O que Realmente Importa no Amor?
2 Oitavo Aniversário
Notas iniciais
Embora Chelsy morasse em outro estado, todos os anos Mark vinha com a mulher e o filho à cidade natal, onde moravam sua mãe e seus outros irmãos. Gary acompanhava o crescimento do primo, sempre distante por vezes, porém uma distância que Chelsy pretendia vencer, apesar de parecer uma missão impossível.
Era o oitavo aniversário de Chelsy, e a festa seria em um salão próximo à casa de Gary.
– Vamos filho! Você ainda não se arrumou! – Dissera-lhe Carmen, que estava lindamente perfeita. Seus cabelos negros haviam sido enrolados cuidadosamente em cachos grandes e bem feitos.
– Eu tenho mesmo que ir nessa festa? – Perguntava um Gary desanimado, esparramado em uma poltrona na biblioteca, lendo.
– É seu primo Gary. Ele gosta tanto de você... – Gary a mirou de esguelha, não que não gostasse de Chelsy, mas era uma criança, e ele um rapaz chato e sem jeito com fedelhos. Levantara-se arrastando os pés, desejando ir para cama. Havia estudado aquele dia inteiro para um vestibular que faria em breve. Estava cansado.
Vestira sua “roupa de eventos para emergências “, que deixava empacotada no cabide de seu guarda roupa, passada e limpa, para o caso de ser convidado para uma festa, e evitar ter de ficar escolhendo as roupas, odiava festas e qualquer lugar que possuísse muita gente. O problema era seu tamanho, com vinte anos, já estava medindo um metro e oitenta, isso sem praticar esporte algum, a não ser que ler e estudar se encaixasse nessa categoria.
O salão era bonito e espaçoso. O piso claro de cor caramelo, fazia-se refletir seu reflexo. Pilares brancos estavam dispostos em fileiras com alguns metros de distância um do outro. Balões coloridos de gás, pareciam grudar ao teto, fios em caracóis pendiam deles, dando um ar infantil à festa. A decoração era um tema conhecido, máscaras e símbolos do Batman se espalhavam pelas paredes, como adesivos. E na mesa do bolo, carrinhos e miniaturas de morcegos e de “Batmans” estavam espalhados. Muitos dos convidados já haviam chegado, e cada família ocupava uma mesa bem enfeitada, com panos preto e amarelo, como o tema sugeria. Havia muitas crianças, que pulavam e corriam de lá pra cá. Gary notara que haviam chegado atrasados. Os anfitriões já não estavam mais na porta de entrada para recebê-los. A não ser por Mark. Que dera um grande sorriso ao receber o presente que o irmão, a cunhada e o sobrinho trouxeram para seu filho.
– Chelsy está de birra. Desculpem por ele não estar aqui. – Dissera Mark.
– Birra? O que aconteceu? – Perguntara Gail, seu irmão e pai de Gary.
– Nada demais... Esse garoto precisa parar de frescuras. – Dissera Mark torcendo os lábios, o que deixara Gary com uma “pulga atrás da orelha”. Eles arrumaram uma mesa, e Gary dissera que iria dar uma “andada por aí”. Carmen concordara, e o deixara ir.
Gary correra os olhos pelo salão, e não encontrara Chelsy, então fora até o lado de fora, onde mais uma penca de crianças brincavam na cama elástica, piscina de bolinhas, e outros tantos “troços” que se tem em festas. Mas Chelsy não era visto. Até que, um chumaço dourado brilhara do outro lado do jardim, próximo a piscina. Gary caminhou até lá, tentando ultrapassar a “muralha de pentelhos” que se estendia ao longo do local. Ao chegar do outro lado, se surpreendera por estar inteiro. Chegara a pensar que morreria tentando passar pelas crianças, não que fosse exagero...
– Porque está aqui? – Perguntara Gary ao primo menor, que estava sentado em um balanço, que ele gostaria de saber como fora parar ali, isolado de todos. Aquela parte era mal iluminada, e portanto, as pessoas estavam bem distantes dali. – Ficou mudo? – Perguntara Gary que se sentara em um dos balanços, certificando-se antes de que aguentaria seu peso. Chelsy havia crescido, seus cabelos loiros alcançavam seus ombros, mas seus olhos pareciam ter perdido o esplendor costumeiro. Embora estivessem brilhantes, mas talvez por outro motivo.
– Eu não gosto do Batman. – Dissera com a voz embargada. Gary imaginou que fosse algo do tipo.
– E gosta do que? – Ele mirou Gary, à meia luz, o tom âmbar de seus olhos, parecera ainda mais forte.
– Você vai rir se eu disser.
– Eu não vou rir. – Respondera sério.
– Eu queria um tema de ursinhos, mas meu pai não deixou. E eu gosto de lilás, e meu bolo é preto! E essa roupa... Eu não queria ter vestido isso... – Ele enxugara as próprias lágrimas, um gesto comum, mas algo nisso incomodou Gary. Chelsy parecia cada vez mais delicado. Seus gestos, sua voz mansa, fina e afeminada. Poderia ser besteira de sua cabeça, mas talvez não fosse. Isso o preocupou.
