O preço de uma dívida
2 O preço de uma dívida! (II)
Notas iniciais
“Vou reerguer os meus castelos, ferro e martelo;
Reconquistar o que eu perdi;
Eu sei que vão tentar me destruir;
Mas vou me reconstruir;
Voltar mais forte que antes;
Quando a maldade aqui passou;
E a tristeza fez abrigo;
Luz lá do céu me visitou;
E fez morada em mim...”
Pesadão
Iza (part. Falcão)
Prefeitura de Starling (Sexta,18 de Junho de 1773- 18:20 p.m)
Narrador
...- Eu me ofereço em pagamento às dividas de meu pai em lugar de minha irmã ....
A declaração feita por Thomas ecoava na sala silenciosa.Pegos de surpresa, nenhum dos presentes pronunciara uma única palavra limitando-se a observar o jovem atentamente.
— Meu rapaz, tem alguma noção do teor dessa reunião? – Damien Darhk interroga, estreitando os olhos ao encarar o jovem.
— Meu pai contraiu uma dívida com os senhores Snow e Chase e não dispõe, no momento, da quantia necessária para realizar o pagamento. Ambos os credores exigem que um de seus filhos seja dado como escravo pelo período equivalente ao valor em questão – relata o rapaz, evitando olhar em direção ao pai.
— Suponho que esteja ciente das consequências de sua oferta – indaga o prefeito, entrelaçando os dedos ainda o observando.
— Sim senhor – Thomas afirma, aparentando uma calma que não sentia.
— Neste caso só resta-me perguntar aos senhores Chase e Snow se estão de acordo com a troca – diz, voltando-se para os dois homens.
— Nos dê um momento senhor prefeito – Snow pede, retirando-se com seu filho e Adrian Chase para um canto afastado dos demais a fim de decidirem o que fazer deixando todos em suspense.
Durante alguns minutos os dois homens parecem discutir, o jovem Charlie intervindo vez ou outra nãos escondendo sua irritação.
— Caso precisem de tempo para decidir, este conselho pode reunir-se novamente amanhã pela manhã – o prefeito Darhk informa, chamando atenção dos homens, que se entreolham.
— Não precisamos – Chase afirma, retornando a seu lugar em companhia de Snow e o filho – Estamos de acordo – diz, encarando Malcom — Mas, fazemos uma exigência: o rapaz deve usar algo, um sinal, de que nos pertence. Uma munhequera de couro com nossos brasões – exige.
— Miserável filho da...- Malcom rosna baixinho, cerrando os punhos.
— Não patrão, é exatamente isto que eles querem, fazer com que perca o controle – Harper alerta, apoiando a mão no ombro do empresário.
—Senhor Merlyn, algo a declarar? –Henry Allen pergunta encarando o empresário, Malcom negando com um gesto de cabeça – Muito bem. Delegado, poderia ver com o artesão a possibilidade de o artefato ser confeccionado? – interroga.
—Ainda hoje, se possível – Chase acresce – Queremos sair daqui com tudo resolvido, sem nenhuma aresta a ser aparada – afirma.
— Vou verificar junto ao artesão essa possibilidade enquanto calculam o tempo que o rapaz deverá servi-los – Lance avisa, olhando-o atravessado, encaminhando-se para a porta de saída da sala após fazer uma mesura ao presidente do conselho, sinalizando discretamente para as filhas o seguirem – Que diabos estão fazendo aqui? – pergunta mal saem do recinto, olhando-as zangado.
— Evitando que Thea se tornasse escrava do senhor Chase e do senhor Snow ou pior, tivesse que casar com o cretino filho deste – Sara diz, fazendo uma careta de nojo – Não poderíamos permitir que nossa amiga tivesse um destino tão cruel! – exclama a jovem.
— Não era justo – Laurel acrescenta, ela e a irmã estancando quando o pai o faz.
— E quanto a Thomas? É justo que tenha esse destino? – questiona, olhando de uma para outra.
— Evidente que não! – Laurel exclama, escandalizada – Por isso essa maldita lei já deveria ter sido extinta. Ninguém deveria ser dado a ninguém em pagamento por dívidas. Já passou da hora de os conselheiros, incluindo o senhor meu pai, votarem por retirarem este absurdo do seio de nossa comunidade– conclama pondo o dedo no peito do pai, o rosto ficando vermelho.
— Que munhequera é essa? Eles podem fazer este tipo de exigência? – Sara questiona tão furiosa quanto a irmã.
— Certo, já se meteram por demais em assuntos que não lhes dizem respeito. Vão para casa imediatamente e não saiam de lá até que eu chegue – ordena, irritado – Imediatamente! – reforça, erguendo a mão, calando o protesto que ensaiavam.
— Um dia as mulheres terão voz e muita coisa vai mudar neste país! –Laurel exclama, erguendo a saia e o queixo, caminhando para a saída, Sara logo atrás.
