Leandro respirou fundo, mexendo as mãos nos bolsos imaginando se devia entrar ou não. Já era de tarde, o sol quase se punha, demorou muito para as aberrações conseguirem permissão para ajudarem em uma fuga da prisão. Ele estava morrendo de fome por não ter almoçado, talvez voltar para casa não fosse uma ideia tão ruim. Ele tirou a cópia da chave que tinha de baixo do sapato. Estava suada, nojenta talvez, mas era a única que tinha. Do mesmo jeito que saiu de seu quarto na manhã daquele mesmo dia, entrou no Hall mal-feito. Como o resto da casa, o chão era coberto por tábuas de vinagreiro, as paredes estavam vestidas por uma camada espessa de cola e papel azul-bebê. Ele podia ouvir uma conversa ávida vinda da sala de estar, não parecia que sua mãe dava-se tempo de respirar. Com pressa tirou seu casaco pendurando-o no cabide perto da porta, atrevendo-se a dar um ou dois passos em sua direção.

— Um tem dezessete, o outro vinte dois, não são muito altos, da última vez que os vi, estavam de pijamas, o menor de óculos.— ela fez uma pausa, atenta ao telefone. Seu marido estava ao seu lado, tentando reconfortá-la sem sucesso nenhum.— Sim, algumas marcas de fogo, mas estava tudo trancado quando voltamos.

— Mãe?— ele sorriu de orelha a orelha, o coração batendo forte. Quando saiu de casa, não imaginou que algum dia voltaria a vê-la.

Ela levantou-se num pulo, correndo até o filho e abraçando-o com toda força que tinha, claro que o esmagou, mas aquilo não tinha importância. Adeline só queria que ele estivesse bem, de volta ao lar.

— Você está bem?— seu pai falava com o policial do outro lado da linha, aquilo a irritou tanto, que quase atirou seu sapato nele.— venha falar com o seu filho, pelo amor de deus! O que aconteceu? Onde está Noah?

— Estou bem.— Leandro sorria, se esforçando para falar enquanto Adeline conferia seu rosto, seu penteado, se seus óculos não estavam quebrados, se precisavam de lentes novas.— muitas coisas aconteceram. Desliga o telefone.

Seu pai olhou para ele com o cenho franzido, mas foi quase que forçado a seguir as ordens da esposa, que o olhou com a pouca raiva que lhe restava.

— Como você queimou seu terno? Deuses, eu achei que estivesse de pijama. Isso é sangue? Quem fez isso com você?

— Não foi comigo, por favor, sentem, eu preciso conversar.

— Não temos tempo para isso. Você não está ferido, está?— Adeline o afastou para poder procurar por machucados, mas não achou nada além do sangue que não era dele.— onde está seu irmão? Cristian, coloque uma roupa, nós vamos para polícia.

— Não, vocês não podem!— Leandro bloqueou o caminho da mãe, o coração na boca.— se vocês forem, eu morro.

— O que? Por que?— seu pai perguntou segurando seus ombros com força. Agora era muito tarde para voltar.

Leandro inalou o máximo que seus pulmões permitiam, esperando que o ar trouxesse o mínimo de coragem.

— Porque eu sou uma aberração.— seu coração parou quando falou aquilo, o de seus pais também.

— Como…?— o rosto de Cristian estava pálido como o de um fantasma.— filho, me fala que você está mentindo, isso não pode ser verdade.

— Eu sou.— não havia orgulho algum em sua voz, só vergonha.— por isso que fugi, não queria decepcionar vocês…

— Eu não tenho nada, nem Adeline.— ele olhou com raiva para ela.— pode me explicar de onde veio isso?

— De verdade, eu não tenho ideia! Ainda temos um filho para achar, temos que ir para o complexo, agora!

— Vocês não podem ir lá.— Leandro se punha como barreira humana, não seria uma boa ideia apresentar seus pais para alguém como Taiti.

