O perigo mora ao lado
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Eu demorei a dormir naquela noite.
Observei enquanto a neve caia suave e melancólica. A respiração de Dante no meu pescoço, as batidas de seu coração contra minhas costas, seu braço envolvendo meus seios...
Passei boa parte da noite acordada. Não chorei ou me mexi. Apenas estava ali, existindo.
Sinceramente? Eu não tenho força para nada, tenho pavor de tomar alguma atitude e tudo se repetir, eu não tinha mais esperanças.
Quando o sol começou a aparecer desisti de pensar e me entreguei aos braços do Orfeu.
***
Acordei com o celular de Dante tocando, ele se desculpou comigo e se levantou para atender. Eu me cobri com o cobertor e fiquei olhando para o teto esperando ele terminar de falar.
Dante se sentou ao meu lado, na borda da cama.
–Está tudo bem? Você está um pouco pálida...
–Onde estão minhas roupas? Eu não as vi – Murmurei alternando o olhar entre ele e o closet.
–Eu ainda vou trazê-las... – E pegou meu rosto – Por hora eu quero que você apenas use um roupão, não quero roupas para me atrasar em tê-la...
Não pude conter um sorriso sarcástico.
–Até quando isso vai continuar então?
–O que vai continuar? – Perguntou sério, o humor dele já estava piorando.
–Você... Isso... Até quando vai me prender aqui? Fazendo-me agir e falar como antes? – Sussurrei apática.
–É você que está complicando tudo! Eu não teria que fazer nada disso se você apenas agisse como antes, quando a gente era feliz! Não vou abrir mão daquilo Clair! Foi a melhor parte da minha vida e você não vai estraga-la agindo como uma garota mimada e terminando a hora que você quer, fugindo com outro homem...
Eu o interrompi, me sentando na cama, cobrindo minha nudez com o cobertor.
–E por que eu fiz isso? Você pode ser louco, mas de burro não tem nada! Você mentiu para mim, me espionou, me seguia, controlava tudo que eu fazia, agia como o seu pai! Eu fiquei apavorada! Como qualquer outra pessoa ficaria! E como você reagiu? – Eu perguntei, mas não esperei por sua resposta – Continuou agindo como antes! Mas fez pior! Matou minha cachorra, ameaçou minhas amigas e matou meu amigo na minha frente!
O.k... Eu estava gritando. Meus olhos se encheram d’água ao lembrar de Jace... Do tiro.
–Eu não consigo aceitar por que você fez isso! Você é psicólogo! Sabe o que é certo e errado! Se estivesse com um... Impulso de fazer isso poderia ter procurado por ajuda! Mas você não fez isso! Preferiu continuar fazendo o errado... Você matou uma pessoa!
–Não é a primeira vez que já matei alguém Clair – Dante respondeu e deixou algo no ar, deixando boquiaberta – E sim... Eu preferi ir pelo caminho tortuoso, mas quer saber o porquê? Eu não queria agir corretamente... – Disse com escárnio – Não queria procurar por ajudar, simplesmente fiz o que eu queria! – E sorriu para mim – Eu sei que é errado, mas eu vou continuar fazendo e não vou parar. Agrada-me agir assim.
–Então você vai me deixar aqui? Trancada em um quarto o dia inteiro e a noite vai aparecer para me foder? É isso?
–Eu prefiro o termo fazer amor, Clair. Com você é assim, já lhe disse que nunca encontrei outra garota igual a você... E sim, se você não se comportar o resto da sua vida vai ser assim. Agora... Se você parar com essa palhaçada de ficar resistindo a tudo que eu faço ou falo vamos voltar a ser como antes.
Minha boca se curvou em uma carranca – Até um cachorro sarnento reage quando alguém bate nele! – Respondi furiosa lembrando quando ele bateu no meu rosto.
–É esse tipo de tom e expressão que me deixa puto, Clair! – Acusou-me e se levantou – Um dia eu vou lhe dar uma surra tão grande que você nunca mais vai fazer isso!
–Sabe que eu vou continuar fazendo isso! Eu vou sempre debater com você! Então por que não me mata logo, em? Assim nos poupa tempo! – Digo o encarando.
Algo que ele viu em meu rosto o fez sorrir e ele voltou a se aproximar de mim.
