O que Realmente Importa no Amor?
4 O Fim da Paz
Notas iniciais
Gary piscara os olhos algumas vezes, tentando pôr em foco a figura à frente. Um rapaz magro, alto, mas ainda assim, pouca coisa mais baixo que ele próprio, cabelos negros até os ombros, e roupas pretas, claramente no estilo rock in roll, o mirava fixamente. Usava uma gargantilha preta com um crucifixo. Pulseiras de couro também pretas, parecidas com coleiras, adornavam seus pulsos. Trazia nas costas uma mochila mediana, aparentemente lotada de coisas.
– O que? – Perguntara confuso. Talvez fosse sua dor de cabeça, mas algo parecia estranho.
– Eu disse que preciso de ajuda! – Ele dera alguns passos à frente, rapidamente alcançando-o, então o enlaçara pela cintura em um abraço forte e completamente inesperado. – Eu senti saudades... – Dissera.
– Ei! Me solta garoto! Eu não conheço você! – Gary disse, tentando se desvencilhar do rapaz.
– Não se lembra de mim? – Perguntara ele, afastando-se. Gary o mirou por uns segundos, olhos grandes e expressivos em cor âmbar, olhavam-no profundamente. Por um instante, Gary não pode acreditar no que, ou melhor, quem estava vendo.
– Che-Chelsy? – Gaguejara. O menino meneou a cabeça freneticamente, parecia claramente alegre. – Não é possível, você... Não pode ser o Chelsy...
– E porque não?
– Porque ele é... loiro!
– Oras, — ele apanhou uma mecha do próprio cabelo — ...nada que uma boa dose de tinta não resolva. – Dissera, dando uma piscadela ao primo. – Sabe que sempre adorei a cor de seus cabelos.
– Eu não...
– Certo, certo... Não vai me convidar pra entrar? Eu estou cansado de ficar parado aqui fora!
– Eu... Mas espera aí! Como foi que você conseguiu entrar? – Perguntara, só agora lembrando-se que seu interfone não tocara.
– Ah... Bem eu, dei meu jeitinho... – Falara ele, que passara por Gary como um gato, entrando na sala. – Uau! Essa casa é enorme! – Dissera tirando a mochila e jogando-a ao chão, em seguida atirara-se ao sofá.
– Não me lembro de ter dito que poderia entrar! – Esbravejara Gary. Chelsy virou a cabeça sorrindo.
– Você não mudou nada, sabia?
– Não posso dizer o mesmo de você.
– Não, não pode... Felizmente! – Falara sorrindo.
– Como conseguiu meu endereço? Onde estão seus pais? Por que você está aqui?
– Calma amor! Eu acabei de chegar... Onde é a cozinha? Estou morrendo de sede! Sabia que é muito difícil chegar aqui sem carro? – Falara, se encaminhando para dentro da casa. Gary correra até ele, não gostara nem um pouco dessa invasão de privacidade.
– Espera aí garoto! Eu estou falando com você! – Mas já era tarde, Chelsy encontrara a cozinha, abrira uma garrafa de água, e bebera ali mesmo, no gargalo. Gary arregalara os olhos, pronto para arrancar a garrafa das mãos daquele moleque insolente e mal educado, mas não o fizera, controlando-se com o maior dos esforços. Respirara fundo, sentando-se à cadeira da mesa da cozinha. Chelsy puxara a cadeira a frente, sentando-se, ainda com a garrafa em mãos.
– Consegui seu endereço através dos meus tios, seus pais. Meus pais não moram nesse estado, sabe disso. E estou aqui porque não tenho para onde ir, como já disse. – Falara ele, que respondera as três perguntas que Gary lhe havia feito.
– Como não tem para onde ir? E sua casa?
– Ah... Isso é uma longa história. – Falou bebendo mais água. Gary reparou que ele usava pesados anéis de prata com faces de caveiras, em seus dedos finos e brancos com a unha pintada de preto. Ele pousou a garrafa na mesa, mirando Gary. Seus olhos estavam borrados de preto ao redor. Lembrava um panda. – O que está olhando? Ainda não acredita que eu seja o Chelsy? – Perguntara. Gary permanecera sério.
