O pai do meu bebê
18 Riley
O cheiro de café fresco preenchia a cozinha, misturado ao som metálico das torradeiras e ao farfalhar do jornal que meu pai insistia em ler todas as manhãs. Minha mãe estava de avental, mexendo distraída numa panela de ovos mexidos, e o relógio de parede marcava sete e meia. Era um dia comum — ou deveria ser.
Sentei-me à mesa, tentando manter a naturalidade. Mas havia algo dentro de mim pedindo para ser dito.
— Pai, mãe… eu preciso contar uma coisa.
Meu pai, o senhor Biers, baixou o jornal devagar e me olhou por cima dos óculos.
— Isso parece sério. Aconteceu algo na faculdade?
Balancei a cabeça.
— Não. É sobre a Renesmee.
O nome dela no ar fez minha mãe parar o que estava fazendo. Ela se virou, com a colher ainda na mão.
— O que tem a Renesmee?
Engoli em seco.
— Eu pedi ela em casamento.
O silêncio que se instalou foi sufocante. O relógio da parede parecia marcar os segundos mais longos da minha vida.
— Você o quê? — perguntou minha mãe, a voz subindo meio tom.
— Pedi Renesmee em casamento — repeti, tentando parecer firme. — E ela aceitou.
Meu pai largou o jornal sobre a mesa e se recostou na cadeira, sem dizer nada por alguns segundos. Minha mãe, por outro lado, parecia prestes a explodir.
— Riley, pelo amor de Deus! Você tem vinte e dois anos! Está prestes a conseguir uma bolsa no Seattle Storm e, se tudo der certo, pode ser chamado pra um time da NBA! — Ela gesticulava nervosa. — E agora vem me dizer que vai se casar?
— Eu não vejo problema nisso — retruquei. — Eu amo a Renesmee, mãe.
— Amor? — Ela riu, incrédula. — Amor não paga as contas, Riley! Amor não garante futuro!
Meu pai, ainda calado, cruzou as mãos sobre a mesa e falou com um tom mais contido, mas igualmente duro.
— Filho, escute a sua mãe. Os Cullen são uma família influente. Ricos, poderosos, o pai dela é praticamente uma instituição em Seattle. Você acha mesmo que vão aceitar esse casamento?
— Isso não importa — respondi, sem hesitar. — Eu não preciso que eles me aceitem. Eu só preciso dela.
Minha mãe apoiou as mãos no balcão, respirando fundo.
— Você é tão ingênuo… — murmurou. — Não percebe que ela vive em um mundo completamente diferente do seu?
— Eu percebo, sim — respondi, com firmeza. — E é por isso que quero provar que posso dar a ela o mesmo conforto que tem hoje. Eu vou vencer no basquete, mãe. É só uma questão de tempo.
Meu pai soltou um suspiro pesado e apoiou o cotovelo na mesa.
— Eu admiro sua determinação, filho. Mas os Cullen não se misturam com ninguém que não seja do nível deles. Por mais que essa garota o ame, o pai dela jamais permitirá que isso vá adiante.
— Eu não me importo com o que ele pensa. — Retruquei, o sangue fervendo. — Eu a pedi em casamento porque quero construir uma vida com ela, e vou lutar por isso.
Minha mãe balançou a cabeça, decepcionada.
— Lutar? Contra o quê? Contra o mundo? Você está prestes a jogar fora o seu futuro por uma menina que mal sabe o que quer da vida!
— Ela sabe, mãe! — respondi, elevando o tom. — E eu também sei o que quero.
Ela largou o pano de prato sobre o balcão, frustrada.
— Eu nunca vou aceitar que meu filho destrua a própria carreira por um capricho adolescente.
— Isso não é um capricho — murmurei, sentindo o nó subir na garganta. — É amor.
Meu pai levantou-se devagar, contornou a mesa e pousou a mão no meu ombro.
— Eu sei que acha que é, filho. Mas o tempo vai te mostrar o que é prioridade.
Afastei-me, incapaz de olhar para eles.
— Talvez o tempo mostre que vocês é que estão errados.
Peguei minha mochila e saí antes que as palavras se tornassem gritos.
Eu já estava com a mão na maçaneta do carro quando ouvi a voz do meu pai atrás de mim.
— Riley, espera.
Fechei os olhos por um instante antes de me virar. Ele caminhava devagar pela garagem, com o casaco de lã pendendo dos ombros e a expressão cansada de quem carregava o peso de muitos anos e algumas decepções.
— Eu não quero brigar, pai — disse, num tom baixo. — Não agora.
— Nem eu — respondeu ele, parando diante de mim. — Mas também não quero que saia achando que somos seus inimigos.
Cruzei os braços, tentando conter a frustração.