— Revolucionárias. Estou criando duas revolucionárias! – resmunga o delegado, balançando a cabeça negativamente, seguindo para a oficina no lado oposto da rua.
*** Malcom ***
Desolado, observo o conselho deliberar acercado futuro de meu filho, a sensação de impotência e raiva me invadindo ante a expressão cínica e triunfante de Adrian Chase, Dominique Snow ao seu lado massageando a barba enquanto o filho, visivelmente contrariado, fala algo em seu ouvido, vez ou outra apontando Thea, que se sentara no fundo da sala, cabisbaixa, junto com o filho de Allen e a namorada.
Instintivamente volto minha atenção para meu filho,que se encontrava sentado alguns passos a minha frente, cabeça erguida, o olhar perdido. As palavras duras que havia lhe dito mais cedo me vêem a mente e sinto como se um soco me atingisse o estomago causando uma dor aguda e sufocante.
Minutos atrás, quando Quentin Lance retornara trazendo o que Adrian Chase exigira, nossos olhares se cruzaram por alguns segundos antes que sentasse novamente. Ao contrário do que esperava, não foi raiva que vi neles, mas tristeza e magoa. Sua expressão alegre fora substituída por outra, fechada, carrancuda, o sorriso sempre tão presente apagara-se. Naquele momento, o jovem naquela sala em nada lembrava o irresponsável que por vezes me irritava e tirava a paciência…Mas que amo tanto quanto amo a mãe dele.
Num ímpeto, levanto-me decidido a dizer-lhe tudo isto, mas sou impedido pelo retorno dos membros do conselho. Um calafrio percorre minha espinha enquanto se organizam preparando-se para ler a sentença por eles decidida.
— Depois de avaliarmos minuciosamente o caso, de termos conferido os números trazidos pelos senhores Adrian Chase e Dominique Snow e termos feito os cálculos necessários, chegamos ao consenso que Thomas Merlyn deverá servir pelo período de dois anos a cada credor perfazendo um total de quatro anos – o prefeito anuncia e sinto o chão sob meus pés sumir obrigando-me apoiar na mureta de madeira a minha frente – O conselho também decidiu que o senhor Malcom Merlyn poderá a qualquer momento solicitar, devidamente munido do valor de sua dívida equivalente ao período restante de servidão, o encerramento da penalidade – prossegue – Cabe aos senhores organizarem-se a fim de disporem igualitariamente do tempo de serviço a ser prestado pelo jovem senhor Merlyn, bem como respeitar um período mínimo de descanso nunca inferior a duas horas diárias e folga semanal...
— Desde quando escravos têm direito a descanso e folga? – Charlie Snow questiona fazendo meu sangue ferver.
— Desde tratar-se de um igual que se tornará servo em pagamento a uma dívida – Hanry Allen rebate, olhando-o com censura – Tenho certeza de que seu pai está ciente deste fato meu rapaz – acrescenta, sinalizando para Quenti, este vindo até meu filho trazendo a munhequeira exigida por Chase.
— Estenda seu braço direito – ordena, Thomas o obedecendo – De hoje em diante deverá apresentar-se usando isto. Só deverá retirá-la dentro de sua casa...
— Casa? Ficara em casa? – o filho de Snow contesta novamente fazendo Darhk perder a paciência.
— Senhor Snow, se seu filho contestar mais alguma decisão deste conselho mandarei prendê-lo por desacato, fui claro? – pergunta, visivelmente irritado.
— Certamente senhor prefeito – anui o homem fazendo uma mesura exagerada — Peço desculpas por meu filho. Charlie é jovem e não entende de leis – defende-o.
— Jovem??? – ouço Barry Allen questionar de forma irônica obrigando quase todos conter o riso.
— Prosseguindo – Lance retoma em alta voz – Deverá retirá-la apenas no interior de sua casa para a qual retornara todos os dias ao cumprir as tarefas determinadas por seus senhores– finaliza, prendendo-a firmemente ao punho de meu filho – Entendeu tudo que expliquei filho? – questiona.
— Sim senhor – Thomas responde, estranhamente sereno.
— Ótimo – Lance declara, me dirigindo um olhar solidário antes de afastar-se.
— Este conselho alerta aos senhores para terem cuidado ao aplicar punições em caso de alguma falta cometida pelo rapaz durante o período que irá servi-los. Não iremos tolerar exageros e caso julguemos que o cometeram implicara na imediata suspensão do acordo hoje firmado e busca por nova forma de pagamento, está claro? – Darhk avisa, encarando-os.
— Claro como água cristalina senhor prefeito – Snow afirma.
— Contanto que o rapaz cumpra suas obrigações corretamente e não nos cause nenhum prejuízo– Chase condiciona, erguendo as mãos ....Cínico!
—Caso isto ocorra deverão procurar-nos e decidiremos que tipo de punição será aplicada ao rapaz– Damien ordena, me trazendo certa dose de alivio — Aproximem-se senhores – ordena – Leiam e assinem – orienta nos entregando o documento para confirmação do acordo.
