Notas iniciais
Espero que gostem, tentei colocar um pouco de emoção no capítulo e na correria posso ter repetido demais certos termos, relevem então ok? Boa leitura ^^

Acordei em uma cama com lençóis brancos, da janela mais próxima, uma leve ventania adentrava o quarto, o mantendo arejado. Fechei os olhos e respirei fundo, lembrava tudo o que tinha ocorrido na noite anterior, minha cabeça não latejava e meu estômago não estava embrulhado, bons sinais, eu imaginava.

Tinha percebido o quanto Luke e Anúbis eram próximos, amigos de longa data, mas eu não sabia como haviam se conhecido, o foco da conversa tinha sido bobeiras e piadas. O mago ou era realmente hilário, ou eu apenas tinha uma resistência muito pequena a alcoólicos. Apostava na primeira opção.

Levantei em silêncio e me encaminhei ao corredor, nele, jaziam algumas fotos de uma bela moça, tão loira quanto Luke, mas diferentemente dele, ela tinha os olhos escuros, quase como jabuticabas. Em uma das fotografias eles estavam abraçados, em outra, de mãos dadas. Continuei andando, acompanhada apenas pelo silêncio que selava os quatro cantos da casa. Na sala, o deus permanecia jogado sobre o sofá, ainda dormindo.

– Bom dia! – era Luke, sussurrando pra mim do outro lado do cômodo, próximo a porta da cozinha.

– Bom dia. – falei, tentando disfarçar o susto que tinha levado.

– Uma xícara de leite? – ele ofereceu, educado.

– Por favor. – seu sorriso se mantinha debochado, como no dia anterior. Assim que ele me estendeu o recipiente, levei-o a boca, sem nem ao menos pensar se o líquido estava quente ou não. Por sorte, não estava.

– Vamos, quero lhe mostrar algo. – o mago disse, enquanto se encaminhava para fora do chalé. Deixei o leite repousando sobre a mesinha de centro e o segui.

Suas roupas eram feitas de linho bege, aparentando ser leves e confortáveis, sua postura relaxada confirmava minhas suspeitas.

– Entre todos os feitiços que eu já fiz, o mais difícil, sem dúvida nenhuma, foi a criação de um avatar. E caso eu não tenha força suficiente, precisarei de um plano B.

– E eu seria esse seu plano B, certo? – sugeri.

– Certo.

– Ainda não entendi muito bem o que eu precisarei fazer?

– É simples: você precisará permitir que eu canalize um pouco de sua magia. – Eu sabia o quanto magia de canalização poderia ser perigosa, mas os olhos amenos do mago me passavam uma segurança tão grande, que não pensei duas vezes antes de responder:

– Claro. – ele semicerrou os olhos, provavelmente surpreso com o fato de eu não ter levado nem dois minutos completos para repensar a situação. Alguns passos no silêncio e então:

– De qualquer jeito, quantos anos você acha que eu tenho? – o loiro indagou, me olhando de esguelha.

– 30. Talvez menos, nunca fui muita boa com esse tipo de coisa. – respondi, ignorando o fato de achar a pergunta completamente dispensável.

– Eu tenho 263 anos e contando.

– Uau! – exclamei. Sua barba mal feita e o sorriso malicioso o davam um ar jovial, assim como sua postura e seu olhar, jamais suspeitaria que ele teria tal idade.

– Você, provavelmente, sabe da capacidade que certos magos tem de esconderem sua própria idade, prolongando a vida. Mas ambos sabemos, que magos podem esconder muito mais que uma centena de anos, como você faz. – Senti como se toda força se esvaísse de mim, fazendo minhas mãos formigarem e minha testa gelar. O próprio Hades, meu avô paterno, já tinha me informado: “Nunca misture suas origens. Jamais. Isso poderia ter consequências desastrosas. Sinta-se avisada, Claire.”. Não que eu tivesse uma relação muito próxima com meu avô, mas você passa a levar a sério quando o senhor do submundo lhe convoca para uma reunião assim que você descobre que tem sangue olimpiano.

– Não sei o que é, nem faço questão de perguntar. Mas ouça: você tem grandes coisas à enfrentar pela frente. Acredite você, ou não. – continuou.

– Acho que está colocando sopa demais em um prato fundo de menos. – disse, metaforizando a fé que ele estava colocando em mim.

– Pode ser uma coisa boba mas com grande significado. Pode ser um ato ordinário mas que muda o curso de todas as coisas. Pode ser você a diferença entre um último suspiro e um grito de vitória. – suspirou. – Vamos. – Andamos mais um pouco, em silêncio, até chegarmos a um pátio, com quatro pilastras o apoiando. Quatro, nos mesmos pontos para os quais apontaria uma bússola: norte, sul leste e oeste.

– Você tem filhos? – tentei quebrar o “gelo”, por assim dizer.

– Não. Não tenho nenhuma família, todos mortos. – replicou, apático.

“Ok. Tente de novo, dessa vez pergunte a ele como foi perder os pais, porque pior, não dá pra ficar.” Briguei comigo, mentalmente.

– Eu sinto muito. – eu sabia como era perder alguém próximo, tinha tido essa horrível experiência com meus pais.

– Tudo bem. – o loiro deu um sorriso.

– De qualquer jeito, como conheceu Anúbis?

– Assim que perdi minha mulher, — eu imaginei a moça loira das fotos, aqui, morando junto com Luke, tinha de admitir que eles formavam um casal lindo. — eu fiquei inconsolável, a beira da loucura. Depois de ter tentado de tudo, apelei para sórdidos rituais de ressuscitação, o que fez com que Abúbis ficasse furioso por perceber que alguém queria enganá-lo. Ele foi ao meu encontro, em um santuário em Petroleum, Estados Unidos, e chegando lá, toda sua raiva se tornou solidariedade. E então... – ele foi interrompido.

