O preço de uma dívida
3 Servidão: primeiros dias (I)
Notas iniciais
Residência Merlyn (sábado, 19 de Junho 1773 – 05:00 a.m)
"O que há dentro do meu coração;
Eu tenho guardado pra te dar;
E todas as horas que o tempo tem pra me conceder;
São tuas até morrer..."
Um Amor Puro
Djavan
Narrador
‘Thomas? Acorde filho!’ – Rebecca Merlyn chama batendo a porta do quarto do filho.
—Já estou acordado mãe. Desço em alguns minutos – Thomas avisa, deitado em sua cama apoiando a cabeça sobre os braços dobrados, escutando a mãe responde um “certo” abafado presumindo, pelo tom da voz, que ela estava chorando.
O rapaz suspira profundamente, recriminando-se mentalmente por, ao invés de estar preocupado com a mãe e com o que lhe aconteceria a partir deste dia, sua mente insistia em trazer-lhe a memória a visão noturna.
-Preocupe-se com o que irá enfrentar estando nas mãos do digníssimo senhor Chase e dos não menos digníssimos senhor e senhora Snow, não em procurar mais confusão encantando-se com a filha mais nova do referido casal! – admoesta-se, sentando sobre o colchão de um salto – Ao menos não terei que dormir em outro lugar – alegra-se, levantando, indo até a banheira rústica, enchendo-a com a água que deixara previamente reservada em um balde na noite anterior.
Chegara pouco depois da meia-noite encontrando o pai a sua espera. Este fizera questão de recontar-lhe tudo que Harper já havia lhe dito, repetindo suas suspeitas acerca do roubo (coincidentemente acontecido após uma visita de Adrian Chase), assegurando que não pouparia esforços para encontrar uma maneira de livra-lo da punição determinada pelo conselho.
—Acertei hoje um contrato o qual me permitirá juntar capital suficiente para tentar renegociar meu débito com ao menos um deles – avisara o empresário ao filho, ao que o jovem respondera que não deixasse de honrar os pagamentos de fornecedores e empregados tampouco fizesse com que a mãe e o primo passassem dificuldades e para não se preocupar pois daria conta de qualquer coisa que ambos, Chase e Snow, lhe impusessem (o que duvidava imensamente, mas não admitiria em alta voz diante dos pais em hipótese alguma!).
—Só preciso me manter longe de confusão, ser paciente, resignado, obediente... Simples assim! – ironiza para si mesmo entrando na banheira, a lembrança da jovem lhe vindo à mente novamente – Não é uma boa maneira de evitar encrenca ficar pensando nela Tommy, não mesmo – repreende-se respirando fundo, esfregando o corpo mais vigorosamente – Mas que ela é bonita como o diabo isto é! Uma verdadeira tentação com a qual terei que aprender a lidar e rápido – diz, concentrando-se em terminar de banhar-se.
Após vestir-se e colocar a munhequeira, desce as escadas ao encontro da família que o aguardava a mesa.
—Bom dia senhor meu pai, bom dia mãe – cumprimenta, beijando a mão de ambos, desarrumando o cabelo do primo ao passar pelo garoto, sentando-se para tomar o desjejum
—Bom dia filho – ambos respondem, passando a tomarem o desjejum em silencio, nenhum deles querendo falar sobre o período de servidão que o jovem passaria a enfrentar.
—Terminei minha refeição, se me permite, senhor meu pai, devo me retirar para a residência do senhor Snow – Thomas pede após alguns minutos.
—Pode ir filho – Malcom responde — E Thomas, tenha cuidado. Não confie em ninguém na casa ds Snow – recomenda, o jovem anuindo.
— Sim senhor. Os vejo a noite – despede-se, dando mais um beijo no rosto da mãe antes de retirar-se.
—Não se preocupe minha querida, nosso filho é mais forte do que aparenta. Saberá lidar com essa situação. Além disso, estarei de olho em Snow e Chase. Se fizerem algo irregular informarei o conselho imediatamente – Malcom assegura tentando tranquilizar a esposa ao vê-la enxugar uma lágrima com o guardanapo – Temos que ser fortes para que ele se fortaleça também – pede, segurando a mão da mulher.
—Sei disso senhor meu marido – anui ela, olhando-o com carinho — Mas não sei se suportarei ver nosso filho sendo maltratado por qualquer um deles, especialmente Adrian Chase. Aquele homem horrível certamente irá pensar em alguma forma de humilhar ou maltratar Thomas apenas para nos atingir – cogita levando uma mão a barriga, acariciando-a.
—Se o fizer ira arrepender-se pelo resto de sua miserável vida — ameaça o empresário, cerrando os punhos.
