Notas iniciais
Para DaniiUchicha pela belíssima recomendação Minha Nee-san, minha leitora fiel, vaquinha você me fez chorar! Eu amei demais, obrigada Olhinhos Puxados

Quando acordei estava deitada em um sofá. Eu não fazia a menor ideia onde estava.

Minha cabeça e meu corpo estavam pesados, demorei a me mexer. Não podia mover minhas pernas, a dor era insuportável, inclemente. Meu pé estava tão inchado quanto de um diabético.

Por alguma razão eu estava ofegante, meu coração estava acelerado. Olhei para os lados e vi uma seringa jogada no chão, eu tentei pega-la quando Dante apareceu.

Ou melhor, dois Dantes apareceram.

–Então você já acordou... – Murmurou Dante.

Eu tentei focalizar melhor a visão quando Dante se ajoelhou no sofá e levantou minha blusa.

–Não... – Sussurrei tão baixo que só eu conseguia ouvir.

Eu tentei pegar sua mão, mas ele injetou a seringa na minha barriga. A dor foi horrível, fez todo meu corpo se contrair. Pude sentir o líquido grosso se espalhando dentro de mim.

Eu consegui pegar sua mão, mas não aperta-la. Meu corpo já estava ficando dormente.

–Não faça isso... – Foi à última coisa que disse.

***

Sabe quando você tem vários sonhos em uma única noite?

Foi exatamente o que aconteceu comigo. Quando se tem esse tipo de sono você demora a acordar, sua mente fica pesada, um turbilhão de imagens passam na sua mente sem você poder controlar. Nada parece real.

Ora eu estava deitada na neve, sentindo-a cair sobre meu rosto, incomodando minha visão, mesmo assim eu continuava a olhar para o céu; Ora eu estava tomando banho e depois fui escrever algo no meu diário... Fazia tanto tempo que eu não escrevia... ; Ou estava jantando na minha cama.

Parecia minha rotina...

***

Minha boca estava seca. Rachada.

Demorei até encontrar meus olhos, meus sentidos.

Todo meu corpo ardia enquanto eu me movia, mesmo assim eu fiquei apoiada com os cotovelos na cama.

–Ei! Ei! Ei! Você vai cair – Disse Dante e me segurou para eu que não tombasse para o lado.

Eu focalizei a visão ao mesmo tempo em que Dante me deu água.

–Consegue falar?

–S-s-sim... – Sussurrei com a voz rouca.

Dante me deu comida, água, apertou todo meu corpo para que a dormência sumisse e massageou meu pé levemente dolorido. Dante me pôs sentada, me ajudou a ficar de pé e me firmou para que eu andasse um pouco.

Nós estávamos no quarto que era para ser nosso, na casa.

–Quanto... Quanto tempo eu estou dormindo? Dois dias? – Perguntei segurando em seus braços enquanto ele me ajudava a andar. Minhas pernas ainda travavam.

–Você dormiu por duas semanas, Clair – Respondeu suavemente.

Eu parei de andar na hora, quase caindo quando ele me puxou.

–Por quê? Por que você me deixou dormindo tanto tempo? – Murmurei, mas parecia um gritinho agudo.

–Pelo que você fez! Ora essa! – Respondeu como se fosse a coisa mais obvia do mundo – E eu tinha que me recuperar. Você fez um corte de cinco centímetros na minha cabeça! Com um socador de alho! – Disse irritado. Foi quando reparei que sua cabeça estava raspada.

Aquela cabeleira rebelde que estava no ombro, agora era um corte de militar. Curto e macio quando se passa a mão.

Eu não respondi ao que ele disse.

–Quero me sentar – Resmunguei.

Dante me colocou sentada na poltrona e abriu um pouco a janela para que um novo ar entrasse no quarto. O vento frio penetrou no quarto.

***

Nos dias seguintes a esses Dante cuidou de mim como se eu fosse um bebê. Às vezes ele me deixava trancada no quarto, às vezes me deixava ir até o andar de baixo para ler ou ver televisão.

–As pessoas do trabalho devem estar preocupadas comigo... Eu poderia voltar a trabalhar... – Murmurei certo dia. Eu estava sentada na sala de visitas lendo enquanto Dante estava na cozinha me observando e preparando o almoço.

–Na verdade você pediu demissão – Respondeu calmo.

–Eu o que? – Praticamente gritei.

Dante secou a mão e veio até a sala, se sentando no braço do sofá onde eu estava.

–Eu fiz uma carta de demissão, no qual você assinou e eu mandei para o seu trabalho.

–Que eu assinei? Eu não assinei nada! – Disse fervorosamente.

–Eu fiz você assinar quando você estava inconsciente... Provavelmente você não se lembra, mas com ajuda você podia comer, se levantar... E escrever.

Eu estava em choque. Um milhão de ações passaram pela minha cabeça, mas o desespero venceu.

–Você vai me manter o resto da vida aqui, não é? – Disse me levantando.

Fui cambaleando até a porta da frente, tentei abri-la, mas ela estava trancada. Bati na porta várias vezes, aos prantos... Não conseguia para de chorar, de soluçar.

