Notas iniciais
Bem, esse capítulo ficou mais longo pra compensar, ou pelo menos tentar, o tempo em que deixei de postar. Não liguem muito para a repetição de palavras no final do capítulo, eu realmente estou muito cansada, depois ajeito isso.

– Eu sinto muito. – sussurrei. Anúbis balançou a mão no ar sobre Luke e o mago se transformou em cinzas, para logo depois formar um pequeno redemoinho e explodir, no que me pareceu uma pequena galáxia.

– Durma bem, Lucian. – o garoto fungou.

***

O deus tinha selado o chalé de Luke com um feitiço, bem complexo na minha opnião. “Existem coisas perigosas demais, para ficarem ao alcance de um mago qualquer, guardadas aí dentro.” ele afirmara.

Até onde o garoto havia me explicado – o que não era muito, devo frizar – os poderes dele estavam limitados aos de um mago comum, portanto, portais eram inacessíveis.

– Temos que ir para muito longe e não tem nenhum obelisco poderoso o suficiente por perto. – o moreno estava apático e seu sorriso debochado desaparecera.

– Seria pedir demais você me falar para onde estamos indo?

– Uma cidade no Tibete. Na verdade, uma comunidade, muito antiga e escondida.

– E vamos como mesmo? – perguntei, amarrando as cordas de minha mochila.

– Por enquanto, a pé, até eu pensar em algo melhor.

– Já lhe ocorreu que você poderia usar dinheiro? – começamos a andar.

– Que dinheiro? – o garoto indagou, franzindo o cenho.

– Espera. Você não trouxe dinheiro? – exclamei, estancando no portão do santuário.

– Deveria? – revirei os olhos e voltei a andar, dessa vez, na beira da estrada.

Anúbis tinha uma daquelas mochilas enormes que costumam ser vistas com praticantes de trilhas nas costas, sua jaqueta preta fora guardada e tinha um Ray-ban com a armação dourada e as lentes escuras nos olhos. Me perguntava se alguém conseguia ser assim tão charmoso quando estava de luto além dele. Não, definitivamente não.

Andamos muitos quilômetros em silêncio, ambos suando, cansados e com fome.

– Meus pés estão latejando. – reclamei.

– Os meus também. – ele concordou.

– Chega de... – tentei continuar a falar mas pisei em uma pedra e acabei caindo. – andar. – finalizei enquanto batia minhas mãos. O deus deu uma gargalhada em alto e bom som, eu não pude deixar de rir também.

– Vamos tentar pegar uma carona. – ele sugeriu, entre risadas.

– Boa sorte com isso. – disse, rabugenta.

– Por que boa sorte?

– Desde que começamos a andar, eu só vi 3 ou 4 carros e duvido que eles estivessem dispostos a dar carona a nós.

– Não custa tentar. – afirmou.

– Ok, Miss Sunchine, vai com tudo. – debochei. 6 ou 7 automóveis passaram nas 2 horas que se seguiram, mas nenhum atendeu ao polegar levantado de Anúbis.

Dei uma risada baixa:

– O que foi?

– A sensação de estar certa é ótima, sabia? – expliquei, com um sorriso vitorioso no rosto.

– Aceitam uma carona? – um velhinho sorridente, e com a aparência maníaca, tinha parado sua enorme combe cor de areia próximo de nós.

– Quem estava certo mesmo? – o moreno indagou, zombeteiro. Fiz uma careta.

Entramos no carro e nos apertamos no banco trazeiro, pois quase todo o espaço estava ocupado por várias caixas de papelão.

– Para onde estão indo? – o senhor questionou.

– A cidade mais próxima. – o deus respondeu, indiferente.

– Fugiram de casa? – ele continuou, tentando puxar assunto.

– Na verdade, estávamos visitando um amigo. – “Por que você dá margem para ele engatar uma conversa, deusinho inútil? Vamos todos curtir a viagem em silêncio.” Pensei. Acho que minha mãe tinha razão em me chamar de rabugenta.

As árvores passavam cada vez mais rápido, e eu, entediada, continuava as observando. Em algum momento decidi que seria interessante ver o que tinha naquelas caixas então peguei uma pela aba e a coloquei no meu colo tomando muito cuidado para ser o mais silenciosa possível.

O conteúdo da caixa estava cobertos por vários cobertores e exalava um cheiro pútrido. A primeira coisa que pensei era que o senhor estava contrabandeando peixe para fazer alguma daquelas pastas enlatadas, porém eu não poderia estar mais errada.

Anúbis me lançou um olhar de advertência, como se me avisasse para não pôr minha mão no que não me pertencia. Pouco me importei. Silenciosamente, retirei os lençóis um a um e me deparei com uma cena que jamais sairá da minha cabeça. Não consegui conter um grito, que saiu muito mais esganiçado do que eu imaginava.

