O preço da Coroa Amor ,Sedução e ilusão
21 A Geada do Poder
Ato I: A Fachada do Palácio
Nos dias que se seguiram à descoberta da carta, o Palácio de Hofburg transformou-se em um teatro de aparências perfeitamente orquestradas, onde cada gesto, olhar e palavra carregavam o peso de um segredo sufocante.
Para os jornais e para o povo nas ruas de Viena, a Rainha Claire e o Rei Consorte Sebastian continuavam sendo o casal símbolo da nova era. Porém, por trás das portas duplas do Conselho Real e dos salões de recepção, a atmosfera era tão gélida que os próprios diplomatas hesitavam em erguer a voz.
No grande salão de reuniões, a longa mesa de mogno parecia agora um abismo intransponível. Claire ocupava a cabeceira, a postura impecável, a espinha ereta e a coroa reluzindo sob a luz dos candelabros. Seu rosto, contudo, tornara-se uma máscara de mármore impassível. Sebastian sentava-se à sua direita, mas a distância entre eles parecia maior do que a distância entre Viena e Londres.
— Os relatórios das províncias do sul indicam uma boa colheita, Majestade — declarava o Ministro das Finanças, ajustando os óculos enquanto olhava nervosamente de Claire para Sebastian. — No entanto, a proposta de redução das tarifas de importação de tecidos precisa da assinatura de ambos para avançar ao Parlamento.
Claire nem sequer olhou na direção de Sebastian. Sua voz soou clara, cortejando a perfeição da etiqueta, mas sem sombra de calor humanos.
— O Lorde Consorte já analisou os termos técnicos da proposta comercial? — perguntou ela, mantendo os olhos fixos nos papéis à sua frente.
Sebastian, cujas olheiras profundas e a palidez denunciavam noites inteiras sem dormir, piscou devagar. Seu peito queimava com uma dor física, constante e angustiante. Cada palavra formal de Claire era como um golpe direto em suas vísceras.
— Analisei, Majestade — respondeu ele, a voz rouca e sem a costumeira altivez. — Os termos são favoráveis aos nossos comerciantes locais. Não vejo razões para objeções.
— Excelente — disse Claire de forma seca, assinando o documento sem hesitar e empurrando o pergaminho pela mesa, sem que seus dedos chegassem perto dos dele. — Próximo ponto da pauta.
O Conselheiro Von Kinsky, sentado do outro lado, observava a cena em silêncio. Ele notou como o Rei Consorte mal tocava na água, como seus ombros pareciam curvados sob um peso invisível e como a Rainha, apesar da firmeza inabalável, apertava a caneta de pena com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos.
Ato II: Murmúrios nos Corredores
Quando a sessão do conselho foi encerrada, os ministros retiraram-se em sussurros cautelosos pelos corredores do palácio.
— Você notou? — cochichou o Duque de Styria ao Barão Von Berg. — Não houve um único olhar, uma única troca de sorrisos. Onde está aquele fervor dos primeiros meses?
— Dizem que a lua de mel acabou mais rápido do que o esperado — respondeu o Barão em tom baixo. — Ele parece um fantasma caminhando pelo palácio, e ela... ela parece feita de gelo puro. Algo muito grave aconteceu entre eles.
Enquanto isso, no corredor leste, Sebastian caminhava lentamente ao lado de Thomas. Cada passo pesava como se carregasse correntes de ferro. A culpa e o desespero devoravam sua mente a cada segundo.
— Milorde, o senhor precisa comer algo — pediu Thomas em tom preocupado, acompanhando o ritmo lento do nobre. — O senhor mal tocou no almoço e não dorme há três dias. Se continuar assim, vai adoecer.
— O meu corpo adoecer seria uma bênção, Thomas — murmurou Sebastian, o olhar fixo no chão de mármore. — A morte seria um alívio misericordioso comparada a ter que olhar para os olhos dela e ver apenas desprezo e repulsa. Eu prefiro a sepultura a viver neste inferno onde ela me odeia.
— Não diga isso, senhor! A Rainha está ferida, a raiva vai passar...
— Não vai passar — interrompeu Sebastian, parando e encostando a mão na parede para se apoiar, sentindo uma tontura súbita. — Ela não odeia apenas o que eu fiz; ela odeia o que eu sou. Ela olha para mim e enxerga o meu pai, enxerga uma mentira. E o pior de tudo é saber que ela está certa em duvidar. Eu trouxe a serpente para o jardim dela, Thomas. Se eu pudesse dar a minha vida agora para apagar a dor que causei a ela, eu daria sem pensar duas vezes.
Ato III: A Armadura de Mármore
No Gabinete Real, a porta foi trancada. Assim que se viu sozinha, Claire deixou-se cair sobre a mesa, escondendo o rosto nas mãos. Seus ombros tremeram por alguns instantes, mas nenhuma lágrima caiu. Ela havia prometido a si mesma que não choraria mais por um homem que a enxergara como um troféu de conquista.
