O que Realmente Importa no Amor?
12 Conciliação x Confusão
Notas iniciais
As coisas estavam confusas. Gary não esperava que Thomas pudesse fazer algo do tipo. Se sentia culpado, mas as palavras de Chelsy não lhe saiam da cabeça “...Só queria que parasse de pensar que a culpa é sua.” Também queria parar de pensar em algo assim. Seu futuro na empresa estava incerto. Teria que procurar algum outro emprego, sabia que isso não seria problema. Possuía uma boa reputação no meio empresarial. Seu nome era bem requisitado, e se quisesse poderia sem problema algum arrumar um emprego igual, ou até mesmo melhor do qual estava, pois não conseguia ficar sem fazer nada.
– Gary... – Ele escutara a voz macia de Chelsy, se aproximar de si, que estava sentado em sua poltrona favorita. Chelsy abraçara-o pelas costas, soltando os braços à frente de seu peito, apoiando a cabeça em seu ombro. – Vou procurar um emprego. – Disse. O mais velho o mirou surpreso, havia acabado de pensar a mesma coisa.
– No que quer trabalhar?
– Não sei... Em qualquer coisa. – Gary erguera uma sobrancelha. – Pode parar! Não estou falando “qualquer coisa”, no sentido qualquer coisa! Eu não seria um striper ou algo assim!
– Ei, ei! Eu disse algo assim por um acaso? – Chelsy rira.
– Tenho certeza de que pensou... – Disse, sorrindo sarcasticamente.
– Ao contrário de você, eu não sou tão “mente poluída” assim!
– Eu sei que não é... – Respondera, roçando o nariz nos cabelos negros e cheirosos do primo, que sentiu-se arrepiar por inteiro com a carícia.
– Posso te ajudar a arrumar algo... Escritórios, almoxarifados...
– Sério? Seria ótimo! Gary, você já pensou em montar um negócio próprio? – Gary ponderara a pergunta.
– Sim... e não.
– Como?
– Sou bom em cálculos e administração empresarial. Mas não tenho algo que gostaria de montar por mim mesmo...
– Que pena... Seria ótimo se você gostasse de outra coisa além disso, tipo restaurantes, moda, sei lá... Há tantas coisas... Você tem um talento muito bom, acho que renderia muito mais se administrasse seu próprio negócio... – Gary sorrira.
– E você, tem algo que goste de fazer? – Chelsy pôs-se a pensar. Havia muitas coisas que gostaria de fazer, ou tentar na faculdade, mas sua mente energética, o fazia entrar em grande dúvida.
– Sim e não... – Gary o mirara, rindo. – Acho que comida dá dinheiro, mas eu não sei cozinhar, e francamente não gosto muito... – Ele parou, pensado. – Desenhar também é legal... Eu sei fazer croquis, mas...
– Mas?
– Acho que não tenho tanta imaginação e paciência pra criar modelos... E honestamente Gary, eu não tenho a mínima ideia do que fazer de faculdade. Eu queria montar um negócio, mas não sei por onde começar, e o que fazer... Já imaginou se montássemos algo, só nos dois? – Perguntara sorrindo, sonhando alto. Gary rira da ideia.
– Você ainda é muito jovem. É natural que se sinta perdido. Tente pesquisar algumas profissões, trabalhe em coisas que lhe chame a atenção... Experimente várias coisas.
– Experimentar várias coisas? – Dissera, um “quê” de perversão em sua voz. Gary o olhou, torcendo os lábios. – Tô afim de experimentar você... É possível?
– Não é... – Dissera. Chelsy virara a face do mais velho para si, beijando-o.
– Assim já está bom...
– Será? – Gary sabia que Chelsy desejava muito mais, e perguntava-se até quando aquele relacionamento duraria. Temia estar realmente amando Chelsy, mais do que podia sequer imaginar, e isso lhe dava uma tremenda dor no peito. Será que conseguiria se entregar pela primeira vez na vida, à alguém só para satisfazê-lo? Pois entendia que não seria capaz de sentir nada, que era alheio à isso... Mas também sabia que se o amor fosse realmente forte, talvez seria capaz de fazer essa loucura, não por ele, mas por Chelsy.
– Eu disse alguma vez que queria fazer com você?
– Não disse, mas insinuou. – Respondera, querendo sair da conversa.
– “Insinuei”. Eu não lembrava, só isso. Eu não estou acostumado... Por favor, entenda. – Gary virara-se para ele.
– Com quantos homens já saiu? – Perguntara, sério. Chelsy o mirara arqueando as sobrancelhas. Em seguida dera uma gostosa gargalhada.
– Está com ciúmes? – Gary continuara com o semblante frio.
– Responde.
