Notas iniciais
Boa leitura...!

Sentira suas pernas doerem, seus ombros pesarem e sua cabeça latejar. Estava em um lugar que não conhecia. Onde borrões passavam por si, sem que pudesse de fato focar um deles. Há quanto tempo estava ali? Perguntara-se, sentindo-se confuso. A mente não conseguia raciocinar pensamentos.

– Está perdido? – Uma bela mulher se pusera ao seu lado. Seus longos cabelos cacheados e negros, logo lhe chamaram a atenção. Sua pele também negra, lembrava-lhe a superfície de pêssegos, tamanha perfeição e suavidade.

– Eu não sei... – Dissera, coçando a cabeça. Ela sorriu. – Eu... Eu sinto que estou deixando algo pra trás, mas eu não sei o que é... – Ele a mirara, em busca de respostas. A manta branca da bela mulher, lembrava-lhe um anjo. – Que lugar é este? – Ele perguntara.

– Um lugar onde estão aqueles que ainda não decidiram. – Respondera ela.

– Você veio me buscar? – Perguntara.

– Você deseja ir? – Ele a fitara confuso.

– Eu não posso... Mas eu... Não consigo me lembrar o porquê.

– Viu só? Ainda não se decidiu... – Ele sorrira.

– É verdade... – Respondera. Apesar de não saber ao certo, como ou o que deveria decidir.

– Posso te levar à um lugar especial? – Perguntara ela.

– Claro que sim! – Chelsy sentira-se animado. Ela estendeu as mãos, que foram prontamente agarradas. Aos poucos saíram do turbulento e confuso lugar. Caminharam por um campo que podia se perder de vista. O sol batera forte em seu rosto, lhe trazendo paz e energia, que revigoravam seu espírito. Então uma calma o invadira, ao puxar o ar fresco e limpo aos pulmões. Havia se perguntado antes, se talvez estivesse morto, mas agora, tinha a absoluta certeza de que jamais poderia morrer, afinal, nunca sentira-se tão vivo em toda a sua vida.

Avistaram um lago ao fim de uma vertente. Um local que lhe era levemente familiar. Então sentira que a moça que o estava acompanhando, havia lhe soltado as mãos delicadamente.

– Espere por mim! – Ele escutara uma voz conhecida, que gritara em algum lugar ali perto. Chelsy caminhara pelo capim alto, até descer a encosta, próximo ao lago. Uma criança pequena, de aparente seis ou sete anos, corria à beira da água. Seus cabelos dourados refletiam a luz de fim do dia, tornando-os alaranjados. Ele conhecia aquela criança. Terminara de descer o barranco, notando que uma segunda pessoa estava à frente, dentro da água. Um rapaz adolescente, de cabelos negros e óculos quadrados, corria atrás de uma bola que boiava no lago. Suas calças estavam molhadas até as coxas, mas ele a agarrara por fim. Apesar do semblante frio e sério, pareceu não se importar muito com o estado de suas roupas. Então trouxera à criança, a bola colorida e grande. – Você conseguiu!!! – Gritara o garotinho, que correra ao adolescente quando o mesmo chegara à margem, abraçando-o pelas pernas.

– Claro que eu iria conseguir... – Dissera o rapaz, que sorrira à ele. – “Sabe que eu faria qualquer coisa por você...” Chelsy não vira seus lábios se mexerem ao pronunciar a última frase, mas ela ocorrera, como se o mesmo a tivesse dito em pensamento. O lugar pareceu girar diante de seus olhos. Uma garoa forte o atingira, um frio lhe cortara o corpo quase que imediatamente, a escuridão da noite invadindo seus olhos. Chelsy olhara ao redor, mas não vira mais o garotinho nem o rapaz de óculos, e muito menos a moça de roupa branca que o acompanhara. Se viu diante de uma rua deserta, no meio de uma chuva forte.

– Como não sabe onde ele está? – Escutara uma voz grossa e masculina, também familiar, gritar aos quatro ventos. Caminhara pela rua que surgira diante de si, sem ao menos saber para onde estava indo. Então avistara o homem que gritara, próximo de uma casa.

– Ele sumiu! Não sei para onde foi! – Chelsy correra os olhos, avistando a mulher que falava.

– Eu vou procura-lo! Não é possível ele ter ido longe! – Uma terceira pessoa surgira na varanda da casa. O mesmo rapaz de óculos, porém mais novo, aparentemente com cerca de quinze anos, parecia desesperado, apesar de fazer um grande esforço para não demonstrar.

– Mas está chovendo! – Ele escutara uma outra pessoa, que não era vista, falar.

– Eu não me importo! – Dissera o rapaz, que correra em meio à chuva, sumindo na escuridão. Chelsy correra atrás dele, fazendo grande esforço para alcança-lo. “Cadê você garoto... Por favor.” Ele escutara, mais uma vez, o que lhe pareceu ser os pensamentos daquele rapaz. Então o mesmo parara, próximo ao que lhe pareceu um galpão, que era iluminado por uma pequena lâmpada na frente. Chelsy adentrara, seguindo-o. O mesmo ligara um disjuntor, que acendera todo o local por dentro. O adolescente andara por entre os tratores que ali permaneciam estacionados, olhando-os um a um na parte de baixo. Até que Chelsy escutara um choro, e o adolescente também. Ambos foram para o lugar em que o som pareceu surgir. Uma criança de dois anos, permanecia encolhida próximo ao último trator ao fundo. Segurava os próprios joelhos e chorava incessantemente.

