O cheiro de café fresco preenchia a cozinha, misturado ao som metálico das torradeiras e ao farfalhar do jornal que meu pai insistia em ler todas as manhãs. Minha mãe estava de avental, mexendo distraída numa panela de ovos mexidos, e o relógio de parede marcava sete e meia. Era um dia comum — ou deveria ser.

Sentei-me à mesa, tentando manter a naturalidade. Mas havia algo dentro de mim pedindo para ser dito.

— Pai, mãe… eu preciso contar uma coisa.

Meu pai, o senhor Biers, baixou o jornal devagar e me olhou por cima dos óculos.

— Isso parece sério. Aconteceu algo na faculdade?

Balancei a cabeça.

— Não. É sobre a Renesmee.

O nome dela no ar fez minha mãe parar o que estava fazendo. Ela se virou, com a colher ainda na mão.

— O que tem a Renesmee?

Engoli em seco.

— Eu pedi ela em casamento.

O silêncio que se instalou foi sufocante. O relógio da parede parecia marcar os segundos mais longos da minha vida.

— Você o quê? — perguntou minha mãe, a voz subindo meio tom.

— Pedi Renesmee em casamento — repeti, tentando parecer firme. — E ela aceitou.

Meu pai largou o jornal sobre a mesa e se recostou na cadeira, sem dizer nada por alguns segundos. Minha mãe, por outro lado, parecia prestes a explodir.

— Riley, pelo amor de Deus! Você tem vinte e dois anos! Está prestes a conseguir uma bolsa no Seattle Storm e, se tudo der certo, pode ser chamado pra um time da NBA! — Ela gesticulava nervosa. — E agora vem me dizer que vai se casar?

— Eu não vejo problema nisso — retruquei. — Eu amo a Renesmee, mãe.

— Amor? — Ela riu, incrédula. — Amor não paga as contas, Riley! Amor não garante futuro!

Meu pai, ainda calado, cruzou as mãos sobre a mesa e falou com um tom mais contido, mas igualmente duro.

— Filho, escute a sua mãe. Os Cullen são uma família influente. Ricos, poderosos, o pai dela é praticamente uma instituição em Seattle. Você acha mesmo que vão aceitar esse casamento?

— Isso não importa — respondi, sem hesitar. — Eu não preciso que eles me aceitem. Eu só preciso dela.

Minha mãe apoiou as mãos no balcão, respirando fundo.

— Você é tão ingênuo… — murmurou. — Não percebe que ela vive em um mundo completamente diferente do seu?

— Eu percebo, sim — respondi, com firmeza. — E é por isso que quero provar que posso dar a ela o mesmo conforto que tem hoje. Eu vou vencer no basquete, mãe. É só uma questão de tempo.

Meu pai soltou um suspiro pesado e apoiou o cotovelo na mesa.

— Eu admiro sua determinação, filho. Mas os Cullen não se misturam com ninguém que não seja do nível deles. Por mais que essa garota o ame, o pai dela jamais permitirá que isso vá adiante.

— Eu não me importo com o que ele pensa. — Retruquei, o sangue fervendo. — Eu a pedi em casamento porque quero construir uma vida com ela, e vou lutar por isso.

Minha mãe balançou a cabeça, decepcionada.

— Lutar? Contra o quê? Contra o mundo? Você está prestes a jogar fora o seu futuro por uma menina que mal sabe o que quer da vida!

— Ela sabe, mãe! — respondi, elevando o tom. — E eu também sei o que quero.

Ela largou o pano de prato sobre o balcão, frustrada.

— Eu nunca vou aceitar que meu filho destrua a própria carreira por um capricho adolescente.

— Isso não é um capricho — murmurei, sentindo o nó subir na garganta. — É amor.

Meu pai levantou-se devagar, contornou a mesa e pousou a mão no meu ombro.

— Eu sei que acha que é, filho. Mas o tempo vai te mostrar o que é prioridade.

Afastei-me, incapaz de olhar para eles.

— Talvez o tempo mostre que vocês é que estão errados.

Peguei minha mochila e saí antes que as palavras se tornassem gritos.

Eu já estava com a mão na maçaneta do carro quando ouvi a voz do meu pai atrás de mim.

— Riley, espera.

Fechei os olhos por um instante antes de me virar. Ele caminhava devagar pela garagem, com o casaco de lã pendendo dos ombros e a expressão cansada de quem carregava o peso de muitos anos e algumas decepções.

— Eu não quero brigar, pai — disse, num tom baixo. — Não agora.

— Nem eu — respondeu ele, parando diante de mim. — Mas também não quero que saia achando que somos seus inimigos.

Cruzei os braços, tentando conter a frustração.