– Bom... – Mirara o teto, pensando. Contara nos dedos, mas desistira. – Desde que comecei a transar, que foi desde os catorze... E por culpa do meu pai eu perdi minha inocência... – Lamentara, relembrando. Respirara fundo, temendo que teria a desaprovação de Gary quando dissesse a verdade. – Talvez uns vinte... e pouco. – Falara, sem mirá-lo. Sentia-se envergonhado, era verdade. Levara uma vida promíscua em uma parte de sua curta vida. – Mas olha, eu não... — Começara, mas interrompera a frase, ao mirar o rosto, quase sempre de expressões frias, para uma então compassiva. Não entendera porém, Gary dificilmente mostrava uma expressão daquelas, ainda mais com aquele assunto.
– Continue o que estava dizendo. – Falara Gary, que gostaria de escutar o que o mais novo teria a dizer.
– Bem, eu... Eu me arrependo. Sabe, não é legal ter a sexualidade invadida tão cedo. Naquela época eu ainda gostava de videogame e de ler livros infantojuvenil... Não pensava em sexo ou essas coisas... Mas depois daquilo... Bem, eu mudei... completamente. Fiquei com raiva do meu pai, fiquei com raiva do mundo... E fiz coisas que só Deus sabe, e não foram nada inocentes e bobas. Hoje eu acredito que esse tipo de coisa só devemos fazer quando amamos alguém... Pois eu não sentia nada por esses homens com os quais saí... Só queria me divertir e sentir prazer. Sei que foi um erro. – Dissera. – Pode me dar uma bronca, sei que é isso que está doido pra fazer. – Falara, baixando o olhar. Gary o segurara pelo casaco, puxando-o para si, o abraçando. Chelsy arregalara os olhos, não esperava receber um abraço.
– Desculpe... – Falara Gary, a voz abafada em meio as roupas do rapaz.
– Te d-desculpar? Por quê? – Chelsy não entendera.
– Eu... Eu repudio minhas opiniões anteriores sobre você... Me desculpe por ser tão imaturo e babaca. – Chelsy sorrira, passando as mãos pelos cabelos negros do mais velho.
– Está tudo bem... Eu não ligo para o que você pensava antes. Eu ligo para o que você pensa agora. E se você não me vê como um idiota fútil, então eu estou feliz. – Gary apartara o abraço, mirando-o. Como um dia pode pensar que Chelsy era um alguém assim? Ele tinha tantas experiências em sua bagagem, experiências que ele próprio nunca chegara a viver, ele passara por tantos obstáculos, e fora tão corajoso esse tempo todo. Tendo que enfrentar a si mesmo, entender-se estando completamente sozinho. Lamentara-se, queria ter estado com ele, queria tê-lo ajudado. Talvez as coisas poderiam ter sido diferentes para o rapaz, pensara.
– Se eu tivesse te procurado antes, se eu tivesse tentado te ajudar...
– Não se preocupe. Já disse para não se culpar por nada. Gary... – Ele sorrira docemente ao primo. — ... Se não fosse minha vida complicada, eu poderia jamais ser como sou hoje. Sabe, eu não lamento as coisas que passei, não lamento mais ter nascido na família que nasci. Quando você me disse que eu o ajudei a enxergar alguns de seus erros, quando pude perceber que eu realmente pude tê-lo ajudado em algo... – Ele abrira um belo sorriso, fechando os olhos. – Ah... Não existe nada que tenha sido em vão em minha vida até agora. Se consegui te ajudar, você a pessoa que eu mais amo nesse mundo, então... Valeu a pena cada segundo de cada obstáculo. – Gary pode sentir seus olhos enchendo de lágrimas, com as belas e tocantes palavras de seu primo. Abraçara-o novamente, beijando seus cabelos agora razoavelmente curtos e castanho claros.
Três dias se passaram, e Gary pode finalmente voltar à empresa. Encontrara sua sala da mesma forma que havia deixado anteriormente. Poucos minutos depois, Onófolis, que agora ocupava a sala de seu filho, pedira para que Gary fosse até lá.
– Cara, o que aconteceu? – Oswald perguntara, assim que vira o amigo. – O que exatamente o Tom estava fazendo com você? – Gary o mirou de esguelha.
– Aquilo mesmo que você está pensando e... Conversamos depois. Tenho que ir falar com Onófolis. – Dito isto Gary se fora. Assim que entrara na sala, o senhor de aparência já bem idosa, escondia uma sanidade e integridade, invejáveis.
– Sente-se, Gary. – Pedira. Ele se aproximara, sentando-se em seguida. A sala estava arrumada. Lembrara-se da experiência nada agradável que passara ali. – Quero pedir desculpas pelo comportamento leviano de meu filho. É difícil para mim, ser pai de um rapaz gay. Acho que pode imaginar, se você puder colocar-se no meu lugar. – Gary o mirara sério.