Ao tê-lo em mãos, lendo-o, cogito a possibilidade de não assiná-lo, as várias consequências deste ato cruzando minha mente num flash.
— Pensando em desistir Merlyn? – a pergunta irônica faz-me erguer os olhos do documento, encarando o homem alguns passos a minha frente rindo cinicamente.
— Pense em sua esposa e no filho que espera – a voz de Joe West, dono do único jornal da cidade, soa junto a meu ouvido ao mesmo tempo em que o braço de Lance me impede sair do lugar – Além do mais isto só complicaria sua situação e em nada ajudaria a Thomas – pondera, me encarando.
— A melhor maneira de ajudar seu filho é mantendo-se calmo – Quentin aconselha.
Respiro fundo reconhecendo a verdade nas palavras de ambos, assinando o documento.
— Cópias lhes serão entregues em dez dias – informa Blood, guardando-os numa gaveta.
— Se não há mais nada a ser...Mas o que foi agora? – Darhk impacienta-se, batendo a mão sobre a mesa, olhando em direção a porta, fazendo-nos olhar naquela direção.
— As carruagens chegaram senhor – um jovem franzino avisa.
— Obrigado senhor Jones – agradece sinalizando para que saísse – Algo mais senhores?– questiona.
— Apenas uma questão, senhor prefeito: já posso dispor de meu escravo? – Snow pergunta e fecho os olhos sentindo uma pontada em meu peito.
— Sim – Darhk responde, seco.
— Excelente! Comigo rapaz, agora – ordena tocando o ombro de meu filho, que se volta a fim de segui-lo.
— Thomas – chamo, fazendo-o estancar e voltar-se para mim – Eu...
— Merlyn, rápido! – Snow ordena novamente e ele se vai sem olhar para trás.
— Ele me odeia. Perdi meu filho Joe – declaro sentindo a mão de meu amigo sobre o ombro – dirigindo um olhar triste a Thea, que se retirava com a mãe e os amigos – Meus dois filhos me odeiam – corrijo-me.
— Talvez agora, mas depois entenderão que não teve culpa– afirma, tentando tranqüilizar-me.
— Converse com seu filho Malcom, não espere as coisas piorarem para tentar se reaproximar dele – Damien aconselha parando a minha frente – E não se preocupe, estaremos de olho neles – assegura, indicando Chase, que também se retirava do recinto.
— Também estarei – garanto, seguindo-o com o olhar – Mas sinto que Adrian Chase irá dificultar a vida de meu filho. Muito.
*** Narrador ***
— Até que enfim! Já estava com meu traseiro dolorido de tanto ficar sentada nessa joça! – Felicity exclama assim que desce da carruagem ajudada pelo marido.
— Sempre espirituosa não é querida? – Oliver brinca, beijando-lhe a mão.
— Não foi exatamente por isso que se apaixonou por mim querido? – devolve, dirigindo-lhe um sorriso cúmplice.
— Certamente que sim....Além de otras cositas mas!! – insinua o rapaz, um brilho malicioso no olhar, beijando sua mão desta vez demoradamente.
— Me gusta cuando hablas Espanhol! – Felicity declara, aproximando-se mais um do outro quase colando seus corpos.
— Devo lembrá-los de que seu casamento ainda não é de conhecimento público? – Robert Queen questiona parando ao lado do casal enquanto descalça as luvas – Devo? – reitera, olhando-os de soslaio, rindo com o canto da boca ao vê-los afastarem-se com relutância – Crianças! – exclama.
— Meu bebê!! – a voz de Donna Smoak soa alta através da praça fazendo Felicity empurrar Oliver, quase o derrubando, o rosto vermelho tanto pelo uso de força exagerada contra o marido quanto pela expressão usada pela mãe – Meu bebê! – repete a loira vestida com roupas sexys, tomando-a em seus braços antes que pudesse evitar, apertando-a forte – Nunca mais deixarei que passe tanto tempo longe de mim! Estava quase morrendo de tanta saudade – exagera, apertando-a mais.
— Mãe, por favor, não faça cena! – pede a jovem, ainda mais sem graça – E faça o favor de me soltar. Todos estão reparando em nós – diz tentando libertar-se.
— Que olhem, não devo nada a ninguém – diz a mulher, soltando-a lentamente – E se estão nos olhando é pura inveja porque tenho a filha mais linda de toda Starling e redondezas! – declara aumentando a voz.
— Mãe! Pare! – Felicity pede, ficando ainda mais vermelha ao escutar o riso de Oliver, voltando-se para ele furiosa.
— Tenho que concordar senhora Smoak. Sua filha é a mais linda jovem de toda Starling...E que não está mais disponível –anui o rapaz, inclinando levemente a cabeça antes terminar a frase, sua atenção sendo chamada para o grupo que se aproximava – Speedy! – exclama, abrindo os braços, sorridente, a garota correndo a seu encontro, abraçando-o aos prantos – O que aconteceu? Por que está chorando? – pergunta o riso morrendo em seus lábios ao erguer os olhos contemplando o grupo que estancara ao lado de sua mãe, a exceção de Thomas.