– E você vai chorar por causa disso? Chelsy... Pelo amor de Deus! Vá curtir sua festa, brincar com seus amigos! O importante é que você está tendo uma festa de aniversário, já imaginou quantas crianças gostariam de ter uma e não podem? – Chelsy abaixara a cabeça, pensativo. Algo em seu íntimo lhe dizendo que Gary tinha toda a razão.
– Eu... não tinha pensado nisso... – Disse.
– Pois devia. Você é um garoto de sorte... – Dissera. Embora não estivesse tão certo quanto ao que dissera. – Agora que tal voltarmos pra festa? – Ele concordara, e agarrara as mãos do primo, não que o mesmo tenha lhes oferecido como apoio. Mas ele acabara aceitando, e juntos voltaram para o salão.
Gary observara Chelsy de longe. Ele bem que tentava se misturar com seus “amigos”, mas parecia que nenhum deles o queria como companhia. Isso era ruim. Por um momento pareceu enxergar a si mesmo ali, tentando ser como os outros da sua idade, mas sentir a rejeição na pele, era algo traumatizante.
– Procurei por você, onde esteve? – Sua mãe aparecera, entrelaçando os braços entre os seus.
– Fui achar o Chelsy, ele parecia triste. Disse que não gostou do tema da festa. – Ele vira sua mãe sorrir.
– E depois diz que não gosta de crianças... – Dissera ela, a voz claramente sarrista.
– E eu não gosto.
– Sei... Vou lá com seu pai...
– Ok... – Ela se fora, deixando-o na parte externa do salão. Gary puxara uma cadeira e se sentara.
– Está sozinho? – Uma moça, aparentando ter cerca de dezoito anos, aparecera.
– Sim, não... é.. – Ela rira.
– Aquela era sua mãe?
– Sim. – Disse ele, que sabia que sua mãe, mais parecia sua namorada. Ela não aparentava nem de longe ter a idade que tinha.
– Então posso me sentar aqui... – Disse ela, que puxara uma cadeira ao lado dele. Gary não se recordava daquela menina. Não a vira em outras festas de sua família. Mas como aquela festa era grande, talvez possuísse convidados que ele na certa não conhecia, mas que eram amigos de seus tios.
– Eu não conheço você. É parente de Laura? – Ela rira.
– Nossa, você é bem direto. – Falara ela. – Sim, sou afilhada dela. Meu nome é Thaila. – Dissera.
– Prazer, sou Gary.
– Então você é o “primo mais bonito” do Chelsy! — Exclamara ela sorrindo.
– O que? – Thaila ria-se da expressão surpresa do rapaz.
– Ele costuma falar muito de você. Diz que tem um primo alto, de cabelos negros, que ele ama. – Gary ruborizou.
– Ele é um fedelho, não sabe o que diz... – Dissera, sua forma áspera e fria, fazendo parte de seu tom de voz novamente.
– Bom, já ouviu dizer que crianças não mentem? – Perguntara, o mirando fixamente. Ela era uma bela moça, tinha os cabelos de cor acaju, e olhos castanhos. O corpo perfeitamente torneado, sem exageros.
– Já, já ouvi isso... – Dissera, ignorando as “encaradas” dela. Gary sabia que ele não era um rapaz de se jogar fora, se fosse definir pela aparência. Sua pele era bem branca, quase pálida. O que contrastava com seus fios extremamente negros e curtos. Seus olhos azuis eram pequenos, e seu olhar baixo o deixava sensual. Seu corpo era magro, porém ele sabia que quando parasse de crescer, ficaria com mais massa corporal, pois puxara o corpo de seu pai, que não era nem um pouco desproporcional.
– Certo... – Falara. Você não é muito de se misturar com a família, não é?
– Não. – Respondera secamente. Ainda mirando Chelsy, que tentava a todo custo ficar atrás de seus amigos, que o ignoravam.
– Ouvi que ama livros...
– Sim. – Dissera. Chelsy fora empurrando por um garoto, e caíra no chão gramado de costas.
– Então voc...
– CHELSY! – Gritara Gary interrompendo Thaila. Ele se levantara e praticamente correra até o primo, a tempo de levantar o garotinho que subira em Chelsy para lhe bater. – O que pensa que está fazendo moleque? – Dissera, agarrando o garoto pela gola da camiseta.
– Me solta seu bosta! – Gritara o garotinho, que devia ter a mesma idade que Chelsy.
– Seu mal educado de uma figa! – Gary soltara o garoto, e erguera Chelsy do chão. As crianças em volta os miravam de olhos arregalados, e pareciam não respirar. – Você está bem, Chelsy? – Perguntara ao primo, que aparentava querer chorar.
– Estou. – Dissera. A voz fina, estava firme. Gary notara o esforço que estava sendo para ele segurar as lágrimas.
– Voltem a brincar, e eu não quero ver ninguém mais brigando aqui! Se não eu acabo com essa piscina de bolinhas! Estão ouvindo?! – As crianças pareciam amedrontadas, e disseram um “sim” robótico e em coro. – Vamos. – Ele pegara a mão do primo, atravessando o gramado até o salão. Gary se esquecera completamente de Thaila, que mirara tudo de boca aberta.
