O príncipe e a cientista
3 Capítulo 3
Os três chegaram a um conceituado salão de festas, localizado no centro da Capital do Oeste. O estabelecimento havia sido reservado com antecedência para a confraternização, o que significava que somente os funcionários da Corporação Cápsula e seus familiares seriam os clientes. A lotação estava praticamente completa e não demorou a começar os festejos.
Mas, primeiro, Bulma foi convidada a fazer um discurso breve, no qual agradecia pelo apoio que recebera ao passar a assumir a liderança da empresa e pela dedicação e empenho de todos para que tudo saísse da melhor forma possível no período de transição. Finalizou o discurso agradecendo mais uma vez a todos e direcionando seu olhar a Vegeta e Trunks para dizer o quanto era grata por eles fazerem parte da vida dela.
Logo que ela voltou à sua mesa, junto com marido e filho, os garçons passaram a servir as várias mesas espalhadas pelo amplo e elegante salão, exceto a deles. Algumas pessoas das mesas próximas até cochicharam entre si com um pouco de estranhamento, o que se converteu em uma surpresa quando os garçons chegaram com farta refeição, a qual Trunks e Vegeta começaram a comer imediatamente.
Bulma começou a comer a sua porção enquanto observava os dois atacarem a comida. Deixara bem claro para eles que deveriam “comer com modos”, com talheres e “sem desespero”. A ideia era que, pelo menos diante de outras pessoas que não conhecessem, eles comessem sem parecerem dois trogloditas esfomeados.
Não adiantou muita coisa, pois Vegeta e Trunks devoravam rapidamente as carnes, as saladas e qualquer outro prato posto à mesa, causando várias corridas dos garçons para poder atender à mesa deles. Mesmo comendo com modos “civilizados”, os saiyajins tinham um apetite completamente selvagem, que inevitavelmente chamava a atenção de todos.
Bulma suspirou, vencida. Somente depois de décadas convivendo com saiyajins, concluiu:
— Isso não tem jeito mesmo... Eu desisto. Melhor aceitar, que dói menos.
*
Após o jantar, a confraternização seguia com vários grupos interagindo entre si. Bulma apresentava Vegeta e Trunks para alguns funcionários da área científica. Conversavam uma ou outra coisa, até chegar a uma pergunta:
— Vocês acreditam em vida fora da Terra?
O questionamento partira de um jovem ruivo que não devia ter mais do que dezoito anos. Era um estagiário, provavelmente dos primeiros períodos da universidade. Ele prosseguiu:
— Tipo, nunca vi nenhum alienígena aparecendo em nenhum canto, nada parecendo aqueles bonequinhos de olhos pretos enormes, pele azulada e um cabeção que é maior do que o corpo, sabe?
Uma mulher mais velha, de cerca de cinquenta anos, respondeu:
— Eu acredito. Antes de trabalhar na Corporação Cápsula, eu trabalhei para o governo. Uns vinte anos atrás, vieram dois sujeitos em naves espaciais pequenas. Eu não me lembro de suas fisionomias, mas lembro que era um grandalhão e um mais baixinho... Mais ou menos do tamanho do marido da Sra. Bulma.
Tanto Bulma quanto Vegeta se lembraram desse acontecimento. Bulma se lembrou de que vira esse acontecimento pela TV e Vegeta, um pouco mais afastado, começou a assobiar baixinho, enquanto Trunks olhava para os dois sem entender nada. O filho do casal obviamente sabia a origem extraterrestre do pai desde que se entendia por gente, mas com certeza havia coisas que não haviam lhe contado, como, por exemplo, onde e de que maneira eles se conheceram.
Mas Trunks decidiu que seria melhor fazer essa pergunta quando estivessem em casa.
— Alienígenas humanoides? – o jovem estagiário questionou. – Por que nunca vi nada parecido na internet?
— Acredito que por questões de segurança, e porque a população da Terra ficou aterrorizada naquela época. É a mesma razão pela qual não temos muita coisa referente aos Cell Games.
O estagiário ficou pensativo, mas concluiu que o que sua colega dizia tinha algum sentido. Virou-se para Bulma e perguntou:
— Sra. Bulma, o que acha disso?