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Residência Snow (05:57 a.m)
Tommy
Paro a frente da residência dos Snow observando a fachada mais uma vez. Sem que possa controlar, ergo os olhos em busca da janela onde a vira ao retornar para casa de madrugada... Ela mexe com você Tommy e quanto mais cedo admitir isto melhor pois poderá montar suas defensas e impedir que entre em seu coração – pondero, respirando fundo, caminhando lentamente pela lateral da casa até chegar ao quintal, parando no batente junto a porta da cozinha. Subo um degrau, dou uma leve batida mesma descendo, aguardando até que seja aberta por ninguém menos do que a responsável por atormentar meus pensamentos…Diabos! Desde para que uma garota na posição dela precisa acordar tão cedo?
—Bom dia senhorita. Poderia avisar ao senhor seu pai que estou à espera de suas ordens? – peço, notando duas cabeças curiosas surgirem por detrás de seus ombros – Senhoritas – cumprimento-as fazendo uma leve reverência.
—Meus pais ainda dormem senhor Thomas – comunica, a voz doce provocando um arrepio – Não quer entrar para espera-los? Pode ser que demorem acordar – sugere com um sorriso doce, abrindo a porta telada que nos separava, seu perfume doce invadindo minhas narinas fazendo com que o arrepio se espalhe por meu corpo inteiro.
—Melhor não – digo finalmente, saindo do transe que me tomara – Aguardo aqui fora mesmo, obrigado – agradeço, sorrindo, sentindo uma satisfação imensa ao vê-la ruborizar – Estarei sentado logo ali – aponto um tronco embaixo de uma arvore a alguns metros da porta da cozinha, fazendo outra reverência antes de me virar e caminhar até o local, sentando-me no aguardo das ordens de meu “senhor”.
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"...E a tua historia eu não sei;
Mas me diga só o que for bom;
Um amor tão puro que nem sabe a força que tem;
É teu e de mais ninguém.."
Caitlin
Por mais que tentasse não conseguia desviar os olhos do homem sentado à sombra da macieira em nosso quintal.
Quando acordei esta manhã (no horário em que costumava fazê-lo no colégio interno), repeti para mim mesma diante do espelho em meu quarto após banhar-me, que toda aquela situação ridícula de escarvo, a conversa entre meus pais, tudo não passara de um devaneio, um engano, qualquer coisa menos verdade.
Não consigo conceber escravidão de espécie alguma. Homem escravizando homem era algo que horrorizava-me por demais, especialmente devido aos maus tratos impingidos por senhores prepotentes, soberbos e pensar que minha família iria participar de tal aberração me entristecia deveras.
No entanto, ali estava ele, “o escravo da família”, aguardando para executar as ordens de seus senhores sem nada receber em troca, nem mesmo um agradecimento, ainda por cima correndo o risco de ser castigado fisicamente (o mais comum de acontecer) caso fizesse algo de errado ou seus senhores julgassem que lhes causou algum prejuízo. O simples fato de meus pais pensarem em castigá-lo me causava náuseas.
—Menina Caitlin, não é uma boa ideia interessar-se por este rapaz – nossa governanta afirma, chamando minha atenção, fazendo-me desviar os olhos para ela – Mesmo antes de toda esta situação com seus pais e o senhor Chase já não o era. O jovem Merlyn é inquieto, um tanto farrista, não leva nada a sério – alerta, me encarando enquanto sova a massa para fazer pão.
—Pode até ser tudo que disse senhora Gertrudes, mas que é lindo como o diabo, ah é! – Adissa, minha dama de companhia, exclama, suspirando juntamente com Nora, dama de companhia de Liv, minha irmã do meio.
—Só que não é para o bico de nenhuma das duas! – Sandra, ajudante da senhora Gertrudes, exclama — Independente de estar passando por este momento difícil, homens como ele, de família rica, divertem-se com garotas como nós na cama, mas casam com senhoritas de família ricas como a senhorita – exemplifica amargamente, saindo com a bandeja para pôr na mesa de nossa sala de jantar
—Por que ela é tão amarga senhora Gertrudes? – pergunto, franzindo o cenho.
—Não se trata de amargor senhorita — diz, terminando de sovar a massa, separando pequenas bolotas redondas, achatando-as e pondo-as dentro da imensa forma que leva ao forno – Apenas fala com propriedade de algo que conhece – afirma, limpando as mãos no avental
—Acaso ela foi enganada por algum rapaz da sociedade, é isso? – quero saber, vendo pelo canto do olho Thomas Merlyn espreguiçar-se e bocejar fazendo-me sorrir minimamente.
—Seduzida e enganada é o termo correto a usar, meu bem – revela, pesarosa – Deixou-se ludibriar por palavras doces, promessas que nunca foram cumpridas, entregou-se de corpo e alma, mas em troca só recebeu desprezo e desdém – prossegue, suspirando – Numa coisa devo discordar: isto não acontece apenas com servas. Já vi muitas meninas ingênuas, jovens de famílias nobres, abastadas, serem seduzidas com os mesmos artifícios e serem igualmente desprezadas.