– O que aconteceu? – Chelsy respirara fundo.
– Eu briguei com meus pais, eles me expulsaram de casa. Nenhum dos meus amigos me deram abrigo, como não tenho parentes lá, decidi usar minhas economias para vir pra cá. E a primeira coisa que fiz, foi me lembrar de você. Então passei na casa dos tios, peguei seu endereço, e vim parar aqui. Satisfeito? Ou quer saber se vim de trem, ônibus, ou mula?
– Porque o expulsaram de casa? – Perguntara Gary com a voz fria, ignorando o último comentário.
– Ah qual é?! – O garoto revirara os olhos nas órbitas. – Isso não vem ao caso!
– Vem sim, garoto! Você aparece na porta da minha casa com essa cara de corvo amanhecido, e não quer que eu faça perguntas?
– Corvo já é demais! – Protestara. Gary notara que a voz de Chelsy permanecera tão fina e doce quanto antes. Embora tenha crescido, seus gestos, a maneira de caminhar e gesticular, ficaram ainda mais delicados e femininos. – Eu estou cansado Gary... – Dissera ele, e parecia mesmo.
– Espere aqui eu... Vou arrumar o quarto de hóspedes. – Dissera, sua dor de cabeça estava pior. Embora odiasse a ideia, não iria deixar o garoto à mercê.
– Tá... – Ele fora para a parte mais interna da casa, a área dos corredores no primeiro andar, onde ficavam os quartos. Chelsy o observara sumir pelo arco da porta. Dera um sorriso de leve e se levantara da cadeira da cozinha.
Pouca coisa precisava ser arrumada no quarto de hóspedes. Gary retirara a colcha de cima da cama, pegando alguns cobertores do armário do quarto, jogando-os sobre a mesma. Tirara alguns travesseiros também. O que aquele garoto poderia ter aprontado para ser expulso? Perguntava-se. Na certa ele iria querer ficar mais tempo ali, e sua dor na fronte aumentara consideravelmente. Era o fim da paz de seu lar doce lar.
– Chelsy! Já acabei lá em cima, você pode... – Dissera enquanto descia as escadas. Mas parara de falar quando notara o garoto descansar tranquilamente em seu sofá. Estava esparramado, os cabelos negros espalhados desalinhadamente sobre as almofadas. Gary se aproximara. Ele respirava pesadamente, perecia realmente cansado. O que ele poderia ter passado só para chegar até lá? Se perguntara, notando as bochechas rosadas do primo, que outrora fora apenas uma criança. Lembrara-se de quando o mesmo era um bebê, e o vira pela primeira vez. Também dormia, como naquela hora. Um pensamento invadira-lhe a mente. Conhecendo Mark como conhecia, não era de duvidar que talvez ele o tivesse afastado Chelsy pela aproximação dele consigo. Talvez soubesse o porquê dele ter sido expulso de casa. Mas preferiu não pensar muito naquele momento. Aproximou-se do adolescente, o pegando no colo. Catara sua mochila também. Chelsy se mexera, mas não acordara, e se acomodara nos braços do mais velho. Ele o carregara até a cama do quarto, tirara-lhe as botas pretas em estilo coturno, com um salto de no mínimo uns quinze centímetros de altura, desamarrando os cadarços. Acomodara-o entre os lençóis. Mirara-o pela última vez antes de sair. A maquiagem preta totalmente borrada, os cílios longos, aumentados ainda mais pelo rímel. Usava brinco de argola e piercing na orelha esquerda. Ele havia mudado muito, onde estava o Chelsy doce e sensível que conhecia? Perguntou-se.
Era começo da noite quando Chelsy finalmente acordara. Notara que estava sem sapatos. Ligara o abajur de luz amarelada e fraca. Mirara o quarto. Impecável, branco, limpo. Como Gary costumava ser. Ele riu daquilo. Ainda se lembrava de como o primo costumava ser sistemático com suas coisas. Era de se esperar que fosse se tornar um adulto daqueles.
