O espelho refletia uma versão de mim que eu mal reconhecia. O cabelo solto caía sobre os ombros, e o vestido azul-claro, simples, contrastava com o olhar cansado que insistia em trair o que eu tentava disfarçar.

Passei um pouco de perfume e respirei fundo.

A conversa do almoço do dia anterior ainda ecoava em mim — o modo como meu pai falara de forma tão racional, quase aliviado ao imaginar que tudo pudesse se resolver com um casamento, como se a vida coubesse em um plano meticulosamente desenhado.

Mas eu sabia que não era tão simples.

Nenhum dos caminhos que estavam diante de mim seria.

Fechei o zíper da bolsa e olhei ao redor do quarto. Cada detalhe — o abajur antigo, o quadro de infância na parede, o tapete gasto — parecia me observar em silêncio, como se a casa inteira esperasse o que eu estava prestes a fazer.

Era hora.

Desci as escadas com passos lentos, sentindo o coração bater forte, e segui até a cozinha. O aroma de café fresco e pão tostado preenchia o ar, misturado à voz baixa dos meus pais conversando.

Minha mãe me viu primeiro e sorriu, gentil como sempre.

— Bom dia, querida. Dormiu bem?

Puxei uma cadeira e me sentei.

— Dormi, sim.

Meu pai ergueu os olhos do jornal, observando-me com aquela atenção que sempre parecia medir o que eu não dizia.

Peguei uma fatia de pão, apenas por distração, e falei:

— Pensei bastante sobre o que conversamos ontem.

Os dois se entreolharam em silêncio, e minha mãe apoiou o queixo na mão, com o olhar paciente.

— E chegou a alguma conclusão?

Respirei fundo antes de responder.

— Sim. Eu tomei uma decisão.

Meu pai largou o jornal.

— Estou ouvindo.

— Eu vou conhecer o pai do bebê.

O silêncio que se seguiu foi denso, quase palpável.

Minha mãe piscou devagar, e um leve sorriso surgiu, terno, mas contido.

— Tem certeza, meu amor?

Assenti.

— Tenho. Eu preciso entender quem ele é… e o que pretende. Não quero mais fugir disso.

Meu pai recostou-se na cadeira, o olhar misto de surpresa e alívio.

— Fico feliz que tenha tomado essa decisão. Jacob Black me pareceu um homem de caráter.

Meu estômago revirou ao ouvir o nome.

— Eu não sei quem ele é, pai. Mas vou descobrir. — Fiz uma pausa curta. — E quero deixar claro que não estou indo para criar laços, e sim para tentar convencê-lo a desistir da guarda.

A expressão dele mudou sutilmente — o entusiasmo deu lugar à prudência.

— Renesmee, você precisa ter cuidado com o que diz. Ele tem direitos legais sobre a criança.

— Eu sei. — respondi, firme. — Mas também tenho o direito de defender o que sinto ser certo. Não vou entregar o meu filho a um estranho, pai.

Minha mãe pousou a mão sobre a minha, num gesto calmo.

— Ninguém vai tirar o seu bebê de você, querida. Mas é importante que enfrente isso com sabedoria.

Assenti, tentando conter a ansiedade que me subia ao peito.

Meu pai ajeitou o paletó, respirando fundo.

— Rebecca vai organizar o encontro. Posso pedir para ela marcar ainda hoje.

— Pode — respondi, sem hesitar. — Quanto antes, melhor.

Ele me olhou com ternura, talvez percebendo o quanto eu tremia por dentro, e disse:

— Estou orgulhoso de você, Nessie.

Sorri de leve, mas o coração parecia prestes a desabar.

Eu não sabia o que encontraria quando olhasse nos olhos do homem que carregava comigo o destino dessa criança.

Mas, pela primeira vez em semanas, sentia que estava fazendo algo por mim — e pelo pequeno ser que crescia dentro de mim.


O celular vibrou sobre o banco do passageiro enquanto eu dirigia. A tela iluminou o interior do carro com o nome dele — Riley.

Sorri, mas o sorriso logo se desfez quando li a mensagem.

"Já chegou à faculdade?"

Apenas isso. Nenhum bom-dia, nenhum apelido carinhoso. A simplicidade do texto me gelou por dentro.

Respondi rápido: “Ainda estou a caminho.”

Esperei alguns segundos, mas nenhuma resposta veio.

Um aperto estranho me dominou o peito. Algo estava diferente.

O Riley que eu conhecia falava comigo com leveza, ria de tudo, sempre encontrava um jeito de transformar qualquer assunto em brincadeira. Mas aquela mensagem tinha um tom frio, quase ensaiado.

Apertei o volante e respirei fundo.

Talvez fosse apenas cansaço. Talvez os treinos, as provas, o peso de tudo o que estávamos vivendo. Eu precisava acreditar nisso.

Ao chegar à faculdade, o estacionamento já estava quase cheio. O som das vozes, dos passos apressados e dos carros fechando portas me trouxe de volta à rotina.

Assim que desci do carro, ouvi a voz de Anna.

— Nessie! — ela acenava, com Rafaela ao lado.

Sorri e caminhei até elas.

— Vocês duas parecem animadas hoje.

— Anotaram as datas das provas? — perguntou Rafaela, já abrindo a bolsa e mostrando o cronograma. — Eu juro que Anatomia quer me ver sofrer.

