O preço da Coroa Amor ,Sedução e ilusão

20 A Carta Interceptada e o Peso do Passado



​Ato I: As Teias de Suffolk e o Selo de Cera

​As semanas que se seguiram ao matrimônio trouxeram uma aparente calmaria para o Palácio de Hofburg, mas nos bastidores a vigilância era implacável. O Parlamento observava cada movimento da Rainha Claire e de seu novo Rei Consorte, atentos a qualquer sinal de fraqueza ou interferência estrangeira. Para a surpresa dos mais céticos, Sebastian e Claire agiam em perfeita sintonia, conquistando a admiração de velhos diplomatas e mantendo a estabilidade das províncias.

​No entanto, na Inglaterra, a ganância dos Blackwood exigia resultados imediatos.

​Na suntuosa biblioteca da Mansão de Suffolk, o Duque Stefan Blackwood finalizava a escrita de uma missiva com tinta negra. Ao seu lado, a Duquesa Bárbara aguardava com um olhar de impaciência mal dissimulado. Stefan dobrou o pergaminho e derramou a cera vermelha, selando-o com o brasão da família.

​— Ele já deveria ter enviado notícias concretas sobre o acesso aos cofres reais e aos decretos comerciais — resmungou Stefan, entregando o envelope ao seu mensageiro de confiança. — A primeira fase do plano foi concluída com maestria: conquistar a garota, iludi-la, fazê-la se apaixonar e selar o casamento. Agora é hora de agir.

​O que os duques de Suffolk ignoravam era que, com a ascensão de Sebastian ao título de Rei Consorte, o protocolo de segurança da coroa austríaca mudara radicalmente. Por ordem de segurança interna, todas as correspondências vindas do exterior direcionadas ao palácio passavam por uma rigorosa triagem da guarda imperial.

​No Gabinete de Segurança, o Conselheiro Von Kinsky inspecionava os malotes recém-chegados. Ao identificar o selo pessoal de Stefan Blackwood, o velho conselheiro não entregou o envelope aos aposentos de Sebastian. Lembrado das antigas desconfianças de Richard e buscando proteger a soberana, Kinsky usou uma lâmina aquecida para abrir o selo sem danificá-lo.

​Ao ler as linhas escritas por Stefan, o rosto do conselheiro empalideceu.

​"Meu filho Sebastian, a notícia de seu casamento nos encheu de orgulho, mas a paciência da Casa dos Blackwood tem limites. A primeira etapa — seduzir a Rainha, manipulá-la e garantir o matrimônio — foi executada. Agora exigimos saber: quando começaremos a assumir o controle efetivo do poder? Quando começará a transferência de recursos e a assinatura dos decretos que favorecerão nossa família? Você deve agir antes que a Rainha perceba o golpe. Lembre-se de quem você é e a quem deve lealdade."

​Guardando o pergaminho com mãos trêmulas, Von Kinsky caminhou a passos rápidos em direção ao Gabinete Real.

​Ato II: A Revelação e o Colapso da Confiança

​Naquela mesma tarde, Sebastian ausentara-se do palácio para uma reunião de emergência no prédio do Parlamento, onde defenderia o novo orçamento militar diante dos lordes.

​Claire aproveitava o momento de quietude para analisar mapas de navegação quando a porta de seu gabinete foi aberta sem o anúncio habitual. O Conselheiro Von Kinsky entrou, o rosto pálido e o olhar carregado de gravidade.

​— Majestade... peço perdão pela interrupção — disse o conselheiro, fechando a porta trancada atrás de si. — Mas o dever para com a sua segurança e a honra da Áustria me obriga a entregar isto pessoalmente.

​— O que aconteceu, Kinsky? — perguntou Claire, franzindo a testa ao notar o nervosismo do conselheiro.

​Sem dizer uma palavra, o velho homem depositou o pergaminho aberto sobre a mesa de carvalho. Claire encarou o papel e reconheceu o selo dos Blackwood. Com as mãos trêmulas, ela começou a ler.

​A cada linha, o mundo ao redor da soberana parecia ruir. A cor fugiu de seu rosto, o ar faltou em seus pulmões e um frio congelante espalhou-se por suas veias. As lembranças das noites de amor, das promessas sussurradas, dos olhares apaixonados e das declarações de proteção no altar piscaram em sua mente como um teatro grotesco e calculado.

