Notas iniciais
Hello minna! Mais um capítulo! Boa leitura à todos!!!

Sentira-se confortável e aquecido, um cheiro suave de frutas invadindo seus sonhos. Abrira os olhos, notando Chelsy dormir profundamente entre seus braços. Então ele dormiu mesmo aqui...? Concluíra Gary, após lembrar-se do rapaz indo ao banheiro fazer suas “necessidades”. Chelsy até que lidava bem com a situação, Gary queria saber até quando isso duraria, pois o mesmo ocorrera em seus outros relacionamentos... Se é que estava em um relacionamento. Arregalara os olhos com o que acabara de pensar. Estavam tendo um caso? Perguntara-se. É claro que não... A parte racional de seu cérebro tentando se fazer dominante. Não havia indagado a questão até então... Não entendia o que estava acontecendo consigo, não conseguia resistir mais às investidas do rapaz, as vezes sentia-se um fraco, talvez fosse a carência? Aquela velha parte de si, que sempre quisera se relacionar com os outros, mas que tivera de abdicar por ter sofrido demais...? E talvez esse não fosse o problema maior, mas sim o grau de parentesco, a diferença de idade, a homossexualidade, não que esse último fosse um problema... mas o choque triplo que isso causaria se viesse à tona, sim pois até então nem ele mesmo desconfiara de que fosse gay, ou seria bi? Seu cérebro pareceu ferver com tantas ideias confusas... Se fossem cálculos matemáticos, já teria obtido a resposta. Esfregara os olhos nervosamente. Levantara-se, teria que ir trabalhar.

A neve havia cessado por hora. Em sua cidade, não costumava nevar muito nos invernos, mas ultimamente, aquela estação estava cada vez mais rigorosa.

– O planeta está esfriando... – Dissera, rindo-se enquanto coava seu sagrado café matinal.

– Falando sozinho...? – Chelsy aparecera, espreguiçando-se, enrolado no edredom.

– Não... Estou falando comigo.

– E não é o mesmo que falar sozinho?

– Não.

– Ah é... Me esqueci que o Sr. Frost tem mil e uma personalidades... – Dissera.

– Chelsy, não está enjoado de ficar trancado aqui? Eu lhe dei uma cópia da chave...

– Você não me deu exatamente... Deixou jogado na mesa...

– Eu sabia que você encontraria... Bisbilhoteiro como é...

– Ei! – Ele chegara mais perto, aconchegando-se às costas do mais alto. – Mas porque a pergunta? Tá querendo me expulsar daqui, é?

– Não, só acho estranho alguém como você, ficar trancafiado em casa por todos esses dias...

– “Alguém como eu”? Acha que sou rueiro, é?

– Acho que sim.

– Ai ai... Gary meu amor... Você não me conhece mesmo. Tenho tudo que preciso aqui, não tem porque eu ficar saindo por aí. Sem contar que essa casa me parece mais uma utopia. Calma, cheirosa, silenciosa... – Gary servira duas xícaras, virando-se para olhar o menor.

– Mas, como era sua casa? – Perguntara, lhe entregando o copo.

– Ah.. Minha casa...? Bom, o oposto da sua, tenha certeza disso. – Respondera, pegando o café.

– Oposto?

– Você conhece meus pais... Acho que pode imaginar... Não era o que eu poderia chamar de lar... Minha mãe sempre vivia na casa dos vizinhos, meu pai enchia a cara de pinga quase todo o dia... Sem contar com meu irmão, que veio morar em casa, trazendo a mulher que já tem quatro filhos... Eu tentei sair de casa uma vez, mas... Meu pai acabou me trazendo de volta, alegando que por eu ser de menor, teria que fazer o que ele queria. Velho besta... – Dissera, bebericando o café. Gary ainda o mirava, sabia que talvez a vida de Chelsy não teria sido fácil, ainda mais pela pequena discussão que tivera com ele na noite anterior. Gostaria de poder conversar mais com ele, perguntar sobre o que ocorrera naquele meio tempo em que não mais se viram.

