O que esperar dessa noite?
4 Capitulo 4
Notas iniciais
O dia foi longo e exaustivo. Parecia que as coisas mais monótonas era as que mais me cansavam. As aulas de etiquetas foram maçantes e mais entediantes do que o costume, no fim, quando pude enfim voltar para o escritório e poder um pouco trabalhar junto com os meus pais, minha mente já estava cansada demais para me concentrar.
Por fim, no jantar, não tinha muitas forças, nem mesmo para conversar, apesar de minha mãe constantemente sugerir um novo tópico para me incluir na conversa ou ao menos me interessar nela.
—Sei que tudo isso é chato. –Diz meu pai, com a barba suja de creme. –Mas você precisa se esforçar um pouco mais nessas situações. É extremamente desagradável uma refeição silenciosa ou a princesa não se envolvendo na conversa da mesa.
—Não seja tão duro com ela, Taylor. –Minha mãe diz, lhe lançando um olhar de reprovação.
—Eu sei, mas mesmo assim, só quero que você saiba que isso é importante, entende? Ainda mais se você for a anfitriã dessa refeição.
—Eu sei. –Finalmente digo. –É que o dia foi muito longo e não vejo a hora de poder ir para cama.
—Eu entendo, querida. –Ele diz, e toma um gole de vinho no intervalo de uma frase e outra. –Mas são nessas horas que você precisa elaborar uma estratégia para não deixar a conversa morrer.
—Eu só queria poder comer em paz sem precisar ter aulas ao mesmo tempo. –Digo por fim, bufando e perdendo totalmente o apetite.
—Acho que está tudo bem. –Meu pai diz, derrotado, e vejo que isso de alguma forma o chateou.
—Desculpa, pai, é que eu estou exausta. Quero dizer, nós temos mesmo que fazer isso o tempo todo? As vezes podemos usar uma refeição silenciosa para colocar os pensamentos no lugar ou até mesmo relaxar um pouco.
—Sim, nós podemos. –Minha mãe diz. –Mas seu pai tem razão: se temos convidados junto conosco, não seria muito agradável da nossa parte ficarmos em silencio e distante da conversa. Pode ao menos nessas horas se envolver um pouco mais? Ou pelo menos fingir interesse?
Ela dizia tudo de forma delicada e calculada, sem intenção de me repreender, apenas me alertar. Mas, ainda sim, aquilo magoava um pouco e me senti derrotada. Quero dizer, cada vez que eu era repreendida ou alguém aponta algum erro em mim, isso só me fazia questionar se sou mesmo qualificada para ser uma rainha algum dia.
Mas eles parecerem entender, e mesmo que continuassem a conversar entre si, não tentaram mais me envolver de alguma forma. Por fim, depois de alguns minutos, sua conversa ficou mais envolvente para os dois, já que começaram a falar das coisas que de fato queriam conversar, e não do que deviam e nem mesmo sobre trabalho, e mesmo que eu não ter falado mais nado no restante da noite, aquilo pareceu ser mais leve e mais confortável para todos.
O chá foi servido, juntos com alguns biscoitos e uma variedade de doces, todos bem elaborados e com uma aparência de encher os olhos. A cada mordida me fazia lembrar de Thomas e como ele estava fazendo um bom trabalho, aparentemente se adaptando bem ao castelo ou pelo menos aos nossos gostos, e fiz uma nota mental de elogia-lo numa próxima oportunidade que eu fosse vê-lo de novo.
No quarto, Lucy já tinha arrumado minha cama, mesmo sabendo que eu não iria me deitar de imediato, e estava a posto para me ajudar a me arrumar para dormir. Tomei um longo banho que ela havia preparado com perfeição, passei um tempo cuidando da minha pele para relaxar mais e por fim, de pijama e com os cabelos penteados e presos, eu estava finalmente pronta para encerrar a noite, o que foi um convite para Lucy se retirar e ir para casa.
—Antes de eu ir. –Ela diz, enquanto recolhia as roupas sujas para levar para a lavanderia. –Precisa de alguma coisa?
—Acho que não, Lu. Estou tão cansada que nem sei se vou estudar hoje. –Digo, me deitando na cama e me deliciando com o cheiro dos lençóis limpos.
—Seria uma boa ideia você começar a dormir mais cedo, alteza. –Solto um gemido de frustração, não do conselho, mas dela me chamar de “alteza” mesmo sabendo que não gosto quando ela me chama assim. –Não sei como você não fica doente, já que dorme tão pouco.