– É uma cabeça. – berrei, tentando desesperadamente abrir a porta (ou quebra-la, tanto fazia, qualquer coisa que me colocasse fora daquele veículo), mas a maldita trava estava emperrada.

– Claire, a janela. – bradou o deus. Antes que pudéssemos sair do automóvel, o velhinho fez uma manobra brusca para o lado e freou, frustrando qualquer plano de fuga que tínhamos.

Demorei poucos segundos para me recuperar e me apressei para colocar uma das pernas para fora da janela. Como de costume, eu fiz algo que não deveria: olhei para o que antes era nosso motorista. Agora sua pele estava da cor de cimento e ele tinha duplicado de tamanho, fazendo com que o carro abaixasse bastante.

Não pensei duas vezes antes de me jogar no asfalto. Eu queria distância daquela coisa, fosse o que ela fosse. Olhei para trás e vi Anúbis caído a poucos metros de distância de mim, sem nenhum arranhão. Suspirei aliviada enquanto abaixava minha cabeça para pegar minha varinha no bolso mais raso de minha mochila mas não a achei.

Ouvi um estrondo ensurdecedor de metal sendo amassado, virei-me e vi que a combe agora estava com o teto parecendo com um papel de bombom desembrulhado feito de cobre.

– Você se machucou? – ele perguntou, se aproximando.

– Não, você? – olhei para os meus jeans, estavam sujos, assim como minha blusa.

– Você está ouvindo isso? – Até aquele momento eu não tinha percebido, mas um barulho insistente vinha de longe. Algo como um bater de asas.

– Sim, parece uma ave. – franzi o cenho. Agora ambos observávamos o céu procurando a fonte da barulheira.

– Bem grande pelo visto. Ouça. – o barulho era ensurdecedor, quase como um helicóptero ou algo do tipo.

Contraí meus olhos, buscando qualquer coisa que pudesse explicar o sinal e a única coisa que vi foi algo acinzentado mergulhando em direção a Anúbis em uma velocidade incrível.

– Atrás de você – berrei, apontando o que quer que fosse aquilo. O menino girou com uma rapidez impressionante mas já era tarde demais. Ele foi atingido e jogado muitos metros longe, eu só tive tempo de me atirar ao chão e cobrir o rosto.

Quando descobri meus olhos, tudo que vi foi poeira mas ela rapidamente se dispersou permitindo que eu visse com clareza tudo a minha volta.

– Anúbis! – chamei quando o vi estirado no asfalto. Corri até ele enquanto se levantava, ainda desnorteado. – O que diabos era aquilo?

– Seja aquilo o que for, Claire, não é nada que eu já tenha visto em toda minha vida. Mas de uma coisa eu tenho certeza, não é nada egípcio. — Uma sensação de pânico começou a brotar na boca do meu estômago.

– Você está me dizendo que um deus de cinco mil anos não sabe o que aquilo é? – “Ótimo vamos servir de jantar para um monstro que nem ao menos sabemos o nome”. Observei a estrada, o monstro se encontrava distante um ou dois quilômetros a nossa frente. Não pude distinguir muito de suas feições pela distância porém era possível ver suas asas gigantescas e suas presas reluzentes mesmo de longe.

– Não é egípcio e até onde eu sei, você é a expert em mitologia grega e romana. – retrucou, frizando o “você” como se quisesse que eu sentisse culpa por não ter a mínima ideia do que aquela besta poderia ser. Apenas o encarei.

– Isso sim é um super consolo. – bufei, irônica.

Enquanto eu tentava pensar em qualquer coisa para nos tirar daquela situação ele invocou duas espadas curvadas do Duat e me olhou, esperando que alguma informação útil saísse da minha boca. Minha resposta foi simples: fiquei em silêncio. Tentei me lembrar o nome das espadas que ele estava segurando, “Hadesh? Não. Kanish? Também não”. Então de uma hora para outra a palavra surgiu em minha mente: Kopesh, esse era o nome. Como eu desejava que uma lembrança qualquer daquele tipo de fera aparecesse, assim como o nome da espada, mas nada me ocorreu. Nesse momento eu poderia perfeitamente comparar meu cérebro a um salão vazio.

Olhei novamente a criatura que, agora, estava pouco menos de um quilômetro a nossa frente, e se aproximava rápido. A divindade correu contra o monstro, como aqueles estúpidos e corajosos heróis de filmes.

