O pior convite do mundo

1 CAPÍTULO 1: Convite Para O Inferno


Acabo de chegar da recepção maravilhosa que Max preparou para mim. É incrível como alguns dias fora da nossa realidade pode ser o suficiente para colocar a mente no lugar e criar perspectiva de coisas que antes pareciam verdadeiros monstros de sete cabeças. Depois de um mês na Espanha, me sinto como outra pessoa, a velha Camille ficou para trás, foi feito um reset na minha mente e alma e agora nada pode tirar minha paz.

Nem nos meus piores pesadelos poderia imaginar o que estará esperando por mim em casa.

Assim que chego ao prédio, pego minhas correspondências e entro no elevador. Meu coração se aperta de alegria quando abro a porta e reconheço minha casa, há algo de especial sobre estar no lugar que escolhemos para estar vulnerável, trinta dias longe do meu refúgio foi quase um martírio.

Largo o bolo de cartas em cima da mesinha do telefone junto com as chaves e sigo para o banheiro, tudo que preciso é de água gelada caindo na cabeça. No caminho ficam minhas roupas, quando chego ao el cuarto de baño, já estou nua. A água cai sobre meu corpo como uma chuva gelada de tempestade de verão.

A toalha felpuda e macia abraça meu corpo e me protege dos possíveis olhares curiosos de vizinhos fofoqueiros enquanto sigo para o quarto. Visto a roupa mais confortável que encontro, voltando à sala para olhar as correspondências, pois, com certeza, os boletos estão sedentos pela minha presença. Há revistas de moda, catálogos de vinhos, algumas contas, e por fim, um envelope diferente. Já começo a estranhar pela cor: tea rose — não é rosa, nem salmão, é tea rose.

Também é grande e chique; o tipo de coisa que não chega na sua caixa de correio todo dia. Curiosa como sempre fui, abro o envelope ávida por saber o que pode haver de tão importante dentro dele, e quando finalmente leio, quase caio para trás. Corro para o quarto com o convite, o estendo sobre a cama, o encarando sem saber o que pensar.

Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! Oh, meu Deus!

“Não existe felicidade maior que o encontro de dois corações que há muito tempo se buscavam.”

É com muito prazer que Andrew Richard Lima de Andrade e Héloise Marie Camargo convidam para a cerimônia de seu casamento que se realizará às 18:00h do dia 20 de novembro de 2019, na Igreja de Santana.

Eu tô esperando, minha linda! Não me dê um bolo, okay? Sua presença é de suma importância pra mim e não aceito não como resposta.

Não esqueça a garrafa de uísque.

PS: escuta os mil recados que estão na sua secretária.

—A.L.

Corro até a cozinha, tirando das profundezas do armário uma garrafa de vodca. Bebo direto do gargalo, sem intervalos, certa de que quando voltar a ler esse papel estúpido, as palavras serão outras. É uma elaborada ilusão de ótica, eu tenho certeza.

O tal convite ainda está estendido na cama junto com o infame bilhete que Andrew mandou. Encaro o papel desconfiada, é um papel pesado com letras bonitas, elegantes e douradas... parece caro demais.

Não é a cara dele.

Ainda não posso acreditar, nada disso faz sentido.

Casar? Desde quando ele quer casar?

Nervosa, ando rapidamente do quarto à sala tantas vezes que perco a conta. Só quando volto à sala — pela décima vez? — é que percebo a luz acesa no painel do telefone fixo. Não tenho a menor vontade de ouvi-los.

É lógico que há recados, a viagem durou mais tempo que o programado, o que, na verdade, foi ótimo, só assim pude me divertir longe da confusão burocrática que é minha vida.

Infelizmente a curiosidade é meu maior pecado e, sem resistir, aperto o botão vermelho da secretária eletrônica. Os recados começam como fofocas nas janelas da vizinhança.

Gravado em 10 de novembro, às 18 horas e 40 minutos.

—Hey Cami, não sei se o convite já chegou, mas... Eu vou me casar! Mal posso acreditar que o dia está chegando. Héloise está louca para te conhecer. Por favor, me ligue, linda.

Gravado em 12 de novembro, às 21 horas e 30 minutos.

—Cami, você está aí? Eu preciso falar com você.

Gravado em 13 de novembro, à 0 horas e 15 minutos.

—Porra Camille, você está me ignorando? Eu fiz alguma coisa de errado, você pode me ligar?

Gravado em 14 de novembro, às 12 horas e 20 minutos.

—Camille, estou cortando relações com você, okay?

Gravado em 14 de novembro, às 15 horas.

—Camille Theodora de Moraes, eu espero realmente que você tenha bons argumentos para me convencer que não devo te abandonar!

