O príncipe e a cientista
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Seu corpo cansado começava a sentir os efeitos da grande força gravitacional exercida por aquele planeta. Ainda que por anos a fio tivesse treinado em uma condição semelhante, uma batalha real e desgastante acabava por prejudicar o domínio que tinha sobre gravidades tão altas, suportando para além de 400 G... Ainda mais estando em um local onde não havia como reduzir para uma gravidade ao menos próxima à da Terra.
Limpou um pequeno filete de sangue que começava a escorrer do canto da boca, onde recebera um golpe que lhe cortara o lábio por dentro. Era apenas mais um ferimento dentre vários decorrentes dos golpes que levara. Sinais claros de que o combate estava sendo bem desafiador.
Estava do jeitinho que ele gostava, era uma luta que o levava até o limite.
Cerrou os punhos revestidos com luvas brancas, enquanto os músculos dos braços se retesavam de tal maneira que era possível vê-los desenhados por sob o collant azul de gola alta, já meio puído e com alguns rasgos causados por aquele embate. Rugiu, ao mesmo tempo que uma explosão de energia fez surgir uma aura dourada ao seu redor, na qual era possível ver também pequenas descargas elétricas.
Com as pernas, deu um impulso para levantar voo em grande velocidade enquanto carregava, em sua mão direita, uma grande quantidade de energia dourada concentrada. Seu adversário, um homem com o triplo de seu tamanho e, mesmo assim, tão ágil quanto ele, também havia se impulsionado com uma bola de energia na mão. Os dois dispararam seus ataques, e as duas bolas de energia se colidiram, causando uma grande explosão.
Ao baixar a poeira, era possível ver apenas uma silhueta em pé, ainda que em claro sinal de exaustão. A plateia estava emudecida, pois o vitorioso não fora o grandalhão pelo qual torciam. O vencedor daquela luta fora alguém vindo de uma das galáxias mais remotas do universo.
A aura dourada com raios era a única coisa, além da respiração ofegante, que quebrava o pesado silêncio daquele momento. Para aqueles seres, o impossível havia ocorrido: aquele homem de apenas um metro e sessenta e quatro centímetros de altura havia conseguido superar seu adversário de mais de quatro metros.
Não demorou muito e a aura dourada cessou, fazendo com que os rebeldes cabelos loiros voltassem ao tom negro, assim como os olhos deixaram de ser verdes para retornar à mesma cor original.
Foi quando ouviu uma grande gritaria e o barulho de uma multidão fugindo apavorada. “Um saiyajin!”, eles gritavam. “Ele vai destruir nosso planeta!”
— E lá vamos nós de novo... — Vegeta resmungou enquanto percebia que faltava uma das alças de sua armadura branca. — Outra vez vou ter que explicar que não destruo mais planetas... Que saco!
*
— Então... – Bulma, após sorver um pouco de chá, depositou a xícara no pires sobre a mesa. – Já falta bem pouco para o casamento do Gohan, não é?
— Sim. – Chichi respondeu após também provar o chá e colocar a xícara em seu lugar, enquanto suspirava com felicidade. – Ainda custo a acreditar que meu menininho cresceu.
— Como o tempo passa, né? Quando o Goku o levou à casa do Mestre Kame, ele era tão pequeno... Uma gracinha!
— E hoje ele me enche de orgulho, e...
Um impacto interrompeu a conversa das duas amigas, chegando a estremecer a terra do grande pátio ao fundo. Elas correram para ver o que havia acontecido e deram de cara com uma nave espacial que acabara de realizar uma aterrissagem nada discreta.
Não demorou para que a porta da nave zumbisse enquanto se abria lentamente e, lá de dentro, emergisse Vegeta com sua típica cara de poucos amigos. Com seu traje desgastado e um pequeno curativo no supercílio direito, e outro no lado esquerdo do rosto, ele encarou Bulma, que questionou:
— O que aconteceu com o sistema de amortecimento de impacto? Por que não funcionou?
— Quebrou no último planeta em que passei. – Vegeta respondeu enquanto seguia até a varanda onde Chichi havia retornado.
— Se não me engano, projetei esse sistema com um material bastante resistente.
— E ele resistiu até demais. O último planeta em que passei tinha a gravidade cerca de quatrocentas vezes maior que a da Terra. A nave aguentou demais.
— Bom... Pelo menos, a nave aguentou bem, só o sistema de amortecimento que sofreu danos numa gravidade tão grande, e...