— Você não vai para lugar nenhum sem me explicar como o filho de dois humanos vem me nascer com um talento. Você mentiu para mim, Adeline? O que é você?— ele recusava-se a acreditar na ideia de que ela o traiu, de que foi para cama com outro homem, de que fez com que ele cuidasse por uma vida de um filho que não era seu. Preferia que ela tivesse mentido, que fosse uma espiã, uma foragida que vivia na floresta, convertida aos bons costumes, a acreditar que ela deu-se para um homem impuro.

— Eu sou sua esposa, mãe dos seus filhos!

— Eu sinto muito…— foi tudo que Leandro conseguiu sussurrar, aquilo era tudo culpa dele. Se só tivesse calado a boca. Se só tivesse fechado as mãos naquela manhã um pouquinho mais cedo.

— Você não é!— seus pais não o ouviram. Cristian relembrava-se todas as vezes que foram revistados, quando foram convidados para jantares em lugares requintados, durante a gravidez de sua esposa, aquilo não podia ser possível, toda sua família passou. Leandro nunca foi revistado antes, mesmo porque era muito novo para isso, mas se ele não morreu no útero, estava limpo, devia estar.— quem é o pai dele?

— Podemos pelo menos tirá-lo daqui? Ele não merece ouvir isso.

Ele não voltaria para casa, não depois do que ouviu naquela conversa. Não depois de saber que sua própria mãe mentiu para ele por toda sua vida, que não permitiu que conhecesse seu verdadeiro pai.

— Ele não é meu filho, não me importo mais com o que ele ouve ou não.

— E com Noah?— aquilo foi a gota d'água. Dezessete anos não significaram nada para ele?— ele é seu filho, entrou na prisão e passou, está limpo. Noah está morto.— Leandro cuspiu aquelas palavras, com um aperto no coração. Como pôde mentir sobre uma coisa dessas? Sabia que precisava fazer aquilo. Precisava dá-los um incentivo forte o suficiente para que não o denunciassem, mas tudo parecia ter ido longe de mais quando Adeline cobriu a própria boca, arqueando as costas por causa da pressão no peito. Ela soltou um choramingo, quase como o de um cachorro sendo maltratado. Seu pai sentou-se no sofá, a cabeça entre os joelhos, ele apertava sua nuca com as poucas unhas que tinha. Quase não respirava.— foi morto por um guarda quando saímos da cidade. Eu que queimei meu terno, fiz com que ele fosse embora. Esse é o sangue dele.

Silêncio. Era possível ouvir uma sirene, muito distante, de incêndio talvez. Aquela foi a primeira vez que viu seu pai chorar. Nem mesmo quando sua mãe morreu se lembrava de vê-lo assim, ele fazia questão de trancar-se no banheiro quando sentia as lágrimas atrás do olhos, atento para não demonstrar fraqueza alguma, mas depois de tudo aquilo, quem ficaria de pé? Depois de descobrir que sua esposa o deu um filho ilegítimo, depois de descobrir que esse filho era uma besta, depois que seu filho legítimo foi morto, mataram-no achando que era uma aberração.

— Era isso o que você queria, Adeline? Um filho morto como um animal? Por que?— ele olhou para Leandro.— Por que aquele guarda fez isso?

— Seu filho saiu da fronteira com medo do que vocês diriam quando descobrissem meu talento. Ele sabia que me denunciariam, não queria que eu manchasse seus nomes.

— Nós nunca faríamos isso…— Adeline perdeu as forças e sentou-se na poltrona mais próxima para que não caísse no chão.— você voltou para ficar?

Leandro tinha medo que seu pai falasse que ele não poderia, que não era merecedor de viver de baixo de seu teto, que era não mais seu filho, mas de qualquer jeito, ele nunca foi. Agora com a morte de Noah seria ele o herdeiro da modesta fortuna de Cristian Evelyn, seu único herdeiro por lei.

— Aqui não é mais seguro para mim.

— Entendo… por que voltou?

— Eu só quis ver vocês uma última vez.

— E para onde vai?

— Além da floresta, tem vida para lá, mesmo que não pareça…— ele ficou parado no meio da sala, sem ter mais ideia do que fazer. Se devia despedir-se deles de vez, se devia abraçar sua mãe e seguir para o complexo, mas em uma questão de segundos, ele não teve mais que pensar nisso.

