Logo pela manhã, em um dos laboratórios da Corporação Cápsula, Vegeta se preparava para mais um dia que fazia parte da rotina dele, para além dos treinos e das lutas. Bulma, usando um jaleco branco sobre seu vestido azul, estava munida de uma prancheta e uma caneta para fazer suas anotações. No amplo laboratório bem iluminado, o saiyajin estava vestido com seu costumeiro traje de batalha e pronto para mais um teste de impacto.

Se Chichi conseguira fazer Goku ter um trabalho comum, por que a cientista não conseguiria fazer o mesmo com Vegeta? Goku plantava e cultivava hortaliças, para depois vendê-las nas cidades mais próximas. Já seu marido...

... Ela tentara colocá-lo em algumas funções na própria Corporação Cápsula, mas sem muito sucesso. Além de pouco ou nenhum traquejo social, ele era forte demais e, mesmo tentando (ainda que raramente e a contragosto) controlar sua absurda força sobre-humana, fazia estragos voluntária ou involuntariamente.

Foi quando pensou que poderia aproveitar tanto esse poder absurdo do próprio marido, bem como a experiência que ele possuía de viajar pelo espaço. Ir a outros planetas para buscar amostras de materiais oferecia a ele o bônus de encontrar adversários fortes para seus treinamentos, por exemplo. E a outra tarefa era estar naquele laboratório amplo, utilizado para testes de resistência e impacto.

Obviamente, Vegeta não precisava usar seus poderes de Super Saiyajin para tal. Mas era o suficiente para testar a resistência de vários materiais e itens projetados e fabricados. O último item do dia era o protótipo de um novo modelo de aerocarro, que depois de devidamente testado, se aprovado, seria lançado no mercado.

O aerocarro levantou voo baixo, flutuando cerca de trinta centímetros acima do chão. O tamanho do laboratório era o suficiente para o veículo desenvolver um pouco de velocidade até chegar a Vegeta, que desferiu um soco bastante potente.

Apesar do impacto, o veículo resistiu sem grandes danos e acionou os airbags, amortecendo os bonecos de testes que estavam em seu interior. Enquanto o saiyajin cruzava os braços, Bulma examinou tanto o aerocarro quanto os danos sofridos e anotou cada detalhe em sua prancheta.

Vegeta observava cada movimento da cientista e tudo o que pensava naquele momento é que, quanto mais convivia com ela, mais percebia a sua genialidade. Se a tecnologia na Terra era algo “básico” — para não dizer “rudimentar” ou “primitivo” — perto do que já vira em suas andanças, perguntava-se o que sua esposa poderia fazer com algo ainda mais avançado em mãos.

Já perdera as contas de quantas vezes os sogros lhe contaram, com muito orgulho, sobre a genialidade precoce da filha caçula, claramente herdada do Professor Briefs. Uma menina talentosa para a ciência, um verdadeiro prodígio, que cresceu e se tornou um verdadeiro gênio.

Ela era capaz de deixar no chinelo qualquer outro cientista que já conhecera, com o bônus de ser bonita. Esse simples pensamento fez com que um ligeiro sorriso surgisse em seus lábios. Sorriso esse que não passou despercebido.

— Por um acaso — Bulma se aproximou, ficando a poucos centímetros de distância de Vegeta. — você está me despindo com os olhos, é?

— Nem vem, que eu nem pensei nesse tipo de coisa! — ele retrucou, virando o rosto completamente vermelho para o lado. — Tá achando que eu tenho cara de carente, é?

Bulma respondeu com um sorriso divertidamente debochado:

— Falou o cara que, mesmo cansado de uma viagem pelo espaço, quis que a gente dormisse de conchinha.

— Bulma... Aqui não é lugar pra isso.

— “Isso”, o quê? O que tem de mais falar que dormimos de conchinha? Ah, entendi... Se não tivesse chegado tão cansado, né...?

A mulher de cabelos azuis lançou um olhar bem sugestivo ao saiyajin, que sentia o rosto queimar cada vez mais.

— Não seja tão vulgar...

— Eu não estou sendo. Você é que está tirando conclusões erradas enquanto olha pra minha boca. Que acha de tirar a vontade de um beijinho agora? Estamos só nós dois aqui.