Gravado em 14 de novembro, às 19 horas e 58 minutos.

—Cami, eu estou ficando desesperado. Por que não fala comigo? Você sofreu algum acidente? A casa dos Lima está sempre aberta para você, não preciso te lembrar isso. Cayden pode te buscar, só me ligue antes que eu enlouqueça, está bem?

A voz de Andrew deixa de ser alegre para se tornar nervosa e depois, preocupada. Eu ainda estou perplexa. Como Andrew vai se casar? Não, ele não pode. E todas as coisas que dissemos durante todos esses anos, irá para onde?

Não posso conceber uma estupidez desse tamanho vindo dele. Nós reconhecemos, anos atrás, que não passaremos por esse tipo de ritual sem sentido. Casamento não é uma tradição para nós, não acreditamos nisso — pelo menos, não com outras pessoas.

Pego o telefone espumando de raiva e disco os números que conheço de cór. Toca alguns minutos e então a voz macia de cafajeste soa aos meus ouvidos. Nem espero que ele diga nada, já vou logo disparando as notícias sem me preocupar se ele está preparado ou não para isso.

—ELE VAI SE CASAR! ANDREW VAI SE CASAR!

—Camille? — Tenta adivinhar. — Andrew, seu amigo?

—É, Max, ele vai se casar em cinco dias. Cinco malditos dias!

Meu amigo fica mudo por alguns minutos, soltando um gemido, em seguida.

Isso não pode estar acontecendo.

Max, certamente, quer acabar com minha pouca e abalada paciência. Pego um cigarro em cima da mesa, o acendendo com a mão trêmula. Todas as lembranças de uma vida inteira explodem na minha memória, causando o estrago de bombas nucleares. Meus olhos marejam diante de tantas promessas que parecem se desmanchar como um laço mal dado.

Enquanto espero Maximus — um nome horroroso para se colocar em uma criança — parar de gemer e voltar a me dar atenção, viro a garrafa de vodca direto do gargalo, não posso me importar menos com as boas maneiras.

De qualquer maneira, o que mais pode dar errado?

O carma já está apontando o dedo na minha cara e rindo sem parar.

Eu preciso de álcool, em situações assim, quanto mais melhor. “Mais álcool, mais prazer, mais qualquer coisa”, obrigada Meredith Grey por essa frase icônica.

Já estou na metade da garrafa, quando ele volta à linha. Isso é um pesadelo, só pode.

—O que você estava fazendo?

Embora pergunte, não tenho certeza se quero saber.

—Você não vai querer que eu diga com todas as letras.

Não é preciso soletrar a palavra masturbação para que eu entenda. Enquanto estou a ponto de ter uma síncope, Max prefere priorizar suas necessidades sexuais, o humor do universo é perverso demais para uma versão de mim tão desesperada. Ele precisa se concentrar, ou eu poderei cometer um homicídio.

—Você tem razão, estou pouco me fodendo para isso, só preciso que se concentre.

Escuto sua risada rouca:

—Então, seu amigo vai casar? Que legal.

—Não, Maximus, não é legal. É um desastre!

Falta pouco para que eu comece a chorar. Alguns fios de cabelo saem nos meus dedos quando passo a mão pelas mechas, me deixando ainda mais nervosa.

Ótimo, além de tudo estou ficando careca.

— Ele é meu, Max, sempre foi — choramingo.

—Não, little angel, ele sempre foi seu amigo. Nada mais.

Gemo ao pensar em toda a trajetória da minha vida que, goste eu ou não, tem Andrew em cada capítulo seja ele alegre ou triste. Ele tem sido meu ombro amigo, porto seguro e bom amante por uma vida inteira, o pensamento de perdê-lo acaba com meu equilíbrio. Parece como perder um pedaço de mim, egoísta que sou não aceito um atentado como esse, quero todos os pedaços sob meus domínios, por menor que sejam.

—Ele prometeu! Que se nada desse certo, um dia nos casaríamos.

Eu gostaria de conseguir impedir a lembrança, mas ela vem mesmo assim.

O dia estava morno e alegre, uma coisa atípica naquela época do ano. Eu não gostava da vida em São Paulo, por isso, era muito importante ter Andrew lá. As coisas sempre fluíam melhor com ele ao meu lado, principalmente, depois de termos feito o melhor sexo dos últimos seis meses. As coisas não estavam tão bem para mim como estavam onze meses antes, quando nos encontramos pela última vez.