–Eu nunca lhe mataria Clair, nunca. Prefiro morrer a isso! E o dia que você morrer pode ter certeza que eu vou logo atrás de você, não ia conseguir viver em um mundo sem você Clair Delacour... – Murmurou próximo do meu rosto.
–Guarde seu papo meloso para outra pessoa, a mim você não engana! Tudo que você faz e como age é para conseguir o que você quer! Pensa que eu não notei que você comprou tudo que eu queria para me agradar?! Você pode comprar joias, roupas, casas, mas não vai mudar a pessoa vazia que você é! Nem me fara amar você. E se você ainda não percebeu isso é por que não me conhece muito bem.
–Já terminou? – Foi à única coisa que ele disse.
–Não!
Então ele me beijou.
Ele pressionou meu corpo contra o dele e a cama, me fazendo ficar sem alternativas para escapar.
Não vou negar que soquei todas as partes que consegui de seu corpo, mas isso não pareceu abala-lo, ele apenas se afastou de mim quando ficou sem fôlego.
–Não importa o que você faça, eu sou louco por você – Comentou Dante tocando em sua língua que eu havia mordido.
–Não faça disso a porra de um romance! Por que não é! – Gritei furiosa, o empurrando para longe de mim.
Por algum motivo ele começou a rir, mas não foi uma risada normal, fora uma risada macabra.
–Continue agindo assim que só vai ser pior para você. Quanto mais você me nega, mas eu quero o seu corpo... Maggie não lutava contra mim, ela era fraca.
Novamente sua personalidade havia mudado, ele estava tão sinistro quanto seu olhar sem vida.
–Maggie? – Perguntei e o silêncio se instalou. Demorei um bom tempo para entender ao que ele se referia – Havia outra garota antes de mim... – Foi só o que eu consegui dizer.
–Você acha que foi a única mulher da minha vida? – E riu sem vontade – Assim como você querida, eu já tive outros relacionamentos.
Meus olhos pareciam que iriam pular do meu rosto.
–Você também a mantia trancada... – Consegui dizer com a voz presa.
–Prefiro o termo manter vocês... Controladas. Como você acha que fui parar naquele apartamento? Ela morava lá, nós começamos a namorar e ela me chamou para morar com ela – E ele sorriu ao se lembrar de algo – Diferente de você, com ela era somente sexo, mesmo assim ela não parecia aceitar minhas regras muito bem... Mesmo sendo somente sexo eu gosto que a mulher que eu esteja fique em casa, mas como você, ela não aceitava muito bem. Essa sim eu mantive trancada... Nós ficamos juntos por dois anos.
Eu continuei a encara-lo, estava faltando ele me dizer algo, ele queria dizer algo.
–O sexo era incrível! Não melhor que com você querida, não se preocupe. Por mais que eu batesse nela, mantivesse presa, ela gostava quando eu fodia com ela... Adorava quando eu a chamava de putinha – Comentou olhando para o nada, se lembrando – Mas ela fraca... Não reagia quando eu fazia algo com ela... Acho que essa falta de atitude dela a matava por dentro, acho que por isso ela se matou... – Comentou pensativo.
Eu tapei a boca completamente chocada. Eu queria vomitar.
Dante se virou para mim com um sorriso carinhoso, havia... Orgulho em seus olhos.
–Você sempre age quando eu faço algo, sempre debate comigo, me irrita é verdade! Mas eu admiro isso em você... Você é forte por isso, diferente de Maggie. Eu sei que por mais que eu faça algo com você, você nunca iria se matar. Você aprecia muito a sua vida já que passou por tantas coisas...
–Você sabe que vou continuar tentando até me ver livre de você – Murmuro fortemente.
Tudo que ele havia dito era verdade, eu nunca me mataria por ele ou por algo que acontecesse em minha vida. A fênix que subia no meu tornozelo era o símbolo disso, eu surgia das cinzas, assim como a fênix. Por mais que a vida me botasse para baixo eu não ia desistir de tentar se feliz, essa tatuagem era o símbolo disso. Eu já fui abandona, perdi meus pais e agora tem esse demônio que quer me levar para o buraco solitário que ele se encontra, mas eu vou superar tudo isso.
Eu vou ser livre dele, nem que precise me livrar dele para isso.
–Você vai perder seu tempo fazendo isso, Clair... Já faço isso há muitos anos, em todos meus relacionamentos, com você não será diferente. Você não vai escapar de mim, estamos juntos nessa, baby... Até o fim.