—A diferença é que tinham pais ricos que puderam pagar por sua honra, comprando ou arranjando casamentos, na maioria das vezes com homens mais velhos, porém ricos, dispostos a assumir qualquer rebento que por ventura viessem a ter – Sandra acrescenta, retornando sem que notássemos – Se tivessem me feito o mesmo aceitaria de bom grado – afirma, pondo a bandeja vazia sobre a mesa da cozinha.
—Aceitaria casar-se sem amor? Apenas para ter um nome? – espanto-me, ela rindo sem graça.
—Espanta-se porque certamente não precisara fazer uso de tal artificio – afirma — Seus pais certamente já têm em mente um candidato a marido para cada uma das senhoritas. Estarão casadas antes que possam correr o risco de cair nas garras de algum mancebo sedutor qualquer que as desonre – assegura ainda mais amarga – Só não espere que o escolhido seja bem-apessoado ou mesmo jovem visto que a maioria dos casamentos em seu meio social são feitos por interesses mútuos, ou seja, são negócios.
—Jamais me casarei com um homem que não ame – garanto, erguendo meu queixo desafiadoramente – Não abro mão disto em hipótese nenhuma! – pontuo.
—E fará o quê, caso seu pai decida casa-la com um senhor com o dobro, triplo, de sua idade, porém muito rico, com o qual mantenham negócios? Fugirá por acaso? – desdenha, arqueando a sobrancelha, cruzando os braços a frente do peito.
—Se for preciso fugirei sim! – asseguro sem pestanejar – Não vou me casar com nenhum velho babão apenas para agradar ou ajudar minha família em alguma negociata – bufo, cruzando os braços, irritada.
—E se for um jovem bonito? Aceitara casar-se mesmo sem ama-lo? — Adissa questiona com um sorriso malicioso.
—Evidente que não! – friso — Jovem ou velho babão, não importa, quem irá escolher meu marido serei eu mesma e mais ninguém! – esbravejo, sobressaltando-me ao escutar uma leve batida na porta seguida pelo som de alguém limpando a garganta.
Volto-me encontrando Thomas Merlyn de pé no primeiro degrau de acesso a cozinha da mesma forma como fizera ao chegar, nos observando…Há quanto tempo estará ai? Será que ouviu algo do que conversávamos?, questiono-me mentalmente não conseguindo evitar ruborizar mais uma vez.
—Desculpem interromper, mas poderiam arranjar-me um copo com água? – pede olhando diretamente para mim e de repente é como se todo o ar a minha volta não fosse suficiente – Obrigado – agradece, recebendo o copo que Nora, prestativa e rapidamente providenciara, indo até a porta, abrindo-a e entregando-lhe, ele sorrindo de forma encantadora, provocando um reboliço em meu baixo ventre ao voltar a me olhar por sobre a borda do copo enquanto bebe, prendendo-me dentro daquele mar azul intenso e misterioso – Senhora, saberia dizer o que o senhor Snow planejou para mim este dia? Admito que começa a me dar sono ficar parado sob a sombra daquela macieira – pronuncia com voz grave chamando minha atenção para sua boca, ainda úmida pela água. Me pego umedecendo meus próprios lábios enquanto observo os seus, um arrepio gostoso percorrendo meu corpo.
—Não faço a mínima ideia do que meu patrão planejou meu rapaz, mas e não deseja ficar parado, poderia começar por limpar aquele entulho lá no canto do terreno. Há dias peço ao senhor que providencie a limpeza pois temo a existência de ratos e outras coisas debaixo daquilo tudo – ouço a senhora Gertrudes dizer antes de passar a minha frente, cortando o laço imaginário que me mantinha presa ao olhar de Thomas– Tome, use essas luvas para se proteger, e tome cuidado com cobras e escorpiões – recomenda, entregando-lhe o objeto – Quando o senhor e a senhora acordarem digo-lhes que fui eu a instrui-lo começar trabalhar – avisa.
—Pois não senhora, começarei agora mesmo – diz, recebendo as luvas ao mesmo tempo em que entrega-lhe o copo vazio, fazendo menção de sair, voltando-se, olhando em minha direção novamente – Velhos babões são bem mais fáceis de manobrar e controlar do que jovens.... como eu, por exemplo – declara fazendo-me corar até a raiz do cabelo e prender a respiração ao vê-lo piscar antes de dar as costas caminhando para o fundo do quintal.