– O que você tem na cabeça, gênio? Armas egípcias não vão funcionar. – gritei, para que ele ouvisse. Ele me olhou de esguelha, seus olhos brilhando pela adrenalina daquele momento, e por um milésimo de segundo senti que não tinha importância se as armas que ele carregava eram ou não egípcias, ele conseguiria vencer a maldita mesmo que não fossem.

– Só vou ganhar tempo para você pensar em algo – seu sorriso de lado era confiante e quase assustador.

Quanto mais a besta se aproximava, maior parecia. Dois? Três? Talvez quatro metros de altura, eu não sabia dizer. Quando finalmente estava próximo o suficiente para que eu pudesse ver o que os detalhes de seu rosto, percebi que era uma criatura cinza e corcunda, com caninos enormes e proeminentes pingando baba, poderia ser veneno também, eu preferia não descobrir. Sua aparência fora grotescamente desenhada para se parecer com a personificação dos piores pesadelos de qualquer um.

“O que é você?”, me perguntei. Pele acinzentada, corpo corcunda, com asas que caberiam três pessoas deitadas, caninos tão longos que não conseguiam se manter dentro da enorme bocarra, que exalava um terrível cheiro de putridão. Revirei todas as minhas lembranças á procura de algo.

Como um raio que cai sem nenhum aviso, eu lembrei o nome do monstro e gritei o mais alto que pude, expulsando todo o ar de meus pulmões.

– É uma gárgula. – fui em direção a fera, assim como ele. Apesar de lembrar seu nome, minhas memórias sobre o monstro eram escassas, quase nulas e ainda que soubesse que não era uma lenda grega era a única coisa que me parecia lógica.

“Vamos lá, sua estúpida, pense em qualquer coisa” briguei comigo mesma. Passei a mão nas minhas costas e peguei minha adaga. Meu cérebro funcionando como as engrenagens de um relógio.

Corri meus olhos pelo local onde estávamos, era uma daquelas curvas fechadas em que você não vê os automóveis que vem na direção contrária, um dos lados era um grande paredão de pedra e o outro uma leve inclinação coberta por pinheiros não muito altos. Nada que pudesse nos ajudar. Parei meu olhar sobre o deus, ele, ao contrário de mim, fazia o tipo de lutador ofensivo, para ele a melhor defesa era o ataque.

Sempre me utilizando de meu tamanho e leveza, fazia o tipo de lutadora oportunista, explorando cada ponto fraco ou cego de meu oponente. Bem, eu como duelista era melhor que a maioria, meus instintos me garantiam isso, mas não era extraordinária, era boa o suficiente para sobreviver. Incessantemente disposta a fugir de lutas corpo a corpo. Anúbis não, ele vencia quem quer que estava duelando através de uma técnica simples: ele os cansava e por fim, os vencia gloriosamente. Ele colecionava vitórias, todas dignas de um deus.

Me aproximei da besta pelas costas, e ela não pareceu me notar, o mesmo não aconteceu com o moreno, que me advertiu pelo olhar que eu deveria me afastar. Apenas o ignorei.

Mesmo com as constantes investidas do menino e de suas espadas, a gárgula não parecia ter sido afetada. Quando estava perto o suficiente, cravei minha adaga no espaço entre suas asas, tentei retirá-la mas estava presa. Praguejei mentalmente e coloquei um de meus pés em sua proeminente corcunda com a intenção de puxá-la novamente.

Por um breve instante, ela parou de dar atenção ao moreno e se virou para mim. Felizmente (ou não), eu estava pendurada em suas costas, segurando firme em minha faca, ou ela teria me acertado em cheio com suas horripilantes garras.

Quando a divindade percebeu que eu estava presa, a atacou com uma rapidez sobre-humana, tentando atrair sua atenção e por um milésimo de segundo funcionou. Até ele dar um passo em falso e ser atingido por uma das asas do monstro. “Maravilha! Vamos morrer”, pensei, tão otimista quanto um suicida.

Ela deu um giro completo, me atirando longe. Senti minha pele rasgando junto com minhas roupas enquanto eu rolava sobre o asfalto. Com certeza aquilo me renderia uns bons hematomas.

Não tive muito tempo para pensar. Espiei pelo canto do olho e vi ela caminhando na minha direção a passos largos. Levantei cambaleando com uma das mãos sobre as costelas. Desarmada, machucada e sem ideias, resolvi fazer o que faço de melhor: Eu fugi.

Acredite quando digo que uma pessoa em desespero pode ser mais rápida que o Flash.

Driblei a gárgula, passando por debaixo de suas asas, e corri com toda a velocidade que minhas pernas podiam aguentar.

Quando estava a 3 ou 4 passos longe de Anúbis cuspi tudo que tinha me lembrado durante a corrida:

– O... ponto... – disse, ofegando.