– Queria te convidar para ir à praça hoje... Como começou a nevar, devem estar armando a pista de patinação... Se quiser ir dar uma olhada... É bem bonito. – Ele vira o sorriso que passara a admirar, surgir na face tranquila e de bochechas rosadas de Chelsy.

– É claro que eu quero! – Dissera, após deixar o café na bancada, e se atirar nos braço do mais velho.

– Chelsy! Vou derramar o café em você! – Gary se desequilibrara, mas conseguira corresponder o abraço, sem derrubar a bebida. Sim, estava mesmo mudando. Concluíra.

Era uma praça grande, e ao centro, como Gary dissera, uma grande pista de patinação com muitas luzes ao redor, divertiam muitas pessoas que faziam fila para poderem patinar. Não estava nevando naquela noite.

– UAU! Na minha cidade não tem nada disso! É claro, eu moro em uma cidade pequena... O que eu poderia pedir? – Gary sorrira. – Vamos patinar, certo?

– Se quiser, você pode ir... – Dissera. Mas em seguida sentira as mãos com luvas de Chelsy, segurar as suas fortemente.

– Vamos nós dois! – Falara, o puxando.

– Chelsy! – Ambos alcançaram o local. Não demorou muito para que colocassem os patins e entrassem na pista. Como viera parar ali? Estava sendo descaradamente manipulado por Chelsy, e nem se quer notava...! — Eu não sei patinar no gelo, Chelsy! – Gary sentira um frio na barriga ao ver-se ali de pé, segurando as grades da pista. Não pretendia soltar-se dela tão cedo...

– Que isso... Não é tão difícil assim! Vem cá! – Chelsy o segurara pelos braços. – Solta isso, Gary!

– Eu não vou a lugar nenhum! Me deixe aqui... Pode ir você...

– Não, não... Venha, confie em mim. – Ele mirara o primo, seu olhar firme lhe passando segurança. Algo em seu íntimo o levara para dezoito anos atrás, quando Chelsy o mirara pela primeira vez, o tocando não só os dedos, mas principalmente seu coração. Cedera, soltando as grades, aceitando as mãos do menor. Confiava nele... Por quê? Perguntara-se. Porque sentia aquilo tão forte por aquele rapaz...? “Aquilo” não sabia dizer o que era... talvez seria amor? Arregalara os olhos ao pegar-se pensando nisso novamente naquele dia. – Não precisa ter medo... Eu não vou soltar você. – Dissera, o conduzindo lentamente mais para dentro da pista. – Não é difícil, veja... Mova os pés assim... – Dizia, enquanto tentava ensinar-lhe. Aos poucos, Gary fora adquirindo confiança. – Já ouviu dizer que nosso cérebro precisa sempre aprender coisas novas, se não envelhece?

– J-já... Mas eu... Andava sem tempo pra isso... – Chelsy sorrira, apesar de notar o medo do primo, sentira-se aquecido por saber que apesar de tudo, ele confiava em si.

– Pois é... Sempre precisamos reservar um tempo pra nós... Fazermos coisas diferentes, né? – Perguntara, sorrindo. Gary o fitara, seu coração estava disparado, mas não sabia dizer se era pela aflição de ter que se equilibrar nos patins, ou por... olhar para Chelsy. Sorrira, concordando. Em alguns minutos de treino, Gary conseguira equilibrar-se, mas ainda era conduzido por Chelsy, que parecia se divertir, e estava contagiando Gary. Quando se pega o jeito, patinar se torna prazeroso, e Gary pode confirmar isso. Agora podia apreciar melhor as luzes coloridas que brilhavam ao redor da pista, e como elas davam um “quê” ao local, pode ver também muitos casais sorridentes que patinavam juntos, ou crianças que assim como ele, também estavam aprendendo, agarradas às mãos dos pais, ou de alguém mais velho. Era assim que começara a sentir-se nos últimos dias, uma criança que estava aprendendo com alguém mais velho, a diferença era que o “alguém mais velho”, era doze anos mais novo que si. Como aquilo seria possível? Não havia como responder...