—Alguém mais, além de mim, acha que essa história de ter o jovem senhor Merlyn como escravo não é uma boa ideia?? – Adissa perguntar e me viro, vendo-a de mão erguida, Nora, Sandra e até a bondosa senhora Gertrudes imitando-a.
—Lógico que não é! – anuo de imediato, encarando-as — Escravizar alguém é algo inconcebível, humanamente desrespeitoso antiético, anticristão ....- discurso, Sandra me interrompendo.
—Não era exatamente a isto tipo de coisa que Adissa referia-se, senhorita, tenho certeza – afirma, rindo abertamente.
—E a que mais seria? – questiono – Meu pai ainda não percebeu, mas isto, essa forma que encontrou para receber o que o pai do senhor Thomas lhe deve, ainda vai lhe causar aborrecimentos – declaro taxativa.
—Já está com seus discursos inflamados a esta hora da manhã irmãzinha? – meu irmão pergunta, irônico, entrando na cozinha – Papai, e mamãe mais ainda, ficará bastante satisfeito em ouvi-la defender tão ferrenhamente os Merlyn – garante, me encarando.
—Não estou defendendo uma pessoa ou família especificamente Charlie, defendo o direito à liberdade que todos temos – defendo-me – Acha justo ter alguém como escravo em pagamento a uma dívida financeira? – interrogo vendo seus olhos brilharem.
—Neste caso, concordo com você em parte irmãzinha – afirma, pegando uma maçã – Preferia ter recebido a jovem senhorita Thea Queen, ou Merlyn que seja, como esposa ao invés de ter o feioso ali como escravo– diz, mordendo a fruta.
—Como assim receber Thea como esposa? Do que está falando? – quero saber.
—Isso mesmo que escutou. Eu iria ter a jovem e deliciosa senhorita Queen em pagamento da dívida contraída pelo pai dela não fosse a intromissão de Thomas e seus amiguinhos – rosna, olhando na direção em que ele se encontrava – Tive vontade de arrebentar aquela cara prepotente do Merlyn filho quando invadiu a reunião oferecendo-se em troca da irmã – conta, rindo de minha cara de espanto – Não prestou muita atenção ao que nosso pai contou ontem a noite prestou? – questiona-me
—Prestei bastante atenção sim e tenho certeza de que em momento algum falou sobre você desposar Thea – rebato, tentando lembrar se realmente nosso pai não comentara nada sobre isto – Ela e Thomas são irmãos?? – indago, confusa.
—São e se quiser sabe mais pergunte a nosso pai ou a sua amiguinha Queen. Eu não quero mais falar sobre este assunto. Me irrita profundamente – bufa, atirando o que restara da maçã dentro da pia – Sirva-me o desjejum senhora Nichols, estou faminto e acredito que meus pais irão demorar a levantar já que ficaram até bem tarde comemorando sua vitória frente ao Merlyn com Adrian Chase.
—O senhor Chase esteve aqui ontem? – pergunto, surpresa.
—Pouco depois que nos recolhemos ele chegou. Escutei quando papai abriu a porta pois havia descido para tomar água – revela – Agora, se não se importa irmãzinha, quero comer. Estarei na sala aguardando – avisa, retirando-se, me deixando com a cabeça fervendo com tantas perguntas sem resposta.
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Tommy (14:55 p.m)
Fazia mais de duas horas que começara a limpar o amontoado de tralhas indicado pela governanta dos Snow quando o próprio apareceu vestindo um robe por cima do pijama, bocejando, querendo saber quem ordenara tal coisa. Disse-lhe que havia sido sua governanta para que não ficasse ocioso a sua espera (já que, pelo visto, não falara com a mulher), mas se desejasse que fizesse outra coisa bastava indicar e o faria.
Após alguns minutos, parte dos quais julguei que o homem estivesse dormindo em pé e de olhos abertos, finalmente se pronunciou dizendo-me para que poderia prosseguir a limpeza de todo o terreno, o que certamente me tomaria todo o dia não apenas pelo tamanho da área, mas pela quantidade de tralhas espalhadas (era impressionante a quantidade de quinquilharias ali contidas!).
Disse-me também que poderia almoçar por volta do meio dia, que a governanta me serviria algo e que voltasse ao trabalho o mais rápido possível após faze-lo, mas que não deveria fazer barulho visto que ele, a esposa e os filhos (todos, segundo ele) tirariam a cesta após a refeição. Me informou também que ao final daquele dia diria como seria minha semana, a quem serviria até o próximo sábado, retirando-se assim que terminara de falar.
Fiz conforme ordenara, passo a passo, agradecendo por não ter voltado a ver a bela e tentadora senhorita Caitlin outra vez durante grande parte do dia.
A conversa (parte dela pelo menos) que a escutei tendo com as servas da casa não parava de se repetir em minha mente, sua voz doce afirmando que não se casaria com ninguém que não tivesse sido ela a escolher ainda me fazia rir.
