O que Realmente Importa no Amor?
6 Preso ao Medo
Notas iniciais
– Porque acorda tão cedo, Gary? — Chelsy havia se levantado às cinco para beber água, e encontrara Gary fazendo café. Devidamente vestido com terno e gravata.
– Porque sim.
– "Porque sim" não é resposta! Porque será que o Gary acorda tão cedo pela manhã? – Dissera ele com a voz esganiçada.
– Engraçadinho... — Chelsy rira, apanhando um copo para beber água. — Seus pais me mandaram um e-mail.
– O que?!– Chelsy quase derrubara o copo que enchia no filtro de barro.
– Seus pais.
– Você respondeu? O que eles perguntaram?
– Se você estava comigo.
– Você não respondeu, não é?
– É claro que eu respondi!
– Ah não Gary! Eu pedi pra não fazer isso! — Dissera o garoto.
– Porque não quer que seus pais saibam? — Perguntara Gary.
– Porque... Porque eles...
– Sem me enrolar.
– É... — Ele terminara de encher o copo, andara pé ante pé até Gary. Estava de meias coloridas.
– Anda Chelsy.
– Eles tem ciúmes de você. — Dissera ele por fim.
– Ciúmes?
– É, eles... Bom, eles sabem que, já que sou gay, e que sempre gostei de você, eles pensam... Ah Gary! Eles são uns bestas que só pensam porcarias! — Gary permanecera sério, enquanto coava o café, e mirara o rapaz. Sempre suspeitara que os tios desconfiassem disso, já que o garoto parecia gostar mais dele do que de todos os outros primos e primas.
– Sei. — Dissera friamente, voltando seu olhar para o café, que já estava quase totalmente coado.
– Então... É por isso que eu não queria que eles soubessem que estou aqui, entende? Não quero que me encham o saco! Já não basta pra eles terem feito tudo que fizeram além de me expulsarem de casa, quando descobriram que sou gay? — Gary estranhara a frase.
– E o que eles fizeram além de te expulsar? — Chelsy ficara pálido.
– Na-nada...
– Mentira.
– Não.. não é nada. Só disse isso por dizer...
– Está mentindo, e você mente muito mal. — O rapaz engolira em seco, vendo que Gary travara a garrafa já totalmente cheia, colocara um pouco de café em um copo americano, e se virara para ele. Seu olhar frio e calculista, parecia penetrar-lhe a alma. Se Gary era capaz de intimidar qualquer pessoa, por mais madura e séria que ela fosse, o que diria dele que era doze anos mais novo.
– Eles... Só me xingaram... nada mais. — Dissera abaixando a cabeça. Os cabelos negros de Chelsy, caíram por seus ombros, e em parte por seu rosto. Gary permanecera sério e mudo. Sabia que o garoto estava escondendo algo, e parecia estar com medo, talvez de alguma lembrança de ameaça ou algo a mais que os pais o fizeram. Não duvidava, afinal com aquela família machista que tinham, poderia esperar tudo.
– Vou trabalhar. Esquente a janta de ontem, e faça uma salada. Já deixei folhas de alface limpas, e lavei dois tomates.
– Você não sai esse horário, certo? — Perguntara.
– Vou sair mais cedo, o transito ontem estava horrível. Talvez a essa hora esteja mais ameno.
– Não quer ficar perto de mim, não é? — Gary voltara-se para o rapaz.
– O que está dizendo?
– Está me evitando.
– Porque eu evitaria você?
– Não sei... Porque sou insuportável? — Dissera rindo.
– É você tem razão. — Dissera ele lhe dando as costas, mas sentira os longos dedos de Chelsy lhe segurarem o pulso. Ele parara abruptamente, mirando o garoto.
– Eu não vou fazer nada com você Gary. Não precisa ter medo de mim. — Gary arregalara os olhos.
– Quem falou que eu... — Mas parara após sentir Chelsy encostar o próprio corpo ao dele, o enlaçando com os braços finos e compridos. Gary não gostava muito que encostassem nele. Ficara imóvel, sentindo o corpo todo esquentar de susto.
– Eu gosto de você... Desde que eu era criança... Eu sempre amei você... — Dissera ele, afundando o rosto na camisa do mais velho. Gary segurara os dois braços do rapaz, interrompendo o abraço.