O som mais alto que já ouviu cortou o ambiente, era como se uma torre inteira caísse, destruindo tudo em seu caminho. A única coisa grande o suficiente para fazer isso era a construção do complexo real. Noah estava lá. Ele não podia acreditar naquilo, era para ser só uma fuga da prisão, não um ataque terrorista.

— Me fala que você não tem nada a ver com isso…— aquela foi a primeira coisa que Cristian falou desde que soube como Noah foi morto.

— Eu não, talvez seus policiais tenham.— Leandro sabia que não devia ter falado aquilo, não com tanta raiva. Querendo ou não, aquele homem que o criou, não seu pai biológico, fez de tudo e mais um pouco para dá-lo uma vida feliz. Ele precisava saber o que estava acontecendo, precisava fazer alguma coisa para que Noah não morresse lá. Leandro tentou sair, mas antes de virar a maçaneta da porta, Cristian o segurou.

— Não me importo que meu filho tenha morrido para te salvar. Você vai ficar aqui até a polícia chegar!

— Cris, não!— Adeline segurou seus braços.— eu não vou aguentar ver meu outro filho morto.

— Você mentiu para mim.— sua voz estava falha, cortada muitas vezes por soluços.— você me fez criar uma besta! Uma aberração!

— A culpa não é dela!

— Você fique quieto! Não é mais meu filho! Como vocês puderam fazer isso comigo?— já que ninguém respondeu, Cristian jogou Leandro contra a parede, fazendo com que sua cabeça batesse contra os ferrolhos usados para segurar as roupas.— Como? Você não é meu filho… não é nem nunca foi!

Então aquele era o vazio da traição. Aquele era o sentimento que vem à tona quando se descobre que sua vida foi uma mentira, que todas suas promessas não significaram nada para quem elas deviam ser tudo. Quando todos seus esforços para construir uma família respeitável e bem-estruturada foram em vão.

Mesmo que o denunciassem, não adiantaria nada. Procurariam por um fantasma, por alguém dado como morto.

— Nem você meu pai.— Leandro incendiou as mãos, fechou-as em punho enquanto seus pais olhavam-no aterrorizados. Ele não mentiu. Era realmente uma aberração.— o que me dá a liberdade de devolver as ameaças que você faz para mim e minha mãe. Se eu fosse você, não falaria assim com a mulher que conseguiu esconder uma traição por tanto tempo, você não quer descobrir o que mais ela esconde de você.

Em um segundo ele parecia muito mais velho, da idade de seu pai, talvez. Um homem adulto, pronto para tomar as rédeas de todas as situações imagináveis pela mente humana. Não importava se teria que levar sua mãe junto com as aberrações, seria muito perigoso deixá-la com Cristian. Com um homem que agora os odiava.

— Muito bem então. Eu peço divórcio.— ele levantou suas mãos em rendição.— já que vinte anos de casado não significaram nada para você. Não vão para mim. Fica com a casa, com tudo o que quiser. Sabe por que, Adeline? Eu ainda tenho minha honra. Sou um homem íntegro! Nem sei mais se você sabe o que essa palavra significa.

Ele saiu sem pegar nada que era seu, batendo a porta atrás de si com toda força que tinha. Leandro olhou para sua mãe, pedindo por algum conforto, mas dessa vez, foi ele quem teve que confortá-la. Ela estava de joelhos, amassando as saias de seu vestido, quase que rezando para que aquilo tudo fosse um sonho, para que sua traição nunca tivesse sido revelada, para que seu marido voltasse, que a tomasse em seus braços, beijasse sua testa e sussurrasse que esta tudo bem. Só que ele estava longe. Ela o afastou, sabia que a culpa era sua. O que falariam dela nos salões? Adeline temia que nunca chegaria a saber, já que uma mulher como ela nunca seria convidada para festas. Foi só uma vez, só uma escapada da vida normal, não parecia que a custaria tanto. Onde estaria aquele homem? Com sua esposa e seus filhos legítimos, ela supunha. Aproveitando sua vida perfeita. Alheio ao seu sofrimento.

