O pior convite do mundo
2 CAPÍTULO 2: estou em casa
Malas prontas no carro: confere.
Documentos: confere.
Convite?
Abro a bolsa de mão pela décima vez, não levando muito tempo para ver o convite metido a besta, já que o deixei por cima da última vez que chequei.
Confere.
Nada está errado, a não ser o fato que Max que continua com a mesma cara feia desde que saímos do meu prédio. As pessoas não sabem mais valorizar uma amizade sincera quando veem uma, meu próprio amigo me julga com esses seus olhinhos de felino.
— Você vai fazer uma bela merda, Camille.
— Andrew que vai fazer uma merda se casando com alguém que nem conhece. Ele precisa de mim lá.
— Ele precisa de uma amiga, não de uma louca varrida.
Faço questão de ignorar seus comentários maldosos. Após implorar por uns dias de licença, ameaçando processar a empresa se não me dessem as férias que estavam acumuladas, Max não pode mesmo acreditar que tenho condições de ficar em casa, sentada enquanto Andrew dá um passo em direção à morte.
Enfrentamos mais de quarenta minutos e muito trânsito para chegar ao aeroporto. O trajeto é tumultuado, meus xingamentos a certos motoristas deixam Max furioso, ele odeia minha “falta de educação no trânsito”.
Uma vez no nosso destino, faço o check-in e depois meu amigo lindo, moreno e com um sorriso de ressuscitar defunto me acompanha até as poltronas. Sou envolvida em um abraço apertado bem ao estilo Maximus.
— Não faça isso, little angel, você vai se arrepender.
Reviro os olhos, irritada, já estou cansada das pessoas me dizerem o que devo ou não fazer.
— Não sei o que você está falando — dou de ombros, me aconchegando em seu peito. — Ah, qual é, Max? Eu não vou fazer nada.
— Sei o que está armando, Cam, mas não pode nem pensar sobre isso. Ele está apaixonado, não vai permitir que faça bullying com a noiva dele.
Bufo com raiva. Bullying? É um exagero.
Será que só eu consigo ver o absurdo dessa situação? Me tratar como uma louca não fará o casamento, de repente, ser certo ou fazer sentido. Estão todos equivocados se compactuam com essa displicência, meu pensamento lógico está fazendo falta à família que amo tanto.
— Andrew é um sonhador, um romântico que pensa que qualquer um pode ser um casal feliz — enfatizo cada palavra para que saiba que não é um elogio. — Ele nem conhece essa mulher. Cadê os valores das pessoas, Max? Esse mundo está perdido.
Ele suspira, sabendo que não desistirei de ir para Petrópolis e lutar para colocar algum juízo na cabeça de Andrew; para encerrar a questão, meu amigo se cala. Não é segredo para ninguém que evitar uma boa briga não é meu forte.
— Ele me amou por dez anos, o que pode ter mudado agora?
— Camille…
Bem na hora que meu anjo da guarda vai me chamar de louca ou pior ainda, de carente, a locutora de voz sensual chama meu voo; essa é minha deixa para ir embora e tirar Max do meu pé.
Dou um beijo no seu rosto, pego minha bolsa de ombro e sigo rumo ao meu portão.
— Me deseje sorte! — Grito sorrindo, andando de costa e acenando.
— Juízo, pequena! — Grita também, com um sorriso não tão empolgado quanto eu esperava.
Meu voo é uma bela porcaria, vasculho em minha memória qualquer voo pior que esse, mas não encontro. Esse, com certeza, é o pior de todos. Sento na frente de um garoto mal-educado que chuta minha poltrona a viagem inteira, dá para imaginar isso? A hora mais longa da minha vida, só não o jogo pela janela e faço um grande favor ao mundo, porque a mãe dele, provavelmente, não gostará.
Quando finalmente chego à Cidade Imperial sinto uma estranha sensação, um misto de tantas coisas que me sufoca. Há dez anos não volto para casa, estar aqui me faz sentir uma saudade enorme. Saudade do meu lar.
Estranho como a memória funciona, enquanto estive em São Paulo, longe de toda a confusão emocional que é minha vida em Petrópolis, não houve sentimento de culpa ou vergonha pela vida despreocupada que levo, mas foi só aterrizar novamente na terra que me viu passar por tanta dor para que isso tudo me atingisse.
Remorso por ir embora da forma que aconteceu, culpa por dar as costas a quem me acolheu e amou. Arrependimento por não ter seguido meus próprios sonhos ao invés de ter cedido para o medo, são tantas coisas diferentes que nem consigo separá-las.
Antes que eu perceba, mãos grandes me envolvem em um abraço reconfortante:
— Eu sei, eu sei… não chora, linda, o Andy está aqui.
