O que esperar dessa noite?
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Certo dia amanheci com o corpo muito dolorido, como se tivesse feito exercícios pesados no dia anterior, me sentindo quente e mole.
Acabei levantando mais cedo, antes mesmo de Lucy chegar e fui até o banheiro para tentar tomar um banho frio, e quando sai ela já estava arrumando a cama e esticando os lençóis.
—Emma, você levantou cedo. –Ela diz, claramente notando algo de errado comigo.
—Não estou me sentindo muito bem, Lucy.
—Você não está mesmo.
Então ela caminha até a minha direção e toca delicadamente no meu rosto e pescoço, tentando sentir a minha temperatura.
—Você está bem quente.
—Sim, acho que estou com febre. –Digo, voltando a me deitar na cama recém feita.
—Devo chamar o médico?
—Não, apenas avise os meus pais que não irei tomar o café da manhã com eles.
Então puxo o cobertor até a altura da minha cabeça enquanto sentia Lucy me analisando cuidadosamente, e poucos minutos depois a ouço ir embora. Nenhum médico veio, mas meus pais apareceram pouco tempo depois, claramente preocupados.
—Você está mesmo quente. –Minha mãe diz, me analisando exatamente como a Lucy fez.
—Deve ser um resfriado comum. –Digo, com a voz melancólica.
—Não está fingindo para poder fugir das suas aulas? –Meu pai brinca, se sentando ao meu lado da cama e acariciando as minhas madeixas.
—Quem me dera fosse isso. –Digo, sentindo a minha garganta raspar.
—Acho que você vai precisar ficar aqui hoje. –Ele diz, então se vira para a Lucy e diz: -Lucy, você poderia por gentileza avisar aos professores de Emma que ela não irá participar das aulas hoje?
—Sim, majestade. –Ela diz em uma reverencia e sai imediatamente do quarto.
—Quer que eu fique aqui com você, querida? –Minha mãe pergunta.
—Não, acho que eu preciso descansar um pouco. Com sorte estarei melhor até a noite.
—Leve o tempo que precisar. –Ela diz, beijando a minha testa quente e meu pai faz o mesmo, e então ambos saem do meu quarto, mas sem antes dar uma última espiada em mim.
Passei o resto do dia em um estado de letargia e me obrigando a ficar acordada o máximo de tempo possível, mas foi em vão.
Mal consegui comer, mas Lucy garantiu que eu bebesse bastante água e conseguiu me convencer a comer um pouco de sopa, mas não tive apetite algum o dia todo, o que fugia muito do meu normal.
Por volta da noite me dei por vencida e não me preocupei em ficar acordada e ir visitar Thomas mais tarde, mas acabei caindo no sono pouco tempo antes do pôr do sol e dormi até o dia seguinte.
Na manhã seguinte me sentia um pouco melhor, ainda não tinha apetite algum e ainda tinha febre, mas me sentia bem o bastante para me levantar e viver o dia. Meu pai pediu para que eu não tivesse aulas de novo, mas que pelo menos eu ficasse na cama e estudasse um pouco, um pedido que não questionei.
Lucy passou o dia todo comigo, me trazendo tudo o que eu precisava, me fazendo companhia e conversando comigo para poder me distrair. Sua companhia foi muito útil e com certeza boa parte da minha recuperação foi graças a ela.
Até o fim do dia eu já estava me sentindo melhor, ainda tinha um pouco de febre mas já conseguia comer um pouco mais, e pela primeira vez em dois dias eu consegui me sentar e jantar com os meus pais.
Lucy ficou comigo até um pouco depois do seu expediente para garantir que eu estava bem, mesmo com os meus diversos protestos e dizendo que já estava bem o bastante para ela poder ir embora sem se preocupar. Ela não acreditou, mas uma hora depois eu consegui convence-la a ir para casa e que eu ficaria bem, e de fato eu fiquei até pouco antes da meia noite.
Nessa hora senti um mal súbito e voltei a me deitar, sentindo a minha cabeça doer e meu estomago se revirar. Eu deveria chamar por alguém, meus pais talvez, mas meu orgulho não permitia e me convenci de que eu estava bem o bastante para lidar tudo aquilo sozinha, mas eu estava muito errada.
Pouco tempo depois ouvi pequenas batidas na minha porta, e com a voz rouca e sem muitas forças para falar eu disse que poderia entrar, sem me preocupar em quem estaria ali.
A porta se abriu timidamente e pude ver o confeiteiro entrando, com os olhos assustado e hesitante como se estivesse se perguntando se poderia mesmo entrar ali.
—Alteza? –Ele diz, mas não pareceu notar o erro, e eu estava doente demais para corrigi-lo.
—Oi Thomas. –Digo, tentando esconder meu rosto por detrás da coberta.
—Eu soube que você está doente e imaginei que você não viria de novo. –Ele diz, se referindo aos meus chás noturnos.
—Não, senhor Thomas, não irei.
—Bom, eu trouxe o chá até aqui.
