O príncipe e a cientista
4 Capítulo 4
Trunks acordou e viu que o sol forte entrava pela janela do quarto, indicando que já era meio tarde. Deu um bocejo e esfregou os olhos azuis, como se eliminasse assim os últimos resquícios de sono. Ouviu baterem à porta e logo pulou da cama para atender, enquanto bocejava mais uma vez.
— Levanta logo, Trunks. — era a voz de seu pai. — Vamos treinar juntos hoje.
— Caramba, já voltou da reunião, papai?
Não precisou dizer “sim”, pois a expressão um pouco mais severa de Vegeta denunciava que ele ouvira alguma coisa desabonadora sobre o garoto. Mas tinha certeza de que suas notas não eram ruins, evitava entrar em qualquer briga ou confusão na escola... E, principalmente, fazia o máximo possível para não chamar atenção desnecessária por conta de seus poderes.
— Acho que isso é um “sim”, não é mesmo?
Vegeta assentiu afirmativamente enquanto, de braços cruzados, examinava o filho de cima a baixo. O garoto meio que sentia que aquela examinada pelos olhos penetrantes do pai quase fazia um raio-x, embora saiyajins não tivessem visão de raio-x, ou algo parecido.
— Você relaxou demais nos treinos, Trunks. Não está conseguindo diminuir com facilidade seu ki.
— Bem... – o menino coçou pensativa e desajeitadamente a cabeça. – Acho que isso explica eu ter mandado uma bola de beisebol para tão longe, e... A bola de vôlei ter feito um buraco na quadra...
— Não se esqueça de que saltou cinco metros para alcançar a bola de vôlei.
— Pois é... – Trunks continuava cada vez mais constrangido. – Tem razão, pai... Vamos treinar.
— Vá tomar seu café e me encontre na Sala de Gravidade em quinze minutos.
Trunks bateu continência para o pai e respondeu:
— Sim, senhor!
*
Em menos de quinze minutos, lá estava ele parado em frente à pesada porta metálica, com o letreiro escrito “Sala de Gravidade”. Externamente, Trunks estava preparado para aquela sessão de treinos: seu gi verde-escuro, com faixa laranja à cintura, munhequeiras da mesma cor, e calçava botas amarelas. Isso, além de estar de barriga cheia após tomar um café da manhã super-reforçado. Mas, internamente, se preparava para enfrentar um treinamento desafiador.
Não que seu pai fosse um carrasco nos treinos, bem longe disso! Na verdade, os treinamentos eram bem intensos, nos quais se exigia grande esforço físico, e muitas vezes batia uma dose de preguiça. Afinal, se a Terra estava há cerca de três anos em paz, sem qualquer ameaça à espreita, por que se matar de tanto treinar?
— O que está esperando para entrar, Trunks? — a voz de Vegeta o tirou de seus pensamentos. — Vamos começar, está na hora.
O garoto adentrou o recinto, cujo computador central indicava, em uma pequena tela, que a gravidade estava em 1G. Seu pai o aguardava em sua típica pose de costume, de pé e com os braços cruzados. Em vez do costumeiro traje de batalha com armadura, usava o conjunto de regata e calças azul-marinho.
Apesar da pose imponente e intimidadora, não havia nenhuma expressão de reprovação ou a iminência de alguma bronca pesada. Trunks diria que seu pai estava com uma expressão séria, mas ao mesmo tempo neutra.
— Já avisei sua mãe sobre o resultado e as notas do seu boletim... E, claro, tive que dizer o que os professores me disseram.
— E... O que eles disseram, pai?
— As suas notas estão boas, mas foi o que eu disse antes. Você está chamando atenção demais com a sua força. E sua mãe sempre deixou bem claro que você não deve chamar atenção com o seu poder.
— Como se fosse fácil... Nos últimos dias tô tendo problemas com isso. No café da manhã de hoje, quebrei dois copos só de segurar!
— Sem contar três garfos e uma faca entortados ontem na festa da empresa da sua mãe, junto com um copo quebrado.
— Você viu isso tudo...?
— Você é rápido, Trunks — Vegeta sorriu discretamente. — mas eu sou mais experiente.
— Desde sempre lutando, como não seria? Aposto que ficava treinando o tempo todo.
— Não. Só passei a treinar quando passei a viver aqui.
— Por causa do Sr. Goku, não é?
— Sim, mas hoje não é só por isso.
Vegeta jogou uma garrafa tipo squeeze na direção do filho, que a pegou, mas a estourou na mão, derramando toda a água.
— Ah, droga...! — Trunks reclamou. — Nem fiz força pra segurar!
O saiyajin deu continuidade ao que explicava anteriormente:
— Treinamento também é importante para ter total domínio do nosso poder, e isso inclui não quebrar tudo pela frente só de segurar. Vivemos cercados por bilhões de seres que poderiam morrer se eu acertasse um peteleco no meio da cara, e acredito que você não gostaria de matar ninguém só de dar um aperto de mão!
— Por favor — o garoto fez uma mesura para o pai, como um discípulo faria para o mestre. — me ajuda a treinar! Eu quase machuquei a mão do Goten quando o cumprimentei, e olha que ele é quase tão forte como eu!
Vegeta sorriu e, numa explosão rápida de energia, sua aparência mudou. Olhos verdes, cabelos dourados e a característica aura dourada pulsante anunciavam a transformação em Super Saiyajin.