– Para com essas coisas. Eu tenho que trabalhar. — O garoto, que já tinha naturalmente olhos grandes e redondos, arregalara-os ainda mais. Gary notara que os mesmos ficaram brilhantes e inegavelmente inundados por lágrimas.
– Eu...
– Até mais tarde. — Falara, lhe dando as costas novamente. Chelsy sorrira diabolicamente. Por mais que as lágrimas estivessem escorrendo de seus olhos, ainda assim, sua personalidade auto flagelante, não o impedira de sorrir daquela forma. Gary era mais frio do que ele previra. Porque será que ainda tentava quebrar o gelo daquele homem tão insensível e... absolutamente bonito? Limpara os olhos e pôs-se a sair da cozinha, vendo de relance quando Gary saiu pela porta da frente.
Gary sentia-se estranho. Sendo abordado por aquelas frases confusas que Chelsy insistia em dizer-lhe todas as vezes em que tinha oportunidade. Porque procurava evitar o rapaz a todo custo? Não entendia suas próprias reações, não estava entendo a si mesmo.
Chelsy ficara sozinho mais aquele dia. Já estava entediado por volta do meio dia, havia catado algum livro próximo do "interessante". Encontrara alguns de ficção científica, imaginara que aqueles deveriam ser livros que Gary lia quando adolescente. Perdera-se naquela biblioteca enorme, com estantes até o teto, lotadas de livros. Quando deu por si, já era hora do almoço. Espreguiçou-se e saiu de lá, levando consigo o livro que acabara conquistando-o. Fora até a parte dos fundos. Havia um imenso jardim que rodeava a casa, dando de cara com uma larga piscina. Como na maioria dos condomínios, não havia muros, mas naquele, cerca viva, que era alta o suficiente para não ver o vizinho. Imaginou Gary de sunguinha nadando ali, uma imagem bizarra, já que sempre o vira de roupas sociais, a não contar com os pijamas.
– Céus Gary... Pra que uma piscina dessas? — Perguntou-se. Sentando-se na beira, molhando os pés. Deitou as costas ao chão morno, cujo o sol de começo de inverno, esquentara minimamente. Sentira a dor nos músculos comprimi-lo. Seu corpo inteiro doía, mas não contaria a Gary. Não poderia fazer isso...
Fizera seu almoço rapidamente, esquentara a comida deixada pelo primo, e fizera a salada, nem ao menos entendera o porque de obedecer algo que ele havia lhe dito. Na verdade, queria entendê-lo, talvez por isso precisaria ser mais flexível. Será?
***
– Seu primo não ligou hoje? — Tom perguntara. Gary estava revisando com ele algumas coisas. Erguera uma sobrancelha com a pergunta.
– Não. — Respondera rispidamente. — Ele sabe se virar sozinho.
– Quantos ele anos tem?
– Dezoito.
– É bem jovem...
– Sim... e não. — Não gostava de falar de sua vida pessoal com terceiros. Queria ter evitado o máximo esse assunto, mas quando dera por si, toda a empresa já sabia de Chelsy. Aquilo era uma chateação das bem grandes! Concluíra respirando fundo.
– Parece cansado. — Dissera Tom.
– Sim. — Mais cansado vou ficar quando chegar em casa... Pensara.
– Pode ir. Já acabamos por hoje.
– Ah.. certo. — Falara, empurrando as rodinhas da cadeira para trás, afim de sair.
Gostava de dirigir a noite. Apesar daquela cidade não dormir nunca, o anoitecer era sempre mais tranquilo e refrescante. Estava feliz que não precisaria passar em nenhum super mercado. Na verdade, estranhara Chelsy não ligar para ele. Talvez fora grosso demais naquela manhã? Não sabia responder, esse era seu jeito, se aquele garoto impertinente quisesse conviver com ele, teria de aprender isso logo.
A água estava um pouco fria, mas Chelsy continuava nadando. Água gélida aliviava suas dores pelo corpo. Fora até o fundo da piscina, tocando o chão da mesma, até submergir. Nadava muito bem, e gostava disso. Quando fora se aproximando da beira, notara uma sombra na superfície. Dera de cara com Gary, mirando-o sério.
– Não me lembro de ter lhe dito que poderia nadar.
– Eu não preciso que você me permita alguma coisa.