– Respire. – o olhei com uma cara de incredulidade. “Não, não, Anpu, vou fazer birra, parar de respirar e morrer” quis dizer, mas meus pulmões não cooperavam.

– O ponto fraco dela é a virilha. – afirmei, ainda sem ar.

Ela estava próxima de nós e quase tudo a nossa volta parecia inútil. O deus colocou uma de suas espadas no chão e de um de seus coturnos retirou uma faca tão pequena quanto minha mão. Peguei-a sem pensar duas vezes, antes um palito de dentes na mão do que nada.

O olhei pelo canto do olho, ela estava a dois metros de nós no máximo, e a combe estava a nossas costas.

– Vou precisar de uma distração. – cochichei. Seus olhos brilharam em êxtase, a batalha era algo que o animava de um modo que eu não poderia nem explicar.

Enquanto ele a distraía, andei até a combe rapidamente. Furei o tanque de gasolina e então dei um jeito de chamar a atenção da fera.

– Aqui! – berrei. Ambos viraram pra mim e no minuto em que a besta abaixou a guarda, o moreno atingiu sua asa direita. O estrago não fora grande, na verdade, era quase imperceptível porém tinha servido para a instigar. Ele se aproximou correndo e se prostou do meu lado.

E então ela veio em nossa direção, o asfalto tremendo com seu peso. 3... 2... 1... Agora. Pus toda minha concentração em um único hieróglifo: fogo. Num instante quase todo o lugar a nossa volta queimava, produzindo muita fumaça e era exatamente isso que eu queria.

Não precisei explicar nada ao menino, ele parecia saber o que fazer. Disparou em direção a gárgula que estava desnorteada pelo gás expesso a sua volta.

Quando ela notou o garoto, já era tarde demais. Ele passou por debaixo de suas pernas com suas kopesh levantadas. Seu ponto fraco fora atingido e agora ela se dissolvia em um pó amarelado, mas não como o dos monstros gregos ou romanos, aquilo mais se parecia com um composto químico.

O fogo se apagou de súbito e pude ver Anpu andando calmamente para onde a fera se decompora, agora, ele estampava um sorriso vitorioso.

– O que é isso? – indaguei, caminhando para onde ele estava.

– Algo químico. – encurvei-me e peguei um pouco em minha mão.

– Enxofre. – afirmei, com convicção.

– Mas não faz sentido. – ele questionou.

– Ultimamente, poucas coisas fazem e eu não quero ter que pensar nisso agora. Tudo o que eu queria era... – fui interrompida pelo barulho estrondoso de uma colisão.

– Que merda foi essa? – franzimos o cenho e demos a volta na combe. Um homem comum se encontrava estirado no chão ao lado de sua moto em frangalhos. Ele sangrava muito e suas pernas estavam em ângulos estranhos.

– Por Hades! – corri até ele. – Pelos deuses, o senhor está vivo? – recebi um gemido em resposta. Eu não tinha a mínima ideia do que fazer. – Me ajude, rápido, precisamos fazer algo. – pedi, entrando em pânico. Não havia mais nada que pudéssemos fazer, o senhor quase não se mexia e estava até pálido pela perda de sangue.

O moreno se abaixou perto de nós.

– Posso sentir a alma dele ficando mais leve, Claire, não podemos fazer nada. – o homem cuspiu sangue e então falou, em um tom tão baixo que eu mal pude ouvi-lo.

– Meu bolso, meu bolso. – passei a mão no bolso de sua jaqueta e de lá retirei um envelope endereçado a alguém chamada Meredith. – Entreguem, minha filha. – Apesar das palavras desconexas era possível entender o que ele queria dizer.

– Eu prometo.

– Peguem, moto. – agora ele tossia, mais e mais sangue. Alguns de seus músculos se contraíam, ao que me pareceu, involuntariamente e ele emitia grunhidos de dor constantemente. Seu estado me Ava calafrios, ninguém merecia aquilo. O garoto cobriu os olhos do homem com a palma da mão e um hieróglifo brilhou em sua testa. Eu quase não o reconheci, mas era a palavra sono se eu não estava enganada.

– Vamos, Claire. Virão mais de onde vieram a primeira.

– Mas não temos como ir. – retruquei.

– A moto. – ele apontou.

– Duvido que consigamos mantê-la em pé. Veja o estado dessa coisa. – ela estava quase completamente destruída até o momento em que o hieróglifo “Hi-nehm” brilhou em sua carcaça. Em questão de segundos ela era uma moto recém saída da garagem.

Nela montamos e seguimos viagem.

Notas finais
E aí, gostaram? Espero que sim! Deixem comentários, tanto positivos quanto negativos. Beijos, Clara. Até o próximo capítulo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.