Na verdade, achava injusto que garotas como Thea e ela fossem obrigadas a casar-se com homens escolhidos por seus pais, não importando se estas estivessem apaixonadas ou não, quer gostassem ou não da escolha paterna. Era triste saber que apesar do que afirmara, ela nada poderia fazer caso seus pais escolhessem um velho babão para seu marido.
—Velho babão!! – repito, rindo sozinho enquanto reúno tabuas de vários tamanhos em um canto, escolhendo as em melhor estado, descartando as que estavam deteriorando-se – Eu não queria estar na pele do pobre coitado que for escolhido para ser seu marido – afirmo, voltando-me para pegar o carrinho com o qual transportava o entulho a ser descartado em uma grande tina a qual seria coberta ao final, tendo um sobressalto ao dar de cara com a jovem Caitlin parada as minhas costas, obrigando-me a recuar dois passos a fim de evitar chocar-me contra ela – Puta merda! Quer matar-me de susto senhorita?! – xingo, soltando as tabuas, uma delas caindo sobre meu pé – Merda! – xingo outra vez, fazendo uma careta de dor.
—Em primeiro lugar, apreciaria se parasse de falar palavras indelicadas senhor Thomas. Não é nada educado – começa a dizer, me encarando com aqueles olhos castanhos vivos – Em segundo lugar, acho que meu pai pediu-lhe que não fizesse barulho pois estaria, ou melhor, está tirando a cesta vespertina ao lado de minha mãe e irmãs. Em terceiro lugar, não acredito que sua saúde seja assim tão frágil a ponto de correr risco de morte por conta de um pequeno susto como este. Por último.... Machucou-se? – pergunta, baixando a vista para o pé que segurava e massageava.
Por instantes a encaro, boquiaberto, sem encontrar uma resposta que não envolvesse palavras de baixo calão as quais só dirigiria a..... Deixa pra lá!
—Em primeiro lugar, se não quer ouvir palavras desagradáveis, anuncie sua chegada e não apareça do nada ou aproxime-se sorrateiramente, senhorita. Poderia tê-la confundido com um ladrão ou malfeitor, tê-la agredido – argumento vendo-a erguer o rosto, arquear uma sobrancelha e retorcer os lábios em uma expressão de incredulidade (o que me distrai momentaneamente visto que chama minha atenção para sua boca tentadora) – Em segundo lugar, estava trabalhando em silencio até ser perturbado pela senhorita, o que me lembra: não deveria estar tirando a cesta como os demais membros de sua família? O que faz aqui, acordada? – rebato, continuando sem dar-lhe chance responder – Em terceiro lugar, como pode saber se estou bem ou não de saúde? É medica por acaso? E se o fosse, não teria que me examinar para afirmar isto? – questiono vendo-a enrubescer lindamente – Por último, fico feliz em saber o quão preocupada ficou em ter-me causado algum ferimento já que foi está a primeira questão que levantou! – ironizo, xingando-a mentalmente ao morder seu lábio inferior de maneira provocante mesmo não tendo consciência de o estar fazendo.
—Desculpe-me por isto, não quis que nada de ruim acontecesse – pede, sorrindo, o que faz meu coração dar um salto mortal triplo– Bem, respondendo seus questionamentos, sim, eu deveria estar tirando a cesta como a maioria da casa está, incluído alguns empregados — Epa! Informação desnecessária a mim saber. Não que fosse me aproveitar para beijá-la ou algo assim....Thomas, pare já com isso! Controle seus impulsos e pensamentos ou vai acabar sendo morto pelo pai dela seu imbecil! — A verdade é que, a esta hora, estaria fazendo as orações ou ajudando na cozinha do colégio, portanto não tenho sono. De fato, se pudesse escolher seria médica. Adoro tratar das pessoas – revela, os olhos brilhando – Quanto ao que faço aqui, vim convidar-lhe a parar e tomar um lanche comigo e Adissa, minha dama de companhia – aponta a varanda a alguns metros onde uma jovem pouco mais velha que ela olha de um lado para outro visivelmente apavorada – Gostaria de lhe fazer algumas perguntas sobre Thea, se não importa-se, aproveitando que meus pais dormem já que na presença deles não me permitiriam fazê-lo ou mesmo conversar com o senhor, e acho que já falei demais! – exclama, mordendo o lábio outra vez.
Porra, ela bem que podia parar de fazer isto! Fica difícil não pensar bobagem...— Sabe que porá nós três em encrenca caso seus pais despertem antes do esperado e nos veja conversando, não sabe senhorita? – pergunto e acena que sim com a cabeça – Então volte para a varanda, tome seu lanche em companhia de sua aia e....