Nossa relação era daquelas. Nós fomos insanamente apaixonados durante a adolescência, mas quando as coisas não saíram como planejado, o término foi terrível. Precisaram vinte e quatro meses para vermos que não conseguíamos ficar separados, apesar das coisas que não fomos capazes de lidar — talvez pela juventude ou por que não era para ser — e acabamos por aceitar aquilo que o outro podia dar.

—Por que não deu certo com esse? — Os dedos de Andrew desciam e subiam por minhas costas nuas.

—Ele era um jogador de basquete não tão famoso quanto ele mesmo gostaria. Era muito ego para mim.

—Talvez ele só tivesse certeza sobre si mesmo.

Sacudi a cabeça certa de que colocar Dan, o jogador, na conversa não seria um ganho para nenhum de nós. Continuamos lá, deitados e nus como se o tempo não tivesse passado, como se sete anos não tivessem nos atravessados e nos devastado, como se ainda pudéssemos ser imprudentes e nos esconder do mundo.

Depois de um beijo carinhoso e cheio de saudade, ele se virou para mim.

—Jure. Se até os trinta anos não encontrarmos a pessoa certa, iremos casar — seus olhos tinham uma certeza que eu não fazia ideia de onde vinha. — Vamos lá, jure.

Um riso nervoso atravessou meus lábios, incapaz de impedir que o sim saísse de minha boca. Embora não tenha dito em voz alta, torci para que ninguém bom demais entrasse na minha vida até lá.

—Camille, essa bobeira tem tanto tempo, vocês nem tinham pentelhos ainda!

Quero dizer que ele está errado, que tínhamos pentelhos e plena consciência do que estávamos prometendo, mas permaneço com a boca fechada. Não adiantará nada, Max pinta o quadro que sou uma idiota e que sofro sozinha por esse amor que nunca consegui superar. Agora, pelo menos, há evidencias novas para fundamentar suas teorias.

É verdade que não superamos, nosso passado sempre esteve ali, nas entrelinhas, e é isso que nos impede de seguir em frente com outras pessoas. Nós nos amamos, não importa o quanto complicado esse sentimento seja.

Choro com Max mais um pouco, no entanto, antes que eu possa desabafar tudo que sinto, ele encerra a ligação sem cerimonias porque “ouvir lamentação não é seu hobby”.

Max foi meu primeiro amigo em São Paulo. Nós dormimos juntos algumas vezes durante esses cinco anos em que estou na Cidade da Garoa, mas não foi nada sério, apesar de tudo para dar certo, temos muita intimidade para um relacionamento sólido.

Minha personalidade confusa que nunca consegue confiar cem por cento em alguém também contribui para que não consiga emplacar nenhuma relação com mais de três semanas, por isso, somos tão amigos. Sempre que preciso, ele está lá.

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Estou virando o que ainda sobrou da vodca, de cabeça para baixo na minha cama, quando o telefone toca. Pego o aparelho certa de que mandarei a pessoa ir se foder para longe de mim e atendo arrasada.

—Alô?

Ouço um suspiro soprado no telefone.

—Camille, graças a Deus! Deve ter um mês que eu tento falar com você — a voz de Andrew parece animada e preocupada ao mesmo tempo.

—Eu estava na Espanha, por isso não atendi antes. Casar, hein?

—Pois é, louco, não é? Nem eu sei como isso aconteceu, de verdade. Você vai adorá-la, Cami.

Ele ri, assim, um simples som, é o suficiente para me arrepiar da cabeça aos pés. Posso imaginá-lo passando as mãos pelos cabelos, como faz sempre, um traço de timidez que faz parte do seu charme. Algo que me dá vontade de abraçá-lo instantaneamente.

—Quando você vem?

Suspiro, dando outro gole na bebida que desce rasgando minha garganta.

—Eu não sei, Andrew. Não sei se conseguirei, tenho muitos compromissos de trabalho e vai ficar compli...

—Mas, Cami, eu preciso de você aqui. É minha melhor amiga, linda.

—Eu sei, é que...

Hesito.

Não devo, mas hesito.

Já faz pouco mais de um ano que não nos vemos, colocamos um compromisso na frente do outro, adiando a visita que nos fará feliz e... Preciso vê-lo, tocá-lo, ouvir sua voz pertinho de mim.

— Verei o que posso fazer, okay?

—Avise a hora que vai chegar e irei buscá-la na rodoviária.

—Tudo bem.

—Estou ansioso pela sua chegada, linda, te amo.

Essa frase dói no meu coração e, por um segundo, tenho que segurar as lágrimas em meus olhos. Ele é a única pessoa que consegue me fazer chorar sem motivo nenhum, mesmo separados por milhares de quilômetros.

—Também te amo, Andy.

Já está decidido, irei a esse casamento. Essa Héloise que me aguarde.