– Você... conhece a Thaila? – Perguntara Chelsy. Só agora que Gary se lembrara de tê-la deixado de lado.
– Eh... Eu... Ela veio falar comigo. – Respondera sério. Chelsy havia notado de longe a presença da garota conversar com seu “primo bonito”.
Gary levara-o até os vídeo games do salão. Haviam muitos fliperamas de corrida vazios.
– Vamos jogar. – Dissera. Chelsy estranhara o comportamento do primo, que nunca o convidava para fazer alguma coisa, a não ser quando ele insistia. Mirou Gary de esguelha, embora fosse frio e sério, percebia que ele tentava agradá-lo, e se sentira feliz por isso.
– Ok. – Dissera. – Vou acabar com você!
– Ah! Isso é o que vamos ver! – Respondera. Ambos começaram a jogar. Chelsy ria por vezes quando Gary trompava em seu carro de propósito.
– Isso não vale! – Dizia dando gostosas gargalhadas. – Você é um péssimo motorista Gary! – Dizia ele em meio as risadas.
– E você nem se fala! – Respondera. Chelsy vira um sorriso surgir no canto dos lábios do primo, talvez fosse a primeira vez que o vira sorrir na vida, e imaginou o quanto ele ficaria ainda mais belo se sorrisse mais vezes. – O que foi? – Gary notara o olhar analítico de Chelsy sobre si.
– Obrigado. – Respondeu o garoto.
– Pelo que?
– Por me tirar de lá... – Dissera, mirando a tela do vídeo game, mas sem realmente prestar atenção ao jogo. – Estava sendo um tormento... Meus amigos não gostam de mim. – Gary sentira uma reviravolta no estômago.
– Eu sei como é. – Respondera.
– Sabe? – Chelsy o mirara, com aqueles olhos grandes e surpresos.
– Sei. Também nunca gostei de me misturar. Deu pra notar, certo? – Falara, mirando o garoto, que virou o rosto ligeiramente sem graça. Apesar de gostar do primo, se sentia um pouco sem jeito na presença dele. Será que era porque o achava bonito? Perguntava-se, sentindo as bochechas queimarem. Lembrara de certa vez dizer isso aos pais, Mark porém achara aquilo um absurdo, dizendo que ele tinha que olhar para as primas, e não os primos. Ele nunca mais tocara naquele assunto novamente.
– Sim, eu... já notei. – Dissera, voltando a se concentrar no jogo. – O seu cabelo é bonito. – Dissera de repente. Gary estranhara totalmente ele ter entrado naquele assunto.
– Hã?
– Acho bonito cabelo preto. O meu é feio... Amarelo e escorrido. – Gary rira. — Porque está rindo? – E mais uma vez Gary sorria naquela noite, para a surpresa do garoto.
– Nada, é só que... Ninguém está satisfeito com o que tem...
– Você não gosta do seu cabelo? Quer trocar comigo?
– Como se desse pra fazer isso... Eu gosto do meu cabelo, aliás eu gosto de mim exatamente como sou, e não mudaria absolutamente nada. – Chelsy já havia passado Gary na corrida.
– Eu mudaria tudo em mim, se fosse possível. – Dissera. O rapaz sentira pena do primo. Talvez quem precisasse mudar não fosse ele, e sim sua família.
– Um dia, você vai se amar exatamente como é. Não há nada mais importante do que isso. – Embora Chelsy tivesse apenas oito anos, já possuía uma certa maturidade em seu jeito meigo de ser. Ele era diferente de seus outros três irmãos, que eram tão ignorantes e machistas quanto o pai.
– Eu espero que sim Gary. – Disse. Ele estranhara o tom sério do garoto.
A festa não demorara muito para se encerrar. Gary pode notar o olhar de reprovação de Mark quando vira o caçula ficar tão perto dele. Não entendera, ou melhor, entendera, mas preferia não ter entendido, pois era uma maneira tão maliciosa e preconceituosa a forma como Mark pensava, que ele desejou que Chelsy não tivesse nascido naquela família.
– Gary. – Chelsy o chamara um pouco antes deste ir embora.
– Sim?
– Posso ir na sua casa depois? – Pedira ele. Os olhos dourados, brilhando à luz das tochas artificiais na saída do salão.
– Claro que sim. Quando quiser...
– Quero que me ensine Gavotte! – Falara sorrindo.
– Certo. E você, se cuide, ok?
– Sim! – Ele abraçara o primo pelas pernas longas, Gary abaixou-se e retribuiu o abraço, apesar de não ter o mínimo jeito para fazer essas coisas. Na real, não sabia muito bem como tratar crianças.
– Vamos Chelsy, deixe Gary ir. – Dissera Mark, que olhava a reação do filho com olhos ferinos. O menino se afastou enfim. Gary entrara no carro, junto com seus pais. Dera partida, mas antes de ir, olhara para o primo pela última vez. Ele não sabia, mas não voltaria a ver Chelsy tão cedo.
Fale com o autor