— Moira? – Robert indaga, segurando as mãos que lhe estendia.
— Aconteceu uma tragédia – declara a mulher, mas antes que possa dizer algo, a voz de Carla Snow sobressai.
— Minha princesa! Minha pequena princesa – declara, estendendo os braços para a jovem que acabara de saltar da carruagem – Deus, como está linda! – elogia, mantendo os braços esticados, as mãos da garota nas suas – Veja Don, como nossa filha está linda! – chama o marido, que para ao seu lado.
— Muito linda mesmo. Como está meu anjo? Fez boa viagem? – quer saber o banqueiro, beijando-lhe a testa.
— Fiz sim senhor – responde a jovem, sorrindo discretamente, corando ante os olhares a ela dirigidos.
— Bom, muito bom – diz, voltando-se para Thomas – Pegue as malas e leve-as até nossa casa – ordena, estalando os dedos, dando atenção a garota novamente – Suas malas já desceram princesa? – quer saber, não esperando resposta – Cocheiro, entregue ao rapaz a bagagem de minha filha – ordena, envolvendo os ombros da jovem – Tenha cuidado para não esquecer, quebrar ou danificar nada Merlyn – recomenda rudemente, conduzindo a filha para casa, a esposa seguindo-o, ambas com expressões confusas.
— Sim senhor – Thomas responde entre dentes, cumprimentando o amigo com um gesto de cabeça ao passar por este, aproximando-se da carruagem, recebendo a bagagem da jovem, organizando-a sob o olhar atento de Adrian Chase, que se posicionara entre ele e os demais.
— Ouviu o que seu senhor ordenou. Tenha cuidado para não danificar nada – repete, rindo cinicamente, ficando de lado para lhe dar passagem.
— Que diabo está acontecendo aqui? Por que Tommy está carregando as malas da filha do Snow? E por que esse cretino está rindo? – Oliver esbraveja impelindo-se em direção ao homem, Thea o segurando.
— Não Ollie, não faça nada ou podem descontar no Tommy – implora a garota, continuando a chorar abraçada ao irmão.
— Faço minhas as palavras de meu filho: que diabo está acontecendo? – Robert repete, observando Malcom se retirar discretamente, cabisbaixo – O que há com o Merlyn? – pergunta, voltando o rosto para a esposa.
— Melhor irmos até sua casa, sentarmos e então explicamos tudo meu amigo – Joe West sugere.
— Certo – anui o empresário, cuidadoso, sinalizando para o filho e a nora aguardarem, ambos anuindo com um aceno de cabeça.
— Cuidarei de suas bagagens senhor Queen, Oliver – Barry se oferece.
—Obrigado meu rapaz, mas creio que nosso mordomo já esteja a caminho – Robert agradece, envolvendo os ombros da esposa.
— Martin, por favor, cuide da bagagem de meu marido e filho – Moira Queen ordena, seguindo abraçada ao marido, os filhos os seguindo após leve hesitação por parte de Oliver.
—Você não vem Lance? – West questiona, encarando-o.
— Não, vão vocês. Quero certificar-me que nenhum acidente irá prejudicar ou dificultar a tarefa do jovem Merlyn – insinua, apoiando-se a carruagem.
—Está insinuando que faria algo do gênero delegado? Estou ofendido! – Adrian Chase afirma espalmando uma mão sobre o peito, rindo sarcasticamente, começando a caminhar em direção ao saloon – O convidaria para um drink em comemoração, mas acredito que não irá querer celebrar não é mesmo? – provoca, acenado antes de dar-lhe as costas.
— Esse cretino vai aprontar para o rapaz, tenho certeza – Quentin declara, se voltando para o prefeito, que observava a tudo atentamente.
— Estou contando que faça isto meu caro Quentin — revela, misterioso, seguindo o comerciante com o olhar – Estou contando com isto.
*** Residência dos Snow ***
Caitlin
— Então o jovem Thomas, filho do Merlyn, será nosso escravo de agora em diante como pagamento pela dívida do pai? – mamãe pergunta, chocando-me com sua reação esfuziante ante a confirmação de meu pai – Mas que maravilha!! – exclama, sorridente, voltando-se, como todos nós, em direção a porta de entrada de casa ao escutá-la ser aberta – Em cima, no final do corredor, segundo quarto a direita. Coloque tudo no canto para não atrapalhar a passagem – ordena, o rapaz assentindo com um meneio de cabeça, subindo as escadas com quatro de minhas malas em silencio – Que coisa maravilhosa, meu amor. Confesso que me surpreendeu. Não esperava que tivesse coragem de tomar alguma atitude contra Malcom Merlyn– diz, a resposta de meu pai deixando-me ainda mais chocada.