—Ali perto tem várias destas tabuas como as que está juntando. Poderia retirá-las e tomar um lanche ao mesmo tempo –sugere, me interrompendo, sorrindo mais uma vez.
Certo...Acho que prefiro enfrentar a fúria de um enxame de abelhas a ter que me submeter a esta tentação todos os dias! Como posso me controlar diante de um sorriso destes? Desse rosto angelical? Dessa boca rosada e úmida que pede para ser beijada? Vou acabar ardendo no inferno se não conseguir me controlar. E rápido.
—Então senhor Thomas, o que me diz? – pergunta e engulo a resposta malcriada que vinha a ponta de minha língua.
—Vou ver essas tabuas, mas nada de lanches! – aviso, ganhando mais um sorriso doce – A senhorita primeiro – digo, sinalizando para que andasse a minha frente, o que obviamente não o fez, postando-se a meu lado, caminhando apenas quando começo a fazê-lo.
Definitivamente, com ou sem intenção, Caitlin Snow seria minha perdição caso não conseguisse manter uma distância segura.
Paramos junto a varanda, ela subindo, sentando-se em uma das cadeiras da pequena mesa posta com uma jarra de suco, bolo, alguns salgados e docinhos enquanto avalio o tal monte de tabuas a que se referira notando que algumas estavam praticamente novas.
—Então senhor Thomas – chama minha atenção e ergo a cabeça encontrando-a de pé novamente, recostada à cerca da varanda, estendendo-me um copo com suco – Meu irmão disse-me que o senhor e Thea são irmãos, isto é verdade? – pergunta direta, apoiando um prato com uma fatia de bolo, salgados e docinhos após eu ter segurado o copo.
—Se seu pai não lhe contou tudo que aconteceu durante a audiência na prefeitura, por que seria eu a dizer-lhe, senhorita? – questiono, tomando um generoso gole, o liquido agradavelmente frio deslizando por minha garganta, revelando o quão sedento estava.
—Meu pai contou-me apenas o que, na opinião dele, julgou que eu deveria saber, no caso que o senhor seria escravo de nossa família por conta de uma dívida não honrada....
—Não honrada por conta do misterioso assalto que a empresa de meu pai sofreu – interrompo-a, pegando um dos salgados, descobrindo que também estava com fome.
—Desculpa, expressei-me mal – pede, sorrindo – O fato é que Thea é minha amiga de infância, caso não saiba – lembra – Fiquei muito preocupada e triste em saber que ela quase foi envolvida nessa confusão toda – diz, triste.
—Quase não senhorita, foi envolvida – a corrijo – Não fosse minha interferência a esta altura ela seria sua cunhada fatalmente – garanto – Quanto a sua pergunta, sim, ela é minha irmã por parte de pai – respondo, a contragosto.
—Como isto se deu? Como é possível ela não ser filha do senhor Robert Queen? – questiona, curiosa.
—Deseja mesmo entrar nessa questão senhorita? – pergunto, ela enrugando a testa confusa. Respiro fundo antes de voltar a falar – Não faço a menor ideia de como meu pai e a senhora Queen se envolveram. O quando certamente se deu durante o período no qual o casal Queen esteve em Londres, onde vivíamos. O resto, para mim, é tão misterioso quanto para a senhorita – concluo.
—Não quis saber, não questionou seu pai já que, pelo que entendi, foi isto que levou o senhor a assumir o lugar de minha amiga nessa insanidade toda? – quer saber.
—Meus pais já estão sofrendo muito com tudo isto senhorita Snow, minha mãe em especial. Ela está gravida, perto de dar à luz. Qualquer aborrecimento mais severo porá em risco sua vida e a do bebê – explico, devolvendo-lhe o copo, meus dedos roçando os seus ao fazê-lo – Prefiro deixar este assunto para outro momento. Por ora fico satisfeito em cumprir o acordado diante do conselho e quitar a dívida de meu pai – afirmo, juntando as tabuas em um feixe – Agora, se me permite, tenho que terminar meu serviço. Quando o senhor seu pai acordar quero estar com tudo pronto. Grato pelo lanche – agradeço, fazendo uma reverencia antes de dar-lhe as costas.
—Senhor Thomas – chama e estanco, me voltando – Sinto muito que esteja passando por tudo isto e que meus pais façam parte – pede – Espero que possamos ser amigos mesmo assim – deseja sorrindo amigavelmente.
Durante alguns segundos observo-a atentamente, seus traços e curvas marcados pelo vestido florido que realçava sua beleza simples e pura. Limito-me a acenar positivamente com a cabeça, lhe dando as costas mais uma vez, afastando-me o mais rápido que podia, refletindo se algum dia conseguiria ser apenas amigo de Caitlin Snow.
