O que Realmente Importa no Amor?
10 Conversa Familiar
Notas iniciais
Conseguiram chegar em casa, antes que a neve se tornasse mais forte.
– Ah! Se eu não tivesse falado para irmos, estaríamos soterrados agora! – Dissera Chelsy.
– Ei! Fui eu que falei para irmos! – Rebatera Gary. Chelsy agarrara-o, puxando pelo casaco, lhe tascando um beijo que lhe aquecera todo o corpo naquela fria noite de inverno. Mas para a surpresa de Gary, havia alguém esperando-o, sentada na soleira da porta. A sombra se mexera e pigarreara, e Gary a reconheceu.
– Mãe? – Carmen o mirava boquiaberta. Chelsy piscara algumas vezes para focar se era mesmo a imagem da sua tia ali.
– Boa noite. Espero não ter atrapalhado nada. – Ambos engoliram em seco, se afastando imediatamente.
– Claro que não. – Dissera Gary, assumindo sua compostura séria. Caminhou até a porta, abrindo-a.
– Ehh... Oi tia! – Chelsy disse, coçando a cabeça, visivelmente sem graça. Carmen levantou-se. Gary já havia aberto a porta.
– Oi Chelsy. – Dissera ela, mirando-o. O rapaz abaixara a cabeça. Os três entraram rapidamente, fechando a porta para que o frio não entrasse por completo. A casa estava aquecida, um cheiro amadeirado podia ser sentido.
– Eu... Vou fazer café! – Dissera Chelsy, que dera um jeito de sair da presença da tia o mais rápido que pode, um café caíra como uma bela desculpa. Gary mirou a mãe, que o olhava sério.
– Eu vi direito, ou vocês dois...? – Gary abaixara os olhos. Sua mãe estava séria.
– Eu ia te falar, só precisava de um tempo para...
– Por Deus Gary! Eu esperei que você me ligasse pra dizer o que houve com você e o seu tio! Você sabe que eu odeio quando fico sabendo das coisas por outras pessoas! Desde quando temos segredos um com o outro? – Gary permanecera de cabeça baixa. Nunca recebia broncas de sua mãe, se davam super bem, nem mesmo ele entendia o que estava ocorrendo consigo.
– Eu... Precisava de um tempo.
– Tempo? – Ela se aproximara, rindo sarcasticamente. – Sei bem o que está fazendo com seu “tempo”. – Gary a encarara, não gostara do seu tom, muito menos de sua ironia.
– Não precisa falar dessa forma comigo! Eu também sou humano! Não tenho o direito de estar confuso? Não tenho o direito de tentar descobrir quem eu sou? Vivi minha vida inteira enfurnado num escritório, sempre fui responsável, nunca lhe dei motivos para desconfiar ou duvidar de mim!
– Não estou falando isso, meu filho... – Ela se aproximara, encostando a cabeça em seu peito, abraçando-o. – Eu só queria entender do porquê de estar agindo assim... Fiquei preocupada. – Ele pousara as mãos em seus cabelos, que eram tão negros quanto o seu.
– Eu não entendo o que está acontecendo comigo, mãe... Não entendo... – Gary sentira seus olhos arderem, não podia chorar agora! Pensara, olhando para cima, na esperança dessas lágrimas não descerem. Carmen se afastara, fitando-o.
– Você está gostando dele? – Gary congelara.
– Eu... Eu acho que... – E agora? O que diria? — Acho que... sim. – Disse ele, abaixando os olhos. Pode ouvir sua mãe respirar fundo.
– Não quero imaginar quando seu tio souber disso... – Falara. Gary erguera os olhos.
– Não está decepcionada comigo? – Perguntara.
– Decepcionada por quê?
– Não está óbvio? Se estou com ele... significa que sou gay.
– E daí? Desde quando sou preconceituosa? – Sim, ele sempre soubera disso, mas daí saber que ele seria gay, talvez sua mãe não esperasse... Tinha medo, medo de ser rejeitado pelas pessoas que mais amava. Mas enfrentaria o que fosse preciso, mesmo que o desaprovassem. Gary sorrira, abraçando-a apertadamente. – Eu sempre vou amar você, não importa como seja, de quem goste... Eu só quero que você seja feliz... – As lágrimas que tanto segurara, finalmente caíram. – Só não quero que me esconda nada... Você sempre soube que podia confiar em mim... Eu fiquei chateada, chateada por ser a última a saber... Sempre fomos tão próximos... Isso me feriu. – Ele a abraçara ainda mais forte. Não queria ter escondido nada de sua mãe, só queria ter certeza das coisas que estava vivendo, não queria preocupá-la, nem ao seu pai.
– Desculpe mãe... Me desculpe. Eu não farei mais isso. Prometo. – Carmen sentiu-se nostálgica. Gary parecia estar em um estado frágil e até mesmo vulnerável. Deveria estar apaixonado... Ela sorriu por dentro, voltando no tempo. Ele lembrava-lhe da época que se apaixonara pela primeira vez, e lhe contara. Tão confuso, apreensivo. Podia ver o medo em seus olhos, o medo de estar vivendo algo que desconhecia, e agora, mais uma vez, parecia que estava diante daquele Gary adolescente, antes de virar um homem de negócios, frio e distante até mesmo da própria família. O que havia acontecido com seu filho? Teria ele sofrido tanto por ser diferente, que nem ela pode se quer ajudar?