— Eu só quero que confiem em mim.
Ele assentiu, com calma.
— Eu confio, filho. — Disse isso olhando diretamente nos meus olhos. — Mas amar alguém não é o mesmo que estar pronto para o que vem depois.
Fiquei em silêncio.
— Você ainda é muito jovem — continuou ele, em tom sereno. — Tem talento, tem um futuro promissor. Está a um passo de conquistar o que sempre quis. Não jogue isso fora porque o coração fala mais alto agora.
— O senhor acha que eu estou sendo impulsivo.
— Acho que está sendo humano — corrigiu. — E apaixonado. Mas paixão e planejamento raramente andam juntos.
Ele deu alguns passos até o carro, apoiando-se na porta.
— Escuta, Riley… eu não sou contra a Renesmee. Sei que ela é uma boa moça. Só quero que entenda que um casamento é mais do que amor. É estabilidade, é maturidade emocional e, principalmente, maturidade econômica.
Eu o olhei em silêncio, digerindo cada palavra.
— E se eu prometer que vou dar conta de tudo? — perguntei.
Meu pai sorriu com leveza.
— A promessa é o primeiro passo. Mas o tempo é o teste. — Colocou a mão no meu ombro. — Se você realmente a ama, e se ela te ama da mesma forma, esperar um pouco não vai mudar nada.
Olhei para o chão, sentindo o peso do que ele dizia.
— O senhor quer que eu adie o casamento.
— Quero que viva o seu sonho primeiro. — respondeu, firme. — Vá atrás da bolsa, jogue, conquiste o seu espaço. Quando estiver de pé, quando souber o que é se sustentar sozinho, aí sim poderá oferecer algo sólido pra ela.
— E se ela achar que eu estou desistindo?
— Então talvez ela ainda não entenda o que é amor de verdade. — apertou meu ombro com força. — Mas, se ela te ama como você diz, vai esperar.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. A chuva começava a cair, fina, e o som das gotas batendo no carro preenchia o ar.
Finalmente, assenti.
— Tudo bem, pai. Eu vou pensar.
Ele deu um leve sorriso.
— É só o que eu peço. Pense com o coração, mas não feche os olhos pro mundo.
Assenti de novo e entrei no carro. Antes de ligar o motor, olhei pelo retrovisor e vi meu pai ainda parado na garagem, as mãos nos bolsos, o olhar distante.
Naquele instante, percebi que ele não falava apenas como pai — falava como alguém que já tinha amado, e talvez, em algum momento, também tivesse se perdido por amor.
E eu, mesmo sem admitir, sabia que ele estava certo:
o amor podia esperar,
mas os sonhos não esperavam por ninguém.
O estacionamento do campus estava cheio de vida quando cheguei. Os rapazes do time já se reuniam perto da quadra, entre risadas e provocações habituais. O som das bolas quicando e o eco das vozes pareciam o prelúdio de mais um treino longo.
James foi o primeiro a me ver.
— Olha só quem voltou ao mundo dos vivos! — gritou, erguendo a mão. — O noivo da princesa de Seattle!
Revirei os olhos, mas sorri.
— Bom dia pra você também, James.
Ele me deu um leve tapa nas costas.
— O treinador perguntou por você. Disse que vai ter um teste extra daqui a algumas semanas. Parece que os olheiros da Seattle Storm Academy vão estar aqui de novo.
Meu coração disparou.
— Está brincando?
— Eu teria te ligado ontem, mas o pessoal achou melhor deixar a surpresa. — James piscou. — E aí, tá pronto pra brilhar, Biers?
— Sempre estive — respondi, com um sorriso que tentava disfarçar o nervosismo.
Outros colegas se juntaram à conversa — Mike, Taylor e Ben, todos com o mesmo entusiasmo juvenil de sempre. O papo rapidamente mudou para o jogo do fim de semana, apostas e provocações.
Até que Ben olhou por cima do meu ombro e riu.
— Olha quem chegou… — murmurou.
Segui o olhar dele e vi Victoria atravessando o pátio. Cabelos ruivos, cacheados nas pontas, jeans justos e um sorriso que nunca disfarçava o quanto ela gostava de ser notada.
James riu.
— Cara, aquela garota é completamente louca por você.
— É, e ela não faz questão nenhuma de esconder — completou Ben, zombando. — Você devia tomar cuidado.
Suspirei, tentando manter a calma.
— Eu já tenho alguém.
Os três se entreolharam, e o riso veio em coro.
— Ah, não começa, Riley — disse Taylor, rindo. — Não me diga que vai mesmo casar com a menina dos Cullen.
James balançou a cabeça, incrédulo.
— Você está falando sério?
Cruzei os braços.
