ficar na ponta dos pés. O esforço não parecia compensar o resultado.

— Você deixou que ele mentisse para você.— o ar sussurrou.— você acreditou nele… acreditou… sim….Não aprendeu depois do que seu pai te fez? Só não acredite mais.— ela pôde até ver o sorriso de seu fantasma.— Não seja ingênua. Não faça isso.

— Nicolas!— ela gritou, incerta se esperava uma resposta.

— Ele não vai responder…

— Antonie.— nem se seu genro tivesse audição sobre-humana, ele não conseguiria ouvi-la.

Pela milionésima Amy tentou chutar a fechadura da porta, na esperança de que ela se abrisse, de que a ferrugem tivesse enfraquecido o metal ao ponto de que um chute bem-dado a quebraria. Como nas outras vezes, ela só voltou com dor no calcanhar e joelho.

— Você sabe o que fazer…— seu fantasma materializou-se sobre a pilha de drogas. Ao invés de começar a arranhar a porta, desesperada para sair do cômodo em que ele estava, Amy apoiou-se nela, olhando-o no fundo de suas órbitas decompostas.

— Nem gaste seu fôlego.

— Você sabe o que podemos fazer juntos…— o ser de fumaça aproximou-se dela, lutando contra as correntes.— ninguém vai vir, Esmeralda, ninguém.— e a deu um olhar de falsa pena.— você sabe o que aquele moribundo fez, meteu-se em uma missão suicida. Taiti o matou, mas ela não tem ideia de onde você está. Ninguém vai vir. NINGUÉM.

Ela segurou as correntes que o mantinham preso. Estavam em estado avançado de oxidação e só ficava pior a cada dose extra de drogas. O fantasma sorriu, um sorriso excêntrico, quase maníaco.

— Faça! Eu vou te tirar daqui. Vou fazer quem quer que tenha feito isso com você sofrer. Você sabe o quão horrível é estar preso…

Não podia. Sabia que alguém viria. Sabia que Taiti checaria em todos os cantos do império se fosse preciso.

— Então por que ela já não fez? Você está tão perto da fronteira. Ela nem deve ter se dado ao trabalho de procurar. Todos de abandonaram, menos eu. Ajude-me. Você é a única que pode fazer isso.

— Suficiente.— ela jogou as correntes no chão com força, levantando-se, só para sentar-se na maca pouco tempo depois.

— Nunca é suficiente!— não importava quantas vezes Amy ouvisse aquilo. Sempre teria o mesmo efeito.— ninguém vai te salvar, Esmeralda, ninguém além de mim.

Ela tentou de novo. Procurou pelo desenho certo nas suas costas, sentindo uma leve coceira quando achou. Respirou fundo e socou o ar com força, na esperança de uma bola de fogo queimar a porta. Nada, nem mesmo uma mínima faísca. Estava inútil, completamente inútil.

— Os efeitos são permanentes. Nunca vão querer um espelho assim, quebrado.— não podia ser, ela não estava quebrada. Já venceu contra o Defeito uma fez, não perderia agora. Não daria-se esse luxo.— eu posso te concertar, toda a dor irá embora…

Ela está a caminho, tem que estar.

— Esmeralda…— ele sentou-se ao seu lado, perto de mais.— você sabe que ela não vai vir. Sabe que só ficou com você por causa do que era. Do mesmo jeito que todos à sua volta… menos eu. Você sabe de onde eu vim, eu podia ter ido embora se eu não tivesse visto um grande potencial em você.

— Eu sei muito bem de onde você veio e sei muito bem que não ficou comigo por causa do meu potencial. Não pode ir embora.

— Não com essas correntes. Ninguém vai vir, Esmeralda, por que você ainda espera? Invés de alimentar essas falsas esperanças, me alimente. Você decepcionou todos, todos, Esmeralda.— as repetições soavam como eco.— você é forte, sabe que estará no controle, quando estiver segura, deixarei seu corpo. Você só precisa dizer sim… diga sim, Esmeralda, você sabe que ninguém vai vir. Ninguém.

Num ato de loucura, Amy levantou-se, pegou as correntes, pisou em cima delas enquanto puxava outra parte. Usou toda força que tinha. Por causa da ferrugem, foi fácil de quebrá-las. Estava feito.

Aquela figura demoníaca a encarava do outro lado quarto, corcunda, agora com os braços livres.

Seu coração batia forte em seu peito, tão forte que parecia poder rompê-lo fugir pela pequena abertura de ar.