— Eu acredito em alienígenas – ela respondeu sem titubear. – E tenho total certeza de que eles não só visitaram a Terra, como também estão vivendo entre nós, sem que ninguém perceba.
— Caramba! – o rapaz exclamou. – Fala com tanta certeza que parece que na família tem alienígenas.
— Tudo é possível, não acha? – Bulma disse enquanto dava uma discreta piscadela, percebida por Vegeta.
— EU NÃO VOU ADMITIR UMA COISA DESSAS! – uma voz mole e arrastada, típica de alguém que passara da conta, ecoou no salão de festas. – NUNCA ACEITEI E NUNCA VOU ACEITAR NEPOTISMO!
Os olhares de todos recaíram sobre um homem de cerca de quarenta anos, alto, com uma boa aparência física. Cabelos loiros curtos, olhos castanhos e uma expressão extremamente indignada em seu rosto claramente bêbado. Um dos colegas tentou conter a caminhada levemente vacilante do homem até Bulma, segurando seu blazer.
— Não faça isso, Pip! – o colega dizia em vão. – Você está arriscando a sua carreira por besteira!
O homem chamado Pip se desvencilhou do outro homem, livrando-se do blazer e seguiu sua caminhada até onde estava Bulma, Vegeta, Trunks e os outros dois funcionários da Corporação Cápsula. O saiyajin não pensou duas vezes e se colocou entre ela e o homem loiro.
— Sai da frente, amigo. – Pip ordenou. – Meu assunto é com a presidente.
— Não me chame de “amigo”. Diga o que quiser a ela, mas daqui você não passa.
— Eu quero ver a cara dela, nanico. Sai da frente.
Vegeta prometera a si mesmo e a Bulma que não mataria nenhum terráqueo, a não ser em casos excepcionais, como ser um Dr. Gero da vida ou algo parecido que seja uma clara ameaça à Terra. Mas pressentia que aquele sujeito seria mais um dos vários testes para a sua pouquíssima paciência com gente idiota.
— Fale daqui. Ela não é surda.
— Eu quero que ela me veja, baixinho testudo!
“Ele está pedindo pra apanhar!”, Vegeta pensou após ouvir mais uma ofensa. Mas sabia que um golpe seria capaz de matar aquele babaca com uma facilidade imensa. Não era fácil conter sua força absurda em um planeta cujos habitantes tinham poder de luta tão irrisório, salvo raras exceções.
Exceções essas que ele conhecia muito bem, pois meio que eram do seu círculo de convivência.
— Sai da minha frente, tampinha! Ou eu enfio a mão na sua cara!
— Vegeta – Bulma interveio, com Trunks ao seu lado. – Pode deixar ele passar.
O saiyajin deu um passo para o lado, e Pip apontou um dedo em riste para ela.
— VOCÊ NÃO DEVERIA ESTAR NA PRESIDÊNCIA DESTA EMPRESA! VOCÊ SÓ ESTÁ ONDE ESTÁ PORQUE É FILHA DO FUNDADOR! HÁ ANOS QUE EU ESTOU AQUI DANDO MEU SANGUE PARA A CORPORAÇÃO CÁPSULA E EU MERECIA ESTAR NA PRESIDÊNCIA! ESTA EMPRESA NÃO PRECISA DE UM ROSTINHO BONITO, MAS SIM DE UM HOMEM QUE SAIBA LIDERAR COM PULSO FIRME!
Pip começou a ofegar cansado, depois de berrar seu discurso para Bulma. Não aceitava que ele, líder de uma das melhores equipes de cientistas, jamais fosse cogitado para um cargo como aquele. Ele, que era um dos melhores cientistas, queria ser reconhecido após anos de dedicação, e achava que ela estava onde estava puramente por ser filha do fundador.
Ele não poderia estar mais errado. Os funcionários mais antigos da Corporação Cápsula conheciam Bulma desde menina e sua grande genialidade, seguindo os passos de seu pai. Ela era nada menos do que brilhante e estava na presidência por mérito próprio.
— Quer dizer que, por eu ser mulher e ser filha do fundador, não tenho capacidade para comandar esta empresa, é isso? – ela questionou enquanto lançava um olhar indignado e, ao mesmo tempo, irônico. – Reclame com o conselho que me elegeu.