– Está tudo bem, meu filho... Eu te amo. – Chelsy estava parado na entrada da sala. A bandeja com as xícaras de café, em suas mãos. Ele mirou aquela cena por um segundo, estava parado ali há algum tempo, escutando a conversa. Uma pontada de inveja acometera seu coração. Jamais soubera o que era ser amado, não tivera nem mesmo a compreensão de seus pais, muito menos o amor deles... Queria que eles fossem daquele jeito... Quem sabe assim, não seria tão problemático. Percebera que estava tremendo, sentira as lágrimas escorrerem por seu rosto, e pingar pesadamente na bandeja de vidro. Não podia chorar, pensara. Girara nos calcanhares, refazendo o caminho de volta à cozinha, não ia interromper aquele momento tão bonito...
– Chelsy! – Gary o chamara. Chelsy fechara os olhos momentaneamente. Droga, Gary! – Venha aqui. – Ele engolira em seco. Voltara à sala, deixando a bandeja sobre a mesa. Então enxugara o rosto rapidamente com a manga da blusa que vestia. Sentira uma mão quente pousar sobre seu ombro, um cheiro adocicado e suave.
– Está tudo bem? – Carmen era quem perguntava. Ele mirou-a de soslaio.
– Sim tia... Aceita um café? Eu não sou tão bom quanto o Gary, mas espero que goste. – Disse ele, sorrindo. Carmen lhe dera um sorriso terno em resposta. E naquele momento, Chelsy sabia que ela desconfiava de que estava chorando.
– É claro que eu aceito! – Ela apanhara uma xícara. – Tenho certeza de que meu genro sabe fazer um ótimo café também! – Chelsy arregalara os olhos.
– A senhora não...
– Eu não me importo. Só quero que vocês sejam felizes.
– Mas... Nós somos primos e... Homens. – Ela respirara fundo.
– Chelsy... Eu já vivi bastante. O suficiente pra saber que não se escolhe por quem iremos nos apaixonar. Se eu pudesse escolher, juro que não casava com seu tio.
– Mãe! – Gary exclamara atrás de si. Chelsy gargalhara, e sua tia rira junto com ele.
– Certo... Então já entendi... – Disse o rapaz.
– Desejo sorte a vocês... Só não vou dizer “Bem Vindo à Família”, porque você já faz parte dela há dezoito anos... – Ele a mirara, meneando a cabeça positivamente. Estava contente de ser aceito.
– Obrigado. Isso é muito importante pra mim. – Dissera ele. Carmen o puxara para um abraço bem apertado. Em seguida beijara-lhe a testa.
– Você está enorme! Eu não tive tempo de dizer isso quando você foi lá em casa! Pelo visto vai ficar do mesmo tamanho do Gary, se não mais alto! – Disse ela mirando o filho, que sorria, fazendo sinal negativo. Estava contente em saber que sua mãe não os julgara.
– Ok! Vamos tomar logo esse café, se não vou acabar chorando, tia!
– Vamos sim! – Ambos sentaram-se em frente à lareira que Gary acendera pouco depois. Iriam curtir aquele começo de madrugada, colocar as longas conversas em dia, como uma família sempre deve fazer.
Carmen passara a noite na casa do filho. Gary arrumara um dos quartos impecáveis para ela. Estava tarde para voltar para casa, Chelsy e Gary acabaram convencendo-a de ficar ali.
– Eu fico feliz que sua mãe tenha compreendido. – Disse Chelsy, que havia entrado no quarto de Gary no meio da noite. Estavam enrolados entre os cobertores.
– Minha mãe tem a mente aberta. – Chelsy o mirara.
– Você tem muita sorte, Gary... Muita sorte mesmo. – Gary lhe beijara a testa.
– Eu vi... Você estava triste quando foi nos levar o café. – Chelsy desviara o olhar.
– É só que é emocionante ver como vocês são um com o outro... Eu queria ter tido uma mãe assim... Ou um pai como o tio Gail... De todos os irmãos, eu fui ser filho do pior! Eu queria ter sido seu irmão. – Falara. Gary o mirara confuso.
– Se você fosse meu irmão...
– ...Eu seria mais feliz. – Disse ele sorrindo ao mais velho. – Nós não teríamos um relacionamento amoroso eu sei, e sim um fraternal. Mas pra mim estaria tudo bem, porque você estaria comigo, e é a única coisa que eu sempre quis: estar com você... Talvez assim, eu saberia o que é ser amado de verdade, pelo menos uma vez. – Gary sentira a tristeza perfurar o seu peito com as palavras do mais jovem. Jamais havia visto Chelsy tão triste, ou será que na verdade nunca havia reparado realmente nele? A verdade é que talvez nunca houvesse prestado real atenção em algo. Sempre pensara só em si, seu futuro promissor e em suas manias. Por ser sempre tão diferente de todos, se afastara do mundo e se isolara. Mas agora... Agora, Chelsy precisava de si, talvez sempre precisara, mas estava muito ocupado para dar-se conta disso. Sentia-se um covarde. Sempre reclamara de si, de como era difícil ser como era, um assexual nerd, que sofrera bullying desde que se entendia por gente. Mas existia, como Chelsy havia lhe dito, pessoas que passavam por coisas muito piores, e talvez Chelsy naquele momento, estava se referindo a si mesmo. Quanta carga ele não aguentara sozinho? Nem sequer se dera conta disso... Como era um verdadeiro idiota que ainda tinha muito o que aprender...! Ele enroscara os braços na nuca de Chelsy, trazendo seu rosto para perto de si. O mais jovem se deixara aproximar-se, encostando-se a testa um no outro. Ambos permaneceram assim, por longos minutos... Gary gostava de sentir a presença forte e marcante que Chelsy possuía. Lhe dava a nítida sensação de segurança...
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