Esmeralda ergueu o queixo, encarando-a do modo mais autoritário possível.

— Você fez a escolha certa…

Ele investiu contra seu peito, tomando conta dele.

Ela tentava respirar, mas o medo era como uma mão forte, não deixava entrar mais ar que o necessário.

Ela caiu de joelhos, pressionando seu peito com toda força que tinha. Doía. Ela ofegava, suava enquanto tentava recuperar as rédeas de sua mente.

Sentiu falta de mim?

Aqueles não eram seus pensamentos, tinha que tirá-los de lá.

Você não consegue, não é nada além de uma menina fraca, um espelho quebrado, uma marginal, uma drogada.

Foco, Amy, foco, você não é nada disso. Ache um motivo, um único motivo.

Voltar para casa, com ela, não fazer nada na cama por séculos.

Ela te odeia! Você a deixou, você a traiu. Ela te quer morta, Esmeralda.

Memórias falsas eram criadas, ela não sabia mais quais eram as originais. Com medo, olhou para os dedos. Estavam pontudos, pretos, pareciam ter sido carbonizados, deformados.

É mentira. Lembra de alguma coisa. Você está no controle, mulher.

Você não está! Pare de lutar. Você não é nada além de uma decepção. Seu pai esperava tão mais de você. Você só não quis. Você não tem desculpa nenhuma para estar tão miserável.

Ela ouviu as portas principais se abrirem, muitos passos. Eram os guardas. A drogariam de novo. Fariam tudo de novo. Ela não queria, não aguentaria mais uma rodada, preferia que ele tomasse poder, só para que todo aquele pesadelo tivesse um fim.

É só dizer sim.

Os passos pararam. Um único par podia ser ouvido. Estava se aproximando. Tinha que ser rápida.

O fantasma fazia tocar a mesma memória repetidas vezes. Taiti gritando com ela, falando que merecia morrer, que a fez sofrer.

As correntes. Precisava delas. Onde estavam?

Os passos.

Não queria aquilo. Lutaria. Não deixaria que fizessem nada. Mesmo que aquilo significasse que morreria.

Você fez todos sofrerem, Esmeralda. Você não tem mais para onde correr.

Então lutaria. Nem se fosse pela última vez. Venceria de seu defeito, do mesmo jeito que fez antes.

Estavam próximos. Param na sua porta.

Eles te fizeram sofrer. Está na hora da vingança.

A maçaneta girou rápida.

Alguém irrompeu no quarto.

De novo não. Ela não aguentaria.

— Amy!

Ela olhou para cima. Não era a voz de nenhum dos guardas. Era a dela.

Não foi fácil levantar, mas ela o fez abraçando-a com toda força que ainda lhe restava.

— Desculpa, Tai.— nem mesmo ela soube como conseguiu falar aquilo sem soluçar. Já tinha assinado seu atestado de óbito.

— Tá tudo bem, eu tô bem.— ela sabia que aquilo acalmava Amy, faria de tudo por aquilo, já que essa chorava como se tivesse acabado de perder a mãe.

— Você não está.— sua voz saiu entrecortada enquanto pôs um pouco de força para tirá-la de perto.

— O que foi?

Amy mostrou suas mãos, corrompidas até acima do cotovelo e contando.

— Me perdoa, por favor.

— Mathias!— ela não pensou duas vezes. Puxou Amy pelo braço, esforçando-se para correr de salto, saia e espartilho.

— Tai. Me solta! Eu tenho que sair daqui.

— Eu lembro de como foi difícil da primeira vez. Nós temos ajuda. Mathias.— ela gritou de novo.

Ele estava cuidando de Noah, que tinha desmaiado por causa da sobrecarga.

Ele não mentiu…

O fantasma ficou quieto por alguns instantes.

Estava tudo bem…

Você fez com que ele sofresse! Seu salvador! Olhe o estado dele. É tudo culpa sua. Como você pôde?

Amy arqueou as costas, apertando o peito. Como…? Pode?

— Tai, não vai dar tempo. Eu tenho que sair daqui.

Alex tentou para-la. Não podia deixar que uma aberração saísse, mas não foi rápido o suficiente.

Ela já estava do lado de fora.

O guarda da prisão agiu rápido, sacou uma pistola e estava preste à apertar o botão vermelho quando o Fantasma segurou-o pelo pescoço, tirando-o do chão.

