Eu ainda estava na cama king-size, escrevendo furiosamente em meu diário, ''ele colocou água gelada em um copo de vidro estilo zaira e me deu água na boca'' eu li a frase novamente e reli ela, fiquei encarando o pano azul marinho da cama... processando tudo que aconteceu.

Ouvi três batidas limpas vindas do outro lado da porta e ouvi uma voz masculina, mas desconhecida me chamar -- senhorita Skarlet, o senhor Adam a aguarda no salão de jantar -- deve ser um dos empregados dele. Desci da cama, guardando meu diário no criado mudo ao lado da cama, eu ainda usava uma camiseta de três tamanhos maiores da noite anterior.

Mas... antes de sair, eu abri as janelas de vidro que vão direto a varanda, a chuva pesada pesada de ontem deu lugar a um céu limpo, sem nuvens, apenas o azul celeste com o calmo brilho do Sol.

Prendi meu cabelo em um coque despojado, deixando algumas mechas soltas na frente, emoldurando meu rosto. Me sentia mais pronta pra olhar na cara daquele que chamo de dono.


Quando entrei no salão, ele estava rodeado de papéis, que devem ser relatórios da máfia e segurava um tablet, um tablet bem chique por sinal. Assim que cheguei mais perto, ele levantou o olhar frio de sempre e enquanto guardava os papéis falou -- bom dia, Karashima -- quando ele me chama pelo sobrenome... parece que ele quer estar distante, mas eu sei que não posso mudar isso -- bom dia, dono -- respondi sem o deboche de ontem.

Depois desse momento, ninguém falou mais nada, o ar parecia meio pesado pra respirar... dava apenas para ouvir o som dos talheres, eu me recusava a olhar pra ele, eu encarava o meu prato como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Ele por outro lado, ele tava com o olhar fixo em mim... era possível sentir a intensidade sufocante que vinha dele -- o que foi, Karashima? Aprendeu a se comportar? -- ele me perguntou, mas não levantei a cabeça, continuei a mastigar como se ele tivesse falando com outra pessoa.

Eu ouvi o som da cadeira sendo arrastada, ele se levantou e estava dando a volta na mesa... eu sentia os passos calmos dele ficando cada vez mais perto. Não era necessário me virar para sentir a imponência que ele emanava... ele se apoiou no encosto da minha cadeira e colocou as mãos uma de cada lado, me encurralando, obviamente. Ele se inclinou para sussurar em meu ouvido -- está com medo do ambiente em que decidiu ficar, Karashima? -- deu pra notar a mudança de tom quando ele falou meu sobrenome. Meu coração errou a batida e acelerou um pouco... mas eu não sentia medo, eu só estou tentando me adaptar.

-- Não é medo, estou apenas processando o choque... é uma reação normal da minha personalidade -- falei com a voz plana, mas com convicção, era quase uma afirmação não só pra ele, mas também para mim. Ele se afastou da cadeira, apenas ficando em pé, com aquela mesma postura de chefe ao meu lado e eu? Me levantei devagar, tentando não trasparecer minha ansiedade.

-- É bom que já se sente em casa, Karashima. Mas eu não faço favores -- ele falou do nada, checando a hora ou fazendo alguma outra coisa no celular, o mesmo que usei pra jogar ontem -- preciso que você faça uma cópia dessa arte renascentista, tem que ser idêntica ao ponto que o avaliador não saber dizer qual é original -- ele falou me mostrando na tela do celular uma paisagem super realista, ele guardou o celular e fez um sinal para que eu o seguisse, andavos pelo chão de mármore em silêncio obsoluto.

-- Aqui, Skarlet, vai ser seu atêlie -- ele falou mantendo o tom de voz, enquanto abria a porta de um quarto, lá dentro é cheio de telas, pintas, papéis, canetas, tudo o que possível para a arte -- aqui sua refêrencia e comece. Você tem uma semana para fazer essa cópia, entendeu? -- ele falou com um tom diferente, mas não consegui entender bem -- tudo bem, dono. Uma semana vai ser suficiente.


Os dias foram se passando, a arte ganhava forma e o prazo acabava amanhã... faltavam poucos detalhes para o resultado final. Acabei! -- exclamei feliz, peguei o celular que o Adam me deixa usar as vezes e tirei foto, quando fui comparar, nem conseguia diferenciar. Que alegria, eu consegui. Pensei toda empolgada e eu decidi me dar um descanço fui jogar FNF' (Friday Night Funkin').