Deslizei pela porta até cair no chão e continuei a chorar, sem pausa, alto, sufocava-me com meu próprio choro.

Depois de um tempo Dante apareceu e me carregou. Eu bati nele e ele somente me abraçou, me embalando em seus braços.

Dante se deitou comigo, acariciando meu rosto até eu parar de chorar.

Acho que tem um momento em que não temos mais lágrimas... Ou eu não tinha mais fôlego para chorar daquele jeito.

Quando eu parei de chorar Dante me apertou forte junto ao seu corpo, pude sentir suas lágrimas escorrendo por minha testa.

Minha mãe sempre me falou para nunca confiar em homens que choram...

Dante respirou fundo algumas vezes, eu fiz o mesmo e pude sentir o cheiro de seu pescoço; E fechei os olhos, eu sabia que ele iria dizer algo, estava me preparando para isso.

–Você pode não acreditar, mas eu te amo... Do meu jeito, mas te amo. Não gosto de vê-la triste, Clair. Sufoca-me, tanto quanto a você.

–Quem ama não bate, não maltrata. Não prende a outra pessoa a si, e se não estão mais felizes juntos se separam e desejam o melhor para o outro... Você não fez nada disso, tudo que você fez foi errado e tortuoso – Murmurei contra seu pescoço.

–Eu nunca afirmei agir certo ou ser uma boa pessoa; Mas se estamos juntos, Clair foi uma decisão do destino... Eu não vou abri mão de você! E se tiver que vê-la sofre para tê-la do meu lado eu vou fazer, mesmo não gostando.

Eu suspirei alto e me abracei mais ainda.

Não. Eu não ficava abraçada a ele quando ele me colocava junto dele. Eu nunca o abraçava ou beijava se ele não me mandasse fazer ou obrigasse.

Ficamos um tempo deitados em silêncio, depois descemos para almoçar.

Dante me fazia ter as seis refeições do dia. Eu estava pele e osso, não podia negar. Desde que cheguei aqui perdi muito peso, pelos dias que ele me deixava sem comer e pelas horas seguidas que passava inconsciente quando ele me drogava.

Dante encheu meu prato de comida e eu a comia lentamente.

–Dá última vez você falou de Maggie... Eu senti que havia uma garota antes dela... – Murmurei durante o almoço.

Dante ficou em silêncio, ponderando o que iria dizer.

–O que você quer saber exatamente?

Juntei minhas mãos na mesa.

–O que aconteceu com ela? – Perguntei finalmente.

–Eu... Eu a matei sem querer – Respondeu Dante frio.

Eu engoli a seco, minhas mãos tremiam.

Não conversamos mais depois disso. A noite ele fez sexo comigo.

***

Os dias seguintes se passaram com Dante ainda me vigiando e me auxiliando na fisioterapia ao meu pé.

Ele havia torcido meu pé, mas como eu fiquei duas semanas imóveis meu pé acabou travando. Dante massageava meu pé pelo menos três vezes durante o dia, me fazia caminhar pelo jardim, nós íamos para a piscina e a noite eu usava uma tala.

Eu tinha acabado de sair do banho e estava colocando a tala. Apesar de não saber se aquele era o tratamento correto, pelo menos estava tendo efeito e um efeito positivo.

–Eu conheço esse olhar... – Murmurou Dante irritado – Você vai agir novamente para fugir não é? – Disse sínico.

Dante foi até o closet e voltou com um envelope, se abaixando perto de mim.

–Não pense que não vi você observando o jardim e as portas da casa para tentar fugir. Eu sei que seu plano é agir boazinha e me enganar para fugir – Murmurou Dante contra meu rosto, mas eu não respondi.

Dante abriu o envelope e começou a espalhar fotos pelo chão.

Eu comecei a chorar.

–POR QUÊ? POR QUE VOCÊ FEZ ISSO COM ELA? – Gritei aos prantos e comecei a pegar as fotos das mãos dele.

Julie...

Minha amiga estava em uma cama, cheia de tubos... Ela parecia morta. Morta!

–Estas fotos são de semana passada, você pode ver as datas... Ela não morreu, apenas está em coma faz duas semanas, dês do dia que você me sacaneou, Clair... Esse é seu castigo, querida – Disse Dante suavemente, alucinado – Agora seu amigo Charlie eu não posso dizer o mesmo, esse sim morreu.

Eu soltei um grito.

Eu o empurrei e me levantei, as fotos caíram dos meus braços. Fui para o outro lado do quarto.

–Percebi que você não se importa com o que faço com você, então eu pensei... “Por não mudar de tática? Já que ela não importa o que eu faço com a vida dela, vamos então mexer na vida das pessoas que ela ama”. Você ficaria surpresa pelo que as pessoas não fazem por dinheiro, Clair, mesmo estando do outro lado do país. Nas minhas aulas de psicologia eu aprendi que tem duas coisas que mais enfurecem um ser humano: Machucar as pessoas que ela ama e roubar seu dinheiro... Você não concorda querida?