​— Não... isso não pode ser verdade — murmurou ela, as lágrimas de raiva e dor inundando seus olhos verdes. — Ele me usou... Tudo foi uma farsa desde o início?

​— A carta veio diretamente da comitiva de Suffolk, Vossa Majestade — declarou Kinsky com pesar. — Ela prova que o casamento era apenas a ponte para um golpe de Estado.

​— Saia, Kinsky — ordenou Claire, a voz embargada, mas tentando manter a postura real. — Deixe-me sozinha. E não diga uma palavra a ninguém sobre isso.

​Quando a porta se fechou, a Rainha da Áustria desabou na cadeira, o peito soluçando em uma dor esmagadora enquanto apertava a carta contra o peito, sentindo-se a mulher mais ingênua do mundo.

​Ato III: A Tempestade nos Aposentos

​O sol já havia se posto quando Sebastian retornou ao palácio, radiante após obter uma vitória esmagadora no Parlamento. Ele caminhou pelos corredores com passos firmes, ansioso para reencontrar a esposa e compartilhar o sucesso do dia.

​Ao entrar nos aposentos reais, no entanto, encontrou o quarto à meia-luz. Claire estava de pé junto à lareira, de costas para ele, vestindo um robe escuro. A atmosfera na sala era densa, quase sufocante.

​— Boa noite, meu amor — disse Sebastian, aproximando-se com um sorriso sincero e abrindo os braços para abraçá-la. — O Parlamento cedeu. Conseguimos aprovar a reforma militar sem...

​— Não dei permissão para que se aproximasse de mim, Lorde Suffolk — cortou Claire, a voz fria como o gelo da Suécia.

​Sebastian parou no meio do quarto, o sorriso desfazendo-se instantaneamente diante do tom gélido e do uso de seu título formal.

​— Claire? O que aconteceu? Você está pálida...

​Ela virou-se devagar. Seus olhos verdes estavam vermelhos pelo choro, mas queimavam com uma fúria e uma decepção avassaladoras. Sem dizer uma palavra, ela atirou a carta aberta de Stefan no peito dele.

​Sebastian pegou o papel no ar, confuso. Ao passar os olhos pelas primeiras linhas, o sangue gelou em suas veias. O horror tomou conta de sua expressão.

​— Claire... isso... meu pai escreveu isso, mas eu...

​— "A primeira etapa: seduzir a Rainha, manipulá-la e garantir o matrimônio" — recitou Claire, a voz subindo de tom enquanto a raiva contida explodia em gritos pela primeira vez. — Foi um espetáculo brilhante, Sebastian! Você merece uma coroa de nobreza pelo seu talento teatral! Cada beijo, cada palavra doce no meu ouvido, cada promessa de que seria o meu porto seguro... Tudo calculado para me fazer entregar este reino de bandeja para a sua família!

​— Escute-me, pelo amor de Deus! — gritou Sebastian desesperado, dando um passo à frente com as mãos erguidas. — Isso era o plano do meu pai! Era o plano original antes de eu chegar a Viena!

​— Então você admite?! — esbravejou ela, as lágrimas escorrendo livremente pelo rosto. — Você veio para esta corte com a intenção deliberada de me iludir e me dar um golpe?!

​— Sim! No início, sim! — confessou Sebastian em um grito angustiado, os olhos marejados. — Quando saí da Inglaterra, eu era o homem que o meu pai criou! Um cínico que enxergava casamentos como alianças de poder! Mas tudo mudou quando eu conheci você! Quando vi a sua força, a sua dor, a sua pureza... Eu me apaixonei por você, Claire! Eu rasguei esse plano na minha mente no segundo em que percebi que não podia viver sem o seu amor! Eu nunca enviei relatórios ao meu pai, nunca mexe nos cofres, nunca cometi traição!

​— Como você quer que eu acredite em uma única palavra que sai da sua boca?! — bradou Claire, dando um passo para trás com repulsa. — Você construiu a nossa história sobre uma mentira monstruosa! Você me fez amar um fantasma, um personagem criado para me manipular! O meu irmão avisou... Richard sabia o tipo de gente que os Blackwood são, e eu fui cega o bastante para entregar meu coração a um golpista!