A patinação fora agradável, e após isso, procuraram um bom lugar para comer. Achando um quiosque de lanches diversos. Escolheram uma mesa, sentando-se.

– Quer ir ver a cozinha antes de pedir algo? – Chelsy perguntara. Gary o mirara de esguelha.

– Eu bem que gostaria...

– Você é um chato mesmo... – Falou sorrindo, agarrando o casaco de Gary, trazendo-o mais para si. – Se eu pudesse, eu te beijava agora... – Dissera, sussurrando próximo ao seu ouvido. Gary estatelara os olhos, sentindo o arrepio perpassar-lhe o corpo.

– Idiota! Nem pense em fazer uma coisa dessas! – Chelsy rira, encostando a cabeça em seu braço.

– Eu queria que chegasse logo o dia, em que ninguém mais ligaria em ver homens com outros homens, mulheres com outras mulheres, transexuais não serem julgados... Queria que todos nos aceitassem como somos, sem seguir padrões imbecis, ou coisas do tipo... – Chelsy sentira as mãos quentes do mais velho, acariciarem seus cabelos.

– O ser humano ainda tem muito o que evoluir, Chelsy... Temos que ter paciência. – Falara, sabia que não era fácil ser aceito.

– Sim, é verdade... Queria que os assexuais fossem compreendidos também. – Dissera, mirando-o. Gary sorrira, afinal Chelsy lembrara-se de si também.

– Eles não sabem o quanto de tempo perdem nos julgando... – Falara, após mirar o cardápio. – Vamos pedir dois crepes? – Chelsy o mirara estranhando.

– Você está com febre? – Perguntara.

– Por quê?!

– Oras, vai mesmo comer alguma coisa daqui?

– Eu não sou tão chato assim!

– Ohhhh! Eu que o diga, priminho! – Dissera o rapaz sorrindo. Gary pedira os crepes logo depois. Não pretendiam comer no local.

Caminhavam pela praça cheia de gente, à procura de um local mais vazio. Aproximaram-se de uma parte mais ao fundo, que estava mais escura e completamente vazia, ali quase não passavam pessoas. Buscaram um banco e sentaram-se. Ambos comiam em silencio, até que Gary cortara-o.

– Somos primos, Chelsy...

– Ohhh! Você só descobriu isso agora? – Dissera sorrindo. Gary o mirara, torcendo os lábios. — E daí? – Chelsy perguntara, mordiscando o crepe.

– Se souberem disso...

– “Disso”? Que estamos namorando?

– Quem está namorando aqui?!

– Ahh é... Eu não pedi você em namoro ainda! Me desculpe... Segura meu crepe. – Falara, entregando o salgado a Gary. Levantara-se ajeitando o casaco. Gary o mirava sem entender nada. Até que Chelsy abaixara-se, pousando um joelho ao chão, então apanhara uma das mãos de Gary.

– Gary Frost, aceita namorar comigo? – Dissera sorrindo, mirando-o profundamente. Gary congelara, aquele garoto estava pirando, não é? Perguntara-se.

– Está de brincadeira comigo? – Ele vira o sorriso de Chelsy sumir.

– Porque eu estaria brincando?

– Nossa diferença de idade é imensa, Chelsy! Sem contar que somos primos! Já pensou na bosta que isso iria virar se alguém descobrisse?

– Eu não ligo pra idade. Pro seu governo, minha alma é muito mais velha do que a sua! Portanto, essa idade aqui não vale! – Gary rira. – Eu não estou brincando, Gary! – Falara seriamente.

– Eu também não estou, Chelsy! – Respondera, assumindo seu tom sério. – Seu pai quase te matou só por descobrir que você é gay, quase pirou quando soube que estava na minha casa, se ele sonhar que estamos tendo algo...

– Você está com medo do meu pai?

– Eu não tenho medo de ninguém! – Dissera.

– Não é o que está parecendo... Não é você mesmo que diz que não liga pra o que os outros pensam?

– E eu não ligo mesmo! Mas estamos falando da nossa família!