Enquanto eu via as notas coloridas surgindo em uma velocidade incrível, meus dedos voavam na tela, sempre acertava e conseguia um ''sick!'', eu coloquei a pontinha da língua pra fora como o de costume... em meio a música do jogo eu pude ouvir o som da porta ser aberta, também ouvi os mesmos passos firmes e calculados do meu dono.

Ele se sentou ao meu lado, mas não me importei pois me concentrava no jogo, mas aí... eu perdi uma nota... aquele ''miss'' estragou meu combo perfeito, mas me estressar por isso não resolve por continuei a jogar -- quem é esse? -- ele questionou, dava pra sentir algo diferente nele -- e por que você está sorrindo pra um moleque azul sob o meu teto, Skarlet? -- ele questionou apontando para a tela, com a voz baixa, como se ele já tivesse identificado o inimigo.

-- esse daqui? -- perguntei apontando pro Boyfriend, o personagem do cabelo azul e boné vermelho -- fiz uma cara de tédio -- e isso importa? Deve ser porque ele é mais engraçado que você --falei desligando o celular e entregando para ele. O maxilar dele ficou marcado, dava pra ver fúria e o ciúmes no olhar dele, é claro que ninguém fala assim com ele e eu não sei como consegui -- você acha isso engraçado, Skarlet? -- a voz dele estava baixa, como um aviso de uma tempestade chegando, ele avançou até mim, estendendo a mão para pegar o aparelho de volta -- aqui, nessa casa, sua atenção é apenas pra mim, entendeu? -- ele rugiu, eu... eu não sabia o que fazer, eu cometi outro erro? comecei a chorar em meio ao desespero interno, um choro baixo, sem escandalo.

Ele segurou minha mão, eu tentei puxar de volta, mas ele não soltou, aquilo me despertou um gatilho. Me lembrei naquele dia na escola, quando eu tinha 14 anos e aquele garoto segurou minha mão e não soltava por nada, eu deixa parecer, mas... eu estava desesperada e por instinto eu raspei as unhas na palma dele pra solta. Em meio a esses pensamentos, eu decidi fazer o mesmo daquele dia. Raspei minhas unhas na palma de Adam. Ele me soltou rápido, como se tivesse queimado.

Agora, eu sinto uma culpa avassaladora... ficou a marca vermelha na mão dele, fui eu que fiz isso nele, 'será que errei?, ele vai brigar comigo?' minha mente acelerou tanto quanto meu coração, naquele momento eu até esqueci que tava chorando, eu só conseguia olhar pra ele que encarava a própria mão, com uma marca vermelha que deve estar ardendo.... ele levantou o olhar, olhando nos meus olhos, sem gritar, sem violência... sem aquela frieza de antes...

-- desculpa... -- falei num tom baixo e meio trêmulo, sentindo o enorme peso da culpa, enquanto eu olhava as minhas lágrimas pingarem no chão de mármore -- eu... eu não queria ter te machucado... desculpa... por não ter me controlado -- quando levantei os olhos, ele parecia confuso, ele olhou pra mão dele e depois pra mim. Ele parecia ler o que eu sentia, o medo de errar, o desespero de uma alma ferida... ele se aproximou, com calma para não me assustar -- a culpa não foi sua, Skarlet -- ele afirmou com a mesma voz plana de sempre, sem raiva, mas tranquila -- o erro foi meu...

Quando ele falou isso, me senti confusa -- seu? Por que? Fui eu que te arranhei -- contestei com voz ainda trêmula -- eu forcei, Skarlet. Eu te forcei a ficar perto quando você só queria jogar um jogo de celular, segurei o seu pulso de um jeito que te fez se sentir desconfotável e sua única escolha foi se... defender de mim. Então, não precisa se sentir culpada pelo eu erro -- ele argumentou, tentando se afastar. Mas, eu não queria o ver assim... eu me aproximei devagar e passei os braços ao redor dele, afundei meu rosto úmido no peito dele -- não fica assim, por favor -- pedi com a voz abafada pelo tecido da camiseta dele.

Ele travou, deu pra sentir a rigidez do corpo dele, assim como também senti o coração dele dar uma leve acelerada... após alguns segundos, ele apoiou as mãos nas minhas costas, me puxando pra mais perto, de um jeito tão suave... algo que eu nunca pensei que ele como chefe de máfia tivesse... naquele momento, após choro, gatilho emocional e culpa.... eu me sentia segura. Mesmo depois disso... eu queria apenas ficar ali com ele.

Notas finais
Teve alguns erros de digitação, mas não consigo corrigir e não consigo voltar até aquela parte sem apagar grande parte da história. Por isso não irei voltar para corrigir