— Muito bem, Trunks... Primeiro, vamos lutar para você gastar boa parte dessa energia. Já faz um bom tempo que não vejo você se transformar em Super Saiyajin.
O garoto se concentrou e seus cabelos lisos, de cor lavanda, começaram a se eriçar. Uma explosão de energia fez com que eles ficassem espetados e dourados, e os olhos azuis assumissem o mesmo tom de verde dos olhos do pai. Envolvido pela mesma aura dourada pulsante, partiu para o ataque e, assim, começava a luta que só terminaria quando Trunks ficasse exausto.
*
A luta entre pai e filho foi bastante intensa, de tal forma que o passar do tempo mal foi percebido. Trunks, exausto, estava deitado no chão e, em seu estado normal, ofegava bastante. Vegeta, também voltando à sua forma normal, reduziu a gravidade de 150G para 1G.
O garoto, já mais recuperado do cansaço, se sentou no chão. Com um reflexo rápido, segurou uma outra garrafa de água que seu pai lhe jogou. Desta vez, a garrafa não se rompeu e Trunks pôde beber água.
— Com menos energia... — ele comentou enquanto olhava para as próprias mãos. — Fica bem mais fácil controlar minha força.
— Sim. — Vegeta confirmou enquanto se sentava no chão, em frente ao filho. — Com menos energia é mais fácil, mas temos que dominar toda a energia que temos. Caso contrário... — interrompeu-se e, sem fazer esforço, o squeeze estourou e derramou água.
— Vendo você fazer isso, parece tão fácil...
E na verdade não era nada fácil. Quando se controlava a força por alguns momentos, segundos, minutos, até mesmo algumas horas, não era tão difícil no começo, por ser por pouco tempo e, até então, não interagia muito com as pessoas da Terra. Quer dizer, ainda não interagia tanto assim com as pessoas da Terra, atualmente, mas era bem mais do que nos seus primeiros anos naquele planeta tão distante de tudo o que conhecia no universo.
Era desafiador controlar sua enorme força ao manusear objetos do dia a dia, sem entortar ou quebrar tudo o que segurava, como aquele squeeze de água. Manter esse controle por até vinte e quatro horas por dia em alguns momentos, de forma consciente, não era nada fácil e já perdera a conta de quantas pastas de dente esvaziara num único apertão, espalhando seu conteúdo pelo banheiro, ou quantas vezes já quebrara torneiras e registros hidráulicos acidentalmente.
Seu maior desafio era não machucar ninguém, especialmente Bulma. Se, por exemplo, segurasse seu braço com a firmeza habitual, no mínimo lhe causaria fraturas e, mesmo lutando para controlar no começo tamanha força física, algumas vezes já lhe deixara alguns hematomas acidentais. Era ainda mais difícil controlar esse poder absurdo que residia dentro de si quando estava a sós com Bulma nos momentos mais íntimos e tórridos, onde nenhum dos dois raciocinava direito, e ele precisava lutar ferrenhamente para manter sobre si o mínimo de controle para não ocorrer nada que ultrapassasse algum hematoma.
Era especialmente difícil para ele, que, desde criança, nunca precisou se importar em tomar cuidado com absolutamente nada, a não ser sobreviver a combates durante seu período de soldado genocida a serviço de Freeza, enquanto tramava uma forma de ter sua vingança contra o então Imperador do Universo.
Era de batalhas e demonstração de poder que um saiyajin de elite era feito, ele aprendera quando criança.
Quando decidira ficar na Terra, sabia que enfrentaria desafios, mas não imaginava que teria que controlar tanto seu poder para evitar chamar demasiada atenção e até mesmo evitar machucar outras pessoas.
Respirou fundo após se lembrar de todos esses desafios e lançou a Trunks uma semente dos deuses.
— Coma essa semente dos deuses, Trunks, e se transforme de novo em Super Saiyajin. Controlar nosso poder não é nada fácil, não se pode relaxar demais.
O garoto comeu a semente e questionou:
— Nós vamos lutar de novo?
— Não. – o saiyajin se transformou. – Vamos passar este fim de semana assim o tempo todo. Nós dois vamos controlar nosso poder nesta forma.
— Tá bom, pai!
Trunks novamente assumiu a forma Super Saiyajin e perguntou:
— E o nosso treinamento termina aqui?
— Por hoje paramos aqui. Amanhã você vai ser meu adversário de luta.
— Combinado!
Trunks saiu correndo, enquanto Vegeta saía da Sala de Gravidade caminhando despretensiosamente. Avistou o filho encontrar Bulma e quase a abraçar, mas se refrear e apenas a saudar com um aceno enquanto recebia da mãe um beijinho na testa. Em seguida, o garoto seguiu para a cozinha.
Bulma se aproximou do marido e o beijou no rosto, para depois perguntar:
— Trunks está em treinamento, certo?
— Pois é. Ele não pode relaxar.
— Eu só espero que dê certo, senão ele vai destruir tudo.
Da cozinha, ouviu-se um barulho de pratos e copos quebrando, e a voz do filho do casal:
— DESCULPA! JURO QUE FOI SEM QUERER!
A cientista suspirou.
— Vegeta, eu posso não entender nada do treinamento de vocês, saiyajins, mas... Acho que esse treinamento do Trunks não vai ser fácil...
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