O que esperar dessa noite?
2 Capítulo 2
Notas iniciais
O confeiteiro era muito tímido, isso eu não tinha dúvidas. Não importa o que eu dissesse, ele sempre acabava constrangido ou com o rosto coberto de rubor, e por causa de seus cabelos negros levemente compridos quase caindo nos seus olhos, fazia com que eu rosto vermelho se destacasse muito mais, então procurei alguma forma de deixa-lo mais à vontade com a minha presença.
—Você deseja mais alguma coisa, alteza? Acho que ainda tem mais um pouco de bolo do chá da tarde. –Ele diz, se mostrando pronto e disposto a atender qualquer pedido meu.
—Não, está tudo ótimo! Aliás, só vim aqui mesmo por causa das tortas.
Ele pareceu satisfeito com aquilo, e fez uma discreta reverencia como uma forma de agradecimento. Ele talvez não tenha notado, mas ele parecia tenso na minha presença, sempre com as mãos nas costas e com a postura bem reta, muito diferente de como o seu pai agia, mas parecia querer me agradar a todo custo, mas eu não estava confortável com aquilo.
—Aceita um chá? Ou uma trufa? –Digo, para quebrar a tensão, mas ele acabou se assustando com o meu convite.
—O que?
—Eu só não te ofereço a torta por que eu pretendo comer ela inteira. Eu sei que é muito egoísta da minha parte, mas ninguém mandou você fazer uma torta tão deliciosa.
Ele analisa com cuidado o meu pedido, abrindo a boca várias vezes procurando as palavras certas para falar, mas parece que se viu em um beco sem saída, e, meio hesitante, ele fala:
—Está tudo bem. Muito obrigado, alteza.
—Emma!
—O que?
—Emma! Me chame de Emma.
—Me desculpa, mas acho que isso não seria muito apropriado.
—Por favor, me chame assim. Olha, quando é dia e eu estou lá fora da cozinha. –Digo, apontando para a porta atrás de nós. –Então pode me chamar de vossa alteza ou como preferir. Mas quando eu estiver aqui, sou apenas Emma, sem coroa, sem vestido bufante, e sem pose de princesa. Apenas Emma, eu sendo eu mesma.
Ele deu um curto riso, e algo que eu disse o fez ficar mais à vontade comigo, já que ele puxou a cadeira do outro lado da mesa e se sentou com cautela, o que me fez sentir vitoriosa.
—Thomas, não é mesmo? –Digo, lhe oferecendo o prato de doces, e ele pega o que sobrou de um pão doce.
—Sim, isso mesmo.
—Você se parece muito com ele, sabia? –Digo, tentando procurar um assunto familiar que o deixe mais à vontade.
—Acha mesmo?
—Sim, quero dizer, mais na aparência sabe? Os cabelos escuros e a cor da pele. Mas de personalidade, vocês são bem diferentes.
—Isso eu concordo plenamente. Mas de resto, não me pareço com mais ninguém, nem mesmo com a minha mãe.
—Os olhos.
—O que?
—Seus olhos são como os delas. Não na cor, por que os seus são escuros e os dela são verdes, mas o formato sabe?
Ele sorriu ao pensar nisso, talvez seja algo que ele não tenha notado antes.
—Você conhece a minha mãe? –Ele diz, um pouco sem graça enquanto bebericava o chá que eu havia nos servido.
—Sim, quando seu pai se acidentou. Ela um dia veio aqui pessoalmente para falar que ele estava se recuperando bem e para buscar o ultimo salario dele. Ela parecia ser bem doce.
—Ela é sim. Ela é o tipo de pessoa que é mãe de todo mundo, sabe? Ela cuida muito bem de todos. Ela tem um coração grande demais para o peito dela.
Ele falava dela com ternura e orgulho, refletindo o seu genuíno amor por ela. Era doce ver ele falando assim dela, e de seu pai também. Eles pareciam ser uma família unida que sempre colocam um ao outro em primeiro lugar.
—Você lembra muito o seu pai também. –Ele disse por fim, se mostrando mais à vontade com a conversa. –Principalmente o rosto e os cabelos. E as sardas também. Mas seus olhos mel são como as da sua mãe.
Ele não parecia ser uma pessoa de muitas palavras, então só dizia o necessário. Então, quando terminou o seu chá, se colocou a tirar a louça suja e a limpar as coisas que havíamos usado enquanto eu terminava de comer.
—Bom, já que você é novo aqui, acho melhor te passar algumas coisas que eu tenho certeza que nem o Mario e nem o seu pai tenham te falado.
Ele então se virou para mim, se mostrando atento enquanto lavava algumas louças sujas.
—Toda noite eu venho aqui, principalmente a essa hora.
—Por que? –Ele diz, um pouco na dúvida se poderia perguntar aquilo.
—Eu tenho problemas para dormir, então eu sempre estudo a noite até eu ficar com sono, e quando me dou conta já está bem tarde e estou com fome de novo, então eu venho aqui tomar um “chá noturno”, e isso me ajuda a relaxar também. Seu pai sempre fazia alguns doces a mais para eu comer a noite. Então... –Digo, um pouco sem jeito. –Poderia fazer isso também?
Thomas pareceu ficar contente com aquele convite, então fez outra discreta reverencia e disse:
—Como desejar, vossa alteza.
Não sabia se ele estava fazendo isso para me irritar ou por respeito, então lhe alerto:
—Se você fizer isso de novo, dou um jeito de você ser jogado pela janela do último andar.
Ele não disse nada, apenas riu e recuou, voltando aos seus afazeres.
Fale com o autor