— Conselho comprado a favor de uma nepobaby ordinária!
Pip pegou um copo e arremessou contra Bulma, mas sua trajetória foi interrompida por Vegeta, que o segurou no ar com facilidade. Disse lentamente:
— Não ouse tentar nada contra minha mulher.
Com um pouco de força, esmigalhou o copo que segurava, transformando-o em inúmeros caquinhos, sem machucar a mão. Ainda assim, Pip, cego de raiva, correu para tentar acertar um golpe no saiyajin, que apenas desviou levemente seu rosto para a esquerda.
— C-Como?! – o homem loiro ficou espantado. – Eu dei o meu melhor golpe, treinei artes marciais no dojo do Mr. Satan, fui um dos melhores discípulos, e...
— E você errou o golpe. – Vegeta completou a frase do outro enquanto curvava levemente a boca num sorriso debochado. – Por que não tenta de novo?
Pip deu um chute, mas contra o vento. Vegeta, ainda com um sorriso debochado, desviou levemente seu rosto para a direita.
— Muito lento. – provocou. – Tenta de novo.
Uma sequência de socos e chutes visava atingir o rosto do príncipe saiyajin, mas este não tinha qualquer trabalho para se esquivar de um lutador fraco e com as habilidades prejudicadas pelo álcool... Embora não fizesse diferença se o sujeito estava sóbrio ou não, pois era apenas um terráqueo comum com um poder ínfimo.
Mas aquilo o aborrecia, pois o sujeito chamado Pip era irritante e ele queria acabar com aquela presepada logo; já estava sendo maçante zombar daquele fracote. Descruzou os braços, deixando-os relaxados e levantou sua mão direita, segurando juntos o polegar e o dedo médio. Quando o loiro se aproximou para mais uma investida, Vegeta deu-lhe um peteleco, cuja força arremessara o pobre homem contra a parede do outro lado do grande salão e deixando todos de olhos arregalados.
— Ai, não, Vegeta...! – Bulma suspirou enquanto passava a mão pelo rosto desolado.
*
O silêncio dominava o aerocarro na volta para casa desde que saíram do hospital para o qual fora levado o homem golpeado por um peteleco de Vegeta, que mais uma vez assumia o volante. Bulma olhava para através do vidro, seu olhar se perdendo na paisagem que passava rapidamente por seu campo de visão, à medida que o veículo seguia seu caminho para casa.
— Não sei para que esse drama – o saiyajin murmurou. – Aquele idiota não vai morrer. Além disso, eu nem encostei nele.
— Como não? – ela retrucou. – Eu vi você acertando um peteleco nele! Só isso já faz um estrago bem grande!
— Não acertei aquele imbecil, por mais que merecesse.
Trunks interveio:
— É verdade, mamãe! O papai nem encostou nele, eu vi!
— E como é que ele perdeu os dentes?!
— Deslocamento de ar. – Vegeta disse enquanto parava o aerocarro no semáforo.
Trunks baixou o vidro e viu uma latinha de refrigerante vazia sobre um cesto de lixo à beira da calçada. Deu um peteleco e, à distância, a latinha saiu voando para acertar um muro. Diante do olhar surpreso da mãe, o garoto sorriu triunfante.
— Dá um peteleco perto da sua orelha, mãe!
Ao repetir o movimento, Bulma percebeu um leve deslocamento de ar feito pelo movimento dos dedos. Por mais que convivesse com Vegeta e Trunks, além de Goku anos antes, ficava sempre surpresa com a força surreal de indivíduos da raça saiyajin. Simplesmente era inacreditável o fato de eles terem um poder tão absurdo.
Mas, por outro lado, começou a refletir que provavelmente algo semelhante acontecia a Vegeta. Para ele, talvez fosse simplesmente inacreditável o fato de existir uma raça tão frágil quanto a humanidade terráquea... E devia ser um desafio bem grande controlar tamanho poder para se adaptar a um planeta com bilhões de habitantes incrivelmente fracos.
