O preço da Coroa

11 O Veneno na Taça e a Língua de Fogo


A rotina no Castelo Mackenzie havia mudado. O Rei, antes trancado em silêncio, agora parecia esperar ansiosamente pelo cair da noite, ou pelo desjejum, apenas para ouvir as insolências revigorantes de Malya. No entanto, a paz desse novo refúgio foi abalada quando as trombetas anunciaram a chegada da Baronesa Genevieve de Valois.

​Genevieve era o oposto de Malya: usava sedas caríssimas, perfumes que empestavam o corredor e tinha uma risada ensaiada que visava apenas o trono de Dhorwack. Sabendo que o Rei estava "vulnerável" após a partida de Hadassa, ela veio com um objetivo claro.

​Capítulo 7: O Veneno na Taça e a Língua de Fogo

​No banquete de recepção, Dhorwack parecia entediado, mas Genevieve não desistia. Ela se inclinava sobre ele, tocando seu braço com dedos cobertos de anéis.

​— Majestade, ouvi dizer que as noites nestas montanhas são solitárias — ronronou a Baronesa. — Talvez falte ao seu lado uma mulher que entenda de etiqueta, e não apenas de... sopas e compressas.

​Malya, que estava servindo o vinho, sentiu um aperto estranho no peito. Não era medo, era algo quente e incômodo. Ciúme. Ela bateu a jarra de prata na mesa com um pouco mais de força do que o necessário.

​— O vinho de Mackenzie é forte, Baronesa — interrompeu Malya, com um sorriso que não chegava aos olhos verdes. — Cuidado para não embriagar sua etiqueta. Seria uma pena se a senhora tropeçasse no próprio vestido de seda... de novo.

​Genevieve empalideceu, olhando para a criada com desprezo.

— Como se atreve a dirigir a palavra a mim, serva? Dhorwack, sua criadagem é... peculiarmente mal-educada.

​Dhorwack levou a taça aos lábios para esconder um sorriso. Ele estava adorando a faísca nos olhos de Malya.

— Malya é... franca, Baronesa. Uma qualidade rara nestas terras.

​— Franca? Ela é atrevida! — Genevieve bufou, voltando-se para o Rei. — Imagine, Majestade, uma rainha que saiba organizar bailes, em vez de uma que cheira a sabão de ervas e cozinha. O senhor merece alguém do seu nível.

​Malya deu um passo à frente, ajustando a bandeja com uma audácia que fez os guardas prenderem a respiração.

​— Com todo o respeito à "etiqueta" da Baronesa — disse Malya, a voz carregada de um sarcasmo afiado —, o Rei já teve rainhas e nobres o suficiente tentando controlar sua vida. O que ele precisa agora é de alguém que o trate como homem, e não como um degrau para um trono. E, honestamente, Baronesa... esse seu perfume de jasmim está matando as flores do jardim de inveja. Ou de sufocamento.

​— Saia daqui agora! — gritou Genevieve, levantando-se.

​Malya olhou para Dhorwack, esperando a ordem de expulsão ou punição. O Rei, porém, recostou-se na cadeira, observando a ruiva com um brilho de admiração que ele nunca tivera por Hadassa.

​— Malya tem razão sobre uma coisa, Baronesa — disse Dhorwack, a voz fria como o aço. — Eu prezo pela verdade. E a verdade é que o perfume dela me agrada muito mais do que a sua ambição. Malya, leve o meu vinho para o escritório. A Baronesa já terminou sua visita... não é, Genevieve?

​A Baronesa saiu bufando, arrastando suas sedas pelo chão. Quando ficaram sozinhos no corredor a caminho do escritório, Malya caminhava apressada, as bochechas coradas de raiva.

​— O senhor é um tonto — resmungou ela, sem olhar para trás. — Deixando aquela mulher se esfregar no seu braço como se fosse um gato de rua.

​Dhorwack a segurou pelo braço, girando-a para encostar na parede de pedra. Ele estava sorrindo abertamente agora.

— Você estava com ciúmes, Malya? Uma criada com ciúmes de um rei?

​— Eu estava com nojo de má educação, só isso! — ela tentou desviar o olhar, mas ele segurou seu queixo.

​— Você tem uma língua perigosa, ruiva — sussurrou ele, aproximando o rosto do dela. — Mas é a única coisa que me faz sentir vivo neste castelo de pedra.