–Eu nunca vou me entregar, nunca serei sua, nunca mais vou te amar! Nem que os anos se passem ou que você me deixe trancada aqui pelo resto da vida... Tudo que você quer de mim eu nunca vou lhe dar! – Digo cruelmente.
Vi em seus olhos o quanto minhas palavras o feriram.
Ele é louco, mas é sozinho e me ama do jeito doentio dele... Negar meus sentimentos para ele é algo insuportável, já que de alguma maneira ele me procura para suprir isso.
–Então se prepare, pois eu vou transformar a sua vida um verdadeiro inferno. Já que você nunca mais vai me amar como antes eu terei que te forçar cada vez para isso, querida – E se aproximou do meu rosto – E eu vou adorar cada segundo.
Um tremor desceu por minha espinha. Minhas mãos ficaram geladas.
–Pode ser que eu não venha mais ser feliz, mas você também não vai ser – Sussurrei olhando para a parede.
Dante saiu do quarto depois que eu disse isso.
Eu não consegui parar de tremer pelo resto da manhã.
E novamente ele me deixou trancada sem comer o dia inteiro.
***
Passar o dia sem comer me fez me arrepender de tudo que eu falei de “errado”.
E provavelmente também estava enlouquecendo.
Mas isso me fez ter uma ideia, não seria agradável, mas talvez enganasse ele.
Coloquei o roupão que Dante havia falado e fiquei com ele o dia inteiro. O roupão era negro, pesado, cobria meus braços e passava dos meus joelhos, pelo menos ele me aquecia...
Eu bebia a água da pia do banheiro, isso me mantém hidratada e engana a fome.
Quando ele entrou no quarto à noite eu estava sentada no meio da cama de pernas cruzadas. Ele olhou bem pra mim e observou o quarto, pela sua expressão ele ainda estava furioso comigo.
Dante colocou minhas malas dentro do closet e desceu para pegar mais. Quando ele estava ajeitando as coisas no closet para abrir espaço para mim, eu entrei no closet, encostei-me à parede. Ele não se virou, não disse nenhuma palavra.
–Dante... – O chamei e ele se virou um pouco, os olhos presos em mim – Er... Desculpe pelo que disse mais cedo, eu estava com raiva, disse muitas coisas desnecessárias – Murmurei sem jeito.
Ele se virou completamente para mim, me analisando. Soltei um suspiro irritada e fui até ele.
Dante ficou paralisado quando o beijei e não me correspondeu. Coloquei meus braços em volta de seu pescoço e colei meu corpo ao dele. Ele não resistiu mais... Beijou-me com ardor, com sede, com um desejo incontrolável.
Eu tinha que agir certo, eu era o ponto fraco dele.
Quando nos separamos sem fôlego, ele pressionou mais ainda meu corpo ao dele, beijando meu pescoço, meu peito... Eu tratei de suspirar, revirando os olhos impaciente. Eu tinha que ser rápida...
Ele voltou a me beijar, mas desta vez eu controlei o beijo. Quando senti que ele iria me puxar novamente para ele eu o empurrei, o joguei para a parede, então tirei o roupão.
O roupão caiu sobre meus pés, só ouvi o suspiro de Dante. Aproximei novamente dele para beija-lo, mas ele não deixou, ele tinha outros planos. Ele me colocou contra a parede e começou a vagar pelo meu corpo com a boca e as mãos, sem piedade, sem fragilidade.
Aproveitei em uma breve pausa dele e comecei a tirar sua blusa, beijei seu peito, seus braços... Ajoelhei-me e comecei a passar a mão pelo seu corpo, então eu achei o que queria.
As chaves estavam no bolso de trás da calça!
Tive que controlar minha empolgação, ele poderia perceber o que eu queria achar. Passei mais um pouco a mão pelo seu corpo, então comecei a abrir sua calça.
Suguei o membro de Dante com força, cravando meu olhar sobre o dele. Ele se apoiou sobre a parede e segurou meus cabelos. Aquilo me fez sentir um ódio maior de tudo, mas eu tinha que continuar.
Dante me levantou, me beijou e passou a língua por meu pescoço. Ele me ergueu, me prendendo entre sua cintura e a parede. Então ele colocou o membro dele dentro de mim... Coloquei meu rosto atrás de seus ombros e fingi estar gemendo, não queria que ele visse meu rosto...
Que eu não vomite! Que eu não vomite!