Ela nem esperou resposta e já tomou a iniciativa. Ele correspondeu sem pressa, esquecendo qualquer outra coisa que estivesse ao seu redor. Os dois apenas queriam aproveitar aquele breve momento para começar a compensar o período em que estiveram distantes um do outro.

Quando se separaram para tomar um pouco de fôlego, começaram a ouvir novamente os sons do ambiente que os rodeava... E a secretária, que chegara alguns instantes atrás, aguardava a agora presidente da Corporação Cápsula terminar o que estava fazendo para lhe repassar a agenda do restante do dia e lembrar que à noite aconteceria a confraternização da empresa.

Bulma saía, seguida por um Vegeta constrangido, para fora do prédio e jogava uma cápsula ao chão, fazendo surgir seu aerocarro. O casal embarcou e ela, ao volante, seguiu até a escola onde Trunks estava, para buscá-lo.

*

— Mãe... — Trunks questionava em tom de reclamação. — Eu tenho mesmo que ir junto? Esse tipo de coisa é tão chato...

Bulma revirou os olhos azuis enquanto entregava ao filho o pente para que ele ao menos deixasse os cabelos lisos um pouco mais alinhados. Em várias coisas ele realmente se parecia demais com o pai. Enquanto Vegeta preferia continuar seus treinos rotineiros para ficar cada vez mais poderoso, o garoto daria tudo para trocar a confraternização da Corporação Cápsula para jogar videogame com Goten.

— É claro que precisa ir, Trunks. – ela replicou enquanto retocava o batom diante do espelho. – De vez em quando, é bom ir a esse tipo de evento com a família inteira, mesmo que não seja naquelas festas com os nossos amigos mais próximos. Na escola, você participa dessas coisas e na vida adulta é igual.

— Meu pai não gosta disso. Por que eu deveria gostar? Às vezes essas coisas não têm a menor graça.

— Há coisas que a gente não gosta de fazer, mas é preciso. Seu pai cresceu com costumes diferentes, por isso é tão antissocial. Já basta ele assim, você não precisa ser igual.

— Tá legal... – o garoto deu de ombros enquanto seguia com a mãe para o saguão da mansão. – Fazer o quê, né?

Vegeta já os aguardava, vestindo roupas mais casuais, mas que, ainda assim, o deixavam com certa imponência. Vestia uma camiseta preta de mangas curtas, calças em um tom cáqui e sapatos pretos bem lustrados, enquanto segurava uma jaqueta azul por sobre o ombro. Bulma percebia que, mesmo com traje de batalha ou vestido à paisana, ele não perdia a imponência de um descendente de uma família real. E isso pelo jeito estava no DNA, pois Trunks também tinha esse mesmo aspecto enquanto usava uma bermuda azul-marinho, camiseta branca e tênis pretos com detalhes verdes.

O saiyajin olhou mais detidamente para a esposa. O look diferente do rotineiro apenas realçava os seus atributos físicos com bastante elegância. A blusa de alças finas na cor salmão combinava bem com a calça social preta e os escarpins brancos. Não importava qual roupa ela usasse, nunca deixaria de ser atraente. Foi justamente a sua voz que o tirou dos seus pensamentos:

— Vamos?

Os três saíram e Vegeta foi quem jogou uma cápsula, da qual saiu um aerocarro. Desta vez, ele assumiu o volante. Há cerca de três anos, ele tirara a carteira de habilitação com uma facilidade incrível, apesar da burocracia de ter que fazer autoescola. A experiência de viajar pelo espaço só facilitara as coisas, aliada ao fato de ser algo bastante simples, tecnologicamente falando.

E havia algo mais para que ele decidisse não só tirar uma habilitação, mas também acompanhar Bulma e Trunks de vez em quando a eventos que o fizessem se socializar com as pessoas da Terra. Atento ao trajeto enquanto dirigia, ele também pensava nisso. Até três anos atrás, tinha pouco ou nenhum interesse em tentar se integrar às pessoas de seu convívio.

Mas agora era diferente, porque a Terra era seu lar, e o lar das pessoas com quem agora tinha laços bem estreitos.