Então ele traz uma linda bandeja até a minha cama, com pratos coloridos e doces de encher os olhos, mas em vez de abrir o meu apetite, ele causou o efeito inverso, já que o cheiro me fez revirar o estomago me jogando para fora da cama e me fazendo correr até o banheiro. Deixei Thomas sozinho no meu quarto e mal tive tempo de chegar até a privada, então comecei a vomitar tudo o que eu havia comido antes.
Entre cada vomito senti uma enorme humilhação diante daquilo. Estar doente e vomitar já era constrangedor por si só, mas fazer isso na frente de outra pessoa era algo muito desagradável e desejei com todas as forças que um buraco se abrisse sob mim e me engolisse, mas infelizmente isso não aconteceu, e Thomas estava ali fora ouvindo tudo, cada força e golfada que eu dava.
Eu estava me sentindo muito constrangida, mas eu não tinha como concertar aquilo, já que eu continuava a vomitar tudo que existia dentro de mim, me fazendo me concentrar com todas as minhas forças na minha própria desgraça.
Porém, poucos segundos depois que eu entrei no banheiro, ouvi a porta se abrir e alguns passos vindos em minha direção. Eu ainda estava com a cabeça dentro do vaso, mas senti alguma coisa segurando os meus cabelos impedindo que eles se sujassem. Thomas estava ali sentado ao meu lado, com uma mão em meus cabelos e o outro em minhas costas, como se estivesse me dando apoio a aquele momento perturbador.
Quando finalmente acabei, me sentei no chão frio e pude finalmente ver o rosto dele. Ele não parecia assustado ou enojado, mas parecia profundamente preocupado comigo, então se levantou, pegou uma toalha, a umedeceu e a colocou em minhas mãos.
—Acho melhor eu chamar alguém. –Ele diz, baixo e delicadamente.
—Não, por favor, não. –Digo, limpando a minha boca. –Não preciso de ninguém agora.
—Você está muito doente, precisa de um médico.
—Acho que eu precisava por tudo para fora, literalmente. –Digo, me encostando o na parede atrás de mim, me sentindo fraca demais para se quer manter os olhos abertos.
Thomas queria me contrariar, mas havia algo naquele bom homem que o impediu de ir contra as minhas ordens, então ele delicadamente tirou uma mecha do meu rosto e disse:
—Posso ao menos te ajudar?
Eu não disse nada, já que não tinha forças para isso, então concordei com a cabeça e o permiti que me ajudasse a voltar para cama, dando a sua mão para me por de pé e a segurando firmemente até chegar na minha cama.
Me sentei e me cobri com as cobertas, sentindo o meu estomago se apertar, mas não de enjoo, mas de constrangimento ao lembrar daquela cena toda, fazendo o meu rosto queimar imediatamente.
—Thomas, me desculpe por tudo isso. –Digo, sem conseguir olhar nos seus olhos.
—Não se preocupe, não é nada demais.
—Isso é muito humilhante.
—Mas tudo bem, o pior já passou.
Então ele pousa a bandeja no criado mudo a minha esquerda, e despeja um pouco de chá e entrega para mim.
—Tente beber um pouco.
Eu o obedeço e me obrigo a beber aquilo. Eu não gosto do gosto do gengibre, mas o doce do mel o torna suportável e consigo bebericar um pouco.
—Eu vou até a cozinha preparar um pouco de sopa. Acha que pode ficar alguns minutos sozinha?
—Eu não vou a lugar nenhum. –Digo, e com um leve sorriso ele acena levemente com a cabeça e desaparece pela porta.
Eu não sabia ao certo o que havia acabado de acontecer, mas algo me diz que o confeiteiro estava no meu quarto a poucos segundos e ele cuidou de mim.
Senti uma mistura estranhas de sentimentos, de gratidão e humilhação. Eu queria poder me esconder e nunca mais vê-lo em toda a minha vida, mas ao mesmo tempo queria que ele ficasse ali comigo. Finalmente me convenci de que eu precisava de ajuda, mas nunca iria imaginar que seria Thomas quem estaria ali comigo.
Um tempo depois Thomas apareceu com uma tigela fumegante, com um caldo esbranquiçado e sem muito odor, mas que de alguma forma parecia estar muito apetitoso.
—Eu sei que você não vai querer comer agora, mas tente comer um pouco. Você vai se sentir melhor.
Então fiz o que ele disse, e senti um maravilhoso sabor nas primeiras colheradas, aumentando um pouco a minha energia.
—Meu Deus. Isso está muito bom, Thomas!
—Obrigado. –Ele diz, enchendo um pouco mais a minha xicara de chá. –É uma clássica sopa de doente. Minha mãe sempre dizia que comida de doente tinha que ser bem leve, mas apetitosa o bastante para ajudá-lo a querer comer mais.
—Posso te dizer com toda a certeza que funcionou!
Então ficamos ali por um tempo. Thomas se sentou na minha escrivaninha com a cadeira virada na minha direção, bebendo um pouco de chá enquanto me observava garantindo que eu comece tudo, e não demorou muito para sentir as minhas forças voltarem.
Fale com o autor