–SAIA! SAIA DAQUI! – Gritei enlouquecida. Meus olhos quase pulando das orbitas.

Dante deu uma risadinha e saiu do quarto com as mãos erguidas. Trancando-me em seguida.

Eu comecei a andar de um lado para o outro dentro do quarto. A imagem de Julie entubada não saia da minha cabeça, era tudo minha culpa! Charlie! Meu Deus!

Recolhi todas as fotos do chão e as rasguei, as jogando na lixeira do banheiro.

Foi então que eu vi a tesoura.

***

Dante devia estar trancando a casa e conferindo as câmeras. Isso me deu tempo suficiente.

Eu não era forte nem fraca o suficiente para me matar, mas fiz outra coisa.

Ele me desejava tanto! Achava-me tão linda! Eu peguei aquela tesoura de cortar unha e comecei a cortar meu cabelo, trinta centímetros de cabelo caindo no chão, cortados na raiz.

Quando terminei deixei a tesoura cair no chão e o último tufo de cabelo. Eu estava horrível.

Um monstro.

Minha pele pálida e as olheiras só pioravam a situação.

Quando Dante entrou no banheiro eu estava sentada na borda da banheira, olhando para todo meu cabelo espalhado pelo chão... Foi então que ele começou a me bater.

***

***

***

Quando você apanha de verdade pela primeira vez na sua vida, você nunca esquece.

Principalmente se for de um homem.

Dante me deu uma verdadeira surra... E querem saber o pior? Eu desejei tanto desmaiar para não sentir nada... Mas eu fiquei acordada até o final.

Até ele cansar de socar meu rosto.

Até ele cansar de me chutar.

Até ele cansar de bater no meu rosto.

Eu fiquei lá no chão... Não conseguia me mexer. Minha boca não parava de sangrar.

Naquela noite Dante não dormiu no mesmo quarto que eu.

Ele me deixou sozinha na casa.

***

Eu passei a noite deitada no chão, não conseguia dormir.

De manhã eu me levantei e fui direto tomar um banho. Não tive coragem de me olhar no espelho, era humilhante demais.

Sangue recente e sangue seco se misturaram na água enquanto limpava meu corpo.

Eu tinha três cortes na boca, dois na sobrancelha, um arco-íris de roxos por todo meu corpo e uma contusão do tamanho de um punho nas costelas. Tudo doía, tudo ardia.

Três dias... Três dias que Dante não apareceu em casa.

Eu fiquei sozinha na casa, mas trancada. Tentei abri as portas, mas depois de três tentativas e nenhuma senha correta o alarme disparou, parando minutos depois.

Ele deve ter parado o alarme.

Eu limpei todo minha bagunça, me mediquei e cuidei para que os cortes não inflamassem.

Mesmo com uma dor terrível a pior sensação que eu tinha era que Dante poderia entrar a qualquer momento por aquela porta para me matar ou dizer que matou Julie.

Eu nunca iria me perdoar. Eu não poderia estar mais arrependida. Nunca mais tentaria fazer nada.

Já era noite quando a porta do quarto se abriu, eu estava sentada na cama tomando um remédio para dor.

Dante me deu um olhar mortal, na verdade olhando para minha cabeça. Ele se aproximou de mim e pegou meu braço, me levantando da cama. Eu urrei de dor, minhas costelas agindo em protesto.

–Eu pensei bastante, sabe Clair?! Eu acho que você só fez essa merda por que estava em choque e queria me irrita... Mas acho que você entendeu o recado não é? Acho que você entendeu o quanto isso me desagradou...

–Desculpe! – Eu disse quase chorando o interrompendo – Desculpe! Desculpe-me! – Disse apavorada.

Dante parou por um momento perplexo, ele percebeu que eu estava sendo sincera. Ele me jogou de volta a cama e eu estremeci de dor, arfando.

–Sua amiga está viva ainda – Disse Dante e colocou um envelope em cima do criado mudo – Se você disser qualquer palavra, Clair... Eu mando mata-la na hora e faço você escutar os gritos dela! Está me entendendo?!

–Não vai haver próxima vez! Eu juro! Eu-eu não vou fazer nada! Vou me comportar! Não vou tentar fugir! Só... Só não me bata novamente, por favor... Não machuque a Julie... Ela é a única família que eu tenho Dante! Por favor! Eu faço o que você quiser! Eu prometo! Só não a machuque! Por favor... – E eu comecei a chorar.

Dante ficou em silêncio por um momento, então se sentou do meu lado, acariciando meu rosto, me fazendo estremecer pelas lembranças.

–Então é assim que você aprende querida? Quando eu sou cruel com você? – E deu uma risadinha – Então eu acho que isso é um recomeço para nós dois, não acha? – Comentou e eu não respondi – Você não acha Clair?! – Disse um pouco mais bruto me fazendo estremecer de medo.

–S-sim... É um recomeço – Sussurrei.

Notas finais
O que o medo não faz com as pessoas... Vamos Clair... Reaja... Mas a questão é como... Reta final... Bom feriadão! Bree ^^