O que Realmente Importa no Amor?
3 Quando a Surpresa Bate à Porta
Notas iniciais
Gary mirava pelo vidro de sua sala a grande cidade lá embaixo. Seus dedos quentes, marcaram a superfície gélida da janela. O ar condicionado dali era forte. Entrara em uma fábrica havia cinco anos, e em pouquíssimo tempo, se tornara vice presidente da empresa de celulose. Morava sozinho, em uma casa extensa num condomínio fechado, um pouco afastado do centro da cidade que habitava, e que aliás, jamais havia saído. Apesar de seus estudos em outros locais, quisera voltar à antiga cidade natal, da qual sempre desejou morar pelo resto da vida.
– Gary! A reunião começa em cinco minutos!
– Ok, Oswald. Já estou indo. – Respondera Gary, que olhava a chuva torrencial que se aproximava, em grandes e densas nuvens cinza chumbo. Algo em seu peito incomodava. – Ai ai... Lá vem problema... – Resmungou para si. Aquele sentimento sempre lhe acometia quando algo importante, ou estressante, estava para acontecer.
– Sugiro que ampliemos a sede. A demanda está aumentando, e precisamos de mais espaço e funcionários. – Oswald disse. Ele era um dos que trabalhavam próximo ao setor de Gary. Possuía trinta anos, a mesma idade do amigo. Porém este, ao contrário de Gary, já tinha cabelos levemente grisalhos. Sua pele era amorenada, e ele era mais baixo que si. Ambos se davam bem, e eram amigos.
– E você Gary, me disse que queria sugerir algo para melhorar a empresa, o que é? – Perguntara o presidente. Gary que parecia distante, mirara o chefe, como se só agora o tivesse notado ali.
– Ah... eh... Bem, eu – Ele organizou os pensamentos “Vamos Gary” dissera para si. – Bem, eu queria melhorar a segurança de nossos funcionários, acho importante rever e reforçar os equipamentos de segurança, e também a parte das refeições. Uma alimentação balanceada seria o mais correto. Eu sei que isso gastaria um pouco mais de dinheiro, mas o que são alguns à mais, em vista do que a empresa lucra? Sem contar que seria o mais correto, afinal, se nossa empresa caminha, é graças aos nossos funcionários. Tratá-los bem, é mais que nossa obrigação. – Finalizara. Tom, o presidente, mirava Gary como se ele fosse um E.T. Ele coçara a fronte, e então mirara-o novamente. Estava enrolando para cuidar disso, eram uma grande fábrica, precisavam se adequar as normas de segurança em todos os sentidos. No fim, acabara concordando.
– Nós, iremos revisar isso. Vou pedir para um assistente ir pessoalmente ver o que está faltando.
– Eu já fiz isso. – Dissera Gary. Seu chefe o mirara incrédulo.
– Você o que?
– Venho checando o interior da fábrica há três dias, na parte da manhã.
– Está fazendo isso às surdinas?
– Não preciso comunicar tudo que faço, sou vice presidente.
– Vice presidente – Ressaltou o chefe.
– Pois é... Por enquanto. – Dissera Gary em tom desafiador. Tom pareceu que iria explodir de tão vermelho. Talvez de raiva, ou de frustração.
– O que está dizendo, senhor Frost? – Perguntara. Estava claro o discurso acirrado que ambos estavam tendo, em plena sala de reuniões, na frente de toda a equipe, que aliás, pareciam prender a respiração.
– Isso que escutou, Thomas. Talvez eu não tivesse chegado tão rápido a esse cargo, se não fosse pelas minhas “tomadas de atitudes” radicais. – Dissera ele, que entendia que Thomas só estava na presidência por ser filho do dono. Estava ciente que desafiá-lo poria seu cargo em jogo, mas não se preocupava com isso. Conhecia o senhor Onófolis, um homem que, embora já bem idoso, estava com todas as faculdades mentais em perfeitas condições, e por isso sabia o que estava fazendo ao colocar o filho como presidente e nomear em pouco tempo Gary como vice “Quero que meu filho aprenda, e cresça com você.” Se lembrara Gary, em certa conversa com Onófolis. De certo modo, seu emprego estava seguro. Thomas cumpria à risca tudo que seu pai mandava, o respeitava acima de tudo. Mas mesmo que não permanecesse na empresa, não se incomodava. Confiava em sua capacidade mental, que era e sempre fora, o seu ponto mais forte. Arrumar um outro emprego, não seria problema.
