Notas iniciais
Salve, salve minna! Mais um capítulo na mesma semana... xD - eu tô boazinha.. u_u Espero que curtam... *o* Boa leitura!

Duas semanas haviam se passado. Chelsy agora estava em uma outra sala. Gary pedira permissão para trazer o violino. Mirara seu velho instrumento musical, que outrora Chelsy quisera tanto tocá-lo, com seus dedinhos pequenos, e sua curiosidade gigantesca. Tirara o arco da caixa, apertando a crina do mesmo, passando breu em seus fios. Afinara o violino rapidamente, e então, posicionara-o em seus ombros. Quando a primeira nota fora soada, fechara os olhos. Não tocaria com seu corpo, mas sim, com sua alma. Chelsy amava aquela música, a primeira que tocara para ele. Ainda lembrava-se das notas, cujos dedos corriam automaticamente pelo espelho do instrumento, enquanto pressionava as cordas precisamente. Ao passar o arco, podia sentir seu violino vibrar, e junto dele, seu espírito se ascendia. Ele queria que aquela canção alcançasse Chelsy, queria que aquelas notas chegassem até ele, onde quer que estivesse.

– Volte... – Dissera, quando sentira uma lágrima escapar por seus olhos.

Chelsy escutara, e seguira a canção pelos vãos de sua consciência... A voz doce e amada de Gary, pedia para que voltasse.

– Eu estou... aqui. – Dissera. – Gary parara. Mirara a cama onde Chelsy dormia, indo até ele.

– Chelsy? – Chamara, estava incerto se escutara direito. Até que vira o sorriso tão aguardado, colorir a face brincalhona, e agora desfalecida, de Chelsy.

– Eu já não... disse? Eu nunca vou te deixar sozinho... – Falara, abrindo seus olhos grandes de cor âmbar para Gary. O mesmo sorrira imediatamente. Seu coração estava disparado. Sem que pensasse abaixara-se, beijando os lábios pálidos, mas generosos do rapaz.

– Eu te amo... Eu te amo tanto... Nunca mais me deixe... Por favor. – Chelsy sentira as lágrimas lhe subirem os olhos. Era a primeira vez que escutara isso da boca de Gary. Era a primeira vez que ele dizia que lhe amava. Levara as mãos para lhe tocar, mas estava fraco, sentindo as mesmas fraquejarem no meio do caminho. Porém foram prontamente agarradas, pelas mãos fortes e quentes de Gary, que a levou a tocar seu rosto.

– Eu sabia... Que um dia... Você admitiria que ama. – Dissera. Gary sorrira, beijando-lhe a testa.

– Me desculpa... Eu...

– Xiiii... Não se preocupe mais... – Dissera por fim.

Chelsy recebera alta alguns dias depois, e pode enfim voltar pra casa de seu primo mais velho. Sua mãe relutara, dizendo que seria melhor o rapaz voltar para casa com eles, porém Mark intervira, aceitaria o que o filho desejasse.

– Não acredito que estou de volta! – Dissera o rapaz espreguiçando-se ao deitar-se em sua cama no quarto de hóspedes, erguendo os longos braços para cima. Gary o mirara. Estava magro, os ossos da face evidentes. Ele permanecera sério, sentando-se ao seu lado na cama. O rapaz escutara o mais velho respirar fundo. – Gary eu... Sinto muito. – Gary erguera os olhos para ele.

– Do que esta falando?

– Eu agi feito um idiota, eu sei. Não devia ter gritado com você naquela hora na cozinha. Eu sei que tem considerações pelo pai do Thomas, mas eu... Eu só queria te proteger. – Gary o mirava sentindo-se surpreso. Não dissera nada, queria escutar. – Eu tenho ciúmes de você... Eu o amo. Eu fiquei com medo daquele desgraçado querer fazer algo novamente com você... Então eu pensei que... – Gary sorrira, e Chelsy se calara, arqueando as sobrancelhas. – Porque está rindo?

– Você... – Dissera, o sorriso doce brincando em seus lábios. – Agindo como se eu fosse uma criança que precisa de cuidados...

– Mas pra mim, você é uma... – Ele se aproximara, tocando sua face. – Uma criança grande, inocente e doce, que se esconde do mundo usando uma grande fantasia. – Ambos se entreolharam profundamente, buscando alguma pergunta, ou talvez alguma resposta, de algo que nem mesmo eles sabiam. – Admite que precisa de mim agora?

– É claro que eu preciso de você... – Gary encurtara a distancia que os separava, tocando os lábios fartos com a ponta dos dedos, antes de os selarem com um beijo. Chelsy sorrira, ao ter a boca tão avidamente tomada por aquela pertencente a quem tanto amava, por tanto tempo. – Não sabe o quanto foi desesperador pra mim, pensar que nunca mais poderia te ver... – Dissera, após apartarem o beijo.

– Sabe... Eu me lembrei. – Dissera Chelsy.

– Se lembrou... do que? – Perguntara, não entendendo.

