O que esperar dessa noite?
5 Capitulo 5
Notas iniciais
Por volta da terceira noite no castelo, a noite ficou incrivelmente tranquila.
Tive alguns afazeres, pães para sovar, creme para bater, recheios para cozinhar, louça para lavar, mas sentia que algo estava faltando, até bateu três horas da manhã. Princesa Emma, que já tinha deixado bem claro sobre suas visitas, não havia parecido naquela noite, deixando a mesa de doces na expectativa para ela nunca chegar.
Achei estranho ela não aparecer, apesar de que por algum motivo fiquei na espera até o ultimo segundo antes do sol nascer, mas ela nunca veio. Não sei porque estava tão surpreso: suas visitas poderiam ser frequentes, mas quem me garante que elas seriam diárias?
Mas talvez ela tenha mencionado alguma coisa assim, e apesar de não ter nenhum motivo lógico para ficar preocupado com ela, não consegui afastar essa sensação. Claro, ela poderia estar cansada demais ou apenas havia se esquecido, mas por algum motivo não consegui ignorar aquilo, então esperei até o meu turno acabar para me encontrar com Lucy.
—Ela estava um pouco doente ontem, deve ser por isso que ela não foi até a cozinha. –Lucy diz quando pergunto sobre a princesa. –Porque? Ficou preocupado com ela?
—Não! –Digo, sentindo um estranho desespero no meu estomago. –É que... ela me pediu para sempre deixar uma mesa pronta para ela e achei estranho ela não ter aparecido ontem.
—Bom. –Lucy diz, pegando uma bandeja no armário e a ajeitando com xicaras, pratos, talheres e itens de café-da-manhã. –Ela realmente não estava bem ontem, então eu acho que ela acabou ficando no quarto mesmo. Eu até falaria para você subir e levar os doces, mas acho que você não tem permissão para entrar no castelo, certo?
—Não que eu saiba. Essa bandeja é para ela?
—Sim, tenho certeza de que ela não vai querer descer e comer no salão de jantar.
—O que ela tem?
—Só uma gripe comum, nada demais.
—Espere um pouco! –Digo, e saio de volta para a cozinha menor, deixando Lucy para traz confusa.
—Aqui. –Digo, lhe estendendo um prato cheio de bombas e trufas. –Acho que ela vai querer comer hoje.
—Pode ter certeza que sim. –Lucy diz, se retirando para o quarto da princesa.
**
Na noite seguinte, voltei para o castelo na mesma hora de sempre e esbarrei com Mario saindo do seu turno.
—Eu deixei uma lista de coisas para você fazer. –Ele diz, sem ao menos me cumprimentar antes. –Estão em cima da mesa. Se você não achar os temperos da receita, você pode entrar no depósito.
Então ele joga o velho avental por cima do ombro, dando um longo suspiro e me dá um sorriso cansado antes de sair pela porta.
—Boa noite, garoto. –Ele diz, num estranho tom amigável que não estava acostumado a ver nele.
Quando entrei na cozinha, encontrei o bilhete de Mario com alguns pães e doces que ele queria que eu fizesse pois combinaria especialmente com o cardápio do dia seguinte, então procurei seguir à risca. Porém, entre tantos itens tinha algo que não fazia parte do cardápio normal: chá de mel e gengibre, típico chá de doente.
Eu sabia exatamente para que e para quem aquilo seria servido, então foi uma das primeiras coisas que eu aprontei, junto com alguns doces leves, um mingau simples e um bolo sem especiarias. Montei uma bandeja simples e a levei para fora da cozinha, procurando pelo guarda mais próximo.
Eu não tinha certeza se eu podia ir para fora da cozinha, já que minhas funções se resumiam especificamente a aquele local do castelo, então tentei procurar por um dos guardas mais rápido possível.
Quando sai da cozinha, me dei de cara com um corredor curto, mas bem largo. Já fazia algum tempo que estava trabalhando ali, mas nunca havia se quer saído da cozinha e nem ultrapassado os jardins ou o salão de jantar, e nem mesmo havia reparado isso. Por um segundo, me perguntei se deveria estar ali, aliás, se poderia estar ali.
Mas eu mal saí da porta da cozinha quando eu deparo com um guarda a poucos metros a minha frente, alto, cabelos negros e olhos furtivos, perfeitamente pronto para qualquer situação. Caminho hesitante até ele e com o máximo de cuidado possível digo:
—Com licença.
Ele me lança um olhar mortal como se estivesse procurando uma arma em minhas mãos, mas o mais próximo que eu chego disso é a faca de prata sem ponta na bandeja.
—Pois não, senhor Thomas?
Sua voz era grossa e áspera e aquilo por si só já me causou um grande arrepio na espinha, mas ele dizer o meu nome sem nunca ter me visto foi algo muito assustador, então me obrigo a falar o mais manso possível, mas lutando para não gaguejar.
—Essa bandeja é para a vossa alteza, eu precisava que alguém levasse até ela.
Ele me analisa com cuidado dos pés à cabeça, me olhando com cuidado com seus olhos de águia, então volta ao seu posto e olhando para frente e com uma postura perfeita, ele diz:
—Vá reto até o fim do corredor, vire a direita, esquerda e direita de novo.
—Não, na verdade...
—Não tem erro. É só ir até o fim. O quarto dela é o único daquele corredor.
Eu não sabia ao certo o que fazer, não tinha intensão nenhuma de andar pelo castelo, muito menos ir até o quarto dela, então fiquei paralisado por um momento analisando como eu poderia concertar aquilo, mas o guarda notou que eu não se mexia.
—Algum problema? Precisa de um mapa?
Não consegui responder, apenas balancei a cabeça negativamente e segui na direção que ele me indicou, torcendo com todas as forças para encontrar um outro guarda no caminho.
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