Uma batida suave na porta a fez erguer a cabeça imediatamente. Em segundos, recompos a postura, limpou o rosto e ajeitou a coroa.
— Entre — ordenou com voz firme.
Era a Duquesa Sophie, sua dama de companhia mais confiável e amiga de infância. Sophie entrou, carregando um chá quente, e fechou a porta atrás de si. Ao ver o rosto rígido de Claire, suspirou com pesar.
— Claire... até quando você vai sustentar essa máscara? — perguntou Sophie suavemente, colocando a xícara sobre a mesa. — O palácio inteiro está comentando. Todos veem que vocês dois estão se destruindo em silêncio.
— O palácio pode comentar o que quiser, Sophie — respondeu Claire, a voz dura, embora seus olhos traíssem uma exaustão profunda. — O Rei Consorte cumpre o seu papel público e eu cumpro o meu. É tudo o que a Áustria exige de nós.
— Mas e você? — insistiu Sophie, aproximando-se e tocando a mão gelada da soberana. — Eu vejo como o seu peito arfa toda vez que ele entra na sala. Eu vejo o quanto dói manter essa distância. Ele parece destruído, Claire. Ele mal consegue se manter de pé.
Claire puxou a mão devagar, o olhar tornando-se sombrio.
— Ele é um ator talentoso, Sophie. Ele treinou a vida inteira sob a tutela de Stefan Blackwood para parecer vulnerável e apaixonado quando fosse conveniente. Se ele está mal, é porque o plano de sua família ruiu, não porque se importa comigo.
— Você realmente acredita nisso? Depois de tudo o que viveram?
— Eu tenho que acreditar! — exclamou Claire, a voz falhando por um milésimo de segundo antes de recuperar a dureza. — Porque se eu fraquejar, se eu permitir que o meu coração justification a traição dele, eu estarei entregando este reino à ruína. Eu sou a Rainha antes de ser mulher. Não posso me dar ao luxo de cair. Não vou cair.
Ato IV: O Reencontro na Biblioteca
À noite, o palácio mergulhou em um silêncio pesado. Incapaz de permanecer no quarto impessoal da ala leste, Sebastian caminhou até a grande biblioteca real, buscando na leitura algum refúgio para a mente torturada.
Ele segurava um livro antigo de história, mas não conseguia absorver uma única linha. Sua mente repetia sem cessar a imagem de Claire atirando a carta em seu peito, as palavras duras ecoando como um martelo.
De repente, o som de passos leves fez seu coração disparar. Claire entrou na biblioteca buscando um relatório de arquivo. Ela não esperava encontrá-lo ali.
Os dois pararam, os olhares se cruzando no meio da penumbra da sala iluminada apenas pelas velas. Por um segundo, a máscara de ambos ameaçou cair. Sebastian deu um passo hesitante à frente, a voz embargada pelo desespero.
— Claire...
— Guarde as suas palavras, Lorde Consorte — disse ela imediatamente, recuando um passo e erguendo o queixo, a armadura de gelo recomposta instantaneamente. — A biblioteca é grande o suficiente para que não precisemos nos dirigir a palavra.
— Por favor, apenas me escute por um minuto — implorou Sebastian, as lágrimas finalmente transbordando de seus olhos. — Eu sei que não mereço o seu perdão. Sei que a minha simples existência neste palácio é uma afronta para você. Mas não me olhe como se tudo o que vivemos fosse uma mentira... O meu amor por você é a única coisa verdadeira que me resta. Se você me pedir para renunciar ao título, eu renuncio. Se me pedir para desaparecer, eu desapareço. Mas não duvide do que senti... do que sinto por você.
Claire fechou os olhos por um segundo, sentindo uma pontada lancinante no peito. A vontade de correr para os braços dele e esquecer tudo era um sussurro perigoso em sua mente, mas a lembrança da carta de Stefan falava mais alto, lembrando-a de sua responsabilidade com a coroa.
Ela abriu os olhos, fria e implacável.
— O seu amor, Sebastian, custou a minha confiança — disse ela com uma calma aterrorizante. — E sem confiança, o seu amor não passa de um fardo insuportável. Pegue o livro que deseja e volte para os seus aposentos. A nossa reunião de amanhã com os embaixadores exige que pareçamos compostos.
Sem esperar por uma resposta, Claire virou as costas e saiu da biblioteca com passos rápidos.
Sebastian permaneceu sozinho na escuridão entre as estantes. Ele cobriu a boca com o punho para abafar um soluço dilacerante, desabando contra uma das estantes. A cada segundo que passava, o ar parecia mais raro, e o desejo de que a morte viesse libertá-lo daquele tormento tornava-se a sua única prece.
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