— Eu só quero que confiem em mim.

Ele assentiu, com calma.

— Eu confio, filho. — Disse isso olhando diretamente nos meus olhos. — Mas amar alguém não é o mesmo que estar pronto para o que vem depois.

Fiquei em silêncio.

— Você ainda é muito jovem — continuou ele, em tom sereno. — Tem talento, tem um futuro promissor. Está a um passo de conquistar o que sempre quis. Não jogue isso fora porque o coração fala mais alto agora.

— O senhor acha que eu estou sendo impulsivo.

— Acho que está sendo humano — corrigiu. — E apaixonado. Mas paixão e planejamento raramente andam juntos.

Ele deu alguns passos até o carro, apoiando-se na porta.

— Escuta, Riley… eu não sou contra a Renesmee. Sei que ela é uma boa moça. Só quero que entenda que um casamento é mais do que amor. É estabilidade, é maturidade emocional e, principalmente, maturidade econômica.

Eu o olhei em silêncio, digerindo cada palavra.

— E se eu prometer que vou dar conta de tudo? — perguntei.

Meu pai sorriu com leveza.

— A promessa é o primeiro passo. Mas o tempo é o teste. — Colocou a mão no meu ombro. — Se você realmente a ama, e se ela te ama da mesma forma, esperar um pouco não vai mudar nada.

Olhei para o chão, sentindo o peso do que ele dizia.

— O senhor quer que eu adie o casamento.

— Quero que viva o seu sonho primeiro. — respondeu, firme. — Vá atrás da bolsa, jogue, conquiste o seu espaço. Quando estiver de pé, quando souber o que é se sustentar sozinho, aí sim poderá oferecer algo sólido pra ela.

— E se ela achar que eu estou desistindo?

— Então talvez ela ainda não entenda o que é amor de verdade. — apertou meu ombro com força. — Mas, se ela te ama como você diz, vai esperar.

Ficamos em silêncio por alguns segundos. A chuva começava a cair, fina, e o som das gotas batendo no carro preenchia o ar.

Finalmente, assenti.

— Tudo bem, pai. Eu vou pensar.

Ele deu um leve sorriso.

— É só o que eu peço. Pense com o coração, mas não feche os olhos pro mundo.

Assenti de novo e entrei no carro. Antes de ligar o motor, olhei pelo retrovisor e vi meu pai ainda parado na garagem, as mãos nos bolsos, o olhar distante.

Naquele instante, percebi que ele não falava apenas como pai — falava como alguém que já tinha amado, e talvez, em algum momento, também tivesse se perdido por amor.

E eu, mesmo sem admitir, sabia que ele estava certo:

o amor podia esperar,

mas os sonhos não esperavam por ninguém.

O estacionamento do campus estava cheio de vida quando cheguei. Os rapazes do time já se reuniam perto da quadra, entre risadas e provocações habituais. O som das bolas quicando e o eco das vozes pareciam o prelúdio de mais um treino longo.

James foi o primeiro a me ver.

— Olha só quem voltou ao mundo dos vivos! — gritou, erguendo a mão. — O noivo da princesa de Seattle!

Revirei os olhos, mas sorri.

— Bom dia pra você também, James.

Ele me deu um leve tapa nas costas.

— O treinador perguntou por você. Disse que vai ter um teste extra daqui a algumas semanas. Parece que os olheiros da Seattle Storm Academy vão estar aqui de novo.

Meu coração disparou.

— Está brincando?

— Eu teria te ligado ontem, mas o pessoal achou melhor deixar a surpresa. — James piscou. — E aí, tá pronto pra brilhar, Biers?

— Sempre estive — respondi, com um sorriso que tentava disfarçar o nervosismo.

Outros colegas se juntaram à conversa — Mike, Taylor e Ben, todos com o mesmo entusiasmo juvenil de sempre. O papo rapidamente mudou para o jogo do fim de semana, apostas e provocações.

Até que Ben olhou por cima do meu ombro e riu.

— Olha quem chegou… — murmurou.

Segui o olhar dele e vi Victoria atravessando o pátio. Cabelos ruivos, cacheados nas pontas, jeans justos e um sorriso que nunca disfarçava o quanto ela gostava de ser notada.

James riu.

— Cara, aquela garota é completamente louca por você.

— É, e ela não faz questão nenhuma de esconder — completou Ben, zombando. — Você devia tomar cuidado.

Suspirei, tentando manter a calma.

— Eu já tenho alguém.

Os três se entreolharam, e o riso veio em coro.

— Ah, não começa, Riley — disse Taylor, rindo. — Não me diga que vai mesmo casar com a menina dos Cullen.

James balançou a cabeça, incrédulo.

— Você está falando sério?

Cruzei os braços.