– Você... Veio me buscar naquela noite de chuva. Estava tão escuro, tão frio... Mas você veio. E aquela outra vez, você entrou na água fria pra buscar minha bola colorida. Porque nunca me disse? Porque nunca me contou sobre isso? – Gary estava com os olhos arregalados, aquilo fazia muito tempo! Pensara.

– Eu não... Eu nem lembrava mais disso... – Dissera sem jeito, coçando a cabeça.

– Eu escutei o que você pensava... Eu estive lá novamente.

– O que você está falando, Chelsy? – O rapaz sorrira.

– Quando eu estava em coma... Eu me lembrei de coisas importantes, eu descobri coisas importantes. Eu só estou aqui Gary, por você. É por você que eu voltei... – Ele pode ver uma lágrima escorrer pela face branca do mais velho, que o puxou para si, em um abraço forte e quente. Podia sentir as batidas rápidas de seu coração. – Acho que, de certa forma, você me encontrou novamente.

– E eu sempre vou encontra-lo, não importa onde esteja... Eu irei até lá...

– Eu acredito em você. – Dissera Chelsy, que deixara a face descansar sobre o ombro do mais velho. Estava em casa novamente, ali era o seu lugar, sabia disso, sabia desde que nascera. Estava ao lado de quem sempre desejou estar.

**

– Chelsy ele... Será que ele aceitaria falar comigo? – Era oito da noite, estava frio e nublado. Mark estava na porta da casa de Gary, mirando-o com os olhos fundos e claramente cansados. Não havia falado com o filho devidamente desde que o mesmo recobrara a consciência.

– Eu não sei, Mark. Mas em todo o caso, entre. – Convidara Gary, afastando-se para deixá-lo passar. Mark estava sem graça, pois lembrava-se de seu vergonhoso comportamento na última vez que esteve ali. Gary estranhara a visita, mas achara que devia ter considerado essa hipótese. Desde que conversara com Mark no hospital, notara uma grande mudança no tio.

Gary batera na porta de Chelsy. Ele estava descansando, ainda estava fraco. Sabia que tivera muita sorte em estar ali. São poucos os pacientes que se recuperam tão bem depois de um coma.

– Entre! – Escutara o rapaz dizer do lado de dentro.

– Tem alguém aqui que deseja falar com você. – Dissera o mais velho.

– Quem é? – Perguntara Chelsy, num sussurro.

– Seu pai. – O mesmo arregalara os olhos.

– Mas... – Balbuciara confuso. Não esperava que seu pai viesse visita-lo. Gary adentrou o quarto, aproximando-se do rapaz.

– Fale com ele... – Dissera. Chelsy o mirara com a expressão neutra.

– Ok.

Gary descera as escadas, encontrando Mark ao pé dela, os olhos aflitos, esperando uma resposta.

– Venha, eu te levo até ele. – Mark sorrira sem jeito, acompanhando o sobrinho. Ao chegar à porta, Gary dera duas batidas na mesma, fazendo sinal para que Mark entrasse. Ao cruzar a soleira, seus olhos encontraram os do filho imediatamente. Gary afastara-se no corredor. Sabia que os dois precisavam ter uma conversa à sós.

– Chelsy... – Dissera. O rapaz sorrira ternamente, mirando o pai. Mark surpreendera-se com o sorriso, acreditava não merecê-lo. Em passadas silenciosas, ele se aproximara. Sentara-se em sua cama, pousando uma das mãos nos cabelos claros do filho. Fechara os olhos, inclinando o rosto para baixo levemente. Chelsy permanecera em silêncio, até notar uma lágrima contornar a face cansada de seu pai. – Me desculpe... Me perdoe, meu filho...

– Pai, eu...

– Por favor... Eu fui um carrasco, eu nunca fui um pai pra você... Nunca fui um pai de verdade. – Muitas lágrimas agora desciam, pingando pesadamente nos lençóis do rapaz. Chelsy não acreditara que estava ouvindo aquilo de seu pai, ele estava mesmo lhe pedindo desculpas? Seus olhos que eram naturalmente grandes, estavam arregalados por tamanha surpresa. – Eu não merecia o seu sacrifício naquela dia... Você não devia ter feito o que fez... Eu que merecia ter sido atingido por aquele carro...

– Pai...

– Eu! Não você, meu filho... – Ele se aproximara, tocando o rosto magro do filho. – Não você... – Chelsy sorrira.

– Pare de dizer isso... Eu estou bem... Estou aqui, não estou? – Perguntara sorrido. Mark o mirou profundamente. Sabia da personalidade extrovertida de Chelsy, mas nunca o vira sorrir para si. Entendia que ele próprio havia moldado o comportamento do filho para consigo. Jamais plantara amor no coração de seu filho. O fizera sofrer, o fizera aprender a mascarar sua tristeza aos olhares de terceiros.

– Não é fácil, não é? – Perguntara Mark. – Não é fácil saber que é homossexual...

– Não... Não em um mundo que te julga por tudo. – Mark baixara os olhos. Ele fora o que mais o julgara.