– Eu tentei colocar um pouco de juízo na cabeça dele. Disse que o que está morto deve permanecer morto e prometi que teria certeza de que ela ficaria bem. – era o próprio deus, encostado em uma das pilastras, com sua jaqueta pendurada em seu ombro, que estava falando. – Mas e aí, por onde começamos?

– Ajoelhe-se em frente a mim. – disse Luke, ficando de joelhos no centro do pátio.

Andei até um dos cantos e meneei afirmativamente ao mago para que ele começasse o ritual.

Ele começou a recitar o feitiço. O ar ficou rarefeito e, por um momento, eu não consegui respirar. Forcei meus pulmões, mas a única coisa que consegui disso foi uma dor excruciante no tórax. E então, passou: a dor, a falta de ar, simplesmente sumiu. A magia de canalização estava começando, assim como o feitiço.

Voltei a olhar para eles. Anúbis parecia ter entrado em uma espécie de transe e Luke, continuava seu sortilégio.

Ele fez uma pausa e então falou um único nome:

– Knhum. – O deus da criação egípcio. O Modelador.

O loiro abriu os olhos e, para minha total surpresa, eles estavam completamente brancos. Algo como uma fumaça, começou a cercar o deus e, no mesmo momento, senti como se tivesse levado múltiplos socos no rosto e na barriga.

Fechei os olhos momentaneamente e quando voltei a abri-los, a estranha nuvem do que, eu supunha, ser pura criação ainda rodeava o deus.

Caí de joelhos, a dor era lancinante. Alguns pingos de sangue escorreram pela ponta de meu nariz, sujando minha mão direita, a qual eu utilizava para me apoiar.

Em algum momento, enquanto eu ainda encarava o chão, o nevoeiro se espalhou por todo o local, como uma pequena e quase imperceptível explosão, reavivando cada árvore, folha e flor que estava próxima, me dando vigor suficiente para levantar e andar até eles, com uma das mãos sobre o estômago.

Fiquei próxima de Luke e chequei sua pulsação. Ele ainda estava vivo. O deus acordou assustado, como se tivesse saído de um pesadelo horrendo, com a respiração descompassada.

– Você está bem? – ele tossiu.

– Sim, você?

– Também. Luke? – não tive tempo para responder. Ele se apressou em aproximar-se e verificar o pulso do colega.

– Vamos, acorde. – bufou enquanto balançava os ombros do amigo. Deu leves tapas com a parte de trás da mão em seu rosto. – Vamos, vamos. – nesse instante notei que o loiro estava branco com uma folha de papel.

– Eu posso estar desacordado, mas não sou dormente. Agora pare de me bater. – resmungou o mago. O garoto sorriu, eu também.

– Estou morrendo de fome, vamos. Tem que ter algo para comer naquela geladeira além de leite e whisky. – suspirou o deus. Eu havia percebido que Luke não estava se movendo, mas a divindade parecia não ter notado.

– Anúbis? – chamei.

– Sim? – o mago me lançou um olhar suplicante, como se pedisse para eu explicar que ele não levantaria mais. – O que foi? – o menino questionou. Me levantei e toquei seu braço.

– Sinto muito. – a divindade funerária franziu o cenho e observou o colega mais uma vez, agora, finalmente, constatando que ele estava pálido e suando frio.

– Eu não vou levantar, Anpu. – declarou o loiro, perdendo a paciência.

– O que você quer dizer com isso, Luke? – Anúbis indagou, com uma ponta de fúria na voz.

– O que parece, menino? Eu estou morrendo. Santa Néftis, você perdeu seus neurônios no meio do processo? Costumava ser mais inteligente, seu idiota. – o mago riu, debochado.

– Não, não pode ser. – o deus encarou o amigo, indrédulo.

– E lá vem a primeira fase: a negação. Cuide dessa criança pra mim, Claire, ele não consegue nem mesmo cumprir uma mísera missão sozinho. – o loiro me lançou um olhar aliviado. Voltei a ficar de joelhos, próxima dele. Ele me estendeu a mão, e eu a peguei, apertando, como se dela fosse sair uma limonada.

A divindade fúnebre, ficou ao meu lado, estudando o colega.

– Como você pôde fazer algo assim, seu filho da mãe? Você deveria ter me dito! Eu... Eu teria dado um jeito. – ele estava vermelho como um pimentão, revoltado como uma criança de 5 anos que não ganhou o que desejava de presente.

– É mesmo uma criança, viu? Você não poderia fazer nada. Eu já sabia o que estava acontecendo desde o início, mas agora me faz um favor, está bem? Salve esta droga de mundo. E você, Claire, cuida bem desse estúpido, ok? – seu sorriso era leve, não debochado ou malicioso como antes, me lembrava uma leve brisa de vento, como a maresia, talvez. Três ou quatro lágrimas caíram dos olhos do garoto. – Ah, e antes que eu esqueça, você foi o mais próximo que eu tive de família, e eu não tenho problema em morrer pela família. – o mago deu uma risadinha e fechou os olhos uma última vez para nunca mais os abrir.

Lembrei-me do que ele havia me falado naquele dia, um pouco mais cedo, “Pode ser uma coisa boba mas com grande significado. Pode ser um ato ordinário mas que muda o curso de todas as coisas. Pode ser você a diferença entre um último suspiro e um grito de vitória.”, ele tinha confiado a Anúbis e a mim seu último suspiro para que tivéssemos uma chance de dar um grito de vitória.

Notas finais
Espero que tenho gostado, e fico feliz que tenha chegado até aqui, obrigada por ler. E deixe comentários, ok? Valeu e até o próximo capítulo,