– Não senhor, não é difícil ter um filho gay. – Dissera. — Só é difícil compreendê-los quando não tentamos ouvi-los ou entender o que passam. – Onófolis erguera uma sobrancelha. Gary já imaginava que aquele talvez fosse o fim da linha de seu emprego naquela empresa.
– O que sabe sobre homossexuais? – Perguntara o senhor.
– Bom, eu... Tenho um primo gay assumido. Desde criança já reparávamos que ele era diferente dos outros garotos. Acho que ter alguém homossexual na família, não é nada de outro mundo, ou algo que se deva condenar e castigar. Sabe, meu primo sofreu muito por ser como é... – Gary sem que notasse, estava sendo levado pelas lembranças das conversas que tivera com Chelsy nos últimos dias. — ... Ele teve que enfrentar os pais, a família... Percorreu um longo caminho sozinho, e hoje é alguém que realmente possui um caráter no mínimo invejável para alguém da sua idade. Talvez, como ele mesmo diz, não seria quem é hoje, se não tivesse passado por todos esses obstáculos. – Onófolis voltava toda sua atenção para o que Gary dizia. Queria saber o que ele pensava. Gostava de saber o que os jovens tinham em mente.
– Parece ter orgulho dele. – Dissera.
– E eu tenho, muito. – Respondera. – E talvez eu o esteja amando como nunca amei ninguém na minha vida. Ele é uma das pessoas mais fortes que já conheci... – Onófolis o mirara atentamente.
– Amando-o? – Gary sorrira.
– Sim... Eu só queria que... Só queria que o senhor não culpasse Tom... Acredito que a vida dele até aqui, não deve ter sido fácil também, assim como a de Chelsy, meu primo, e a de muitos homossexuais por aí. Nenhum homossexual, transexual, assexual, e outros tantos que fogem dos “padrões aceitáveis" da sociedade, viveu ou vive uma vida sem preconceitos por parte dos outros ao seu redor. E nós, a família, temos que no mínimo protege-los. Eles precisam saber que ao menos em seu lar, são compreendidos e amados, não importando o que os outros pensem... Apenas amá-los, apenas isso... – Gary vira um sorriso gentil, brotar dos lábios finos de Onófolis.
– Você, não odeia meu filho então? – Perguntara.
– Não! De maneira nenhuma! Eu... Eu era um idiota que... Não pensava em ninguém a não ser em mim mesmo. Chelsy me ajudou muito a melhorar minha visão do mundo, e das outras pessoas. Não há porque eu odiar o Thomas... Eu o compreendo. – Finalizara.
– Chelsy deve ser mesmo um anjo. Tem razão em ter orgulho dele Sr. Frost. – Falara Onófolis. – Só queria lhe pedir perdão por meu filho. Quero que permaneça na empresa. Thomas também não quer que você saia. Ele o admira muito. E pra mim seria uma grande perda caso saísse daqui. Queria nomeá-lo à Presidente. – Gary o mirara boquiaberto. – O que tem a me dizer? Esse também é um desejo e um pedido de Thomas.
– Eu... – Gary respirara fundo. – Eu declino senhor. Não posso aceitar.
– C-Como?
– Eu gosto do cargo que ocupo. E acredito também que Thomas possui potencial para continuar sendo o presidente. Sinto muito mas, terei que recusar. – Onófolis sorriu, derrotado.
– Mas não pretende sair de nossa empresa, não é? – Perguntara duvidoso.
– Eu... – Gary estava realmente em dúvida quanto à isso. – Eu ainda não sei... – Disse pensativo. – Mas fico feliz que não queira me despedir. – Dissera, antes de notar uma sombra surgir atrás do velho senhor, e Thomas acabando por se revelar. Havia chegado na empresa antes que todos chegassem, pedindo ao pai para que ficasse ali, até que Gary aparecesse.
– Tom...? – Gary estava surpreso. Não esperava vê-lo. Então ele escutara... tudo? Perguntara-se.
– Gary... Me perdoe. – Pedira, aproximando-se. Seus olhos demonstravam profundo e sincero arrependimento. – Me desculpe, eu jamais deveria ter feito o que fiz. – Dissera, ajoelhando-se diante da cadeira em que Gary permanecia sentado.
– Você não... Tom, você não tem que fazer isso... – Gary levantara-se, segurando Thomas pelos braços, afim de puxá-lo para cima.
– Por favor, não saia da empresa! Ela precisa de você! Eu prometo que não ficarei aqui, eu já me decidi, vou voltar ao Oriente, e eu quero que você fique em meu lugar. Por favor! – Gary não sabia bem o que dizer. Sorriu.