– Eu te achei... Graças à Deus... – Ele vira o rapaz ajoelhar, abraçando o garotinho contra seu peito. O menino que chorava, parara, fechando os olhos ao sentir o calor do corpo molhado que o aconchegava. – Nunca mais faça isso Chelsy... “Nunca mais me deixe.”

Era claro que não podia ir embora! Pensara Chelsy, que mirava a si mesmo, sendo amparado por quem mais amou em toda a sua vida.

– Eu já me decidi. – Dissera. Então uma onda pareceu varrer a cena do galpão em questão de segundos. Se vira novamente no local de início. Onde vultos pareciam deslocar-se rapidamente.

– Não há mais indecisão. – A mesma moça surgira ao seu lado de novo. – Você tem a chance de decidir. Há dois locais que lhe esperam Chelsy.

– Eu sei. Mas eu preciso voltar... – Ela sorriu.

– Sim... Você escolheu sabiamente. – Respondera ela. Embora ele tenha experimentado ali, a paz que nunca chegara a ter naquela vida, sentia que algo lhe faltava. Sentia que ainda tinha muito a fazer, e que não poderia ir embora... Não agora.

Uma luz muito forte lhe ardera a vista. Sentira seus pés esquentarem, e todo seu corpo ficar leve. Parecia que poderia flutuar, voar e atravessar fronteiras, barreiras, ultrapassar os céus. Uma onda de alegria invadira-lhe o peito. Sabia o que o esperava quando resolvesse partir de verdade, mas por hora, uma pessoa não saía de sua cabeça, e por ela, seria capaz de retroceder. E era o que estava prestes a fazer.

– Gary...

***

Sentira os dedos frios que segurava, moverem-se minimamente. Gary erguera os olhos imediatamente.

– Chelsy? CHELSY! – Os pais de Chelsy adentraram a sala correndo.

– O que foi? – Perguntaram, mirando-o.

– Ele se mexeu! – Dissera Gary que não podia segurar as tantas lágrimas.

– Chelsy, meu filho! – Mark encostara-se à cama, mirando o rosto de seu filho, que permanecia adormecido.

– Não foi impressão sua, Gary? – Perguntara Laura.

– Claro que não! Ele vai acordar! Eu sei que vai! – Dissera, beijando as mãos do amante, que esquentara levemente.

Dois dias haviam se passado. Chelsy se mexia quando escutava a voz de Gary, ou de seu pai. Movia os dedos, mas não abrira os olhos. Gary entendia que o processo de se acordar de um coma, poderia ser demorado, mas também sabia que não poderia perder as esperanças. Notara que Laura parecia distante, mas Mark... Esse estava mais do que arrependido. Por vezes o pegava chorando nos cantos, ou quando conversava com Carmen ou Gail. Seus pais ficavam por perto oferecendo ajuda e apoio. Havia sido liberado do trabalho por um tempo. Não sabia dizer o que faria de sua vida. Não conseguia pensar em mais nada que não fosse Chelsy.

– Você acha que... Ele vai acordar logo? – Mark perguntara. Gary o mirou. Estava no pátio externo, seu tio viera fumar.

– É claro que sim. – Respondera. Mark permaneceu em silencio por um tempo.

– Me desculpe. – Dissera. Gary virara o rosto para mirá-lo. – Eu me arrependo... De tudo que fiz ao meu filho... Eu o magoei, o machuquei a vida toda, ele... Não merecia. – Disse ele, lágrimas escorriam de seus olhos. Gary nada dissera, queria escutar o que o tio tinha a dizer. – Sei que não posso voltar no tempo. Sei que não posso e isso... Isso que mais me machuca. Ele arriscou a vida dele pra salvar a minha! O filho que eu mais rejeitei, que mais judiei... Foi o único que não pensou duas vezes em me tirar da frente de um carro pra salvar minha vida... – Chorara, e pela primeira vez na vida, Gary viu Mark vulnerável chorar como uma criança. Pela primeira vez na vida, viu o lado bom que o tio sempre insistira em não revelar. É preciso que coisas fortes assim aconteçam, para que as pessoas mudem? Perguntara-se. Ele se aproximara, pousando uma das mãos aos ombros do tio.

– Você não pode voltar atrás... Mas pode continuar daqui, fazendo diferente. – Dissera. Mark o mirara. Seus olhos apertados e vermelhos, o analisaram com atenção. – Pode melhorar. – Falara. Mark sorrira tristemente, o puxando para um abraço.

– Eu quero que você fique com meu filho... – Gary arregalara os olhos. – Ele te ama, sempre te amou, então... Se você o corresponde, por favor... Fique com ele.

– Do que...? – Apartaram o abraço.

– Eu sei Gary... Eu sempre soube, mas nunca quis admitir. – Gary estava estarrecido, onde Mark queria chegar? – Sei que estavam juntos, e sei também que... Não posso me opor e sim... apoiá-los. Tenho que aceitar meu filho... Você estava certo, esse tempo todo. Você com certeza seria um pai muito melhor do que eu.

– Não Mark. Ninguém é perfeito. – Dissera. – “Os obstáculos nos moldam.” Foi algo que aprendi com Chelsy. Ele me ensinou tantas coisas e uma delas é que... Ninguém é perfeito, todos temos defeitos mas... Temos que fazer de tudo para melhorar. A cada dia que passa, sermos melhores do que ontem.

– Você tem toda a razão. – Mark sorrira, jogando o cigarro fora. Não iria mais fumar, ou beber. Tinha que mudar, e faria isso por seu filho, seria melhor do que ontem, seria melhor do que hoje, e assim aprenderia, e superaria seus defeitos, corrigindo seus erros, admitindo-os. Se era para recomeçar, faria isso a partir de agora.