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Residência Snow (18:00 p.m)
Narrador
As dezoito horas em ponto Dominique Snow aparece a porta da cozinha de sua casa cruzando os braços enquanto observa Thomas finalizar seu serviço, sinalizando para que o jovem se aproximasse.
—Durante a próxima semana estará a meu serviço. Apenas na semana seguinte servira ao senhor Chase – avisa – Devera sempre comparecer no mesmo horário que chegou hoje, entretanto somente será liberado quando e se terminar a tarefa designada no dia. Sei que deve estar pensando o que mais além do que fez hoje teria para que pudesse justificar servir-me nos próximos dois anos, mas não se preocupe, serviço não lhe faltara seja aqui em minha residência, seja no banco ou em outro lugar – declara o gerente de forma evasiva – Por hoje, pode ir – dispensa-o, retornando para dentro de sua residência.
—Sim senhor – Thomas responde para si mesmo, enxugando a testa com o antebraço, dirigindo-se para a porta da cozinha novamente, batendo quando chega ao local – Boa noite senhora. Vim devolver-lhe as luvas – avisa, estendendo-as para a governanta.
—Melhor que fique com elas – Caitlin Snow aconselha, surgindo por detrás da mulher, enxugando as mãos delicadas no avental que usava – Não há problemas nisso não é senhora Gertrudes? – cogita, sorrindo ante a negativa da mulher – Então são suas. Vai precisar mais do que qualquer um nesta casa – afirma, rolando os olhos ao escutar o protesto da irmã mais velha, Thomas sorrindo da careta que fazia.
—Como pode saber? – questiona a Snow mais velha.
—Ninguém nesta casa tem habilidades manuais ou se dispõe a fazer trabalhos pesados, Yvie – justifica-se Caitlin, erguendo o queixo – Até segunda senhor Thomas – despede-se.
—Até segunda senhorita Caitlin – retribui, sorrindo para a jovem, que sorri de volta, ficando rubra.
Em casa, após saudar os pais, Thomas segue para seu quarto, banha-se, descendo para jantar com a família, contando-lhes como fora seu dia, omitindo seus diálogos com a jovem Caitlin a fim de evitar preocupações desnecessárias, avisando que estaria a serviço dos Snow durante toda a semana.
Terminada a refeição, pede licença aos pais para ir ao encontro dos amigos, recebendo a permissão de ambos com a recomendação da mãe para que não chegasse muito tarde pois queria a família presente a missa dominical a fim darem as boas-vindas ao pastor da cidade que retornava após ter-se ausentado por um mês inteiro, o rapaz prometendo atende-la.
No bar, encontra-se com os amigos Oliver Queen, Barry Allen e Ray Palmer, convidando o funcionário de seu pai, Roy Harper a juntar-se ao grupo ao qual Eddie Thawne, que trabalhava no local, unia-se sempre que possível.
—Então o Snow não te deu trabalho? Digo, trabalho no sentido de querer humilhar ou maltratar como as garotas temiam? – Ray pergunta, tomando um gole sua cerveja, fazendo uma careta de desagrado.
—Não. Nem a digníssima senhora Snow se deu ao trabalho de fazê-lo – Thomas conta, rindo da nova careta feita pelo amigo – Mas foi apenas o primeiro dia...Ray, se não gosta de cerveja por que bebe? Escolha outra bebida – recomenda.
—Mas eu gosto, apesar de ter o gosto amargo – afirma o rapaz fazendo-o rir.
—Primeiro dia ou menos um dia, se quiser ser otimista, porque se for contar agora só restam setecentos e trinta dias servindo junto a família Snow – contabiliza, enrugando o cenho – Acho que isto não é exatamente um incentivo é?
—Definitivamente não! – Thomas admite, tomando mais um pouco de sua cerveja — Por falar em garotas, como estão as coisas com sua esposa Ollie? – pergunta, rindo divertido.
— Shii, fale baixo Thomas!! – Oliver pede, acenando com as mãos – Ainda não tornamos publica nossa situação -revela
—Não!? – espantam-se os demais em uníssono.
—Não – confirma o loiro, constrangido — Amanhã, após a missa, levarei Felicity para almoçar em casa e comunicarei a minha família – conta.
—Entenda como família a senhora Moira Queen, único membro a não saber que tem uma nora! – Eddie lembra, rindo divertido, servindo aos amigos nova rodada de cerveja.
—Não queria estar na sua pele meu amigo. Sua mãe ficara furiosa com certeza -Thomas pondera, girando a caneca sobre o tampo da mesa.
—Não planejei fazer as coisas desta forma. Apenas aconteceu. Meu pai me deu total apoio, mas sei que minha mãe ficara furiosa — anui o rapaz, pensativo – Era para termos tido essa conversa ontem, após chegarmos, porem toda essa situação envolvendo Thea e você nos pegou de surpresa – revela.