– Saia já daí, vai pegar um resfriado nessa água fria. — Chelsy o olhara sem dizer nada, seu corpo todo estava sob a água, só suas mãos, que apoiavam a beirada de pedra, e sua cabeça que estavam fora d'água. A verdade era que estava sem roupa. Não poderia sair da água sem nada! Pensara. Droga Gary, você tinha que chegar mais cedo, não é?
– Não quero sair. — Gary revirara os olhos. Fora para dentro. Chelsy porém permanecera parado. Até o mesmo aparecer com um roupão em mãos, jogando-o para ele.
– Vai me obedecer, ou não? — Chelsy se sentira agradecido, mas nada dissera. Saíra o mais depressa possível, cobrindo-se com o roupão. Não tinha vergonha de ficar pelado na frente de alguém, mas no estado em que estava, não poderia, nem se quisesse.
– Obrigado. — Dissera. Gary por sua vez estranhara. Quando foi que ele agradeceu por alguma coisa? Perguntou-se. Chelsy torcera os cabelos, e parte do roupão, que era um pouco grande para ele, escorregara de seus ombros. Gary que até então permanecia parado ali, para certificar-se de que Chelsy não pularia na piscina novamente, notara algo estranho nos ombros do rapaz.
– O que são essas manchas? — Perguntara. Chelsy o olhara, notando que seu ombro estava exposto, puxando a manga do roupão rapidamente.
– Não é nada... Minha maquiagem que borrou.
– Maquiagem? Roxa?
– É que... Eu borrei, são dos meus olhos.
– Ah Chelsy, acha que sou idiota? O que aconteceu? — Dissera se aproximando.
– Já disse que não é nada! — Falara Chelsy, que se afastava dele.
– Alguém te bateu?
– Não! Eu... eu caí! Foi isso!
– Caiu como?
– Quando eu... Estava vindo pra cá.
– Eu já falei que você não sabe mentir, não é? — Chelsy não se atrevia a olhar para ele. Não chegue mais perto... Pedia em silencio, cerrando os olhos. Já estava tão afastado que quase alcançava o gramado.
– Para com isso Gary! — Dissera, vendo que ele já estava mais perto do que Chelsy gostaria.
– Se não me disser o que houve... Quem foi que fez isso?! — Chelsy reunira forças, e então o olhara.
– Isso não vai fazer diferença agora!
– Pra mim vai. Me diga. — Ordenara sério.
– Foi... Foi...
– Fale de uma vez!
– Meu pai. — Dissera, engolindo em seco.
– Quando ele fez isso?
– Quando descobriu... sobre mim... — Gary chegara ainda mais perto, puxando a parte de cima do roupão, exibindo seus ombros. Manchas enormes e roxas, circundavam toda a extensão posterior de seus braços.
– Onde mais ele te machucou? — Perguntara sério. Chelsy abaixara os olhos novamente.
– Em parte alguma, agora posso me trocar? — Perguntara, olhando o mais velho, que quase encostava-se nele, porém ao mirar bem seus olhos, os mesmos pareciam faiscar de raiva. A única vez que o vira assim, fora naquela em que um garotinho o derrubara em sua festa de oito anos.
– Não. Enquanto não me disser onde mais ele te feriu. — Chelsy respirara fundo. Se não mostrasse, Gary não iria sossegar, pensara. Desatara a fita do meio da roupa, abrindo-a, e então, deixara-a cair aos seus pés. Gary pareceu prender o ar. Chelsy não o olhara, mas podia sentir sua aura exaurir uma raiva gigantesca.
Gary sentiu seu sangue subir, Chelsy estava totalmente ferido. Seu peito estava com arranhões, seu abdômen, coxas, e o resto das pernas, totalmente roxos. Ele cerrara os olhos por alguns segundos, tentando conter a raiva.
– Porque você não denunciou? — Perguntara, fazendo o possível para não ligar naquela hora mesmo para Mark.
– Como?
– Oras, como? Não sabe ligar pra polícia, não sabe ir à uma delegacia?
– Não é ISSO! Como você queria que eu fizesse?! É MEU PAI, GARY!
– Pai? Você ainda o chama de pai? Uma pessoa que faz isso com o próprio filho, merece mesmo ser chamado assim? — Ele notara que Chelsy começara a chorar. — Ele fez mais alguma coisa com você?
– Não... Só me bateu e... tentou cortar meu cabelo... — Dissera, passando as mãos pálidas sobre seus fios negros e adorados.