— Só Anatomia? — brincou Anna. — Eu acho que todo o curso quer.

Rimos juntas, e por um instante, o peso da realidade se dissipou. Caminhamos lado a lado pelo saguão principal, cercadas por estudantes, cartazes de eventos e o aroma de café vindo da cantina.

Eu me sentia quase normal.

Até vê-lo.

Riley vinha na minha direção. O cabelo bagunçado, a mochila jogada sobre o ombro — e o olhar… diferente. Frio. Distante.

Meu coração disparou.

— Riley! — chamei, aliviada e ansiosa ao mesmo tempo.

Sorri e me aproximei para beijá-lo, mas ele desviou levemente o rosto. O gesto, simples e rápido, cortou o ar como uma lâmina.

— O que foi? — perguntei, confusa. — Aconteceu alguma coisa?

Ele ficou em silêncio por um instante, os olhos fixos em mim, como se procurasse algo.

Quando finalmente falou, a voz veio baixa, mas tensa.

— É verdade?

— Verdade o quê? — perguntei, sem entender.

— Que você está grávida.

As palavras dele pareciam não caber no espaço. Anna e Rafaela pararam imediatamente atrás de mim, trocando olhares tensos.

— O quê? — sussurrei.

Riley cruzou os braços, o maxilar contraído.

— Eu só quero ouvir isso de você, Nessie. É verdade ou não?

O som do campus pareceu desaparecer. Senti o coração bater no fundo da garganta, o ar preso nos pulmões.

Olhei para ele, incapaz de responder por alguns segundos.

Ele sabia.

De algum modo, ele sabia.

— Riley… — minha voz saiu trêmula. — Onde você ouviu isso?

— Então é verdade. — Ele riu, mas sem humor. — Deus do céu, eu pensei que fosse mentira.

Anna deu um passo à frente, tentando intervir.

— Riley, talvez vocês devessem conversar em outro lugar…

Mas ele a ignorou.

Os olhos dele estavam em mim — e havia neles algo que eu nunca tinha visto antes.

Dúvida.

Desconfiança.

Dor.

E naquele momento, percebi que não havia como voltar atrás.


As palavras dele ainda ecoavam quando percebi que todo o movimento do saguão parecia ter parado.

As pessoas passavam mais devagar, algumas olhavam discretamente, outras cochichavam.

Anna sussurrou ao meu lado:

— Nessie… todos estão olhando.

Mas Riley não parecia ouvir nada além da própria raiva.

O olhar dele queimava, e antes que eu dissesse qualquer coisa, ele segurou meu braço com força.

— Vamos conversar. Agora. — disse, entre os dentes.

— Riley, solta — pedi, surpresa. — Está me machucando.

Ele não respondeu. Apenas me puxou pelo corredor, ignorando os olhares curiosos, até uma área lateral do prédio, quase vazia, perto do estacionamento. O som dos nossos passos era o único ruído.

Quando finalmente parou, ele me soltou e passou as mãos pelos cabelos, visivelmente descontrolado.

— Me explica isso, Renesmee! — gritou. — Como você pôde me enganar desse jeito?

Eu dei um passo para trás, sentindo o coração bater descompassado.

— Riley, eu não te enganei. Eu juro.

Ele riu, nervoso.

— Não me enganar? Eu fiquei sabendo da sua gravidez pelos outros! As pessoas estão comentando no campus, Nessie! Você faz ideia do que é ouvir isso e não saber de nada?

Engoli em seco.

— Eu ia te contar… só não sabia como.

— Não sabia como? — repetiu, com ironia. — Talvez porque não seja meu filho?

— Riley! — minha voz falhou. — Eu nunca estive com ninguém além de você.

— Isso é impossível! — ele interrompeu, o tom de raiva se misturando à dor. — Você mesma me disse que queria esperar. Que não estava pronta. E agora aparece grávida? Como acha que isso soa pra mim?

Senti as lágrimas começarem a queimar meus olhos.

— Eu não sei o que aconteceu, Riley… foi um erro, uma confusão médica. Eu também fui pega de surpresa.

Ele passou a mão pelo rosto, descrente.

— Um erro? Isso é o que você tem pra me dizer? Que engravidou por engano?

— Eu estou tentando te explicar — insisti, a voz embargada. — Eu nunca te traí, Riley.

Ele olhou para mim por alguns segundos, o olhar oscilando entre o amor e a decepção.

— Então me diz, de quem é esse filho?

A pergunta ficou suspensa no ar.

Eu quis gritar, dizer a verdade — mas as palavras simplesmente não saíam.

— Eu… eu não sei. — murmurei, sem coragem de encará-lo.

Riley deu uma risada amarga.

— Você não sabe. — repetiu, com desdém. — Claro.

Fez menção de se afastar, mas parou e olhou para mim mais uma vez.

— Eu acreditei em você, Nessie. Acreditei em cada palavra, em cada promessa. E agora…

Ele não terminou a frase. Apenas balançou a cabeça e se virou.

Tentei alcançá-lo, mas ele se afastou antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa.

Fiquei ali, parada, sentindo o mundo girar.

O vento frio cortava meu rosto, misturado às lágrimas que eu já não conseguia conter.

E foi só então que percebi: pela primeira vez, Riley não olhava pra mim com amor.

O que havia nos olhos dele era algo muito pior.

Desconfiança.