—É inevitável. –Digo, com os travesseiros abafando a minha voz.
—Bom, se quiser, posso providenciar alguma coisa para te fazer relaxar e conseguir dormir mais cedo. Um chá, exercícios de relaxamento, massagens ou sei lá.
—Acho que por enquanto eu dispenso, obrigado. –Digo, rolando para o outro lado e finalmente olhando para ela.
—Como desejar, alteza. –Ela diz, antes de se retirar do meu quarto e ser acertada por um travesseiro voador. –Boa noite! –Ela diz por de trás da porta, e então ouço seus passos ecoando pelo corredor, indicando que ela realmente se foi.
Tentei ficar deitada, procurei uma posição confortável e fiquei assim por uns bons minutos, mas nada me fez cair no sono, nem mesmo toda aquela cerimonia durante o banho. Depois de um tempo, me dei por vencida e acabei me levantando, e foi nessa hora que me lembrei que havia comido muito pouco no jantar, já que meu estomago voltou a roncar e implorar por um chá da madrugada, então tive que ceder aos seus desejos e fui em direção a cozinha.
Não gostava de dar ordens para os funcionários a noite, muito menos de madruga, e tentava, a medida do possível, providenciar pessoalmente qualquer coisa que eu precise depois que Lucy se retirava do castelo, principalmente quando se tratava de coisas pequenas e superficiais como um lanche a meia noite.
Eu andava pelos corredores tentando fazer o mínimo de barulho possível, não que estivesse preocupada em acordar alguém, mas não gostava de anunciar minha presença nessas horas, já que todos presentes no castelo continuavam a me tratar com formalidade e reverencias independentemente da hora, então andava sempre com cautela e calma.
A noite já tinha se esfriado e o castelo estava mais calmo, a única coisa que dava para ouvir era a respiração dos guardas e o vento soprando do lado de fora. Tudo aquilo dava ao castelo uma aparência mais fantasmagórica e melancólica, algo que por algum motivo me encantava.
Quando finalmente cheguei na cozinha menor, já perto da meia-noite, havia uma luz acessa, fraca e com o seu brilho vazando timidamente pelo vão da porta, indicando que alguém estava trabalhando a àquela hora. Não sabia quem esperar, já que Thomas já havia deixado claro que não estaria mais aqui, e por algum motivo me senti insegura de entrar e ter que me apresentar novamente a um estranho.
Gostava de visitar Jorge à noite. Mesmo ele sendo carrancudo e monossilábico, ele era uma boa companhia e me fazia me sentir à vontade com sua presença, mesmo que muitas vezes ele não dissesse nada, mas eu gostava de vê-lo trabalhando, uma imagem hipnótica e até mesmo relaxante.
E quando finalmente entrei, vencida pelo barulho que meu estomago fazia, eu encontrei ninguém menos que o filho de Jorge, com as mãos trabalhando freneticamente e com a cozinha quente por conta do forno.
—Alteza! –Ele diz com espanto, fazendo suas bochechas corarem no mesmo instante. –Eu não esperava te ver a essa hora.
E com isso, ele se coloca a trabalhar, assustado e constrangido, tirando todas as coisas de cima da mesa e colocando tudo aquilo que eu fosse usar naquela noite.
—Não se preocupe. –Digo, tentando acalma-lo. –Eu vim mais cedo mesmo. Me desculpa, te peguei desprevenido.
Ele não disse nada, apenas continuou trabalhando, mas pelo seu olhar vidrado evitando a todo custo olhar para mim, sabia que eu havia vindo em uma péssima hora. Se fosse outro dia, uma hora onde não estivesse com tanta fome, eu teria recuado e voltado mais tarde, mas meu estomago falava mais alto que meus pensamentos, então tentei ajuda-lo, de uma forma que mostrasse que não me importava com a mesa não posta.
—Por favor, deixa que eu... –Ele diz, tentando me impedir de ajuda-lo.
—Não se preocupe. –Digo, o mais descontraído possível. –Eu vim na hora errada mesmo, então deixa eu ajudar você.
—Não seria muito apropriado da minha parte permitir que a princesa faça o meu trabalho. –Ele diz, por trás de um tímido sorriso.
—Me deixe ajuda-lo. Isso é uma ordem!
