O preço da Coroa
2 Entre Cristais e Espinhos
O Grande Salão do Castelo Mackenzie nunca parecera tão sufocante. Para o banquete de boas-vindas à família Vanderbit, Dhorwack ordenara que os lustres de cristal fossem polidos e os melhores vinhos trazidos das adegas, mas o ambiente continuava gélido.
O Rei estava sentado à cabeceira da longa mesa de carvalho. Ao seu lado direito, Carlos narrava histórias antigas com o entusiasmo de sempre, tentando preencher o silêncio austero do amigo.
Dhorwack, no entanto, mal escutava. Sua atenção estava fixada, quase contra sua vontade, na jovem sentada em frente ao pai.
Hadassa trocara o vestido de viagem por um traje de seda azul-profundo que realçava a alvura de sua pele. Seu cabelo loiro estava preso em um penteado sofisticado, revelando a linha do pescoço, e suas mãos, delicadas e pálidas, brincavam nervosamente com o talher de prata.
— ...e então, o Duque Norfolk jurou que o brasão seria redesenhado com uma rosa de Suffolk em homenagem a ela! — riu Carlos, referindo-se ao noivo de Hadassa.
O nome Norfolk atingiu os ouvidos de Dhorwack como um insulto. Ele serviu-se de mais vinho, sua expressão tornando-se ainda mais severa.
— Ele parece um homem muito... pragmático — observou Dhorwack, a voz ríspida, olhando diretamente para Hadassa. — Casamentos políticos exigem pragmatismo.
Hadassa levantou o olhar. Pela primeira vez naquela noite, não havia o sorriso educado que ela usara no pátio. Havia uma fagulha de desafio, misturada com uma melancolia profunda.
— E um rei sabe tudo sobre pragmatismo, não é, Majestade? — respondeu ela, a voz suave, mas firme. — Às vezes, as responsabilidades moldam os desejos, em vez do contrário.
O salão ficou em silêncio por um segundo. Carlos olhou de Dhorwack para a filha, surpreso com a audácia. Mas Dhorwack não se ofendeu. Pelo contrário. Ele sentiu uma pontada de fascínio. Ela não era apenas uma bela dama; havia fogo nela.
— De fato — assentiu Dhorwack, sem desviar o olhar do dela. — A coroa não deixa espaço para caprichos.
A tensão na mesa era palpável. O silêncio que se seguiu não era mais austero; era carregado de uma eletricidade perigosa. O resto do jantar foi uma sucessão de formalidades, mas os olhares furtivos entre o Rei e a filha do Conde disseram mais do que qualquer brinde.
O Jardim da Meia-Noite
Horas depois, Dhorwack procurou refúgio. O banquete terminara e os hóspedes haviam se recolhido. Ele andava pelo seu jardim privado, um labirinto de roseiras cultivadas com precisão matemática, cercado por muros altos de pedra.
Ele acreditava estar sozinho, até que viu uma figura parada perto do chafariz central.
Hadassa estava lá, envolta em uma capa escura sobre o vestido azul. Ela estava de costas para ele, observando o reflexo da lua na água.
Dhorwack parou. Seus instintos lhe diziam para se afastar, para não forçar a situação. Mas o desejo de falar com ela foi mais forte.
— A noite nas montanhas pode ser traiçoeira, Lady Hadassa — disse ele, aproximando-se lentamente. — Seus pais não lhe contaram que este jardim é um labirinto?
Hadassa não se assustou. Ela virou-se devagar, seus olhos absorvendo a luz do luar.
— Talvez eu prefira me perder — respondeu ela, com um sorriso triste. — Pelo menos, quando se está perdido, não se sabe para onde se está indo.
Dhorwack parou a poucos passos dela. O cheiro de rosas se misturava ao perfume dela, criando uma atmosfera inebriante.
— Você está prometida a um dos duques mais ricos do sul — disse ele, a voz baixa, quase um sussurro. — Muitos considerariam que seu destino é invejável, não incerto.
— O Duque Norfolk é um homem bom — disse ela, como quem repete uma lição decorada. — Ele será um marido respeitável. Mas às vezes eu me pergunto se ele sabe o que é... o que é sentir arder.
A palavra "arder" ecoou entre eles. Dhorwack sentiu seu coração martelar no peito. O Rei que nunca tremia estava trêmulo diante de uma garota de 19 anos. Ele queria tocar a mão dela, mas os muros invisíveis do protocolo e da lealdade a Carlos o mantinham à distância.
— Sentir arder pode ser perigoso, Hadassa — disse ele, usando o nome dela pela primeira vez sem o título. — Especialmente para pessoas como nós.
Ela o olhou nos olhos. O desafio do jantar desaparecera, dando lugar a uma vulnerabilidade crua.
— E o que acontece com um rei quando ele sente arder, Dhorwack? — perguntou ela, a voz falhando ligeiramente. — Ele ignora? Ou ele luta?
Ele queria responder. Ele queria dizer que, naquele momento, ele lutaria contra o mundo inteiro. Mas o silêncio foi sua resposta. Uma pétala de rosa vermelha caiu sobre a água do chafariz, quebrando o reflexo da lua. O tempo parou.
Dhorwack deu um passo à frente, e Hadassa não se moveu. Seus rostos estavam a centímetros de distância quando um som de passos apressados ecoou pelo corredor de pedra do castelo.
Eles se afastaram abruptamente, o feitiço quebrado.
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