O estalo de um vaso de cristal atingindo o chão no corredor foi o único aviso antes de a porta ser escancarada com uma violência que fez as chamas das velas vacilarem.

​Carlos Vanderbit parou no limiar, o rosto transfigurado por uma mistura de choque e fúria. Ele não era mais o amigo jovial que trazia histórias de viagem; era um pai que acabara de ver a honra de sua linhagem ser posta à prova pelo homem em quem mais confiava no mundo.

​— Saia daqui, Hadassa. Agora! — a voz de Carlos saiu baixa, tremendo de uma raiva contida que era mais assustadora que um grito.

​Hadassa recuou, olhando de Dhorwack para o pai, mas o Rei colocou a mão firmemente em seu ombro, mantendo-a ao seu lado. O gesto foi a gota d'água para o Conde.

​— Como você ousa? — Carlos avançou para o centro do escritório, apontando o dedo para o peito de Dhorwack. — Eu trouxe minha família para sua casa sob a promessa de proteção! Eu lhe entreguei minha amizade por vinte anos, Mackenzie! E você... você se esconde atrás de leis mofadas para seduzir minha filha nos cantos escuros do seu castelo?

​— Meça suas palavras, Carlos — a voz de Dhorwack era um trovão gelado. Ele não se encolheu. Pelo contrário, sua aura de soberano parecia crescer, tornando o ar na sala pesado. — Eu não a seduzi. Eu a reconheci. E não permitirei que ela seja entregue a um animal como Urtred Styles apenas para que você possa pagar suas dívidas políticas com o Sul.

​— Isso não é sobre dívidas! É sobre a palavra de um cavalheiro! — berrou Carlos, socando a mesa de carvalho. — O contrato está selado! O Duque de Norfolk tem o apoio do Rei do Sul. Você está nos arrastando para uma guerra civil por causa de um capricho, Dhorwack! Você vai devolver Hadassa para os meus aposentos agora, e amanhã ela partirá com o noivo dela.

​Dhorwack deu um passo à frente, cruzando os braços. A expressão dele era de uma determinação absoluta, o tipo de olhar que ele usava antes de ordenar uma carga de cavalaria.

​— Ela não vai a lugar nenhum — sentenciou o Rei. — A Lex Custodia permanece. Hadassa é minha convidada e minha protegida. Se você tentar levá-la à força, ou se Styles tentar tocá-la, eu considerarei um ato de traição contra a coroa de Mackenzie.

​— Você está louco! — Carlos riu, uma risada amarga e desesperada. — Você vai prender o seu melhor amigo? Vai destruir a reputação da menina que diz amar? Se o mundo souber que o Rei a manteve aqui contra a vontade do pai e do noivo, ela será chamada de nada menos que uma meretriz, Dhorwack! É isso que você quer para ela?

​Dhorwack olhou para Hadassa. Ele viu o medo nos olhos dela, mas também viu a súplica para que ele não cedesse. O Rei voltou-se para Carlos, sua voz agora num tom mortalmente calmo:

​— Prefiro que ela seja uma rainha difamada nas bocas dos tolos do que uma duquesa morta por dentro nos braços de Styles. Saia do meu escritório, Carlos. Antes que eu me esqueça de que fomos amigos um dia e o trate como o traidor que está sendo ao vender sua própria carne.

​Carlos recuou, a respiração ofegante, os olhos cheios de lágrimas de ódio.

— Você não é mais o homem que eu conheci. Você é um tirano, Mackenzie. E tiranos costumam terminar seus dias sozinhos.

​O Conde saiu, batendo a porta com tanta força que o som ecoou por todo o castelo. O silêncio que se seguiu foi doloroso.

​Hadassa deixou o corpo cair contra a mesa, tremendo. Dhorwack não se moveu imediatamente; ele olhava para a porta fechada, sentindo o peso de ter acabado de destruir sua única amizade real por algo que ele mal conseguia explicar, mas que não pretendia abandonar.