– Não quero me tornar presidente. Posso até continuar aqui por hora, mas não posso aceitar a proposta. Eu sinto muito.
– Mas por quê?
– Eu não sei ainda, Tom... Talvez eu monte um negócio próprio em breve, tenho outros planos para meu futuro agora. Eu quero mudar a minha vida... Quero poder fazer diferente do que tenho feito até agora. – Ele segurara as mãos frias e trêmulas de Thomas, entre as suas.
– Você não pode me deixar! Quer dizer... você não pode deixar a empresa, não pode me deixar tomando conta dela sozinho! Eu ainda preciso muito da sua ajuda! Por favor, fique só mais um tempo, me ensine! – Gary notara em Tom, algo que ambos não possuíam anteriormente: humildade.
– Te ensinarei tudo que precisa saber, com o maior prazer. – Dissera. — Afinal, o conhecimento é algo que só pode ser transmitido à aqueles que desejam aprender. — Sorriram um para o outro. Uma conciliação inesperada.
***
– Como foi na empresa? – Chelsy perguntara, estava preparando uma sopa de legumes. Eram sete da noite. O frio estava forte naquela hora.
– Thomas estava lá.
– Aquele filho da mãe?
– E do pai também. – Chelsy torcera os lábios.
– Engraçadinho...
– Estou aprendendo com você. – Respondera Gary.
– Eu sei que sou um ótimo professor... Diga-se de passagem. – Dissera, beijando o próprio ombro. – Ele te pediu perdão? – Perguntara.
– Sim... – Chelsy baixara o fogo do fogão. Sentara-se mirando o primo seriamente.
– E o que vocês resolveram? Você vai continuar a trabalhar lá? – Gary o mirara.
– Thomas me pediu ajuda, disse que ainda precisa de mim na empresa.
– Ah! E eu não acredito que você caiu nessa? – Chelsy o fitara.
– Não posso negar ajuda! Tenho consideração pelo pai do Thomas e...
– Puts, Gary! O que você tem de inteligência, tem de idiotice! É lógico que ele vai tentar fazer algo de novo!
– Não! Ele não vai! – Dissera Gary, não gostara do tom que Chelsy estava usando.
– E como você pode garantir isso? Hã? Confia tanto nele assim? – Ele levantara-se.
– Não é questão disso... Eu sei que ele não fará!
– Você é um idiota! Eu não vou estar o tempo inteiro perto de você para defende-lo!
– E quem falou que eu preciso de você? – Chelsy piscara os olhos, não acreditava que Gary estivesse sendo tão idiota, pensava.
– Você gosta dele?
– O que?!
– VOCÊ! Você gosta dele, não é?
– Não seja imbecil!
– Eu? Imbecil? Não sou eu, Gary... E está ótimo que você não precise de mim! Você é sempre tão cheio de si, jamais admitiria que precisa! Jamais diria que sente algo por mim... – Ele rira sarcasticamente.
– O que você está falando?
– Tem razão... Eu sou mesmo um imbecil! – Dissera, saindo da cozinha.
– Ei! CHELSY! – O rapaz saíra às pressas em direção à sala, sem que Gary esperasse, escutara a porta bater com um estrondo. – CHELSY! VOLTE AQUI! – Gary pegara o telefone, discando para a portaria. – Bruce? Segure o portão, não deixe Chelsy sair! – Pedira ao porteiro. Saíra em seguida.
Chelsy correra o mais rápido que pode, alcançado o portão. O frio lhe cortando o corpo que estava pouco agasalhado.
– Sinto muito Chelsy, não posso deixar você sair. – Dissera o porteiro ao vê-lo. – Ordens do Sr. Frost.
– Você só pode estar brincando comigo, né? Abre logo essa JOÇA! – Gritara impaciente. Bruce o mirara de olhos arregalados. O sempre tão sorridente e brincalhão Chelsy, era outro quando ficava com raiva.
– Eu não posso... – Dissera, incerto. Chelsy não pensara duas vezes. Dera uns passos para trás, afim de pegar impulso. Então correra em direção ao portão alto, dando um salto preciso no mesmo. Rapidamente subira, jogando as pernas para o outro lado, descendo em seguida.
– Não vai ser um portão de merda que vai me impedir. – Dissera, antes de virar as costas e correr. Em seguida Gary chegara.
– Eu não acredito que o deixou sair! – Dissera, vendo a cara abismada de Bruce.
– Eu não pude fazer nada senhor, ele é muito ágil!
– É... Eu sei... – Respondera, lembrando-se de sua dúvida em definir se Chelsy era um corvo carente, ou um gato furtivo.
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