– PARA! – Exaltara-se, antes de agarrar-se aos braços do primo. – Para... Para de arrumar desculpas... Eu te amo Gary...! Te amo tanto, há tanto tempo, que você nem imagina. – Dissera, afundando o rosto entre os grossos casacos de Gary. – Eu só queria que você me amasse também, mas se não pode fazer isso... Apenas me diga. Eu gosto da verdade, mesmo que doa... Não me deixe ficar mais perto de você, porque isso já está doendo! – Ele mirara o primo. – Se não sente nada por mim, apenas me fale! Eu me afasto, eu vou embora! Eu sei que não sou perfeito! Sei que não sou nem metade do que você queria ou merece, mas eu... – Ele agarrara novamente seu casaco, suas mãos tremiam freneticamente, até que lágrimas escorreram de seus olhos. Gary pousara uma das mãos em suas costas, o trazendo mais para si. Chelsy o mirara, foi então que o mais velho pode ver que os olhos âmbar estavam completamente úmidos. Não sabia exatamente o que fazer, ou o que dizer, pois estava confuso, não entendia bem seus próprios sentimentos.

– Eu não quero que vá embora... – Disse calmamente, segurando o rosto do rapaz. Chelsy se aproximara, lhe dando um beijo.

– O que... isso... significa? – Perguntara, fechando os olhos ao roçar seus lábios nos de Gary.

– Eu não sei... Só não quero que... pare. – Respondera, desejando que ele não apartasse o beijo.

– Se você não quer, não vou parar... – Chelsy disse, beijando-o avassaladoramente, até que perdessem o ar. Gary notara que gostava daqueles momentos com Chelsy, se sentia bem ao seu lado, apesar de todas as diferenças, não queria que ele fosse embora, não queria dizer a ele para ir. Largara os crepes no banco, enroscando os braços ao redor do corpo magro, mas esbelto de Chelsy, que ajeitara as pernas, sentando-se em seu colo. O mais novo sabia que se alguém o visse naquela posição, um tanto "depravada", os julgariam de imediato, não era à toa que havia escolhido um lugar vazio. Pode sentir todo seu corpo arrepiar, e sabia que se fosse mais longe, algo poderia “apitar” ali. Chelsy interrompera o beijo. Notando os lábios de Gary completamente vermelhos, isso sempre acontecia.

– Você sente algo por mim então? É isso? – Gary abaixara os olhos.

– Acha que... eu iria fazer isso com alguém que não gosto? – Perguntara, sem o mirar. Chelsy segurara seu queixo, fazendo-o olhar para si.

– Aceita namorar comigo? Eu sei que fazer um pedido desses hoje em dia é démodé, mas... – Dissera, notando os olhos azuis de Gary, anuviados.

– Porque precisa dessas formalidades?

– Ahhh mas que coisa, Gary! – Ele pode sentir Gary aproximar seu rosto de si, então o mesmo o beijara novamente.

– Isso serve como resposta? – Perguntara. Chelsy sorrira largamente.

– Serve... – Respondera.

O crepe já estava frio quando finalmente o terminaram de comer. Caminharam pela praça, refazendo o caminho, até chegarem à ponte que cortava aquela região. Pararam, pousando os braços no arco de pedra, mirando o rio que passava abaixo.

– Chelsy...

– Sim...?

– O que aconteceu depois que... Depois daquela festa... Da sua festa de oito anos? – Chelsy respirara fundo, o vapor quente saindo de sua boca. Parecia buscar as lembranças na memória.

– Ah... Aconteceram muitas coisas... – Dissera.

– Você...Pode me contar?

– Hum... — Balbuciara incerto. — Naquela noite meu pai me bateu quando cheguei em casa.

– O que...?! – Chelsy o mirara sorrindo.

– Já passou... Isso faz tempo. – Disse tranquilamente, como se realmente não ligasse mais.

– Não, mas...