O som das sirenes aumentou,fazendo com que pessoas curiosas fossem para as ruas, por mais que sua mãe quisesse ir também, Leandro não podia deixá-la, não sabia o que estava acontecendo, mas sabia que coisa boa não era. Não com uma guerreira tão habilidosa como Taiti, que conseguiu livrar-se de um guarda imperial sem nem encostar nele, devia ser algo além do que até mesmo ela conseguia lidar.

— Por que você não me contou antes?— Leandro não se importava com aquilo, mas tinha que fazer de tudo para mantê-la alheia ao que acontecia no complexo.

— Eu achei de verdade que você era filho dele…— Adeline secou o rosto com as mangas do vestido.— não é como se eu não tivesse ido para cama com ele depois de traí-lo, eu não sabia quem era o pai. Você vai ficar comigo?

— Depois dele saber que eu sou uma aberração?— ele riu.— seria assinar meu atestado de óbito.

— Não sobrou ninguém… quando meu chefe souber, eu vou estar na rua.— ela segurou os braços do filho, incapaz de olhá-lo nos olhos.— eu preciso de alguém!

Ele queria falar que foi ela quem fez com que tudo aquilo acontecesse. Foi ela quem mentiu para Cristian e para ele, mas por algum motivo, Leandro não sentia-se traído, de algum jeito, estava quase grato. Grato por sua mãe, mesmo que sem querer, tê-lo dado um talento, uma chance de fazer diferente de todos os outros, não desperdiçaria uma oportunidade dessas.

Mas isso significaria que Adeline ficaria sozinha, abandonada…

Por que foi inventar de visitar seus pais? Não seria a primeira vez seria deixado sozinho em casa, sabia como lidar com a solidão. Já estava difícil aceitar que tinha um talento, mas pior ainda, descobrir sua origem. Uma traição…

Então as aberrações estavam certas, Noah não era seu irmão, era o único herdeiro digno do sobrenome Evelyn. Não ele, ele era a escória, o parasita.

Se só por um segundo ele fechasse os olhos e descobrisse que tudo era mentira… não sabia se ficaria tão feliz. Não sabia se queria que sua vida tivesse virado um caos. Era reconfortante, de algum jeito, saber que não era filho de Cristian, da cabeça da guarda real naquele complexo. Saber que não tinha nenhum laço com aquele assassino.

— Sinto muito, mãe.— Leandro fechou os olhos com força o peito pesado.— prometi para eles que seria só uma visita.

— Eles quem?

— As outras aberrações.

— Você vai me abandonar?

— Se eu ficar aqui, vão me matar!

— Não dará na mesma? Eu nunca mais vou te ver!

— Eu volto para te visitar.

— O que vão dizer de uma mulher solteira andando sozinha? Não me pagam bem o suficiente que eu mantenha essa casa, preciso da sua ajuda.

— Quem pagaria um moleque de dezessete anos bem o suficiente para que ele mantenha tudo isso? Não, desculpa, mãe, não um moleque, uma aberração! Agora a polícia deve estar muito ocupada para ouvir as denúncias dele, mas logo vão arrombar essa porta e me levar para forca. Você não precisa ver isso.

— Têm drogas que podem fazer com que você se passe por um humano normal, para burlar os exames-

— Eu não quero viver com medo!— de uma hora para outra a questão não parecia mais ser sobre sobreviver, mas sim, viver. Viver como algo além de uma aberração.

Adeline mordeu seus lábios, recusando-se a olhar para ele. Com uma força que ela não sabia que tinha, colocou-se de pé, secando as lágrimas do rosto com sua manga já úmida.

— Pelo visto eu já tirei todos seus motivos para ficar…— sua voz estava carregada de vergonha.— só não esqueça que eu estou aqui.

Leandro a abraçou com força, recusando-se a chorar no seu ombro. Tinha tudo que precisava naquele chalé. Duvidava que eles não o ajudariam com isso, com a saudades de casa, talvez arrependimento de ter saído…

Que abram-se as porta desse novo mundo. Não sobrou nada além de cinzas do antigo. Cinzas, o som ensurdecedor de sirenes e o complexo destruído.