— Estou. Amo a Renesmee e vou me casar com ela.

Houve um breve silêncio, até que Ben deu um empurrão de leve em mim.

— Tá, campeão. E eu vou me casar com a Scarlett Johansson.

As risadas voltaram, altas, e mesmo tentando manter a postura, acabei rindo também.

— Riam o quanto quiserem. Mas quando estiverem ainda solteiros aos trinta, eu vou estar casado com a mulher mais incrível do mundo.

— O amor deixa o homem cego, mas também engraçado — zombou James, fazendo todos rirem outra vez.

Enquanto a brincadeira continuava, Victoria já estava perto o suficiente para ouvir parte da conversa. Parou ao meu lado, com aquele sorriso calculado e uma mecha de cabelo caindo sobre o rosto.

— Você tem um minuto, Riley? — perguntou, num tom suave, mas firme.

Olhei para os rapazes, que trocaram olhares maliciosos. James sussurrou algo que soou como “boa sorte” antes de se afastar, rindo.

Suspirei e voltei-me para ela.

— Victoria, agora não é um bom momento. O treino começa em dez minutos.

— É importante — insistiu. — Só quero conversar.

Havia algo no tom dela — não o de flerte, mas de quem guardava algo a dizer.

— Tudo bem — cedi. — Só por um minuto.

Ela fez um gesto para que eu a seguisse até o lado de fora da quadra, perto das arquibancadas vazias. O vento frio carregava o cheiro de chuva, e por um instante, lembrei de Renesmee — sua voz, o sorriso, a promessa.

Victoria caminhou à frente, e eu a segui até uma parte mais afastada do ginásio, atrás das arquibancadas externas. Era um espaço silencioso, onde o barulho das conversas do time se transformava em um eco distante.

Ela se virou devagar, cruzando os braços. O olhar dela estava diferente — menos provocador, mais ferido.

— Você mentiu pra mim, Riley.

Franzi o cenho.

— Do que está falando agora?

— Do que aconteceu entre nós — respondeu, a voz trêmula. — Você disse que não queria nada sério, mas também não mencionou que estava pedindo outra em casamento.

Suspirei, já cansado daquele tipo de conversa.

— Victoria, eu te avisei desde o começo que não queria envolvimento. Foi um erro. Mas eu fui honesto.

Ela riu, com amargura.

— Honesto? Engraçado você usar essa palavra.

— Eu não vou aceitar esse tipo de cobrança — retruquei, firme. — Você sabia o que era. Eu nunca prometi nada.

Por um momento, o silêncio voltou. Depois, ela deu um passo à frente, o olhar faiscando.

— Então talvez você possa me dizer quando pretendia contar que a sua noiva está grávida.

Senti o ar sumir dos pulmões.

— O quê?

— A Renesmee — disse ela, com a voz fria. — Está grávida.

Por alguns segundos, apenas a chuva batendo no chão preencheu o silêncio entre nós.

E então, eu ri. Um riso nervoso, incrédulo.

— Você realmente precisa parar com essas invenções, Victoria.

Ela não riu. Apenas me encarou, séria.

— Não estou inventando nada, Riley. Você não sabe, não é?

Minha garganta secou.

— Saber o quê?

— Eu estava no banheiro feminino ontem — disse ela, a voz cada vez mais firme. — Ouvi Renesmee conversando com a prima dela, Anna. Elas falavam sobre a gravidez. Ela confirmou. Está esperando um bebê.

Meu coração começou a bater descompassado.

— Isso é impossível. — balbuciei. — Eu… nós nunca…

Ela arqueou uma sobrancelha, fria.

— Então o filho não é seu.

Meu estômago revirou.

— Você está mentindo.

— Eu não ganharia nada com isso — respondeu, o tom cortante. — Achei que deveria saber antes de o campus inteiro descobrir.

Dei um passo para trás, o chão parecendo se mover sob meus pés.

A imagem de Renesmee veio à minha mente — seu sorriso tímido, a forma como me olhava, o jeito doce com que dizia meu nome.

Nada naquilo fazia sentido.

— Não… — murmurei, balançando a cabeça. — Não é possível.

Victoria suspirou, baixando o olhar.

— Acredite no que quiser, Riley. Mas uma coisa é certa: ela está grávida. E, se você nunca a tocou, então precisa encarar o fato de que esse bebê não é seu.

Fiquei parado ali, mudo, enquanto ela se afastava.

A chuva engrossava, fria, batendo contra o concreto e contra mim.

Tudo em que eu acreditava até aquele momento começou a ruir.

E, no meio daquela tempestade silenciosa, uma única pergunta martelava dentro da minha cabeça —

Se o filho não é meu… então de quem é?