-Precisava receber, não importava como e não iria tolerar mais desculpas por parte dele – afirma, minha mãe abraçando-o e beijando-o– É certo que Adrian também terá direito, mas ainda assim dois anos é um bom tempo não concorda minha rainha?
— Chase também terá direito a ele? – mamãe pergunta, soltando papai, voltando-se ao ver o rapaz sair de casa – Por quanto tempo?
— Os mesmos dois anos, muito embora a divida do Merlyn para com ele seja infimamente maior – meu pai informa indo até a mesinha no canto da sala, servindo-se de uma bebida – Marcarei uma reunião com ele para dividirmos o período de serviço, dias, semanas, igualitariamente. Não quero que aquele velhaco se aproveite do fato de Merlyn dever-lhe alguns dólares a mais para tirar vantagem e ter mais tempo que nós.
— Ah, isto não permitiremos de forma alguma! – mamãe exclama irritada — O rapaz terá que nos servir por períodos idênticos. Nem pense em abrir mão disto meu marido– mamãe protesta e não consigo mais ouvir em silencio.
—Estão falando da vida de uma pessoa, de sua liberdade! – protesto, encarando-os, incrédula — Como podem discutir isto como se estivessem a decidir comprar ou não um móvel novo? – revolto-me, notando minhas irmãs e irmão recuarem um passo ante a aproximação de nossa mãe, que para alguns passos de mim, erguendo a mão, acertando uma bofetada forte em meu rosto.
— Como se atreve a falar com seus pais desta maneira? Suba já para seu quarto e só saia de lá quando e se a chamarmos está entendendo? – ordena furiosa.
— Sim senhora – respondo estática, pondo a mão sobre o local atingido, as lágrimas caindo sem que possa controlar.
— O que está esperando? Suba – repete asperamente fazendo-me girar nos calcanhares.
Subo as escadas correndo, parando apenas ao chegar a meu quarto, atirando-me sobre o colchão, entregando-me a um choro compulsivo.
— Ponha-as no canto – ouço minha mãe dizer minutos depois e levanto a cabeça vendo-a parada em meio a porta, o rapaz moreno entrando com duas malas, pondo-as sobre as demais – Quantas ainda faltam? – pergunta.
— Uma mala e o baú – responde ele, a voz grave me causando uma sensação estranha no estomago.
— Busque-as e depois apresente-se a meu marido para receber as ordens referentes ao dia de amanhã – mamãe avisa, completando antes que saísse – E da próxima vez que lhe perguntar algo não esqueça de responder da forma correta: Senhora – frisa, ele limitando-se anuir com um aceno – Tem certeza de que entendeu? – questiona, fazendo-o estancar.
—Sim...Senhora – responde, saindo, retornando minutos depois com minha ultima mala, se retirando mais uma vez para retornar segundos depois com o baú.
— Apresente-se a meu marido, seu senhor, na sala – mamãe relembra, indicando onde deveria pô-lo — E quando chegar amanhã pela manhã, dirija-se aos fundos da casa– ordena.
—Sim senhora – ele anui, agachando-se no canto, posicionando o baú no local que ela indicara, nossos olhares cruzando rapidamente quando se ergue para sair e retenho o ar ante a intensidade do mesmo, acompanhando-o com o olhar até que sumisse de vista.
— Mandarei uma criada vir ajudá-la. Recomponha-se e desça para o jantar – mamãe ordena, adocicando a voz ao falar novamente – Entenda Caitlin, não posso permitir que desacate seu pai ou a mim em frente à criadagem – justifica-se – Agora enxugue essas lágrimas. Hoje é dia de comemorarmos! Acho até que vou alterar o cardápio que tinha preparado – devaneia, fechando a porta ao sair, me deixando horrorizada com sua atitude.
— Não reconheço mais minha própria família – lamento, sentando sobre o colchão, enxugando meu rosto com o dorso da mão enquanto olho a volta contrariada.
*** Thomas ***
Saio da residência dos Snow após receber as ordens do dono da casa...
— Meu senhor – repito entre dentes enquanto rumo para o saloon.
Precisava beber algo urgentemente a fim conseguir digerir tudo que havia acontecido nas últimas horas. De um momento para outro descobri que tenho uma irmã e perdi minha liberdade de uma forma como jamais imaginei.
Entro no estabelecimento escolhendo a mesa mais escondida do local para sentar-me. Não estava com vontade de conversar.
—Thomas, como está? – Eddie Thawne, um dos primeiros com quem fiz amizade ao mudarmos para Starling, pergunta, apoiando as mãos sobre a mesa – Soube do que aconteceu na prefeitura.
—Acho que a cidade inteira já deve estar sabendo – resmungo, olhando de lado, só então notando a presença de Barry Allen no balcão me observando com cara de cachorro que caiu da mudança – Allen te contou? – interrogo.
— A mim sim – confirma, respirando fundo antes de falar novamente — Quanto ao resto da cidade, o digníssimo senhor Chase se encarregou de espalhar a novidade quando esteve aqui comemorando – Eddie informa, cuspindo as palavras.