Um grande estrondo se fez ouvir logo atrás do casal, e os dois olharam para trás. A nave espacial, de formato esférico, se abrira como a casca de uma mexerica e logo em seguida havia se despedaçado como uma casca de ovo recém-quebrada, tornando tudo um monte de sucata espacial retorcida.
— Eu disse que a nave aguentou demais. – Vegeta jogou por sobre o ombro direito a bolsa que trazia consigo. – Não sei como ela não se desintegrou no espaço.
— Mas que caminho você pegou para esses planetas? Essa nave era como as outras, que eram como a que meu pai projetou reaproveitando a nave antiga que trouxe o Goku à Terra! Até onde lembro, uma nave daquelas aguentou bem chegar até Namekusei!
— Namekusei era um caminho fácil, perto dos roteiros de outros planetas. E a tecnologia da Terra ainda está engatinhando em comparação a esses outros lugares do universo.
Bulma suspirou, vencida. Nessa questão não havia como contestar o marido, muito mais experiente do que ela no tocante a viagens espaciais. Até tinha pensado em questioná-lo pela escolha das viagens, mas ouviu o estômago dele roncar alto, enquanto estendia-lhe a mão, entregando a bolsa com as amostras que coletara.
*
No laboratório, Bulma olhava compenetrada pelas lentes de um microscópio uma das amostras que Vegeta lhe trouxera de sua última ida ao espaço. Desta vez, havia amostras interessantes de materiais nunca vistos na Terra, que poderiam ajudar e muito na elaboração e melhoria da qualidade e resistência de vários itens do portfólio de produtos da Corporação Cápsula. Se conseguisse replicar as propriedades desses materiais o mais próximo possível, tinha certeza de que a empresa fundada por seu pai estaria sempre à frente em se tratando de alta tecnologia.
Estava tão concentrada que nem ouvira o leve zumbido da porta automática abrindo e fechando logo em seguida, nem mesmo ouvira os passos abafados de pés descalços que se aproximavam sem qualquer pressa.
— Já não está meio tarde para continuar aqui no laboratório, Bulma?
Imediatamente, ela se endireitou e, com o susto, se virou para poder ver quem a tirava de seus pensamentos por fazer aquela pergunta tão de perto.
— Caramba, Vegeta! – ralhou. – Não me assusta desse jeito!
— Não tenho culpa se você está tão distraída que nem percebeu a hora que é. Seus pais já foram dormir e até o Trunks, também.
A cientista se lembrou de que estava com o relógio de pulso e o conferiu, para depois arregalar os olhos azuis em surpresa.
— Nem vi o tempo passar, mas... Eu não pude evitar. Esta amostra que você me trouxe é incrível!
Um breve segundo de silêncio se seguiu, para ela lançar ao marido um olhar desconfiado e perguntar:
— Você não precisou matar ninguém para isso, não é?
— Claro que não, usei até a diplomacia.
— Diplomacia?
— Eu sou um saiyajin, não uma besta irracional. Desafiei o guerreiro mais forte do planeta deles e, se eu ganhasse, eles me dariam o que eu quisesse.
— Já vi que foi a diplomacia à moda saiyajin. – ela observou. – Mas, aceitaram isso sem problemas?
Vegeta revirou os olhos negros com ar de aborrecimento.
— O de sempre. Todo mundo daquele planeta ficou com medo de mim e tentou me atacar.
— Imagino que até você explicar que não invade mais planetas para matar e destruir...
— Mas eu já sabia que poderia enfrentar algo assim. Fui um genocida a serviço do maldito Freeza por muitos anos, natural me odiarem. Por outro lado, é bom, porque lutam pra valer quando estão com raiva.
— Então quer dizer que está ainda mais forte? – Bulma perguntou enquanto olhava para a camiseta regata que ficava marcada pela musculatura do torso do saiyajin.
— É, um pouco mais. – ele percebeu o olhar sugestivo dela. – Mas, ainda assim, acho que não vai ser fácil enfrentar Kakarotto de igual para igual em uma luta. Talvez, se eu enfrentar a fusão de Trunks com Goten, vou ter uma ideia de como fazer isso.
A cientista suspirou, enquanto se levantava e seguia até a porta do laboratório.
— Ah, você e o Goku não têm jeito mesmo...
Passou por Vegeta e deu nele um selinho e, em seguida, lançou-lhe uma piscadela marota.
— Vou tomar um banho rapidinho. – disse. – Pode me esperar no nosso quarto.
Ele nada respondeu, mas um sorriso brincalhão surgiu em seus lábios. Depois de alguns dias fora, não havia nada melhor do que estar de volta para casa. Aliás, não havia nada melhor do que ter um lugar para o qual voltar.
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