​— Eu amo você! — implorou Sebastian, a voz embargada pelo choro rasgado, caindo de joelhos diante dela sem se importar com o orgulho ou com a postura. — Olhe nos meus olhos, Claire! Por favor! O homem que esteve na sua cama, o homem que fez os votos no altar, o homem que segurou a sua mão... esse homem é real! Ele ama você mais do que a própria vida! O plano do meu pai morreu no dia em que beijei você pela primeira vez!

​Claire olhou para o homem ajoelhado a seus pés. O peito dela doía tanto que parecia prestes a rasgar-se ao meio, mas a traição ferira a própria essência de sua dignidade como mulher e como rainha.

​— Eu não acredito no seu amor, Sebastian — disse ela, a voz descendo para um tom sussurrado, terrível e definitivo. — Não acredito em nada do que vem de você. O seu amor é apenas a ferramenta mais refinada do seu golpe.

​— Claire, por favor... não faça isso... — suplicou ele, tentando tocar a barra do vestido dela.

​— Tire as mãos de mim! — gritou ela, esquivando-se com desprezo. — Como Rainha da Áustria, eu deveria mandá-lo para a masmorra por conspiração contra a coroa! Mas por respeito à aliança que firmamos perante o meu povo, você continuará desempenhando o seu papel público de Rei Consorte. Mas nesta casa... entre nós... acabou.

​Ela apontou para a porta lateral que dava acesso à ala de hóspedes do palácio.

​— Pegue as suas coisas e mude para os aposentos leste imediatamente. Você não dormirá mais na minha cama, não tocará mais no meu corpo e não pisará nestes aposentos sem a minha autorização expressa. Saia da minha frente!

​Sebastian permaneceu ajoelhado por alguns segundos, devastado, vendo o olhar implacável de Claire. Com o coração reduzido a pedaços, ele levantou-se lentamente, curvou a cabeça sem emitir mais nenhum som e caminhou até a porta.

​Ato IV: Sombras nos Aposentos Leste

​A porta dos aposentos leste fechou-se com um baque pesado e ecoante.

​O quarto era frio, impessoal e desprovido do calor e do perfume de jasmin dos aposentos da Rainha. Sebastian caminhou como um fantasma até a beira da cama e desabou, cobrindo o rosto com as mãos enquanto ombros largos sacudiam em um choro silencioso e convulsivo.

​A porta do quarto abriu-se suavemente e Thomas, seu fiel criado e confidente desde os tempos de Suffolk, entrou carregando uma jarra de água. Ao ver o estado de seu senhor — o homem sempre inabalável, cínico e orgulhoso reduzido a um trapo humano —, Thomas colocou a jarra sobre a mesa e aproximou-se rapidamente.

​— Meu lorde... Milorde Sebastian, o que aconteceu? — perguntou Thomas, alarmado, ajoelhando-se ao lado dele. — O senhor está ferido?

​Sebastian baixou as mãos. Seu rosto estava manchado pelas lágrimas, os olhos vermelhos e o olhar completamente perdido na escuridão do quarto.

​— Ela descobriu, Thomas... — murmurou Sebastian, a voz falhando. — Uma carta do meu pai... Ele escreveu cobrando o golpe. Kinsky interceptou e entregou a ela.

​Thomas empalideceu, levando a mão à boca.

​— Meu Deus... O Duque Stefan arruinou tudo...

​— Ela acha que tudo foi um teatro — continuou Sebastian, encarando o nada com um sorriso amargo e desesperado. — Acha que eu a iludi, que o nosso casamento foi uma farsa... Ela disse que não acredita no meu amor, Thomas. Ela me expulsou do quarto dela.

​— Mas o senhor a ama! — defendeu Thomas com firmeza. — O senhor mudou por ela! Eu vi o senhor rasgar as ordens do seu pai, vi o modo como o senhor olha para a Rainha! O senhor não é o golpista que o seu pai queria que fosse!

​— Não importa o que eu sinto, Thomas — respondeu Sebastian, a voz sumindo em um suspiro doloroso enquanto encostava a cabeça na parede fria. — Aos olhos dela, eu sou exatamente o monstro que o pai dela e o irmão dela sempre disseram que os Blackwood eram. Eu a perdi... Perdi a única coisa pura e verdadeira que já tive na minha vida.

​Thomas observou seu senhor em silêncio, partilhando daquela dor insuportável. A ganância de Suffolk havia finalmente alcançado Viena, e o preço cobrado fora a destruição do coração do próprio filho.