– Tsc... Você não muda... — Dissera para si mesmo. Levantara-se, jogando sua mochila na mesa de cabeceira. Caminhara em direção ao que supôs ser o banheiro. Pisos brancos iam até o teto, a pia era grande de porcelana, e havia um boxe de vidro que separava do enorme chuveiro na área de banho. Tirara as roupas e tomara uma ducha. Tinha que admitir, Gary possuía bom gosto. Tanto o shampoo quanto os sabonetes possuíam cheiros deliciosos e refrescantes. Após se enxugar, seu estômago dera um solavanco assombroso. Não havia comido muito bem desde que fora embora de casa. A não ser pelos salgados fritos e refrigerantes que tomara na última rodoviária que o ônibus havia parado. Penteara os cabelos em frente ao espelho. Seu rímel e a maquiagem haviam saído, revelando cílios e sobrancelhas claras. Notara até mesmo as olheiras, que tentara disfarçar com a maquiagem, mas que agora estavam bem expostas e pareciam ainda mais assustadoras.
– Céus, eu estou um lixo... Com cara de corvo amanhecido... — Torcera o nariz.
Sentia um cheiro delicioso quando descera as escadas preguiçosamente. Estava só de meias, e usava uma calça de pijama listrado e camisa de manga comprida preta. Foi guiado pelo cheiro à cozinha iluminada e espaçosa.
– Você sabe cozinhar!!! — Dissera ele sorrindo ao ver Gary em frente ao fogão, jogando panquecas ao ar.
– Moro sozinho, isso é obrigatório. Só um inútil não saberia cozinhar.
– Não é assim também... — Dissera se aproximando. — Já ouviu falar em restaurantes e marmitas?
– Já ouviu falar em quanto a cozinha desses lugares é imunda, e você nem ao menos sabe o que está comendo? — Chelsy fizera uma careta.
– Procuro não pensar nessas coisas... Afinal, o que não me mata, me fortalece. — Concluíra.
– Deve ser por isso que está com essa cara amarela e com esse corpo magricela.
– Meu Deus Gary! Tá eu sei cozinhar também! Satisfeito?
– Sabe cozinhar o que?
– Cup Noodles, miojo... em fim, há um leque nesse cardápio. — Falara, sentindo-se um cozinheiro francês. Gary o mirou, após erguer a quinta panqueca ao ar.
– Se soubesse a quantidade de sódio e gorduras trans que está ingerindo, nunca mais tocaria nessas porcarias. — Chelsy respirara fundo. Afastara-se sentando na cadeira sem responder. Observara Gary, que também havia se calado, terminar as panquecas. Sempre quer ter a última palavra, não é bonitão? Pensara. Dera certo pois, não retrucar, significava que Gary pararia de falar. Ele tinha um belo corpo, concluíra, após prestar atenção no primo de costas. Ele não havia mudado muito, possuía a mesma altura de quando o vira pela última vez. Mas o corpo se tornara mais forte, apesar de não ser o tipo musculoso. Era um homem fino, bonito e elegante. O oposto de si, pensara o garoto.
– Está com dezoito anos? — Gary servira as panquecas, e pegara o rapaz de surpresa, pois o mesmo estava mergulhado em pensamentos e memórias sobre o mais velho.
– Sim... — Dissera, apanhando uma das panquecas. — Ai!
– Cuidado, está quente!
– É eu notei! — Seus dedos arderam. Gary sentou-se de frente à ele. Pegara um prato, garfo e faca, para comer a panqueca que servira. Não era recheada. Notara Chelsy, mas possuía pontos verdes no meio da massa.
– Que treco é esse?
– Panquecas.
– Não, digo, esses troços aqui no meio?
– Espinafre.
– Ahh Gary, isso é muito ruim.
– Não é não, e você vai comer tudo e bem quietinho.
– Você não manda em mim.
– Enquanto você estiver debaixo do meu teto, sou eu que mando sim. Agora coma, antes que eu perca a paciência com você.
– Haha.. Isso não é novidade, todos perdem...
– E porque será? — Chelsy calou-se, e mais uma vez a última palavra fora de Gary, que o observara comer sem emitir um som sequer.
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