Eddie Thawne era uma espécie de párea na cidade. Filho de pai inglês e mãe índia nativa, herdara a aparência européia deste e o sangue quente do lado materno. Sempre em conflito com seus dois mundos, optara por construir seu próprio, afastando-se tanto da mãe quanto do pai.Escolhera morar sozinho e trabalhar a fim de garantir o próprio sustento antes mesmo de atingir a maioridade não dependendo do dinheiro paterno para sobreviver. É de longe a pessoa mais forte e decidida que conheço.
—Honestamente, não sei como conseguirá suportar aquele homem por tanto tempo, meu amigo – pondera, massageando a barba por fazer.
—Não vai precisar suportá-lo. Tenho certeza que o senhor Merlyn irá dá um jeito de pagar toda a dívida antes.... – Barry começa dizer, mas o interrompo.
—Se fosse fazê-lo Barry, já o teria não acha? – rosno, não escondendo minha irritação com a situação na qual fora forçado a me colocar.
—Desculpe senhor Thomas, mas o senhor Merlyn não pagou as dívidas porque foi roubado — Harper, empregado de meu pai assegura, se aproximando com cuidado, diminuindo o tom da voz antes de continuar a falar – Infelizmente não posso provar, mas suspeito que o senhor Chase tenha sido o responsável tanto pelo roubo quanto pelo incêndio que destruiu toda a empresa – confidência.
— Por que pensa isso Harper? – questiono, indicando a cadeira a sua frente, fazendo o mesmo com Barry – Eddie, traga cerveja, por favor – peço, ele afastando-se para buscar meu pedido– Então, por que pensa isso? – repito.
—Não apenas eu, mas o senhor seu pai compartilha essa suspeita, senhor Thomas – explica, calando-se ao notar a chegada de Oliver – Boa noite senhor Queen – cumprimenta.
—Oliver, Harper, me chame apenas de Oliver, ou senhor Oliver como preferir, mas não senhor Queen. Este é meu pai – ordena meu amigo, puxando uma cadeira – Qual dos senhores me explicara como foi que essa catástrofe aconteceu? – pergunta, apontando de mim para Eddie, que retornava trazendo uma jarra de cerveja e algumas canecas, passando por Harper e Barry.
—A verdade é que nem mesmo meu patrão conseguiria responder essa pergunta senhor Q. – Harper responde, encontrando uma alternativa para não irritar meu amigo – Como dizia ao senhor Thomas, não fosse o roubo essa dívida não existiria.
—Me explique como você acabou se oferecendo em lugar de Thea – Oliver pede voltando-se para mim – E não se preocupe em lavar a roupa suja, já fizemos isto em casa – avisa, tomando um generoso gole de cerveja – Ou parte dela.
—Certa senhorita Lance é responsável por isto, em parte – revelo, a bendita munhequera lembrando-me do compromisso assumido – Estava em casa, de ressaca – admito, pela primeira vez o fato me incomodando – Quando fui gentilmente despertado com o balde de água gelada despejado sobre mim pela gentil senhorita Sara Lance, esta me pondo parcialmente a par do que acontecia na prefeitura além de me contar a novidade sobre meu parentesco com sua irmã, este confirmado por minha mãe – prossigo, parando para beber um gole de cerveja – Depois disso o senhor Harper aqui me pôs a par do restante enquanto nos dirigíamos a prefeitura. Invadimos a reunião do conselho.... Suponho que a senhora Queen e Thea já o tenham posto a par do restante da história – concluo, brincando com a caneca antes de enchê-la novamente.
Durante algum tempo nenhum de nós diz nada. Apenas bebemos e observamos o movimento, Oliver sendo o primeiro a quebrar o silêncio.
—Deve haver alguma maneira de revertermos essa situação – declara, o cenho franzido.
—há: provarmos que Chase foi o responsável por ambos, incêndio e roubo – Eddie afirma.
— O X da questão é que não há como provar, especialmente após tanto temo ter-se passado – Harper pondera – As provas, se é que existiam, já devem ter-se perdido – diz, respirando fundo – E a não ser que ele confesse, dificilmente conseguiremos culpá-lo de alguma coisa.
—O que certamente não irá acontecer – presumo, apertando meus lábios para conter o riso ao ver Ray Palmer tropeçar ao adentrando o saloon, arqueando uma sobrancelha ao notar os demais segurarem e afastarem suas canecas enquanto Eddie suspendia a jarra de cerveja no ar.
— Ah, ai estão vocês! – exclama, vindo até nós — Boa noite senhores –cumprimenta-nos, tropeçado mais uma vez, chocando-se com a mesa fazendo a cerveja em minha caneca transbordar.
—Entendi! – exclamo, afastando a cadeira, sacudindo minhas mãos, vendo-os rirem.
— Que desastrado! Desculpe-me Thomas – pede, rindo sem graça.