Ele recua por um instante, mas ao ver que eu não estava de fato falando sério, ele sorriu novamente e recuou totalmente, com as mãos levantadas para cima como se estivesse se entregando às minhas ordens.
—Como desejar, alteza! –Ele diz, com um tom provocativo em sua voz que me deixou levemente irritada.
—É o primeiro aviso, senhor Thomas. Nada de títulos a essa hora da noite. –Digo, não contendo um sorriso.
Ele então tira um par de xicaras do armário e as entregam para mim, indicando que eu as coloque na mesa enquanto ele pegava os demais utensílios. Em poucos minutos a mesa estava pronta e cheia de comida, fazendo os meus olhos brilharem diante da variedade de doces postos. Eu estava acostumada a ver muita comida na mesa, mas ao ver cada doce e lembrar de cada sabor que senti mais cedo, não pude conter uma estranha animação em poder comer tudo aquilo novamente.
Então me sentei, e sem esperar por qualquer coisa, me coloquei a me servir e a me deliciar com os maravilhosos bolinhos de limão e geleia, enquanto Thomas voltava a trabalhar.
—Você não vai se servir? –Digo, apontando para a mesa.
Vejo seu rosto rubescer diante do comentário e ele fica claramente constrangido com algo.
—Não quero atrapalhar o seu momento de descanso. –Então ele faz uma longa pausa, claramente se censurando. –Emma.
—Por um momento eu achei que você estava fazendo desfeita da minha companhia. -Ele então deu um sorriso constrangido, e ao notar que poderia ter cometido algum erro, ele pegou um prato e uma xicara e se sentou na mesa, ficando de frente para mim.
Ele parecia estar levemente mais confortável com a minha presença comparado com a noite anterior, mas apesar de eu não querer provocar esse constrangimento nele, eu ainda estava disposta a fazê-lo se acostumar com a minha presença, e com sorte, passar a gostar dela também.
—Seria muito invasivo da minha parte perguntar o que você está fazendo aqui? –Digo, bebericando o chá para transmitir uma imagem de casualidade.
—Bom, eu... –Ele faz outra pausa, procurando as palavras certas para dizer. –Eu deveria estar trabalhando no turno do dia, mas...
—Então o que você estava fazendo aqui ontem à noite? –O corto, não contendo a minha curiosidade.
—Aparentemente a pessoa que fica aqui a noite não pode vir ontem, então Mario precisava de alguém para substitui-lo.
—Mas ninguém fica aqui a noite desde que seu pai saiu.
—Eu reparei isso depois. –Ele diz, rindo com leveza e relaxando gradativamente. –O senhor Mario disse que a cozinha estava indo bem sem o meu pai e pelo visto conseguiram substitui-lo de alguma forma, então ele me ofereceu para ficar aqui a noite. Sabe? A sua disposição e a dos seus pais.
Por algum motivo, a ideia de ter Thomas aqui todas as noites me deu uma pontada de felicidade que não esperava sentir, logo fiquei contente em saber que poderei vê-lo sempre que eu quisesse, e o melhor, que poderia me deliciar com os seus doces sempre que me desse vontade.
—Então... –Digo, com a boca cheia. –Isso quer dizer que vou ter os seus doces todos os dias?
—Com sorte, até o dia que eu morrer.
—Então, um brinde a sua imortalidade! –Digo, levantando a xicara de chá acima de nossas cabeças.
Ele riu, agora muito mais relaxado e a vontade com a minha presença.
Não conversamos muito depois disso, apenas perguntei se seu pai estava bem e ele afirmou com animação, mas deixou claro que ele não voltaria a trabalhar aqui, não que eu não soubesse disso, mas por algum motivo, quando Thomas disse isso, aquilo se tornou real pela primeira vez.
—Diga ao seu pai que ele fez um excelente trabalho aqui no castelo e que vou sentir muito a sua falta.
—Pode deixar que eu vou enviar o recado para ele.
Então trocamos mais uma meia dúzia de palavras e eu me despedi, deixando Thomas voltar ao seu trabalho e me retirando de volta ao meu quarto para finalmente dormir.
—Nosso acordo está de pé? –Digo, antes de fechar a porta e me referindo a nossa conversa na noite anterior.
—Sim, até o meu último dia aqui.
—Ótimo. –Digo. –Boa noite, senhor Thomas.
—Boa noite, alteza.
E com a cara franzida e com um riso abafado dele, me retiro da cozinha com uma falsa frustração.
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