A reunião terminara com Thomas olhando torto para Gary. Ele sempre fora um homem íntegro e sincero, embora nunca tivesse deixado seu lado frio e racional de lado, pensava que com o tempo, essas características se tornaram ainda mais evidentes. Sabia que o que dissera na reunião, era pelo bem de Thomas, ele teria que aprender a ser mais responsável, pensava.
Gary chegara em casa cansado. Afrouxara a gravata e fora direto à geladeira apanhar um copo com água. No dia seguinte seria sua folga. Não trabalharia, e por isso aproveitaria seu dia descansando. Embora ser vice presidente tivesse suas regalias, Gary não se deixava levar e era um funcionário exemplar, mostrava serviço e queria, onde fosse que estivesse trabalhando, notar o crescimento e ascensão da empresa. Tomara um banho caprichado, e se vestira com pijamas de calça e blusa de manga comprida. Costumava sentir frio durante as noites, sem contar que o inverno já estava mais próximo do que gostaria que estivesse. Fizera um sanduíche natural bem rapidamente, lavando toda a vasilha que sujara em seguida. Já fazia algum tempo, desde que começara a morar sozinho, que contratara Margareth, uma diarista que limpava sua casa uma vez na semana, porém a mesma não tinha tanto trabalho, pois Gary era extremamente asseado e organizado. Ela ia mesmo para não deixar que pó se acumulassem nas janelas e estantes. Margareth costumava dizer que Gary era o patrão que pagava mais, sem que ela fizesse muito. Mas ela no momento estava de licença maternidade. Para Gary não era problema algum não ter a diarista ali, já que sujava bem pouco.
Após escovar os dentes, fora se deitar. Ficara olhando para o teto de seu quarto escuro. Gostava do cheiro floral de sua casa. Da tranquilidade, da paz que exalava daquele lugar tão precioso: o seu lar. Não se incomodava em viver sozinho, ao contrário, amava. Gostava de silêncio, organização, e limpeza. Sabia que mais alguém poderia estragar seu querido lar doce lar, pensava. O sono viera aos poucos, e em meio a ele, fragmentos de sonhos começavam a se formar em sua mente. Imagens distorcidas de Chelsy bebê, até seus oito anos. Então o vira chorar na escuridão, que se revelara o acostamento de uma avenida movimentada com carros em alta velocidade, da qual ele caminhava. Queria dizer a ele para subir na calçada, mas sua voz não saía. Tentou esticar as mãos para alcança-lo, mas parecia que ele ficava cada vez mais distante.
– CHELSY! – Ele assustara-se com seu próprio grito. Estava à frente da sacada de seu quarto. As mãos esticadas. Suava frio, e tremia. Se tivesse andado mais um pouco, provavelmente teria caído. Não era sonâmbulo, pelo menos não que soubesse. Gary voltou-se para dentro do quarto, travando a porta da sacada. Um vento frio havia entrado por ela, gelando todo o cômodo. Ele apertara a própria fronte. Sua cabeça parecia que iria explodir. Quanto tempo fazia que não via Chelsy? Se perguntou. Não havia pensado nisso até então. Seus tios pararam de visitá-los, e desde aquele ano da festa do oitavo aniversário do garoto, nunca mais o vira, e também não procurara por notícias. Sua vida se tornara turbulenta após aquele ano. Trabalho, faculdade, e outros afazeres, o impossibilitara de pensar sobre outras coisas que não fosse seu futuro promissor como empresário. O garoto devia estar bem, concluíra.
Aquele domingo começara ruim para Gary. Sua dor de cabeça aumentara consideravelmente. Se enchera de café bem forte logo cedo, tomara remédio, porém nada surtira o efeito esperado. Seus olhos doíam e ardiam como se estivessem sido expostos à um vento muito forte. Tomara o café da manhã com certa dificuldade, mas conseguira comer algo. Prepararia o almoço mais tarde, se é que sentiria fome.
Eram quase meio dia, quando escutara a campainha tocar estridentemente. Acordara de um salto. Havia adormecido na poltrona da sala.
– Ah meu Deus... – Resmungara, enquanto encaminhava-se a porta à contra gosto, arrastando os chinelos. – Quem é o desgraçado que veio me azucrinar em pleno domingo... – Dizia em voz baixa enquanto caminhava. Ao abrir a porta porém, uma surpresa o acometera.
– Gary me ajude! Eu não tenho mais pra onde ir!
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