—Tudo bem Raymond – digo, aceitando a flanela que Eddie me entregava.
—O que o traz por aqui jovem senhor Palmer? — Eddie pergunta de maneira pomposa recebendo a flanela de volta, pondo-a sobre o ombro direito – Não costuma vir em nosso estabelecimento sem a companhia do senhor seu pai – acrescenta.
—Já disse o quanto detesto quando me chamam jovem senhor Palmer? – Raymond questiona fazendo uma careta gozada.
—Algumas vezes – meu amigo devolve cruzando os braços, encarando-o – Como devo chamá-lo então?
—Raymond – responde – Ou Ray – corrige-se – Pensando bem não quero lhe causar problemas, portanto pode pôr o senhor na frente de um dos dois, mas jovem senhor Palmer não, ok? – pede, falando de um só fôlego, Eddie dando de ombros.
—Agora que resolveram essa questão, que assunto o traz aqui Palmer? – Oliver reitera, rindo divertido.
—Fui meio que, por assim dizer, arrastado e obrigado a entrar, não que seja um lugar ruim, longe disso! Adoro a cerveja de vocês! Tem um gosto diferente das....
—Palmer! – Oliver chama sua atenção, estalando os dedos – Agilize.
—Sim, certo ...Como dizia, fui arrastado e obrigado, de certa forma, entrar a procura dos senhores pelas senhoritas Lance, Queen e a senhora Queen lá fora – explica, indicando a entrada do local com um gesto de cabeça.
-Minha mãe está aqui?? – Oliver indaga surpreso.
— Não a senhora Queen...A Sua senhora Queen – retifica Palmer nos deixando confusos – Sua Senhora Queen, Oliver. ..Pelo menos foi isso que ela me disse para dizer depois que a senhorita Lance, a mais nova, ameaçou chutar minha canela, aliás sua irmã fez a mesma ameaça e....
—Ray, em algum momento vai dizer algo que chegue perto de fazer sentido? – questiono, o riso morrendo em meus lábios ao olhar em direção a porta de entrada ao mesmo tempo em que uma sonora ovação de assobios se faz ouvir no ambiente – Que diabo ela pensa estar fazendo? – praguejo, empertigando-me.
—Quem?? – Oliver, Barry e Harper perguntam juntos seguindo meu olhar.
—Por acaso esqueceram-se de quem sou filha? Se for este o caso posso lembrá-los assim! – a bela loira de olhos esverdeados diz, estalando os dedos, fazendo os homens silenciarem quase que imediatamente – Assim está melhor – afirma, voltando sua atenção para nós.
—Senhorita Lance, juro que se fosse um homem convenceria o senhor Dash a contratá-la como leão de chácara! – Eddie brinca fazendo uma leve mesura quando ela se aproxima.
—Fosse eu um homem, senhor Thawne, não precisaria me preocupar em ser molestada só por ter entrado – rebate, estreitando os olhos em minha direção – Thomas, poderia sair, por favor? Precisamos conversar – pede, apertando as mãos.
—Estava explicando ser este o motivo de minha vinda senhorita – Ray afirma, encolhendo-se quando ela se volta para ele.
—Demorou todo este tempo só para dizer quatro palavras senhor Palmer? – questiona, não o esperando responder – Esqueça. Thomas vai sair ou não? – insiste.
—Se não o fizer além de todos os problemas que já tenho certamente terei que enfrentar mais um...Então... – digo, abrindo os braços, levantando ao mesmo tempo em que deixo o pagamento da bebida sobre a mesa.
—Como assim mais um problema? –inquire ela enrugando a testa.
—A fúria do senhor seu pai por fazê-la entrar aqui — esclareço, indicando a saída com um gesto de mão – Vamos – convido, tocando o ombro de Eddie ao passar.
—Cuide-se Thomas – aconselha, recolhendo o pagamento junto com as canecas e a jarra e levanto o polegar para ele, caminhando junto com os demais para a saída.
Do lado de fora, Sara nos indica o pequeno grupo formado por sua irmã, Laurel, Felicity Smoak, filha de Donna Smoak, proprietária da casa mais animada da cidade (não preciso dizer qual,preciso?), Íris West, filha do proprietário do jornal local e membro do conselho Joe West, namorada de Barry Allen, e a irmã de Oliver, Thea, da qual descobri também ser irmão, que corre a nosso encontro, pulando em meu pescoço sem cerimônia, chorando.
—Thea , por favor, não chore, está tudo bem – peço, dirigindo um pedido de ajuda mudo a Oliver.
—Não há o que fazer além de esperar que se acalme Tommy – diz, fazendo uma careta ao receber um beliscão de Felicity Smoak – Me dêem licença – pede, afastando-se com ela.
—O que há entre esses dois? – Íris questiona, enlaçando o braço ao de Barry.
—Nada demais...Só casaram! – Laurel revela, dando de ombros.