— Quem vai te ajudar agora…?— não era mais sua voz, era a dele. Uma mistura de muitas outras, grave, demoníaca.— se houvesse pelo menos alguém nesse mundo que se preocupasse com você.

Ele apertou ainda mais o pescoço do guarda, que tentava respirar de qualquer jeito. Sua visão estava turva, mas ele podia ver que o que quer que o estivesse matando, teve um dia traços femininos. Esses estavam sendo substituídos por ossos, como a caveira de um humano deformado. Ele chutava o ar na falha tentativa de acertar o que um dia foi Amy, perdendo aos poucos a força enquanto engasgava.

— Taiti, não é mais ela. Anda logo!

— Tai!

A Dynamo e o leitor de auras gritavam, com medo que o monstro voltasse pelo caminho que veio.

Ela daria de tudo para que não fosse uma guerreira.

Seu chapéu já tinha caído, exibindo seu corte exótico. Fez como aprendeu no treinamento. Cortou as saias do vestido, tirou rápido o casaco usando uma lâmina para cortar o espartilho, jogando-o sem se preocupar. Assim que tirou os saltos, correu para tentar parar Amy, a empurrou, mas essa não mostrou sinal de desequilíbrio. Com os olhos em chamas, largou o corpo do guarda, que caiu mole, batendo na mesa e no botão que apertaria, parando por alguns segundos, hesitando.

Essa não era a fonte de todos seus pensamentos bons, Esmeralda? Ah, que pena.

Não. Não faria isso. Estava no controle. Estava. Mostraria que estava.

Seu braço queria subir, queria livrar-se ela, mas Amy não deixaria, não deixaria que seu fantasma fizesse aquilo

Ela te quer morta, Esmeralda. Está pronta para lutar!

Por causa das memórias falsas que foram criadas, Amy acreditou naquilo. Ela estava mesmo pronta. Empurrou Taiti para parede, levantando-a pelo pescoço, tirando o pouco ar que ainda estava em seus pulmões.

Aquilo não podia ser a Amy. Ela nunca faria isso.

Foi difícil ganhar coragem para fazer aquilo.

Taiti fechou os olhos com força, tirando um pedaço de metal irregular da sua armadura, usando-o para cortar o braço que a sufocava.

O monstro cambaleou para trás, tendo a audácia de usar como máscara o rosto de Amy e seu sangue, juntamente com sua voz.

— Por que você fez isso?!— Foi um grito animalesco, alto, estridente, porém, falso.— Por que você fez isso comigo, Tai?

Ela congelou na parede, tossindo tentando recuperar o fôlego.

— Deixa ela em paz!— não havia coisa mais difícil do que falar com o corpo dela, que forjou a mesma cara, a mesma voz, sabendo que não era ela, mas logo essa dificuldade esvaiu-se quando o fantasma tirou a fantasia. Seu corpo tornou-se preto, com placas parecendo carvão espalhadas por sua pele. Sua face era a de uma caveira humana com um focinho protuberante, apresentava pequenas ilhas do que parecia ser a pele bronzeada de sua hospedeira, mas aqueles olhos… aqueles malditos olhos eram o que alimentam todo o ódio que Taiti sentia por aquela fera. Eram os dela, brilhantes no meio de suas órbitas vazias.

Não demorou para que outro braço crescesse no lugar do perdido, deixando como sombra uma poça de sangue.

— Minha querida… ela não vai voltar. Uma vez é uma coisa, mas agora com você? Está fácil barganhar com ela… tão fácil.

Ele se aproximava de Taiti, que já estava em pé, todo o metal que tinha dividido entre duas lâminas grandes, uma em cada mão. Tinha que entender que aquilo não era ela, que era o que a fazia mal, por mais difícil que aquilo fosse, precisava entender.

Era possível ouvir uma marcha, impossível de distinguir quantos soldados haviam, a melhor estimativa que tinha eram muitos. Que eles entendessem, pelo menos uma vez, que Taiti estava lá para ajudar, metade dos seus problemas estariam resolvidos.