– Vamos pra dentro, vou tratar seus machucados. — Disse, virando-se para ir. Chelsy se sentira surpreso. O seguira rapidamente.
Gary fora até seu quarto. Trouxera com ele unguento e ataduras. Chelsy estava só de cuecas, e o mirara abaixar-se sobre os joelhos, próximo aos seus pés. Apanhara uma de suas pernas, que estava igualmente feridas, e passara a pomada. Chelsy sentira as mãos grandes e fortes de Gary, massagearem com delicadeza sua pele. Embora a sentisse dar choques, talvez pelos nervos atingidos, não pode impedir que seu corpo respondesse à isso. Toda sua pele se arrepiara instantaneamente. Gary porém, permanecia alheio à isso. Em sua mente calculava maneiras de bater em Mark, surrá-lo e desmembrá-lo quando o encontrasse, tamanha era sua raiva. Chelsy era um rapaz delicado, se alguém como Mark, que era quase do tamanho de Gary, batesse nele, no mínimo o deixaria exatamente, se não pior do que estava agora. Pensara que Chelsy até teve sorte de não estar com alguma costela ou parte do corpo quebrada. Mas quando encontrasse Mark...
– Ai! — Chelsy exclamara. Gary o mirou rapidamente.
– O que foi?
– Está me machucando. — Notara que de fato havia apertado demais seu joelho.
– Desculpe. — Falara rapidamente. Levantara-se, sentando em sua cama. — Segure o cabelo, vou passar nas suas costas. — Chelsy obedecera. Um alívio enorme o acometera ao sentir o toque dele e da pomada em suas costas. Talvez ali fosse o ponto que estivesse mais dolorido.
– Ahh!!! Isso é muito bom! — Falara, quase gemendo. Gary porém parara. — Porque você parou?
– Não quero saber de você pervertendo as coisas.
– Ei! Eu não fiz nada disso! Não posso mais dizer que está bom? — Dissera. Gary voltou a massageá-lo nas costas. Em termos, ele próprio sabia que Gary tinha razão. Não podia negar que sempre arrastara não só uma, mas as duas asas para o primo. E tê-lo ali, massageando seu corpo... Gary poderia ser assexual, mas Chelsy não era, e estava muito longe de ser. Tentou manter a cabeça fria, antes que alguma coisa saísse de seu controle.
– Seu pai disse que viria assim que pudesse. Foi o que me respondeu no e-mail. — Chelsy assustara-se. Soltara os cabelos, e virara-se para ele rapidamente.
– Não... Eu não... Gary por favor! Eu não quero vê-lo! Ele vai e matar!
– Ele não vai matar você!
– Vai sim! Ele disse! Disse que me mataria se eu o procurasse, disse que preferia ter um filho morto, do que um filho gay! Por favor Gary!
– Eu já disse! Ele não vai encostar em mais nenhum fio de cabelo seu, porque eu não vou deixar!– Chelsy calara-se. Piscara os olhos algumas vezes, tentando digerir aquela frase tão heroica e digna de um romance clichê.
– Você não... Mas você disse...
– Dane-se o que eu falei! Eu não vou deixar que ele te machuque de novo. Amanhã não vou ao trabalho.
– Mas... Como você sabe que ele vai vir...
– Eu não sei. Apenas não vou ao trabalho. — Chelsy ficara sem entender. Mas uma pontada de felicidade pulsara em seu coração. Com a ideia de Gary o defendendo como da última vez, era impossível não se sentir feliz e nostálgico. Mirara aqueles lindos olhos azuis do primo, com profunda gratidão. Mesmo sabendo que ele odiasse isso, aproximara-se de qualquer jeito, o abraçando.
– Ah não, Chelsy! Você está cheio de pomada! — Protestara Gary. Chelsy porém não dera a mínima.
– Obrigado Gary!!! Obrigado! — Falara sorrindo. — Eu te amo! — Dissera afastando-se para mirá-lo, então sem que Gary esperasse, prensara os próprio lábios contra os do mais velho, que arregalara os olhos.
– Ei! — Dissera rapidamente, franzindo as sobrancelhas. Porém antes que Gary explodisse, Chelsy levantara-se, e saíra do quarto correndo e cantarolando pela casa. Estava feliz, pela primeira vez em sua vida, sentia que não estava sozinho nem jogado ao léu... Tinha alguém que o defendia, e que o aceitava exatamente como era.
Fale com o autor