Depois que ele terminou e eu fingi um orgasmo, sugeri que tomássemos um banho.
Ele não parecia estar notando nada...
Depois que tomamos banho, ele fez exatamente o que eu previ. Deixou a roupa ali mesmo e colocou outra.
Ele desceu primeiro para fazer o jantar e eu fiquei no quarto procurando uma roupa para mim. Assim que eu o escutei descendo as escadas peguei o chaveiro. Coloquei uma roupa um pouco mais pesada, uma calça jeans, tênis, uma blusa e um suéter por cima. Estava nevando e talvez que conseguisse fugir hoje... Eu tinha que conseguir.
Antes de sair do quarto eu fiz um coque... Estava cansada de ele ficar segurando meu cabelo.
Coloquei as chaves atrás da planta aos pés da escada, sem fazer nenhum barulho. Quando eu passasse por aqui seria rápido para pega-la. Não poderia deixar a chave comigo, ele poderia senti-la ou ouvi-la se estivesse junto ao meu corpo.
Quando eu chegue à cozinha Dante estava cozinhando.
–Posso cozinhar? Tem tempo que eu não faço isso – Murmuro pegando o ingrediente que faltava na geladeira.
–Claro... – E suspirou – Eu tenho que resolver um negócio do trabalho com um dos agentes.
Pela primeira vez notei o quanto ele estava cansado, ele tinha enormes olheiras. Dante foi para a sala de visitas e eu pude escutar ele conversando no telefone.
Fiquei observando ele conversando e continuei a fazer o que ele estava cozinhando. Sem fazer nenhum barulho eu peguei duas panelas, uma eu deixei em cima da pia e a outra coloquei água para ferver...
Eu estava nervosa, tinha que ser rápida... Não podia ter pena.
Assim que a água ferveu o suficiente para fazer um grande estrago, foi no momento exato que ele terminou de falar ao telefone.
Era agora.
Eu peguei a panela com a água quente e fui a sua direção. Quando eu olhei na sala Dante não estava mais lá!
Foi tudo rápido demais.
Dante me empurrou contra a pia e bateu na panela, fazendo toda a água cair sobre a pia. Vários respingos de água caíram sobre mim, queimando minha pele. Dante me pressionou mais ainda sobre a pia e segurou meu cabelo.
–Não sabia que para fazer arroz precisava de água fervendo! – Disse furioso contra meu ouvido, apertando mais ainda meu cabelo.
Dei um olhar maligno para ele.
–Vai se fuder! – Eu disse.
Dei uma cotovelada no estômago dele com toda minha força. Dante se curvou de dor, perdendo o ar. Peguei a panela da pia e atingi com tudo o rosto dele. Ele caiu.
Peguei o socador de alho e bati na cabeça dele, ele fechou os olhos.
Então eu corri.
Passei pela planta perto das escadas, pegando a chave e corri até as portas da frente. Eu consegui abri a port, não contive o grito de empolgação, foi então que eu bati com tudo na porta de vidro.
O choque. A surpresa. A raiva... Tudo ao mesmo tempo.
Tinha que dar uma senha para a porta se abrir.
–CLAIR! – Gritou Dante como um animal.
Eu fiquei apavorada, não sabia onde ele estava.
Corri até os fundos, era uma chave universal para todas as portas... Eu havia escolhido isso!
Consegui abrir a porta, mas havia outra porta de vidro! Escutei outro grito de Dante pela casa, ele estava mais próximo. Eu podia ver o jardim dali! Estava tão próxima! Corri até a janela e consegui abrir ela.
Eu coloquei a perna no arbusto quando fui puxada para dentro. O trinco da janela cortou meu rosto quando fui puxada, eu gritei de dor.
Eu e Dante caímos no chão. Eu chutei o ombro dele e me levantei, mas ele segurou meu tornozelo me derrubando. Dante se jogou contra minha perna e virou com toda sua força meu pé, eu gritei alucinada de dor até sentir um estalo.
Eu gritei mais ainda, me convulsionando de dor. Eu não sentia mais o meu pé.
Eu vi o sangue correndo pela face de Dante, ele se sentou em cima de mim e começou a me asfixiar.
Eu ainda estava gritando quando ele começou a apertar meu pescoço, já não tinha tanto ar. Dante não soltava meu pescoço, começou a bater minha cabeça no chão e a me xingar descontroladamente.
Eu ia morrer...
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