– Ele nunca gostou que eu chegasse perto de você. Acho que sempre suspeitou sobre o que eu sentia. Mark é muito esperto, aquele alcoólatra. – Dissera, voltando a mirar o rio. – Depois daquilo ele disse que eu nunca mais o veria... Eu fiquei muito triste... Chorei a noite inteira, pra falar a verdade! Pra mim era o fim do mundo não o ver mais. Eu lembro... – Ele sorrira ao falar. — ... Contava no calendário o dia em que iríamos vir pra cá... Eu sabia que você não gostava muito de crianças, mas eu sempre mantive a esperança de que você poderia passar a gostar de mim... – Gary sorrira, encostando-se nele. Chelsy fechara levemente os olhos com a aproximação. Gostava de sua presença, do seu cheiro de perfume masculino amadeirado...

– E depois...? Com o passar dos anos, como foi sua vida? – Estava curioso para saber, Chelsy quase não falava muito de si, e de seu passado.

– Foi difícil... Meu pai desconfiou, conforme fui crescendo, de que talvez eu gostasse de garotos, mesmo eu ainda nem tendo desconfiado disso... Ele sempre me batia. — Contara. Na mente de Gary, aquilo não fazia muito sentido, e a mãe do rapaz? Onde ficava nessa história?

– Espera aí! E a Laura? Deixava isso acontecer?

– Ah... Minha mãe também nunca concordou com o fato de que eu talvez fosse gay... Depois que meu pai me surrava, ela ia ao meu quarto, dizer pra eu não chorar porque era preciso eu passar por isso. Que meu pai estava tentando me curar de um mal futuro. – Gary pode ver uma lágrima discreta, escorrer pelo rosto do rapaz. Embora contasse a história com um tom de voz tranquilo, não podia mascarar sua tristeza. Seus olhos o entregavam. Gary não acreditava que Chelsy havia passado por isso, sabia que sua mãe não era lá das melhores, mas concordar com o marido que espancava seu filho? Aí era demais! Nunca gostara dela, sempre tão falsa, com seu ar pretencioso e suas opiniões machistas, como ainda pode ter esperanças de que ela o defenderia? Gary acariciara as costas de Chelsy com uma das mãos.

– Eu devia imaginar.. Que ela...

– Pois é. – Chelsy resignara-se. — Eu sei que minha mãe traiu a sua primeira tia... Eu soube da história. Minha mãe engravidou do meu pai, pra tentar segurá-lo. Só uma pessoa sem senso de realidade pra querer segurar um alcoólatra homofóbico daqueles! Mas é claro, eu posso entender, afinal ela também é homofóbica... Na época nem eu entendia o porquê de levar tanta surra... Depois quando fui me conhecendo melhor, que descobri que, o que eu sentia, eram interesses além de amizade por alguns meninos, e que na sociedade aquilo era visto como errado. Foi difícil pra mim entender isso... – Ele parara, refletindo. Parecia pesar se deveria ou não contar mais coisas. Gary notara isso

– Continua. – Incentivara.

– Vai ficar enojado se ouvir algumas coisas... – Alertara. – É melhor pararmos por aqui... – Sugeriu.

– Deixa de ser besta... Isso não vai acontecer. – Dissera, sério.

– Ah é? Depois não reclama... – Falara sorrindo.

– Conta logo! – Insistira Gary, que notara o menor lhe enrolar.

– Certo... Vou contar uma coisa que nunca contei pra ninguém... Quando eu tinha catorze anos, meu pai me levou pra sair de noite. Ele nunca tinha feito isso, e eu estranhei. Até que ele parou o carro em um lugar escondido numa rua. O número da casa era bem visível. Vários carros estavam estacionados naquela rua. Perguntei que lugar era aquele, mas ele não me respondeu. Até que entramos. Era barulhento, muita música e... Muitos homens com... mulheres. – Gary engolira em seco, sabia de que lugar ele poderia estar se referindo. – Ele conversou com uma mulher e ela veio falar comigo. Foi aí que minha ficha caiu, mas já era um pouco tarde... Logo em seguida, ela me levou com ela pra dentro da casa. Eu me lembro de praticamente suplicar pro meu pai que queria sair dali, mas ele disse que me mataria se eu tentasse sair... Que só assim pra eu virar homem, e coisas assim.

