As engrenagens de ferro do portão principal do Castelo Mackenzie rangeram, rompendo o silêncio habitual das montanhas. O som ecoou pelo pátio de pedra, anunciando que a espera de Dhorwack Mackenzie havia terminado.

​O Rei estava parado no topo da escadaria de mármore cinza. Sua postura era impecável, os ombros largos sustentando o peso de um manto escuro que parecia absorver a luz da tarde. Para os seus súditos, Dhorwack era uma estátua de autoridade; raramente sorria, e seus olhos eram duas fendas de observação constante.

​A carruagem com o brasão de Suffolk parou com um solavanco suave.

​— Ele chegou — murmurou Dhorwack para si mesmo, permitindo que o canto de sua boca esboçasse o que, para qualquer outra pessoa, seria um sorriso invisível, mas para ele era uma recepção calorosa.

​Carlos Vanderbit, o Conde de Suffolk, saltou antes mesmo que o lacaio terminasse de abrir a porta. Ele envelhecera bem; os cabelos levememente grisalhos nas têmporas apenas ressaltavam o ar de vivacidade que sempre possuiu. Logo atrás, Marissa desceu com a elegância de quem nasceu para as cortes, oferecendo a mão ao marido.

​— Meu velho amigo! — Carlos subiu os degraus dois a dois, quebrando o protocolo ao abraçar o Rei. — O tempo não foi capaz de curvar suas costas, Mackenzie. Continua firme como um carvalho.

​— Alguém precisa manter a ordem neste lado do mapa, Carlos — respondeu Dhorwack, retribuindo o aperto de mão com força. — Seja bem-vindo. Marissa, é uma honra tê-la aqui novamente.

​— A honra é nossa, Majestade — Marissa fez uma reverência perfeita. — Mas creio que há alguém que você não vê desde que era apenas uma criança de colo.

​Dhorwack desviou o olhar para a porta da carruagem. Foi então que ela apareceu.

​Hadassa desceu com uma leveza que parecia ignorar a gravidade. Aos 19 anos, ela possuía uma beleza que não era apenas física, mas uma presença que preenchia o espaço ao seu redor. Seus olhos brilhavam com a curiosidade de quem via o mundo pela primeira vez, e o vento da montanha brincava com as mechas de seu cabelo que escapavam do penteado.

​— Majestade — disse ela, aproximando-se e executando uma mesura graciosa. — É um privilégio conhecer o homem de quem meu pai tanto fala.

​Dhorwack, o homem que nunca hesitava diante de generais ou tratados de guerra, sentiu um nó estranho na garganta. O ar frio pareceu subitamente mais denso. Ele estendeu a mão para ajudá-la a se levantar, e o toque de seus dedos, ainda que breve, foi como uma faísca em palha seca.

​— O privilégio é meu, Lady Hadassa — a voz do Rei saiu mais grave do que o normal. — O Castelo Mackenzie nunca recebeu uma visita tão... encantadora.

​O silêncio que se seguiu foi quebrado por Carlos, que colocou a mão no ombro da filha com orgulho, sem notar o impacto que ela causara no amigo.

​— Ela está magnífica, não está? O Duque de Norfolk é um homem de sorte. O casamento será em três meses, Dhorwack. Por isso viemos; queremos que você seja nossa testemunha de honra antes que ela parta para as terras do sul.

​O termo "Duque" e a palavra "casamento" ecoaram como sentenças de tribunal. Dhorwack endureceu a expressão instantaneamente, retomando sua máscara de seriedade.

​— Norfolk... — repetiu o Rei, o nome amargo em sua língua. — Um compromisso importante, sem dúvida.

​Ele olhou para Hadassa uma última vez antes de gesticular para que entrassem. Ela sorriu — um sorriso doce, mas que carregava uma sombra de resignação que só um observador tão atento quanto Dhorwack poderia notar.

​Aquele seria um outono muito longo.