—A todos nós meu amigo, de diversas maneiras – Thawne comenta, observando o amigo — Está tudo bem mesmo Tommy? – quer saber, estranhando o silencio do amigo sempre falante e alegre.
—Deveria ter-me feito mais presente junto a meu pai na empresa, ter-lhe auxiliado mais efetivamente, não sei, ao invés de me dedicar apenas a noitadas — pondera, entristecendo.
—Mil desculpas pelo que direi, senhor Thomas, mas não acredito que tivesse feito diferença alguma – Harper começa dizer – O senhor Merlyn é um homem de visão e muito competente na administração da empresa. Não fosse pelo incêndio e o subsequente roubo sofrido em tão curto espaço de tempo, estaríamos muito bem. Na verdade, a empresa está se recuperando rapidamente apesar de termos tido que mudar a sede, o que acabou atrasando nosso cronograma por um tempo – revela, tomando um gole de cerveja antes de continuar — Mesmo com tudo isso contra estamos nos recuperando bem – comemora.
—Meu pai contou-me ontem a noite, Harper, e pode me chamar de Thomas, por favor – pede — Mesmo com tudo que citou, não posso deixar de me sentir culpado – reitera o jovem, pesaroso.
—Tommy, Harper está correto em afirmar que não teria feito diferença estar ou não mais presente meu amigo – Oliver contesta, massageando o queixo – Confesso que o incêndio sempre me pareceu suspeito – admite.
—O roubo também foi estranho e inesperado – Eddie relembra — Mais ainda se considerarmos que em ambos os casos Adrian Chase esteve por perto poucas horas antes – acrescenta.
—Ele esteve na empresa antes do incêndio? – Tommy surpreende-se.
—Esteve. Foi ao escritório acertar a reforma do armazém com o senhor Merlyn, o que nos causou imensa surpresa na época visto que propagava aos quatro ventos que não faria o serviço conosco — Harper revela.
—Nossa! Ou Adrian Chase é muito azarado ou tem culpa no cartório! Alguém deveria investigar a fundo – Ray comenta, tomando o restante de sua cerveja de um gole só – O que foi? Disse algo errado? – quer saber o rapaz ao notar que todos o observavam.
—Ele disse algo que se aproveite não disse? – Barry questiona, rindo divertido.
—Muito – Oliver anui com um sorriso de canto de boca — Sei que o delegado Lance já fechou o caso do incêndio, considerado como acidental. O do roubo está em aberto, mas caminha a passos lentos. O que me dizem de nos organizarmos e realizarmos nossa própria investigação paralela? – sugere.
—Estou de pleno acordo senhor Oliver– Harper declara animado — A questão é se ainda iremos conseguir alguma pista no antigo prédio da empresa depois de tanto tempo – pondera.
—Dessa parte posso cuidar sem problema – Eddie dispõe-se, acenando para um cliente que o chamava – Decidam como iremos proceder e me comuniquem. Preciso voltar ao trabalho – avisa, retirando-se.
—Por que ele quer justamente a parte mais complicada? – Harper questiona – Não que exista alguma menos complicada neste caso — pondera
—Tem seus motivos — Oliver responde evasivo- Faremos o seguinte: para começar, se concordarem, tentaremos descobrir em que pé anda a investigação acerca do roubo – sugere — Já que desconfiamos que ambos foram arquitetados pela mesma pessoa, talvez um ajude a resolver o outro – teoriza.
—Como faremos isto? – Barry quer saber.
—Neste caso, Felicity e as irmãs Lance poderão nos ajudar – diz, aproximando mais a cadeira, incitando os demais a fazerem o mesmo – Faremos o seguinte – começa dizer, explicando seu plano de ação aos demais.
Por volta da meia noite e quarenta, o grupo deixa o bar, cada um dirigindo-se para sua casa, combinando encontrarem-se ao final da tarde de domingo nos escombros do antigo prédio onde situava-se a empresa dos Merlyn.
Ao passar pela praça Thomas, instintivamente, para, erguendo os olhos em direção a janela onde avistara a jovem Caitlin na noite anterior notando a claridade dentro do aposento.
—Ainda acordada?!? – murmura, observando por alguns segundos, baixando a cabeça, seguindo seu caminho, não percebendo o momento em que a figura delicada surge por detrás da cortina, abrindo uma pequena fresta, seguindo-o com o olhar até que entre em casa, suspirando, retornando a sua cama, guardando o livro que estava lendo, apagando a vela, deitando-se, suspirando mais uma vez antes de fechar os olhos, obrigando-se a dormir.
"....Um amor puro;
Não sabe a força que tem;
Meu amor eu juro;
Ser teu e de mais ninguém;
Um amor puro...."

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