— Estou. Amo a Renesmee e vou me casar com ela.
Houve um breve silêncio, até que Ben deu um empurrão de leve em mim.
— Tá, campeão. E eu vou me casar com a Scarlett Johansson.
As risadas voltaram, altas, e mesmo tentando manter a postura, acabei rindo também.
— Riam o quanto quiserem. Mas quando estiverem ainda solteiros aos trinta, eu vou estar casado com a mulher mais incrível do mundo.
— O amor deixa o homem cego, mas também engraçado — zombou James, fazendo todos rirem outra vez.
Enquanto a brincadeira continuava, Victoria já estava perto o suficiente para ouvir parte da conversa. Parou ao meu lado, com aquele sorriso calculado e uma mecha de cabelo caindo sobre o rosto.
— Você tem um minuto, Riley? — perguntou, num tom suave, mas firme.
Olhei para os rapazes, que trocaram olhares maliciosos. James sussurrou algo que soou como “boa sorte” antes de se afastar, rindo.
Suspirei e voltei-me para ela.
— Victoria, agora não é um bom momento. O treino começa em dez minutos.
— É importante — insistiu. — Só quero conversar.
Havia algo no tom dela — não o de flerte, mas de quem guardava algo a dizer.
— Tudo bem — cedi. — Só por um minuto.
Ela fez um gesto para que eu a seguisse até o lado de fora da quadra, perto das arquibancadas vazias. O vento frio carregava o cheiro de chuva, e por um instante, lembrei de Renesmee — sua voz, o sorriso, a promessa.
Victoria caminhou à frente, e eu a segui até uma parte mais afastada do ginásio, atrás das arquibancadas externas. Era um espaço silencioso, onde o barulho das conversas do time se transformava em um eco distante.
Ela se virou devagar, cruzando os braços. O olhar dela estava diferente — menos provocador, mais ferido.
— Você mentiu pra mim, Riley.
Franzi o cenho.
— Do que está falando agora?
— Do que aconteceu entre nós — respondeu, a voz trêmula. — Você disse que não queria nada sério, mas também não mencionou que estava pedindo outra em casamento.
Suspirei, já cansado daquele tipo de conversa.
— Victoria, eu te avisei desde o começo que não queria envolvimento. Foi um erro. Mas eu fui honesto.
Ela riu, com amargura.
— Honesto? Engraçado você usar essa palavra.
— Eu não vou aceitar esse tipo de cobrança — retruquei, firme. — Você sabia o que era. Eu nunca prometi nada.
Por um momento, o silêncio voltou. Depois, ela deu um passo à frente, o olhar faiscando.
— Então talvez você possa me dizer quando pretendia contar que a sua noiva está grávida.
Senti o ar sumir dos pulmões.
— O quê?
— A Renesmee — disse ela, com a voz fria. — Está grávida.
Por alguns segundos, apenas a chuva batendo no chão preencheu o silêncio entre nós.
E então, eu ri. Um riso nervoso, incrédulo.
— Você realmente precisa parar com essas invenções, Victoria.
Ela não riu. Apenas me encarou, séria.
— Não estou inventando nada, Riley. Você não sabe, não é?
Minha garganta secou.
— Saber o quê?
— Eu estava no banheiro feminino ontem — disse ela, a voz cada vez mais firme. — Ouvi Renesmee conversando com a prima dela, Anna. Elas falavam sobre a gravidez. Ela confirmou. Está esperando um bebê.
Meu coração começou a bater descompassado.
— Isso é impossível. — balbuciei. — Eu… nós nunca…
Ela arqueou uma sobrancelha, fria.
— Então o filho não é seu.
Meu estômago revirou.
— Você está mentindo.
— Eu não ganharia nada com isso — respondeu, o tom cortante. — Achei que deveria saber antes de o campus inteiro descobrir.
Dei um passo para trás, o chão parecendo se mover sob meus pés.
A imagem de Renesmee veio à minha mente — seu sorriso tímido, a forma como me olhava, o jeito doce com que dizia meu nome.
Nada naquilo fazia sentido.
— Não… — murmurei, balançando a cabeça. — Não é possível.
Victoria suspirou, baixando o olhar.
— Acredite no que quiser, Riley. Mas uma coisa é certa: ela está grávida. E, se você nunca a tocou, então precisa encarar o fato de que esse bebê não é seu.
Fiquei parado ali, mudo, enquanto ela se afastava.
A chuva engrossava, fria, batendo contra o concreto e contra mim.
Tudo em que eu acreditava até aquele momento começou a ruir.
E, no meio daquela tempestade silenciosa, uma única pergunta martelava dentro da minha cabeça —
Se o filho não é meu… então de quem é?
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