—Como é? Oliver e Felicity casaram-se? – espanto-me, afagando o rosto de Thea, que finalmente se acalmava – Melhor? – pergunto, conduzindo-a a um dos bancos, fazendo com que sentasse. Faço o mesmo, os demais permanecendo de pé a nossa volta.
—Não, mas o que posso fazer? – questiona, aceitando o lenço que Raymond oferecia – Não é justo ter que servir aqueles dois homens horríveis Tommy! – choraminga recostando a cabeça em meu ombro, fungando.
—Não seria justo permitir que você o fizesse ou que o filho de Snow te desposasse – corrijo-a, tocando a ponta de seu nariz com o dedo – Jamais me perdoaria se não tivesse chegado a tempo de impedi-los – afirmo, dirigindo meu olhar para Sara – Obrigado Sara.
—Não me agradeça. Se soubesse o quanto estou sentindo-me culpada por tê-lo feito ir até aquela maldita reunião! – exclama, cerrando os punhos – Não é justo nenhum dos dois pagar pelos erros, ou seja, lá o que tenha acontecido, que deixou seu pai a nesta situação delicada– corrige-se calando o protesto de Harper ao erguer a mão.
—Não é justo que uma lei tão arcaica ainda seja respeitada, isso sim!- Laurel esbraveja – O conselho deveria tê-la abolido anos atrás. É errado permitir que alguém possa ser obrigado a passar por esse tipo situação – protesta.
—Sabem o que mais é errado? – a pergunta nos pega de surpresa e nos voltamos para o recém chegado — Jovens senhoritas solteiras praça pública a essa hora da noite em companhia de rapazes igualmente solteiros sem a presença de pais ou pessoas mais velhas – discursa o delegado Lance, braços cruzados, olhando-nos com censura – O que fazem fora de casa a esta hora? – questiona.
—Quem o escuta falar pensa que estávamos fazendo algo errado pai...senhor meu pai – Sara reclama, corrigindo-se rapidamente.
—Sei bem que não estão, mas as pessoas falam minha filha, e raramente dizem algo de bom – admoesta – Melhor irem para suas casas. Amanhã será um longo e estressante dia e enfrentá-lo após uma noite mal dormida não irá facilitar as coisas– aconselha.
—Faremos isto delegado – Oliver se adianta, retornando com Felicity – Tommy, faria o favor de acompanhar Thea até em casa? Preciso acompanhar minha esp...a senhorita Smoak até sua casa – pede, enrolando-se.
—O farei, fique tranquilo – garanto, levantando, ajudando Thea a fazer o mesmo.
—Thomas ..– Sara se aproxima, segurando minha mão.
—Tranqüilize-se senhorita Lance, agiu corretamente ao me avisar e ficarei igualmente bem – minto, beijando-lhe a mão – Vamos irmãzinha? – brinco, arrancando um sorriso tímido – Boa noite delegado, senhoritas – despeço-me, apertando as mãos de Raymond, Barry e Harper – Outro dia conversamos mais sobre aquele assunto – sugiro, o empregado de meu pai anuindo.
—Certamente senhor Thomas. Boa noite senhoritas, delegado, senhores Palmer e Allen, senhor Q., senhora – despede-se, fazendo uma mesura em direção a Felicity, encaminhando-se para sua casa.
—Espere Harper, vamos com você – Barry pede, ele e Íris despedindo-se de todos como Harper fizera, acompanhando-o.
—Iremos todos juntos, afinal vamos para o mesmo lado– o delegado relembra, oferecendo os braços as filhas.
—Posso ir com vocês? – Ray pergunta, sem graça.
—Deve – Sara adianta-se, enlaçando seu braço ao dele, fazendo-o ficar vermelho – Vamos indo? – convida e seguimos em grupo até a residência da família Queen.
Após Thea haver entrado em casa, me despeço dos demais fazendo o caminho de volta para a minha própria, pensativo.
Quando passo em frente à residência dos Snow, o movimento vindo do andar superior chama minha atenção e estanco erguendo, por instinto, os olhos em direção a origem do mesmo visualizando a figura delicada parada junto à janela escovando o cabelo, distraída, a luz deixando transparecer suas curvas através do tecido diáfano de sua roupa de dormir.
Mesmo sabendo ser errado, não consigo desviar o olhar, encantado com a visão noturna.
Retenho o ar nos pulmões quando se volta repentinamente me pegando em flagra, preparando-me para o grito...que não vem. Para meu espanto (e deleite!), aproxima-se um pouco mais segurando a cortina, me encarando por longos segundos antes de puxá-la, devagar, ocultando-se, quebrando a magia. Porém, mesmo sem vê-la, sei que ainda estava lá, me observando.
—Vá para casa Tommy, vá para casa! – aconselho a mim mesmo sacudindo a cabeça, dando-lhe as costas, retomando o caminho de casa a passos largos.
“...E me fez lutar para vencer;
Me levantar e assim crescer;
Punhos cerrados, olhos fechados...”

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