— Marcha soldado, cabeça de papel…— o fantasma cantarolava enquanto colocava-se exatamente onde eles queriam que estivesse, no meio do corredor, suscetível a duas linhas de ataque. Quanto a Taiti, preocuparia-se com ela depois, tinha que livrar-se dos mosquitos primeiro. Estava determinado a dá-los a pior morte possível.— se não marchar direito, vai preso no quartel.— ele incendiou suas mãos, aproveitando a ampla gama de talentos que sua hospedeira o deu, mais do que se podia contar. Os soldados aterrorizaram-se com aquela visão, um corpo deformado, grande, queimado.— o quartel pegou fogo…

Eles não tiveram tempo de empunhar suas armas, antes que o fantasma lançasse duas colunas de fogo nas duas direções. Eles não tiveram para onde correr, nem tiveram essa chance. O fantasma riu, à gargalhadas continuou a lançar mais e mais colunas de fogo, hesitando um pouco entre elas, enquanto Amy tentava, sem sucesso nenhum, recuperar o controle.

—Alex, Tina, preciso de vocês aqui, agora!

Os outros integrantes do grupo saíram somente com Nicolas. Ele conseguia andar, não estava ferido, mas onde estava Antonie? Onde estava seu irmão?

— Isso vai me dar um trabalho danado…— foi tudo que Tina conseguiu soltar.

O fantasma estava alheio aos outros humanos. Entretia-se em queimar os moribundos que, em seu olhar, não tinham queimado-se o suficiente, tomando todo cuidado para não matá-los.

Por mais arriscado que fosse, Mathias era um médico. Não podia ficar parado. Se ao menos Amy estivesse lá, ela poderia ajudá-lo… não tinha tempo para ficar se lamentando, tinha que agir. Lutando contra o medo e perguntando-se quanto tempo demoraria para que sua coragem o traísse, ele correu até o corredor, abaixando-se para ter acesso aos soldados caídos que gemiam de dor. Para ser rápido, não curaria-os até a recuperação completa, faria só o suficiente para que andassem, para que corressem para longe. Com uma mão em cada soldado, fechava suas piores feridas, olhando sempre para trás, com medo que teria que fechar as suas.

— Alex, você acha que consegue fazer alguma coisa?

— Eu teria que tirar cada talento manualmente, não o principal, mas isso significaria que ela vai ficar sem nenhum e…

— Ela é um espelho, faça isso.

— Eu não sou um ser irracional, sei o que estão falando.— ele abandonou o que estava fazendo e voltou para o salão que dava entrada à prisão.— sabiam que é falta de educação falar sobre as pessoas pelas costas? Ah, oi Nicolas, a Amy pediu para eu te dar um recado. Ela está te agradecendo por toda ajuda que você não deu quando estavam conversando na prisão.

O monstro parou por um tempo, a expressão imutável até que seu rosto parecia contorcer-se, não como quando colocou a máscara, era diferente, era forçado.

— Sai de mim!— Amy tinha pensado aquilo, mas por causa do momento inesperado de liberdade, acabou por gritar, quase como se quisesse que o estado todo a ouvisse.

— Por que você ainda se dá ao trabalho de lutar? Sua vadia inútil!

Ela girou o braço rápido, como se estivesse tentando afastar um animal selvagem com a habilidades de um amador. No meio do gesto, perdeu o controle. Uma rajada de fogo escapou de suas mãos. Taiti fez um movimento rápido, protegeu-se junto com o grupo atrás de uma parede de ferro, não querendo sair de seu casulo com medo do que encontraria.

— Um segundo!— Amy gritava antes de perder o controle. — só me dá um segundo, depois você pode fazer o que quiser.—ela parou de gritar, caiu ofegante, só então Taiti reuniu coragem para ajudá-la.— desculpa, desculpa por não ter acreditado em vocês.

— Você não tem tempo para isso. Fala o que você precisa.

— Das correntes e do Alex.—ele fez uma careta com a remota ideia de ser usado como sacrifício humano.— pega isso, bota no Noah e ensina como usar.

Amy bateu no próprio peito, dando um forte aperto de mão nele.

— Você consegue, eu sei que sim.— Taiti prendeu novas correntes nos punhos dela, como algemas com uma folga extraordinária.

— Depois você pede desculpas por ter cortado meu braço fora.— ela mal teve tempo de falar aquilo antes de que seu fantasma voltasse a consumi-lá, mas daquela vez, ele ignorou os humanos, sem falar nada saiu com velocidade recorde para outro lugar no complexo, atravessando as paredes, deixando uma mancha preta irregular por onde passava.

Não tinha nem como falar para seguí-la.

— Ela vai se lembrar disso.

— Noah, vem cá.— Alex aproximou-se dele, olhando para as próprias mãos com atenção.— é um talento classe cinco, acha que aguenta?

— O que é?

— Domador de bestas.