– Eu pedi o seu perdão... Mas sei que não o mereço. – Dissera. – Você não precisa se forçar a me perdoar. – Chelsy respirara fundo.

– Eu ouvi uma vez, de um sábio, que o perdão deve vir do coração, caso contrário, não passam de meras palavras... – Dissera. – Eu nunca vou esquecer as coisas que me fez, ou as coisas que me disse. Mas todos estamos aqui para aprender, seja de maneira difícil, ou com a ajuda de outros... E só o fato do senhor vir até aqui pra me dizer essas palavras, já me deixa muito feliz. – Sorrira, ao mirar o pai, levando uma das mãos a tocar seu rosto. – Significa que o senhor está aprendendo, e não existe felicidade maior do que essa... – Disse ele. Mark sorrira, agarrando a mão do filho, beijando-a. – Um dia eu vou estar pronto, e vou perdoá-lo da maneira correta. Com meu coração...

Mark combinara de visita-lo mais vezes. Chelsy sentia falta de sua mãe, que ainda não havia vindo nenhuma vez. Mas estava feliz, ao menos seu pai havia mudado. Daria tempo a ela, sabia que mais cedo ou mais tarde, ela também o entenderia...

Na tarde do dia seguinte, Gary adentrara no quarto do primo, trazendo nas mãos seu velho violino.

– Eba!!! Deixa eu pegar ele!!! – Chelsy dissera, com uma alegria infantil, esticando as mãos para apanhar o instrumento. Gary sorrira, lhe entregando o violino.

– Sempre quis apanhá-lo, não é?

– E você nunca deixou... – Dissera Chelsy. – É realmente lindo!

– Ele foi feito por um luthier* italiano. Seu som se assemelha a um Stradivarius.

– Sério? – Chelsy o mirara surpreso. Sabia que os Stradivarius originais eram violinos muito complexos e antigos, um dos melhores já feitos no mundo.

– Sim, mas não é um... É semelhante apenas...

– Bom, eu suponho que você não seria tão louco de comprar um verdadeiro... Deve custar os rins, pulmões e os olhos da cara... – Dissera sorrindo.

– Também acho... – Disse, rindo-se das palavras. Chelsy o posicionara no ombro esquerdo, apanhando o arco das mãos do primo. – Ainda se lembra de como tocar? – Perguntara Gary. Chelsy não respondera. Fechara os olhos, ao ouvir a primeira nota que produzira, soar, em seguida outra, e mais outra. Uma linda melodia, e uma grande surpresa para Gary. Chelsy tocava lindamente, uma canção conhecida de uma trilha sonora de um filme. Sentira seus pelos se arrepiarem com os acordes. Nunca imaginaria que Chelsy tocava tão bem, e como ficava lindo tocando... Sorrira, e sem que notasse, uma lágrima escapara por seus olhos.

– Essa música fica melhor no piano... – Dissera o mais novo ao fim da canção. Mirara o primo, que estava em prantos. – Ei! Porque está chorando? – Perguntara.

– Eu não sabia que... Você tocava... – Disse, enxugando as lágrimas.

– Você não era assim! Está muito sentimental... – Brincara o rapaz. – Eu fiz aulas na minha cidade... Mas nunca tive um violino... Meus pais nunca me dariam um e... Depois que cresci, nunca sobrou dinheiro pra que eu comprasse... – Disse, admirando o violino em tom marrom envelhecido, muito bem cuidado e impecavelmente limpo. Ele olhou para Gary novamente. – Aqui está... – Disse, entregando o instrumento ao primo. Mas Gary empurrara-o de volta.

– Fique com ele. Agora ele é seu. – Chelsy arregalara os olhos.

– O que?

– É seu... Estou te dando. É um presente.

– Não, Gary... Você ama seu violino! Não, não... Depois eu compro um...

– Se não aceitar, vou ficar triste... – Dissera Gary seriamente. Chelsy mirara o belo instrumento ainda em suas mãos. Sorrira, não acreditando ainda.

– Parece até um sonho! Desde que te vi tocar pela primeira vez, sempre quis ter um. Obrigado, Gary! – Ele soltara o instrumento, abraçando o primo, trazendo-o para si. Gary se sentira feliz, em saber que realizara um sonho dele. – Mas... – Dissera, apartando o abraço. — ... Meu maior sonho, já aconteceu.

– E qual seria ele?

– Ter você comigo... – Respondera. Chelsy se aproximara, tocando os lábios do mais velho com os seus. Beijara-o lentamente, saboreando o gosto de café em sua boca.

– Vai me ensinar a tocar essa música depois... – Dissera Gary em meio ao beijo, que se apartara.

– Ok! Sei tantas trilhas sonoras que você nem imagina! – Dissera ele. – Mas não sei nada de clássicos!

– E eu sou o oposto...

– Sempre! – Ambos desataram a rir, naquele fim de uma bela tarde de sol.

Notas finais
* Luthier - é um profissional especializado na construção e no reparo de instrumentos de corda. - Fonte: Wikipédia. Reta final, minna! O próximo capítulo será o último, então aguardem o desfecho em breve... *o* Até o próximo!