Só então me dou conta das lágrimas que molham meu rosto e das mãos que me seguram tão forte, de forma tão carinhosa e segura. As palavras vindas dele me fazem relembrar a pior experiência da minha vida, e por um minuto, isso me mata de novo.
Não faço ideia de como ele me encontra, mas tê-lo aqui é o suficiente para me fazer forte novamente e não desabar.
— Andrew! — Suspiro, me aconchegando. Ele é mais alto que eu, por isso, minha cabeça encaixa perfeitamente em seu peito. É o melhor lugar do mundo onde poderia estar.
Perco a noção do tempo que levamos abraçados na calçada antes de nos dirigirmos até o carro, não me importo com que os outros podem pensar, estar ao seu lado é tudo que consigo assimilar.
Ele dirige agitado contando as últimas novidades da família Lima, que não são poucas. Ellen, sua cunhada e minha melhor amiga, está grávida de sete meses, gerando um milagre em letras garrafais, contrariando as opiniões médicas que já tinham tirado todas as esperanças do meu casal preferido.
Uma música antiga toca no rádio, me fazendo pular no assento do carona. Em tempos felizes em que formávamos nossa própria família aquela era nossa trilha sonora, tudo que nos preocupávamos era onde seria a próxima festa, planejávamos para quando saíssemos de Petrópolis e conquistaríamos o mundo.
Aos dezoito anos, enquanto nossos colegas de turma pensavam para qual faculdade ir, juntamos nossas economias e pegamos um ônibus para o Rio de Janeiro; parecia uma excelente ideia, a coisa mais romântica do mundo que Ellen e Cayden se casassem numa capela longe de casa. Desde então eles não se desgrudaram mais, enquanto eu e Andy nos afastávamos a cada problema que surgia.
Era uma época agradável em que eu não precisava me preocupar com Andrew querendo se casar com uma estranha que conheceu em uma esquina qualquer. Ah, sim, isso…
— Então… que história é essa de casar? — Puxo o assunto.
Um sorriso gigantesco aparece na sua cara na mesma hora… hum!? Mau sinal. Péssimo sinal!
— Ela é tão perfeita, Cami. Estou completamente apaixonado.
Reviro os olhos com tal declaração. Nossa jornada de vida juntos me deu o total conhecimento sobre quando ele está mentindo ou não, essa é uma das vezes que, para o meu desgosto, não é fingimento. Talvez, ele tenha mudado seus conceitos desde nosso último encontro.
Encaro seu perfil enquanto dirige pela mesma estrada que me levou embora quando eu tinha só dezenove anos. Respiro fundo, numa tentativa completamente falha de me controlar e não dar um tapa nessa cara linda e maravilhosa.
— Ainda fico nervoso quando você me encara assim — comenta casualmente quando me olha de relance.
Ele ainda é muitas coisas.
Percebi isso no momento que senti suas mãos em mim novamente. Ao longo dos anos, entre idas e vindas, transas aleatórias quando dava e longas conversas ao telefone de madrugada, chegou o momento que sempre soube que chegaria.
O dia que Andrew me colocaria contra a parede e iria querer algo mais; um compromisso. Era como me ver com dezenove anos de novo e eu ainda não estava pronta. Foram longos meses de um silêncio aterrorizante até esse maldito convite pousa na minha caixa de correio. Minha máscara de calma e civilidade cai ao me lembrar de toda a confusão que tem nos acompanhou até aqui. Quando isso vai acabar e teremos um pouco de paz? Será que nada será fácil na nossa vida? Sei que não, pois, aqui estou eu, num casamento que não é meu, com o homem que amei a vida toda.
— Nunca pensei que quisesse se casar. Desde quando você quer casar?
Estou a ponto de uma síncope, mas ainda assim, Andrew dá um risinho.
— As pessoas crescem, Cami, eu quero coisas que adultos querem, sabe? Alguém para ficar do seu lado na alegria e na tristeza, essas coisas.
— Bem, você tem a mim.
— Você é minha melhor amiga e te amo por isso, mas é mais que só conviver com alguém. Eu quero mais.
— O que mais alguém como você pode querer, Andy?
Então ele lista quase, vinte coisas que, supostamente, quer. Uma casa com quintal, churrasco no aniversário, família reunida no Natal, casa cheia.
Explicito que ele não precisa de uma esposa para essas coisas, entretanto, como se para me contrariar, Andy responde do jeito mais Andy possível, “eu quero alguém que me ame e quem eu ame ainda mais. Quero ter filhos com essa mulher e envelhecer com ela”.
Odeio seus motivos porque é o mesmo que dizer que sou incapaz de tudo isso, o que, talvez, seja mesmo. Será que Andrew nunca entenderá meus motivos?