– Chelsy, isso...

– É nojento, eu sei, é o que deve estar pensando... – Falara ele, mantendo a voz plácida. – Ela me levou pro quarto, dizendo que meu pai já havia lhe explicado a situação. Eu pedi pra ela fingir, pra mentir pra ele que havíamos feito, mas... Bom, ela disse que havia aceitado o desafio de me “transformar em homem” e que não ia voltar atrás, até porque havia ganhado um bom dinheiro pra isso. Ela acabou cumprindo com o que havia combinado com meu pai...

– Vocês...?

– Sim.

– Mas Chelsy... Se não sente nada por mulheres, como que...?

– Ah Gary... Não foi prazeroso pra mim. Aquilo foi frustrante! Não é questão de atração ou não... Eu realmente não sinto nada por mulheres, mas o corpo... O instinto natural pode trair a gente... Ela era experiente, sabia o que estava fazendo. – Ele apoiara os braços no arco de pedra, encostando o próprio queixo neles. — Aquela era minha primeira vez, então...

– Isso foi um estupro. – Dissera Gary, em sua voz Chelsy soube que ele estava com raiva. – Foi contra sua vontade, então foi um estupro! – Chelsy virara a cabeça para olhá-lo.

– Pode ser... Aí é que tive mais trauma de mulheres! Virei gay completamente! – Falara, gargalhando em seguida.

– Do que você está rindo? – Gary não entendera.

– Oras... Meu pai me ajudou, de certa forma. Depois daquilo eu tive certeza de que era gay... Eu tive que tentar mudar meu comportamento na frente dele... Me ameaçou, dizendo que me levaria lá de novo... Pode imaginar meu estado de pânico! – Gary acabara rindo da reação de Chelsy, que parecia levar na brincadeira.

– Isso foi uma coisa séria, Chelsy...

– Eu sei, mas o que eu posso fazer? Já aconteceu, não dá pra mudar mesmo, então... Vamos rir! Se eu chorar mais aqui irei transbordar o rio! – Gary rira, balançando a cabeça negativamente. Nem se quer imaginava que Chelsy havia passado por tantas coisas... Já estava com raiva de Mark antes, mas agora, estava com ódio. Não gostava de se sentir assim, era ainda mais difícil respeitá-lo depois de tudo que ouvira do primo sobre ele. Fitou o rapaz belo ao seu lado mirar o céu com interesse, seus olhos dourados, refletindo as luzes amareladas dos postes ao longo da ponte. Se alguém o visse, na certa pensaria que era mais um adolescente revoltado que amava roupas e maquiagens pretas, que talvez não tivesse nada na cabeça além de pensamentos fúteis e uma vida vazia. Era assim que ele imaginava que Chelsy fosse, era assim que imaginava, até o conhecer como conhecia agora. Ele era mais forte do que Gary imaginava, e como o próprio rapaz lhe dissera, até parecia ser mais velho do que si. Estava gostando dele, mais do que realmente podia se dar conta. Não queria mais pensar se a família condenaria, se sofreriam preconceito, nada mais importava. Se Chelsy o aceitasse como era, também o aceitaria. Precisaria de tempo para confirmar isso, comprovar se ele seria diferente das demais pessoas que já se envolvera, e que tanto o machucara.

– Veja Gary! Está nevando! – Um floco caíra no meio deles. Chelsy esticara uma das mãos, apanhando-o. O pequeno floco pousou suavemente na luva do rapaz, desfazendo-se lentamente.

– É melhor voltarmos então. – Dissera, puxando-o pelas mãos. Chelsy sorrira, estavam de mãos dadas.

Notas finais
Ahhh gente muito obrigada à todos que comentaram até agora, favoritaram e estão acompanhando!!! *---------* Vocês nem tem ideia de como isso tudo me deixa tremendamente feliz!!! Obrigada de coração!!! Espero que tenham gostado desse capítulo... ^^