— Eu não poderia deixar você ser alvo de um sujeito daqueles. Ele estava falando bobagem demais para o meu gosto, e iria te agredir. Além do mais – Vegeta deu uma olhadela rápida para ela. – a capacidade daquele idiota nem chega perto do que você sabe fazer. Quem já saiu da Terra para o espaço pelo menos uma vez na vida já tem muito mais conhecimento do que um cara que se acha um gênio só por ler um monte de livros. No máximo, aquele cara é apenas um idiota com referências.
— O que você disse de mim, posso entender como um elogio?
Vegeta corou.
— Eu disse apenas o óbvio.
— E obviamente me senti lisonjeada.
Bulma soltou um risinho baixo, mas divertido, enquanto via que o saiyajin continuava enrubescido. Ela adorava vê-lo ficar desarmado, todo sem jeito, porque aquele era o Vegeta que só ela conhecia de verdade.
— Entenda como quiser, Bulma.
A cientista se inclinou um pouco para a direção do marido e lhe beijou o rosto. Ele, com o rosto um pouco mais vermelho, ralhou:
— Não me pega desprevenido assim, mulher!
Ela mais uma vez soltou um risinho divertido, enquanto ele bufou, ao mesmo tempo em que acelerava o veículo após o semáforo mostrar o sinal aberto.
Vegeta não sabia se odiava ou gostava desse costume de Bulma. Passara tanto tempo de sua vida em estado de alerta permanente, que nos primeiros anos na Terra era difícil relaxar e baixar a guarda fora de situações de combate. Crescer trabalhando para um tirano como Freeza tornava obrigatório esse estado de vigilância permanente, mesmo enquanto descansava. Por essa razão, odiava ser surpreendido e sua mente sempre bolava estratégias para quase tudo.
Só que, com Bulma, as coisas eram diferentes. Ela era capaz de deixá-lo desconcertado com facilidade, ao mesmo tempo em que se sentia livre para estar um pouco mais relaxado. Perto dela, baixava a guarda facilmente e isso sempre deu a ela uma brecha para o surpreender. Também ajudava o fato de a assinatura de ki dela ser tão fraca — como ocorria com a maioria dos terráqueos — que ficava difícil prever qualquer movimento.
Era mais fácil prever os movimentos de Majin Boo do que os dela, na verdade.
Ao chegarem em casa, após descerem do aerocarro, o saiyajin logo transformou o veículo em cápsula e o entregou a Bulma. Discretamente, pai, mãe e filho passaram pelo saguão da mansão e seguiram, aos cochichos, para os quartos.
Primeiro, fizeram uma parada no quarto de Trunks. Vegeta, à porta, observou o garoto se trocar rapidamente e se deitar na cama, para depois receber da mãe um beijo de boa-noite na testa. Até cerca de três anos atrás, ele teria seguido direto ao seu quarto enquanto essa cena rotineira se desenrolava. Isso, se ele terminasse sua rotina de treinos na mesma hora em que isso estivesse acontecendo.
Muitas vezes se pegava pensando no quanto se sentia irreconhecível em alguns comportamentos. Antes, achava que era tudo uma grande bobagem, mas agora um momento como esse lhe trazia uma sensação muito boa.
Enquanto pensava nessas coisas, seguia a mulher de cabelos azuis para o quarto. Desfez-se da jaqueta e da camiseta enquanto ela tirava as joias que usava e removia a maquiagem. Viu, pelo espelho, que ela tinha em seu rosto uma expressão de satisfação.
— Apesar do que aconteceu — ela verbalizou. — Hoje foi bem divertido. Espero que tenha sido divertido pra você também.
— Não foi de todo mal, tirando aquele idiota. — ele respondeu enquanto terminava de se trocar.
— Nem me fale... — ela terminava de vestir a camisola e se alongava preguiçosamente. — Amanhã vou ter que pagar as despesas de hospital... Mas também vou pedir para o RH programar a demissão dele. Já passava da hora de dispensá-lo.
— E por que não fez isso antes?
— Porque acreditava que ele tinha potencial para um cargo mais alto, mas... Como você disse, ele é apenas um idiota com referências. Uma pena.
Os dois se deitaram na cama e, após darem um rápido selinho, Bulma disse:
— Amanhã tem reunião de pais na escola do Trunks. Vou precisar que você vá.
— Tenho outra escolha? — Vegeta perguntou retoricamente, com os olhos já fechados. — Não tenho, não é mesmo?
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