Olho pela janela vendo Petrópolis passar por nós como borrões, um esforço sobre-humano para me acalmar. Não é justo descontar minha frustração em pessoas que não tem culpa da confusão que é minha história e jeito de ser. — Okay, entendo que você também esteja apaixonado pelo Richard Gere desde Uma Linda Mulher, — debocho — mas será que essa garota será seu Edward Lewis?
— Pode debochar à vontade, você não vai me fazer mudar de ideia.
Ele continua dirigindo, me olhando ocasionalmente.
— Há quanto tempo mesmo você conhece essa garota? Porque me parece muito cedo, para ela ter suas bolas no bolso desse jeito.
Detesto que as coisas sejam tão naturais entre nós, pelo menos desse ângulo. Nossa amizade torna as coisas confortáveis demais para que levemos essa bagunça por mais tempo do que devemos, se fôssemos um pouco mais decididos, essa conversa não precisaria estar acontecendo.
Há essa coisa desconhecida que sempre complicou nossa relação, mesmo quando tínhamos dezessete anos e transávamos escondidos dos nossos pais. Nós nunca conseguimos deixar de lado a intimidade que uma amizade proporciona, esse detalhe que nos acompanha a vida toda.
Nosso jeito de conversar, debochando um do outro nunca desapareceu; é quase impossível ter um papo sério mesmo quando o assunto é tão delicado como o fato de ele querer se casar com outra mulher.
—Acho que ela tem direito por tempo de uso — dá uma meia risada. — Namoramos há anos, dois anos e sete meses para ser exato.
Quê?
Meu coração dispara.
De repente, as gracinhas e brincadeiras não têm mais graça. Dois anos? É só nesse momento que percebo o quanto perdi, o quanto fiquei ausente e como Andrew me fez falta. Sinto minhas bochechas ficarem quentes, um sinal claro demais que estou prestes a ter um colapso.
— E por que você nunca me falou dessa… garota?
— Lógico que falei, minha linda.
Então aparece o maldito tom compreensivo que ele usa quando quer provar que estou errada, como se quisesse dizer “acalme-se, pois é você quem está enlouquecendo”.
O carro para quando o semáforo acende a lâmpada vermelha, o que possibilita que nos encaremos. Há tantos sentimentos misturados dentro de mim que não sei se sou capaz de controlá-los. A insegurança começa a tomar conta de toda parede sólida que construí para me proteger do mundo. O brilho que me faz resplandecer normalmente, está começando a se apagar.
— A última vez que nos vimos no Guarujá, te falei estar conhecendo alguém, então você deu uma crise e me deixou o resto do fim de semana sozinho.
Pois, bem! É claro que me lembro daquele maldito dia.
Bons meses tinham se passado desde que tínhamos nos vistos pela última vez, o tamanho da minha saudade era imensurável. Como em todas às vezes anteriores àquela, fizemos o melhor sexo da vida, e enquanto me abraçava, acariciando minhas costas, ele veio com um tom sério, esquisito — “precisamos conversar, Cami, eu estou conhecendo uma pessoa”. Antes que pudesse deixá-lo terminar de falar, vesti minhas roupas o mais rápido que pude e bati a porta do quarto.
Andrew passou a noite inteira me ligando, o que fiz questão de ignorar cada chamada. Enquanto ele me procurava incessantemente, eu caí na madrugada quente do Guarujá e virei o final de semana bebendo e flertando com estranhos, como se aquilo pudesse me consolar de alguma forma. Não foi meu melhor comportamento, se soubesse que fiz aquele dia, talvez eu não tivesse sido convidada para esse casamento.
Preciso de um minuto antes de continuar.
— Andy, por favor — suspiro. — Isso vai ser um desastre, pessoas como nós não se casam.
Sorriso torto não. Não, não, não!
Andrew sabe meus pontos fracos, assim como também sabe que seu sorriso desgraçado me faz esquecer até meu nome e é com esse truque sujo que ele sempre se livra de quando está prestes a escutar um sermão.
— Vamos, minha mãe está te esperando.
Entro em pânico quando paramos no meio-fio, em frente à casa que, um dia, desejei nunca mais voltar. Nada mudou, a vizinhança continua a mesma. O famoso bairro onde todos conhecem todos, com casas espaçosas, quintais com gramados bem cuidados e crianças brincando nas calçadas.
Dona Eulália me olha como quem não acredita no que vê, talvez pense que está tendo alucinações. Se eu estivesse no lugar dela, também pensaria. A senhorinha fofoqueira acena para mim do jeito mais doce e apavorante possível. Sorrio assustada, a cumprimentando de volta.
Entramos de mãos dadas no casarão da família Lima de Andrade, caminhando com naturalidade.
Aqui é meu lugar.
Assim que chego à cozinha, a senhora Lima me recebe de braços abertos e, finalmente em anos, eu tenho certeza que estou em casa.
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